Crônicas Atrás do Motorista

Meu dia termina, naquele emaranhado cinzento, mais rápido que o rotineiro. Pego minhas coisas, inclusive me esqueço de deixar de prontidão a carga de meu celular, o que iria, certamente, gerar a abstinência de canções de distração nesse odisseico caminho… E eis que, quando submetido a tal situação, muito do que planejo fazer da minha viagem muda completamente.


Em tese é assim: tenho meus regojizos e minhas desventuras com respeito a viagens de ônibus. Estou naquela época de evitar desventuras. O banco do forever alone, ali, próximo ao cobrador nos intermunicipais da Grande São Paulo, correspondem a essa expectativa. E isso se faz dobrado, quando mais um outro ônibus me é necessário para chegar ao meu destino. Não ter esse banco da reflexão constitui meu tormento básico existencial: já não basta estar me distanciando daqueles que tem a voz das bobagens despretensiosas e das serietudes imprevisíveis que a vida traz, ainda tenho que me expectar em quem será minha companhia de ônibus, se homem, mulher, expansivo, introvertido, se de mal humor, se contente, se feliz, se reclamando da vida ou o quê? E pior ainda, quando nem esse último reduto há pra mim?

Faça uma gradação pra minha situação: se não me há o banco do forever alone, ou não há o banco duplo da janela, e nem mesmo me sobra o chateante banco do corredor, resta-me apenas o delírio de viajar, rodovia afora, a sei-lá-quantos por hora, entre triangulações de pernas e braços, puxões e empuxos e, o que é mais esquizofrênico aqui, se movimentar feito barata tonta pra dar passagem alheia. Quanto isso me incomoda? Tão e nada mais simplesmente, o quanto o outro se sente incomodador por, ao desembarcar no próximo ponto, ter que digladiar-se de ombros contra os que se encontram no seu caminho das pedras rumo à libertação logística. É uma recíproca não realizada plenamente, o famoso Espírito do Busão, outrora contado a mim pela minha amiga de boas prosas paulistana.

Mas eu faço um esforço e um empenho para vislumbrar uma alternativa para tal situação. E não ter com quem compartilhe desse processo comigo me deixa imerso em tentativas de como protelar esse discurso, que se materializa em crônicas como essa…

E me soa terrível o itinerário… Quatro anos, me sinto o estrangeiro ilhado em seu recôndito, catando resquícios de um passado remoto, que será reconstruído não mais da mesma maneira, agora que, longe de certos perfis de vida, reconstruí tudo o que acredito. Não vou ser mais o apaixonado pelas Exatas que passeava alegremente ouvindo a rádio de música pop do momento; não vou ser o entusiasta boêmio que se aventurava nos antros duma cidade que se encontra como seu lar de adoção; não vou ser o romântico frustrado que sentia apertos no coração ao ouvir Still Lovin’ You do Scorpions, lembrando da desventura de gostar duma moça que sequer soube se tinha o mesmo sentimento por ti. Não mais esse tempo volta, nesses moldes.

O caminho me revela os tempos que visitava meus amigos de Ensino Básico. Um caminho que, se eu fizesse agora, soaria inóspito, incipiente. Somente as reminiscências, somente elas…

O céu. Azul e nublado. Dependendo da exposição do Sol, vejo um dia específico. Num dia, a ida a uma cidade que eu desfazia da sua condição de “terceiro mundo” (um preconceito total e sem nexo); noutro, o sono adicional das tardes – como sinto falta desse rotineiro costume em conforto – ou o dia chuvoso… O fim de tarde, os gradientes do pôr-do-sol e as audições de Nirvana, a construção do Rodoanel… Eu andei por ali! Sim. Onde hoje só passa carro, eu transitei, e muito, a pé por ali. Nada há que me negar. Por vezes, ouço uma ou outra que aproxima esse tempo tão distante de mim novamente.

Ah, que saudades de conhecer o Rouge…

Ah, que saudades de bater pernas com o povo do Bela Vista…

Agora estou recostado, à essa janela, me distanciando dos meus atuais colegas, todo dia, para reencontrá-los na manhã seguinte. Antes não fazia varar as madrugadas, como o faço hoje. Não me vejo como antes me via. O terceiro ano de uma humanidade é custoso, e quando você percebe que não anda dando conta do serviço, é que você fala: estou reclamando? Ou é que o corpo anda pedindo uma facilitação?

Estou sendo estrangeiro da minha terra, minha casa não reconheço mais. Meu quarto ainda tem muita ligação com esse passado determinante em minha vida, embora ele esteja muito clean. Vezes por outras, nesse recôndito, encontro-me em alfa com minhas alegrias, atuais e antigas, as intimamente boas… Aquelas que preciso de muita prosa recreativa, por parte dos que comigo convivem.

Estranho em minha própria casa… Olho para o descidão da minha rua. Vejo um aglomerado de copas de árvores, uma rodovia e terrinhas cultiváveis. Nada mais. Morei num bairro periférico. Tinha ônibus me servindo cidade afora, pessoas a dar com rodo, que muito tarde fui tirar proveito da vida. Agora não rola chorar pelo leite derramado. Um ex-exatista inconformado com a solidão, para um humanista acostumado a se sentir sozinho. E, ressalto, não é a carência do afeto, mas a carência de ouvir aquelas vozes que nada esperam de você, dividindo as trivialidades de sua vida contigo, sem pedir nada em troca. Nada com metas que você não mais aceita. É difícil reconhecer o quanto cada um é diferente; o quanto as verdades que funcionam pros outros não funcionam para você, como se todo mundo fosse um receituário. Lacan, Foucault, Nietzsche, Lyotard, Giddens, Bauman, nomes que você agradece estarem ali para compreender que você não é mais uma bula de remédio social pronta, independente das cruzes de dores, da fé comercializada ou do levantar de mãos seguido de juízos de um passado que sequer você teve controle.

Nada disso seria possível, não fossem os episódios inesquecíveis desses tempos áureos. Alguns, sim, desagradáveis de lembrar, e às vezes, quando se pensa pequeno, detestáveis por te conduzir a caminhos que parecem tão predestináveis… Tive, após uma exaustiva viagem, isolar-me duma bolha de pressupostos que não mais me pertencem, pois eles me afetam de uma maneira não muito saudável. E isso é postulado meu: o que desagrada em excesso, e não sendo pessoa, a gente corta fora.

Nenhum projeto atual de vida seria tão plenamente desencadeado como foi nestes últimos tempos, tal como foi, sou muito agradecido, mas de um modo tão particular. Poder chegar ao ponto de desejar o banco do forever alone, me recolher da independência de expectar se sentará aquela mocinha bela que você viu rodar a catraca ao seu lado, quando senta outra pessoa não muito inspiradora de beleza para você… Ficar imaginando o quanto você é rejeitado por isso? Obrigado, eu fico com meu banquinho da reflexão, com minha musiquinha de distração, e com meus pensamentos que constroem, dia a dia esse projeto de vida.

Hum… Olha só. Acabou a bateria de vez. Não mais a carona, não mais o contato à distância dos seus queridos. Agora é só você, o seu merecido descanso e os ouvidos voltados à prosa cotidiana alheia, após a baldeação, e a possibilidade de tudo isso noutro banquinho do forever alone.

E assim se procede, dia após dia, até a exaustão, ou uma solução que coloque tudo isso de pernas pro ar, enfim. E essa solução pode me aproximar de um tal modo irreversível parte desse passado que tanto protelo para mim de novo:

Emaranhar-me, novamente e em urbano vício, nos antros do concreto cinzento.


Ouvindo... Kraftwerk: Spacelab

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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