Crônicas Atrás do Motorista [2]

Diante do fluxo de pensamento incontrolável, eu penso: o que é um busão? Um enlatado sardinhesco terrestre por excelência? Um caminhão de gado? A busca do ponto terminal pelo privilégio do lugar sentado de nada vale quando você tem um ônibus sem freio que pode ceifar tua vida, sem a mínima misericórdia…

Pedir o auxílio da Santa Providência nos parece uma boa saída nestes momentos de desespero, quando como candidaturas presidenciáveis falhas que insistem serem feitas, queremos insistir em, razões do tempo limitado de um dia, fazer da pressa nossa finitude. Foi assim numa dada viagem num certo lugar mundo afora… Escolher entre seguir caminho, sentado, num busão que cogita perder as rédeas num mergulho de caucaia; ou colocar em xeque aquele conforto do andar sentado? A Providência não me possibilitou a queixa dessa segunda possibilidade, que bem se concretizou. Um ônibus vinte minutos tardio, uma senhora de queixume, uma mãe e criança de colo… Tudo bem, isso se ajeitou, mas eu percebi um simpático senhor de oitenta anos adequando-se aos espaços…

Esqueça-se por um momento e pense que aquele senhor, por cortesia, não vai protelar pelo seu espaço; e, embora do teu lado, você veja algum banco com estofado amarelo, porém inacessível a aquele tão simpático sujeito.

É inegável que você desperte um universal sentimento de altruísmo e ceda teu conforto ao senhor. Ele vai te agradecer segurando tua mochila e, de quebra, teu casaco. Ele nem precisava disso… É um daqueles espaços que, não vindo um cadeirante – e coitado do que viesse ter com aquele ônibus abarrotado do povo da viagem anterior – pode-se aglomerar uns sete ou oito sujeitos robustos. No caso, funcionários do serviço de transporte.

Pra variar, tal como outras motivações dessas crônicas, isolar-me desta bolha caótica de prosas várias, pra ter contato com minha carona que encerra viagens, não fora possível então. Diante do burburinho casual dos reclamantes da situação deprimente do ônibus anterior, se vê comentários da trupe de funcionários pelo último campeonato nacional, outros ruídos de fundo, uma ocasional buzina, e inaudível a todos, seus pensamentos, que certamente podem estar pensando em que situação aquele motorista que começou sua jornada empregatícia aquele dia na empresa deve estar agora…

Que sorte saber que a pessoa do lado daquele senhor desembarcaria na próxima cidade, já garantindo, como recompensa despretensiosa da sua cortesia, oferecer seu lugar já reservado para ti quando desembarcar. Questão de minutos, e o prometido cumprido. Se antes estava num lugar X, agora estou num lugar Y, onde X é o lugar ocupado pela pessoa do lado. No caso, o senhor de idade que ali permaneceu.

E aquele sorriso, dele, que não é apenas o sorriso de quem oferece a cortesia do interior, mas aquele sorriso do tipo: “falta encontrar gente assim hoje em dia” (não é por me gabar disso, longe!, mas é digno de nota saber que a gentileza gera autêntica gentileza, e isso não é frase de efeito). Também foi um convite à conversa. Pra quê…?

E eu respondo que a Santa Providência pôs um senhor alfaiate de oitenta anos que fiquei por combinado de tecer uma peça que há muito pretendia ter no meu vestuário. Pretensão? Muitos achariam que sim, mas pensa… Seria sacanagem você auxiliar na satisfação profissional de um amigo seu, remunerando-o conforme ele peça para ser remunerado… Meu amigo, você ainda não sabe o que é marketing de rede? Saia do seu curso de administração se ignora isso. Ele talvez não saiba disso formalmente, mas tal sinceridade de viver, em considerar sua profissão algo de tanta valia, acima de toda consideração de “vou me aposentar e não quero mais saber do batente”, arrenego! Tanta gente vivendo do ócio de uma maneira tão prejudicial, dando espaço pra Alzheimer e outras coisinhas… E esse simpático senhor já experienciado dessa vida, com alegria, enche a voz pra dizer: eu sou alfaiate! e fazer cursos de corte-e-costura até o presente momento, aceitar encomendas, não deixar o cansaço vencer: “é ruim parar de vez nessa vida.” Ponto positivo! Não quero ficar fazendo linha de produção a essa altura do campeonato, mas também não quero ficar olhando pr’uma parede insossa, sem pintura; me dou um pincel e um apanhado de tinta: o que era funcional ganha carga emocional de experimentação.

É assim que meu recém-consagrado amigo senhor alfaiate faz com as peças de roupa dele. Não são só vestimentas: ali tem história, ali tem uma assinatura que diz: esta roupa é funcional, mas que conta minha trajetória de vida. De um sujeito que viveu na cidade grande e depois buscou outros ares, por razões de conforto. De buscar, na simplicidade do campo, as histórias daquelas coisas que nos são acessórias, que ganham histórico, certidão e trajetória, viram relíquias… Nada como nossos celulares de hoje, que as crianças quebram ao chão por não completar ligações e quando ferram de vez com aquilo, falam pros seus pais: “Pai, quero um celular novo!” “Mas já filho? Não faz três meses que comprei o último.” Faltam histórias nas nossas coisas de todo o dia, e não são reflexões sobre consumismo, capitalismo, política neoliberal, responsabilidade ambiental ou o quer lá seja. Apenas, as coisas tem história também…

E não só nessa responsa de sugerir uma peça – com história – que fiquei. Também dei minha contribuição ao senhor, falando deste universo da linguagem que eu vivo, e que gente mais nova deveria ser esclarecida por aí, deveria conhecer: assuntos básicos de sociolinguística. Parece que a geração atual tem um fetiche por incorreções gramaticais, além das lógicas… Uma letra grafada de modo diferenciado já é argumento para elucidar uma conspiração do partido da situação, enfim… Alguém, favor leve o deputado pra casa da família desse senhor, em que eles falam apenas com plurais nos determinantes, mas colocam todos os ésses nos seus devidos lugares na escrita? Alguém diga aos políticos, de forma desenhada, o que é a fala e o que é a escrita? De preferência, a partir do que pessoas como meu amigo, que passou mais de meio século vendo as idas e vindas da nossa língua, pode dar uma resposta bem óbvia pra eles: “a gente fala assim, mas não escreve desse jeito”.

É, então, numa viagem adiada por vinte minutos, sem música, cedendo lugar a um amigo, é que percebi que, dando oportunidade, o bus sempre pode te contar uma nova história.


Ouvindo... Vanessa Carlton: Who’s to Say

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