Confissão [3]

É interessante que quando queremos ser lidos literalmente, somos lidos poeticamente. Dá para me levar a sério desta vez??? Explodindo de raiva


Mas quer saber, amiga? Eu tô puto! Eu tô puto em saber que você olha para gente que não merece sequer o repúdio social, de tão custoso que ele é. Eu tô puto em saber que você o admira, como um deus grego. Realmente, ele pode ser um… Daqueles da imagem do não-ser, da negação cosmogônica. Como você enxerga isso nele?

Não sobram carinhos cantos afora pra mim… Sempre tive que garimpá-los a muito custo. E não sou bom dividendo nessa vida: definitivamente o comunismo não é minha ideologia. Sou um individualista no afeto. Comunismo é coisa do inferno, incita o desdém e a inveja em quem tem mais amor e é obrigado a dosá-lo porque há um batalhão que se sente mais merecedor que você. Eu sou é capitalista! Reservo meu amor que conquistei investindo tanto latim, para obter lucratividades pouco seguras. Uma variável e pode-se por tudo a perder. Eu definitivamente não sou bom cotista… E dividir não é comigo. Prefiro juntar tudo debaixo do colchão, esperando que você volte.

Não quero falar de economia contigo. Você não é um número. Mas se insiste tanto em querer parecer um… Eu tô é puto com isso! Sequer consigo ouvir Tim Maia, está muito meloso pra mim. Prefiro um speed metal, expressa bem o que sinto agora. Pulsa uma violência, ressentida, debaixo do meu diafragma. Ela me envenena dia após dia, e isso só se intensifica a cada “não” que você me diz. Eu não queria falar de economia… Será que é porque não vou pagar sua manicure dia sim dia não? Quem dera se eu pudesse ter tudo isso pra te dar e até mais. Mas não: eu tô puto mas tão puto que sequer consigo pensar direito, já enfiei Marx e Weber goela abaixo e vomitei sangue, já degluti Greimas, Freud e Lacan e só presumo desespero. Eu não aguento mais. Você quer aquele deus grego da negação do ser. E eu fico muito puto com isso!

Fala, amiga… Nada mais me fere do que já sinto agora… É só uma questão de convenção… Não me venha com aquele papinho esperançoso da Esperança Pandoreica… Eu sei o que o pai do pai do pai do pai… ad infinitum… está puto até hoje por ter rogado praga à mulher primordial, presente dos deuses gregos. Eu quis quebrar a maldição desse pai primevo. Você não deixa e eu tô puto! Assim se perpetua o patriarcalismo na nossa sociedade: pela negação dos afetos aos matriarcais. Assim se perpetua o machismo: pelo desprezo de carinho dos homens de alma feminista. Será que você não percebe isso, amiga??? Ou será que é por que pareço muito puto?

Tive que rogar praga para meio mundo, para não rogar pra você. Mas não sei se consigo, amiga… Eu tô puto! Me vetam na ida. Eu quero acordar, os outros chiam pra eu dormir. Eu roguei praga pra eles! Eu queria sentir uma música, mas amarraram minhas mãos, aquele individuozinho que tá contente por estar junto de alguém. Eu roguei praga pra ele e fico puto porque, agora que está junto de alguém, se sente o rei do pedaço. Será que eu seria assim se você estivesse do meu lado? Espero que não. Seja contigo ou com outra. Do contrário, deixe-me rogar minhas pragas sozinho. Detesto quem rogue praga para se mostrar devoto, devoto do deus grego da negação, aquele que você admira e eu fico puto com isso!

Tudo não anda a contento, para ir, levei fumaça na cara do sujeito que dirigia o coletivo. Detesto coletivo. Talvez seja por isso que eu seja incompatível com o comunismo. Quando no coletivo, eu fico no banco individual. É isso! Mesmo que o meu entorno seja comunista, meu mundo será capitalista! Tolos… Enquanto eles ficam dividindo seus espaços, eu fico descobrindo os segredos daquela autora no livro best-seller “Por que eles amam mulheres más”. Para o mundo ser comunista, deveria ser proposto o enriquecimento espiritual, porque pobreza de espírito me deixa puto! Ah! E roguei praga pro coletivo invocando o pai-de-todos. Quem viu, viu. Doeu? Tô nem aí… Eu tô é puto!

Eu queria, enfim, saber, amiga: o que enfim você (não) quer de mim? Se for a existência, eu dou cabo dela… Ou não! Melhor dizendo, eu vou ser a mosca que pousou na sua sopa. Na sua sopa, na do deus grego da negação, na do dorminhoco, do bambambam e do coletivo.

Uma mosca puta!


Ouvindo... Motörhead: Instro

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Poesia para os tempos de conflito

Humaneco

Para todos os homo sapiens (?) que forem convenientes a isso…


O humaneco
era apenas um animal
que gritava, berrava e esbofeteava
para intimidar seu semelhante,
e descobriu o fogo

O humaneco
com o fogo, descobriu
que podia aquecer a água que toma
e destruir a casa de seu semelhante,
e descobriu a forja de lanças

O humaneco
com a forja de lanças, descobriu
que podia caçar o seu alimento
e podia ferir o coração do seu semelhante,
mas podia ser ferido de volta ainda,
e descobriu a flecha

O humaneco
com a confecção de flechas, descobriu
que podia abater uma fera
e com uma larga distância
encravar uma no crânio de seu semelhante,
mas no titubear de retesar o arco
descobriu a besta

O humaneco
com o fabricar da besta, descobriu
que bastava um pequeno toque
para derrubar seu oponente,
mas ávido em ver seu serviço
ser efetivo contra seu semelhante,
para que o serviço seja rápido e direto,
descobriu a arma de fogo

O humaneco
com o poder da arma de fogo
derrubou civilizações inteiras,
mas querendo julgar-se racional
e enobrecer sua existência perante seu semelhante,
(re)descobriu o poder das leis

O humaneco
com as leis,
construiu um simulacro sadio,
da sociedade que queria,
com quem queria,
e ao semelhante que não queria
descobriu o poder do decreto de guerra

O humaneco
com o decreto de guerra
impôs ideais e expandiu seu território
em terras nunca imaginadas,
mas não lhe bastou ver seu semelhante
morto… Tinha que vê-lo sofrer amargamente
e descobriu os métodos de tortura

O humaneco
com a tortura
sentiu-se deus
e deliciou-se com as lágrimas
do seu semelhante,
mas vindo novamente a lei
e dizendo que aquilo era feio,
o humaneco não se contentou
e descobriu o veto à livre expressão

O humaneco
com o veto à livre expressão
criou o alheamento
da opinião formada do seu semelhante
que sofreu calado, com medo
de tudo o que o humaneco descobriu
e então se achou em direito de revidar

E então o semelhante,
que também nada mais era que um humaneco
descobriu algo muito inovador,
mas, sobretudo, primitivo:
descobriu o grito, o berro e a bofetada.


Ouvindo... Faith No More: Zombie Eaters