Confissões [10]

Amiga… Há uma distância moral entre nós, uma distância que impede que você esteja calejada dos meus ímpetos; uma distância que me impede de ser devoto de ti. Quero de todo o coração supri-la. A saudade é intensa… Tua presença, e apenas tua presença, é capaz de muita coisa. Sinto muito tua falta. Para a cura dessa doença terrível, já me vali dos mais diversos medicamentos, legais e caseiros. Quase que me enveredo pelas fugas fáceis. Sorte que nelas há uma maior distância, o que me impede de fugir desse monstro que me persegue, travestido de mim mesmo, um outro espelhar, que me critica, me julga, e me insegura.

Não faça essa cara… Por favor, não me deixe mais angustiado de mim mesmo. Me diga: sou eu? Estou sendo pessimista, mais além da conta? Engraçado… Eu sempre sou o sujeito mais requisitado pr’esses assuntos com outros, mas quando se trata de mim, ajo tão ou até mais ignóbil que todos os que já presenciei coisa igual. Medo do ‘não’? Confesso… Duro mais é confundir as perspectivas e na rejeição fechar as portas de nossa amizade.

Nunca me senti tão direto, mas não é mais possível aguentar: vivo longe de tudo e de todos; não me satisfazem as gravatas rigidamente ajustadas, os sapatos sempre lustrados como exigência, as máscaras erguidas, quando bem sabemos que nos estertores as maledicências são mais atrozes que entre nós, que temos menos papas na língua… Não me satisfazem os títulos técnicos, as honrarias do progresso, o status do crescimento financeiro, nada disso. A fivela do caubói-empresário e o chapéu de latifundiário fedem mais podre que a mais desprezível carniça.

Temo passar pela crise de consciência solitário, queixoso e sem quem possa extirpar meus medos, atenuando-os de maneira saudável. Nada de dianética, nada de auto-ajuda neutralizadora, nada de dopar a mente. Me enoja a ideia da padronagem total, me causa tremenda repulsa o rígido assentimento às convenções sociais. Um romântico atrasado no tempo? Um modernista às avessas? Um shopping já há muito não me constitui atrativo, aquelas senhoras sem brilho no olhar, carregando sacolas mecanicamente, cheias de sapatos, vestidos, joias, que vão usar uma vez na vida e depois irão jogar fora… Desprezo total, deprimência extrema. Pergunte, instigue a elas, minha amiga: não são capazes de impingir um milésimo de personalidade em seu discurso, discurso que você é capaz de realizar com propriedade no mero cotidiano.

Me dói seguir contra a maré, sempre. Antes não fosse capaz de repulsar tudo isso aí acima, antes fosse conivente e patrocinador desses vazios comportamentais, mas não…

A tua presença, amiga, que me edifica como sujeito singular, compensa tudo isso.


Ouvindo... Metallica: No Remorse

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