Olhares Luvisares

Rosa vermelha Da série: Teorias das Particularidades Singelas de Personalidade de Beleza


Singelos e profundos olhos [foto, editado por thumba.net]

Diante de espaço tão ermo,
vislumbre em discreto apreço
teus olhos, profundos lampejo
fazem de mim grão-arvoredo

Como podem? Vistosos e fugazes
apresentarem-se assim de tal forma
que conforma em diversos lugares
tal âmbito que em mim reforma?

Ah, mas que castanhas tão límpidas
desejosas de ardente conveniência,
como podem tão sublimes,
serem de tal proficiência?

Preservo meu admirar diante desta janela d’alma,
que compraz este cartão de visita,
pois mais que eu mergulhe neste antro,
outros sorrisos são acessíveis em vista…


Ouvindo... Pink Floyd: Sorrow

Confissões [14]

Enfim, amiga… Isto é tudo que eu tinha a princípio a te dizer… É o princípio, pois não mais prevejo o meio e tampouco o fim. Pouco estou me importando com as profecias de fim de mundo, Viva o teu tempo, Faça teus acordes de vida, Carpe Diem, falo pra você e você fala pra mim, conforme nosso humor tão transparente quanto um cristal ou opaco feito uma turmalina bruta.

Enfim amiga… Se eu sei quem é você? Pois bem, não é: são vocês que fazem desse confissor uma pessoa melhor. A algumas há paixão de sobra, a outras uma imensa amizade. Para as quasi-irmãs que nunca tive, um pouco mais de confiança. Para as inconstantes, meus terrores. Para os amores cicatrizados, as memórias escritas outrora me restam. Para as feridas afetivas abertas, espero pela boticária capaz de suturá-las através de uma decisiva resposta.

Mas no fim, restará aquela célebre amiga que eu quero que acompanhe de perto minha rotina, que coloque uma pena de pavão no meu ouvido pra me acordar pra ir à faculdade onde lecionarei [sim, serei um pesquisador-docente dos exímios didáticos, digno de participar do prêmio “pesquisador-didático nota dez”], e eu de resposta colocarei dois tequinhos de sal no café dela, adoçado com mel. Ela olhará para mim, e dirá: “Meu, que cê tá pensando que cê é?”, e eu: “Ué! Quem mandou a donzela tomar café, quando podia fazer um chá?”, e enquanto a gente discute o estatuto de que a mulher tem o pleno direito de trollar o marido, mas a recíproca é não-isonômica, nossos pequenos rebentos estarão acordando para ir conosco de viagem para a escola, bem sabidos que a sintaxe do português maçante na escola pode ser reduzida a alguns esquemas bem engenhosos… Coitada da professora deles! E coitada desta amiga aqui comigo que tem que orientar aquela turma nova na área de aquisição… E coitado de mim que terei que assimilar uma língua do sudoeste asiático que tem cada esquema de caso que qualquer um falaria: “que bruxaria é essa!”.

Família margarina, amiga? Não sei… Você é quem decide, e só você sabe, agora, no presente, se há de querer isso. Você? Quem é você? Ah, tenho certeza, minha amiga, que ao ler algumas destas confissões, irá se perceber nelas, e bem dirá, nos anos vindouros, após tantos encontros e desencontros, “Saudades do teu abraço”, e eu, “Saudades do teu sorriso”, “e então, como vai tuas pesquisas?”, “vão de vento em popa, e as suas?”, “ah, sabe… Vão como podem, inclusive você podia me ajudar nesse aspecto aqui na área de (…)”

Desvario do presente… Não sei… O futuro vos dirá o quanto estas palavras foram apenas um tiro na culatra ou uma profecia forjada. Espere pela publicação na banca mais próxima, ou um quadro floreado na parede do teu jardim de plantas, lá no fundinho de casa… Tudo vai depender de teu sim ou não num momento em que eu julgar inevitável ouvi-lo de ti, e apenas de ti, cúmplice amiga!


Ouvindo... Audioslave: Moth

Confissões [13]

I

… Amiga… quase irmã…

Já adianto que sentirei saudades de você…

Percebo há quanto tempo o mal que unicamente foi feito de nosso convívio… A saudade será tamanha, e já sentirei estas saudades.

Esse processo de irmandade… Foi tão inevitável… Tua voz de veludo, tão melíflua – aprendi essa palavra na prática – foi meu chamariz pessoal para saber que você existe… Amiga! Te tomei como irmã, agora já é tarde. Muito melhor lhe tomasse de outro jeito, mas agora é tarde…

Sentirei saudades de você… Algum dia…

Você foi tão profética… Nem sei se já assumo: irmã, cúmplice amistosa, amicíssima… Sabes muito bem que amiga não pode ser, já que sabes muito o que ser amiga implica para mim. Tudo, menos amiga.

Sinto saudades de você… quase irmã.

Agora, falta menos tempo do que eu imagino. Cada um segue seu caminho, você, irmã, o teu; eu sigo o meu. Ei-me lembrar que perguntara a mim: estará sempre presente em minha vida? Eu digo, Claro que sim, se acaso você o quiser.

E que queira, e muito, quase-irmã, estar presente em minha vida, pois eu sentirei saudades de você, algum dia.


II

E você, amiga, que mal te conheço direito, por que me fazes sofrer? Que terrível intuito o teu… Por que justo naquela tarde de chuva? Por que tua face me instigou? Por que tua indumentária? Por que nossas coincidências geográficas? Por que todo esse conjunto, sua… sua… Helena de Tróia! Pandora dos tempos míticos! Não há explicação! Pões à prova minha constância, constância augustina, feito aquela descrita por Macedo… Mas você não é meu amor de infância… Dentre todas as amigas, não-irmãs que tenho, você é a que conheci amanhã… Amanhã…! Nem agora, nem ontem… Você é a amiga do futuro! Nada há que te iguale! Droga!!! Mil vezes droga!!! Não fazes a mim usar verbos na perfeita segunda conjugação, não faças com que me sinta um escravo diante de ti, estou pasmo, vicioso e terrivelmente açoitado por tua singularidade, amiga! Agora é tarde! Agora é tarde… Construí tantos cartões de visita em minha mente, já bem conhecidos, e de último minuto apresenta o teu!

Agora que faço?! Muitos amores estão ofuscados diante de teu efêmero brilho… Um brilho efêmero que posso tornar permanente em minha órbita celestial. Beldade etérea! Algo sem igual… Não faças isso mais comigo amiga… Esconda estas janelas da alma no recôndito de tua intimidade… Pelo menos diante deste sôfrego cantador de virtudes estéticas e essenciais.

Não faças, do meu louvor, hinos de sofrimento! Não, não, não, favor, amiga!…


Ouvindo... Alanis Morissette: Flinch

Crônicas Atrás do Motorista [2]

Diante do fluxo de pensamento incontrolável, eu penso: o que é um busão? Um enlatado sardinhesco terrestre por excelência? Um caminhão de gado? A busca do ponto terminal pelo privilégio do lugar sentado de nada vale quando você tem um ônibus sem freio que pode ceifar tua vida, sem a mínima misericórdia…

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