Derradeiras Epifanias (As Primeiras de Muitas)

Fim dos tempos,
a xícara de café anuncia a derrocada,
as putas lotando a esquina,
incorrigível concorrência,
a desmagnetização planetária,
o caos econômico,
o terremoto some-areia,
o olho-por-olho imperando,
a intolerância reinando,
o swing rolando,
ninguém é mais de ninguém…

A noite clarifica mais que o dia,
a xícara de cafeína fortificada,
o LSD vendido a esmo pelas avenidas,
moças de azuis olhos cantando árias,
funestas odes do apocalipse,
as poetisas em declínio,
os poetas em desespero,
o pobre em decomposição,
e o rico em corrupção.

A cegueira de espírito – essa a pior,
que possui a alma em vista d’outrem,  
torna frio, impossível relação;
mais uma xícara de esteroides,
o repórter a coletes à prova de bala,
o canhão de laser apontado para a Caxemira,
e a assepsia sobre as baratas.

Não se canta sobre o Amor,
sobre o Louvor, sobre a Angústia:
todo sentimento foi extinto,
só existe satisfação,
superficial orgulho,
profunda inveja,
muita, muita ira,
e doses de xícaras de dopaminas.

Máquinas em rebelião,
greve automatizada, o escravismo orgânico,
“É a evolução, baby!!!”
Tua recompensa, meu filho, pra tua cega obediência,
será o paraíso, mas para isso,
derrame o sangue impuro da face da Terra,
pois que enquanto a matéria não for queimada,
o espírito jamais poderá atravessar a porta da Esperança,
através de doses cavalares de xícaras de veneno.

A vida de Andrômeda,
que enfim veio nos conhecer,
na noite profunda da rotunda Gaia ferida em seu âmago,
decepcionou-se com nossas atitudes,
e num gesto de compaixão, decidiu,
por fim a este agonizante óbito terrestre,
tomar um barril de resíduo de plutônio,
exterminando as sobras fétidas desse Sistema Solar,
engoliu o Sol, feneceu Europa, Io e Caronte…
Implodiu Júpiter e o Cinturão de Marte,
e no conglomerado de Virgem,
o braço de vida semi-inteligente
conhecida como planeta Terra,
foi extinto dos arquivos universais.

Não sobrou nem planos espirituais pra contar a história,
os visitantes de Andrômeda, aturdidos, entraram em combustão,
e ninguém soube da poesia outrora escrita,
que previra o fim dos tempos
em que se podia, sem nenhuma culpa,
tomar um copo d’água,
para se sentir bem.


Ouvindo... Jethro Tull: A Passion Play (I)

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