AntiSOPA e AntiPIPA: A primeira tá pelando, a segunda vai queimando

É muito mais que vetar a possibilidade de encontrar aquele álbum daquela banda que não foi tão influente nos anos 70 no seu país de origem, que você aprendeu a gostar por curiosidade, e quis baixar a discografia.

É muito mais que impedir que você tenha o acesso a um filme noir russo, por não estar disponível em quaisquer serviços de locadora online, ou nunca mais passar num Cine Belas-Artes porque salas de cinema desse naipe já não existem mais aqui pelas bandas do Sul.

É muito mais que proibir o conhecer de uma obra de Dostoievski em russo, de uma Pauline Rèage em francês, ou um conto menos conhecido do Pepetela que não fora publicado antes, porque nossas livrarias e sebos estão atulhadas cada vez mais por literaturas instrumentais.

É muito mais que interromper teu acesso à internet por vincular uma imagem da autoria de outrem, que se encaixa muito bem na postagem de teu blogue, mesmo citando a fonte e endereçando para o original.

É, esse sim, o verdadeiro escravismo social, em impedir que o sujeito desprovido de renda tenha acesso a um mundo de informação e conhecimento do qual há vinte ou trinta anos atrás ele não poderia ter pelo simples fato de não poder pagar por isso. Pura e simplesmente. Um conhecimento que possa permiti-lo ser sujeito de sua própria vida, ver a vida além dos estupros não-reconhecidos ou conhecer narrativas mais interessantes que a volta de uma certa pessoa do Canadá.

Somente a informação e novas ideias, inéditas e sincronizadas com as necessidades globais, fazem a verdadeira revolução global. Não falo aqui da apologia ao comunismo, da derrubada da tecnocracia, ou da deposição contínua e incessante de líderes, por serem líderes ou por merecerem punição social, pouco importa isso. Falo do desenvolvimento pessoal enquanto indivíduo que pode decidir entre a unicidade amnésica da reclamação da situação do seu país, ou pela possibilidade de, dentro da sua área de afinidade, desenvolver ações práticas valiosas para benefício social dos que o cercam.

Sei, muito bem, como escritor-produtor de conteúdo, as mazelas que a classe artística sofre nesse mundo e, sim, ela precisa ser remunerada por esse trabalho. Mas receber uma parcela irrisória da receita das vendas de sua produção intelectual, frente a grandes empresários que abocanham boa fatia dessa receita para enriquecer tão-somente seus cofres???

Não há algo errado por aqui? O que vale mais? O conteúdo lírico perfeito da obra maravilhosa de Marisa Monte em Infinito Particular, ou o selo minúsculo da gravadora estampado na contracapa do álbum?

Teme-se essa nova massa de internautas que estão conhecendo outras culturas por meio da internet, compartilhando, vendo e produzindo conteúdos, originais ou derivativos, seja capaz de instituir uma nova ordem social, em que o simples sujeito é capaz de montar seu nicho de seguidores, discípulos, ou apenas leitores, capazes de dizer: não! Não queremos mais ouvir as mesmas coisas o tempo todo, e não! Não queremos pagar para ouvir algo mais, mas que não é muito diferente daquilo que vocês dão de brinde pra ouvir.

Talvez seja mais necessário para o empresário detentor do selinho na capa do CD de Marisa Monte pensar em patentear o pensamento humano e cobrar por isso. É um ambiente mais rentável. Você pode colocar sensores em cada cabecinha e medir o quanto cada pessoa pensa e faturar com isso, cobrando do bolso dela mesma.

É uma boa… Comigo, inclusive, você vai ter uma imensa fortuna. Eu vou virar escravo dos pagamentos que devo fazer para cobrir as despesas. Quem sabe eu tenha uma epifania cognitiva, deseje parar de pensar e vire ovelhinha do cinzento mundo da mesmice.

Porque uma coisa é certa:

  • Eu posso não ser comunista;
  • Eu posso talvez não ser engajado socialmente;
  • Eu posso provavelmente não ter coragem de subverter o sistema legislativo como forma de protesto;
  • Muito passe longe de ser capaz de convencer outras pessoas a ser uma das coisas listadas acima;

Mas uma coisa você não me tira: o direito de escolher o que desejo ter em minha vida e de escolher o preço que eu queira pagar por isso.


Se quiser que eu pague o que é de direito, dê-me as contas dos compositores, intérpretes, autores, diretores e descendentes, que eu resolvo as pendências direto com eles. Sem intermediários.

Ouvindo... Elvis Costello and The Attractions: Man Out of Time

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