Mnemosine

Smiley com sono Outro dia, eu, imerso num sonho


Estavam concentrados todos os poetas e aedos de todas as épocas.

Estavam reunidos para a conferência dos sentimentos, uma conferência que ocorre ininterruptamente, em anacronia; bastava que alguma noite algum destes dormia e então o ingresso estava garantido.

O Breu do Esquecimento da Lucidez, no Mundo Físico, vez ou outra, atrasava o início desta conferência. Regado a rum, a café ou a ecstasy, os encontros casuais desse pérfido inimigo sempre encurralavam os convidados à portaria da conferência. E sempre os tiravam, sem muito sucesso, de um ou dois encontros.

Mesmo assim, a ausência de um destes era fundamental para o fracasso do todo.

Eu fui introduzido, não sei bem como, por uma das entidades curadoras desta conferência, em algum dia de minha existência… Se elas – as Musas – se encarnam em mil faces em diversos momentos de nossas vidas, quem saberá?

Desconfio que haja representantes diretas delas nesse mundo terreno, dando pistas de como elas se caracterizam lá, naquela conferência surreal. Muitas de suas características também aqui são refletidas.

Não muito raro, me deparei com Eratos, Calíopes, Terpsícores, Uranias… E até mesmo sua progenitora.

Mnemosine.

As pistas são tão evidentes que até mesmo um mais entendido é capaz de ser confundido. Pode estudar as Musas e sua Magna Mãe a esmo.

Mas as Musas não são estudáveis. São apreciáveis. E isso aprendi da pior (melhor) maneira possível.

No sonho, nesta conferência.

Raros podem encostar nela. Decerto, aqueles que já, em nosso tempo cronológico não mais perduram, não possuem mais amarras físicas que são capazes de conduzir a sensação de choque de alta-voltagem, magnético porém repulsivo, que qualquer desavisado e sem autorização atreve-se a encostar em Mnemosine ou em qualquer uma das suas nove filhas com Zeus Ajunta-Nuvens.

O castigo? Nenhum, exceto ficar com aquela imagem perseguindo sua reminiscente memória física – isso é castigo? – das vestes carmim, seus cabelos esvoaçantes e seus rostos tão lívidos e perfeitos, que quase nenhum simples rosto na face desse mundão insosso da realidade consegue corresponder a essa impávida face esbelta que se presenciou no sonho.

O que ocorre? Até que essa existência se desvaneça, nenhum poeta iniciado vislumbrará mais do que dez rostos na face da Terra. Dez rostos familiares, envolvidos num mistério etéreo, que enlaçam impetuosamente o pobre coitado a seu automutilamento literário – ou pictográfico, ou musical, ou qualquer outra, aquela que o desavisado ousou tocar.

E que diga de um que quis tocar, ao mesmo tempo, uma das filhas e a mãe?

Eu fui este louco… E acredite, nunca me esqueci desse sonho (real).


Ouvindo... Asia: Heat Of The Moment

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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