Uma Carta Solta no Correio

Email Leia apenas se você tiver estômago forte. Os correios decidiram levar esta carta para uma benzedeira, tamanho o descaso e o negativismo que havia nela.

Seria isso uma carta de amor?


São Paulo, 22 de Abril de 2011

Olá, querida…

Já é a décima correspondência que te mando, e acredito que será sem resposta…

Sei que você sequer vai passar desta página. Você não tem tempo…

Tenho certeza que antes você olha para todos, menos para mim.

 

Também nem olho tanto para você mais… Decidi jogar fora o meu coração. Você o desprezou demais! Não o levou em piedade sua, jogou fora! Tudo fora! Nem sequer levou em consideração minha casa grande no Butantã, meus dois carros de 80.000 contos, minhas pequenas economias que faço desde meus tempos de faculdade, há bons dois anos (por pessoas como você eu deixei de tomar meus cafés lá na lanchonete justamente porque sabia que pessoas como você não namorariam um pé-rapado, como eu era!!!)

Eu era um pé-rapado, sim. Você sabia! Eu tentei disfarçar mas você sabia! Gastei metade do meu patrimônio tentando te levar pros melhores restaurantes e clubes da cidade, te apresentei a um monte de gente interessante, gente de finesse, gente de posses.

E eu, lá, era o emergente… Que ódio! Puta que pariu! Eu era o emergente! Não notava que, no escondido, as pessoas me cumprimentavam e depois sacavam dos seus pertences paninhos com álcool etílico pra limpar.

Devia era ter participado de uns clubes menores… Coisa de gente média… Lá eu seria o todo-poderoso. Lá todas as atenções seriam para mim, lá eu ia ser o cobiçado…

Eu quis era dar o melhor para você. Dar o melhor, sem te pedir uma contra-parte. Você era uma pessoa especial. Você era uma pessoa de personalidade. Você era feliz. E ficaria mais feliz se me correspondesse.

Mas isso…

Ah…

Isso você não fez!

E rogo toda a praga do mundo pra você.

Por quê?

Fui eu que ofereci colo todo dia que você chorava de desespero pela saúde de seus pais (eu ainda os amo como se fossem os meus, uma vez que tão logo me formei tão logo perdi os meus naquele maldito acidente envolvendo aquele molequinho infernal, bêbado, drogado e birrento, na porta da minha casa, lá nos cafundós do interior…)…

Fui eu que te salvei daquelas tuas três ou quatro tentativas de suicídio que você se incumbiu de fazer. Bombeiro nenhum iria te ajudar, eles estavam todos em posição desfavorável. Todas as televisões noticiaram meus feitos. Me engrandeceram. Você sabe que não fiz aquilo por aparecer. Foi muito custoso deixar de aparecer na mídia por causa disso…

Sabe de uma coisa? Apesar de você ser bonita, devia era de ter deixado de salvá-la na última, pois aquela anterior, te confesso: minha ex-colega de curso estava tão de olho em mim. Ela era mais bela que você, quando se produzia… Você é mais natural em agir que ela, e você sabe muito bem porque eu te escolhi.

Fui eu que te ajudei a conseguir aquele teu escritório de advocacia, que você se realizou após tanto tempo de desencontro entre sua formação e sua efetiva carreira. Isso foi depois desses casos de suicídio teus. Não sabe o quanto fui feliz em saber que você se sentiu plena em descobrir seu potencial. Achei que você ia perceber o quanto seria feliz pra mim se você correspondesse.

Não fiz tudo aquilo que fiz por você por interesse… Tá… Confesso! Confesso! Merda! No comecinho, foi assim sim! Você era muito bonita, você era muito gostosa, você era tudo aquilo que um jovem de 25 anos queria pra vida, você fazia artes plásticas, dançava dança do ventre, atuava em comerciais de moda, cantava (que soprano belo você tem, meu Santíssimo!), você sabia ser uma pessoa espirituosa, apesar de todas as suas amigas serem muito mesquinhas, fúteis, e menos belas que você. Lembro muito bem de como te conheci… Foi naquele dia, belo dia de apagão, que você teve de ir de carro e ele estava na mecânica. O carro atrasou lá e você teve que ir de ônibus. Você me encontrou lá, sentou do meu lado, eu perguntei as horas (meu relógio estava na relojoaria que fechou mais cedo naquele dia chuvoso) e você fez um ou dois comentários. Começamos a conversar, trocamos telefones. Eu nem acreditei…

Aí você ligou. Nossa! Você ligou mesmo! Pensava que era trote… Aí você pediu pra fazer companhia com suas amigas. Todas eram demais, mas você se destacava. Gastei o dinheiro suado do mês para rachar contigo, quase atrasei e muito a mensalidade da minha faculdade. Te levei pra sua casa, um condomínio luxuoso na zona oeste.

