Confissões [5]

Mas o que te conto, colossal amiga, é o quanto de saudade prezo por sentir de ti. De conduzir meus passos perto de ti, sobre ti, dentro de ti… De te conhecer todo dia melhor, maior e mais dinâmica; respirar o ar que você respira, de conhecer os lugares que você conhece tão bem, pois estão assentados sobre teu colo  como ninguém. Ninguém sabe, como você sabe o que há no teu colo. Pude te descobrir tão tarde…

Tenho saudades de ti, falo isso aos outros com uma cara de bobo como nunca antes me viram. Me sinto babaca, com tantas outras por aí mais saudáveis, escolho a ti, amiga fumegante, caótica, urbanoide e bucólica. Seu senso boêmio que me fez apaixonar por ti, amiga. Você sabe disso, disso tirou proveito, agora é tarde: descobri que gosto de ti quando longe de ti fiquei. Agora, todo retorno casual me é de uma efusividade tal que não me suporto. Olho para ti, e teus contornos tão sedutores me chamam a atenção. Quantos detalhes! Quantos joguetes… Tudo em você me chama a máxima atenção agora. Eu era teu pequeno, eu era um ingênuo. Toda música antiga que eu ouvia, agora me faz lembrar você.

Seus caminhos, amiga, são como minha casa, aconchegante, que antes não aproveitei. É certo que não te conheci como queria, sempre te via pelas partes não tão belas; as mais belas se revelaram muito mais atraentes pra mim agora. Agora que estou longe, distante de ti, minha italiana favorita…


Ouvindo... Bo Bice: Blades Of Glory

Uma cidade? Uma amiga? Quem me conhece, sabe que pode ser qualquer uma dessas duas coisas. Bons fluídos para todos no novo ano que se aproxima.

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Vernáculo

Vernáculo,
soa forte essa palavra
impávida
como o ventre que te gera

Vernáculo,
turbilhão de tradição,
palavra que é nascida
no seio de sua língua

Vernáculo,
o inobstáculo
para a língua anterior à Babilônia

Vernáculo,
e a mutação
para a solidificada pedra-pomes da linguagem

E o vernáculo dá lugar à língua materna, mãe jovem comunicativa,
que, seduzida, abre espaço para o novo termo que dá na vista.


Ouvindo... Buffalo Springfield: Mr. Soul

Ignição

De raspante,
início de combustão,
o peso do ar em flamas
conduzindo o vórtice do consumo
exacerbado em calor, ar e matéria
num fogo fátuo, invisível
previsível nos seus portentos

Queima e junto com essa finitude
esparsa meu doentio flagelo
que tanto me conduz ao declínio
que me consome numa sarça ardente
incombustível e perene
– o fogo que nunca se apaga
e que sempre me deixa em medo
medo de mim mesmo
consumindo esse calor interno a esmo

Fumaça que ascende a intoxicar
o ambiente que aqui circunda
o fogo fátuo, chama incombatível
que consome a terra e o ar,
e a água seca, compenetrada
em sua auto-destruição

E as cinzas que restam, bem, essas
jamais se darão ao luxo de se tornar vida.


Ouvindo... Neil Young and Crazy Horse: Driveby

Confissões [4]

Eis, enfim, amiga, que estou aqui diante de você… Você é minha redenção nesse momento tão sensível da minha caminhada. Eu sei que não te mereço, eu sei… Ando tão inconformado com isso. Por causa da sua negação, rejeitei o que há de nobre em mim. Assumi-me porco capitalista, assumi-me insensível perante teu semelhante. Já não há mais volta. Acabou. Eu vivo a um só resígnio cruento e áspero de subsistência. De quem não tem coragem de dar espaço a um ser vivente melhor que eu. O espaço que aqui ocupo, a comida que consumo, de nada isso vale… Sou um dejeto social posto à margem pela minha própria covardia.

Amiga… Se quiser não vivo mais por mim… Eu vivo por ti, basta que fale um “sim” qualquer, eu limparei seus pés, cuidarei de tua louça, serei teu escravo, por causa da punição que a Justiça Divina me outorgou por abandono de nobreza – pena capital, a vaga do céu já não me é outorgada no fim dos tempos…

Quem me dera, não quero vagas no céu… Chega desse fanatismo de tentar ser doador da humanidade. Meu esforço é vão… Antes quero ajudar a quem corre uma lágrima aqui do meu lado, mesmo que ignóbil seja sua motivação. Não quero mais entender os desígnios divinos… Não quero mais ludibriar-me com a promessa da Vida Eterna – eu sei que muito bem sofreria ainda se a tivesse. Prefiro a finitude e o sofrimento como redenção da minha parca alma. A dor sempre teve caráter de redenção, amiga, saiba disso. Eu sei que dói em você saber isso, mas saiba, amiga… Dói mais em mim.

Eu quero acreditar que posso me doar a ti, mas há forças perspicazes e inumanas que me tomam aqui, contrárias a isso. Sei que é delas o mérito de não estar aí, junto contigo, merecedor das benesses. Sei que é também, o fato de não estampar um sorriso falso, diante dos pequenos aspectos de caridade que vejo por aí, que tampouco mereço o apreço social. Eu sou um desvio aberrante de homo sapiens, esperando pela minha contraparte, que não vai aparecer tal como eu desejaria… Alguém à altura dessa amiga que é você, que tanto confio estes meus devaneios toda santa noite.

O dia não me conforma mais, meu lugar à luz do sol já foi ocupado. Resta-me vagar pela noite das avenidas mal-iluminadas, compartilhando do pão do rejeitado da sociedade. Eu, que bem provido ainda do cuidado patrício, sequer ouso em falar: deixe-me a sós, com esse meu pesar.

Dói demais essa dor-de-cabeça que não admite lágrimas escorrendo pela face.

Dói demais não me contentar com o que tenho.

Dói demais saber que você tem medo de mim.

Dói muito saber que minha dor não atinge ninguém.

É só um “sim”, pra eu participar da tua vida, amiga, como um amigo que você confia em mim, nesta singela carta.


Ouvindo... R.E.M.: Man-Sized Wreath