Essas Mãos…

Num mundo onde as palavras recitadas perderam seu valor, olhou-se um pouco mais abaixo. Em silêncio, se percebeu que havia uma parte do teu corpo amarrada, amordaçada pelos ruídos escabrosos e estúpidos da escória (des)humanista, patriarcal, e agressiva. A desumanidade tomou posse da voz cantada, e o que sobrou foi uma triste e fúnebre elegia, que encontrou eco nas metralhadoras que ecoaram, desde os túmidos campos da Varsóvia aos precários recônditos da Somália. A voz? Coitada dela… Viciada em se manifestar, perdeu seu crédito. O contrato verbal se rompeu. A austeridade física-acústica se dissipou. O mundo quis calar-se, diante de tanta ingerência, malevolência e descrença no que se diz.

E então surgiu um par de mãos. Cândidas. Digo cândidas não no sentido de alvura da pele: podem ser até morenas – pouco me importa os seus tons de pele – mas sim cândidas, limpas das mazelas lúgubres. O que importa nesse momento é que elas se arquitetaram: de forma a assumir a regência dessa orquestra mal-afinada; de parar o motorista de trânsito frustrado que tinha a vontade de atropelar o frágil senhor de idade avançada; de conter as ditas bocas-sujas, que escarnecem clamando simultaneamente por Deus, o Diabo e mil outras entidades divinas que sequer fizeram do verbo audível pelos homens sua língua-mãe; de cessar, em punho de uma bandeira de pano branco, o conflito Israel-Palestina que há muito fazem simples civis sofrer; abaixam as alavancas e cerram as portas da indústria armamentista; acariciam o depressivo e afagam o mal-amado que só queria ser simplesmente correspondido neste mundo…

Os pares de mãos passaram a silenciar o mundo das vozes e imprimiram na linguagem a terceira e quarta dimensão, que ficou esquecida pelo verbo-audível. Elas tomaram conta dos nossos corações e declararam um cessar-fogo das setas malditas que um grito, um berro e um escárnio se propuseram a ensaiar sua aparição egocêntrica e estúpida…

Ah, esses pares de mãos… Eles querem tomar vez, e mesmo o verbo-visual precisa dar espaço a ele. Meus dedos silenciam, para dar espaço ao par de mãos…


Ouvindo... Jethro Tull: With You There To Help Me

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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