Percebi com quem queria lidar. E me dediquei em tudo a ser à altura – ou mais! – para você. Seja como amigo, seja como algo mais.

E esse algo mais não foi mais que três beijos, que muito bem me lembro.

O primeiro foi dias depois do velório dos meus pais, quando eu pensava em deixar esta vida: você me disse que não.

O segundo foi quando você se formou, no teu baile. Mas a noite foi mais mágica pra mim…

O terceiro foi o que começou a desencadear tudo isso. Foi naquele acesso de ciúmes do clube de golfe. Você me deu um tapa e saiu correndo.

E nunca mais te vi.

Você devia saber o quanto sofri por meses. Tentei me dopar, tentei correr atrás de cortesãs lá da Paulista, pra tentar me iludir. Tentei me livrar de tudo aquilo que achasse que prejudicava minha vida.

Mas o sucesso, a discrição e a vontade de viver estavam acima desses terríveis desejos…

Vá à merda!!! Vá à merda!!! Tudo aquilo que devia ter feito, como qualquer medíocre desses que se acha por aí, eu devia ter feito – exceto, obviamente, perder o dinheiro.

Meu sucesso subiu tua cabeça. Agora, você está com um latifundiário, com um patrimônio mil vezes maior que o meu, com um filho e um sobrinho na política. Com filhas que se envolveram em escândalos políticos depois saíram nuas na Playboy.

Você quis ser a mulher contida nessa corja??? Vá a merda você, sua vadia!!!

Não muito me admira você fazendo as mesmas coisas que toda essa porra de gente andou fazendo. Duvido que você tenha mudado sua personalidade…

Mas acho que ela mudou.

Ah… Ela mudou??

Pois então vá para o inferno você!!! Que teus pais te reneguem. E se eles não te renegarem e ainda abençoarem teus namoricos, me desculpe: que eles vão à merda também!!!

Mas eu sei e muito bem que eles jamais irão fazer isso. Eu os convidei a morarem perto de casa e confesso: é pra você olhar face a face pra mim e dizer que não me quer.

E não é não me querer como amiga íntima, mas não me querer como cúmplice, como minha mulher, aquela pessoa especial em minha vida que eu queria para todo o sempre. Eu construí toda a minha vida por você…

Mas agora é tarde.

Livrei minha casa de tudo que tinha que lembrasse você.

Só sobrou este desenho aqui, que eu estou mandando pra você. Rasgue-o, se quiser e tiver coragem.

Decidi mudar também… Vou enriquecer mais do que já tenho e vou ser mais rico que teu latifundiário. Espero que ele não morra nesse meio tempo, pra você não vir até mim novamente. Espero que ele esteja sendo homem o suficiente pra você. Espero que esteja te dando os melhores vestuários da Oscar Freire e te levando pra Ibiza e para a ilha particular dele no Pacífico. Espero que ele esteja pagando todos os seus cursos de aprimoramento…

E espero que esta carta chegue pra você… Porque, do recôndito do meu coração, eu vou rogar uma praga sobre essa carta: ela VAI ser entregue a você, de uma forma ou de outra. A pessoa que ler e queimar esta carta vai carregar em si todo o ódio do mundo, atormentando sua pobre alma.

Mas quer saber!

Eu também vou fazer o mesmo… Espere só até eu enamorar daquela top model que você invejou uma vez lá no clube e que deu uma piscadinha pra mim. Eu sei, sim, que o passado dela não é dos mais dignos.

Mas uma coisa eu sei… Ela, pelo menos, saberia me fazer homem como eu mereço.

No fim das contas,

Desejo todo o sucesso do mundo pra você. Sério…

Do seu grande,
intenso e indignado,
… Amigo!


Ouvindo... Bob Dylan: Blowin’ in the Wind

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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