Momento Poesia

Tipicamente Paulista

Fumaça,
concreto,
vapores fétidos:
Vou me ao campo!

Deixo os arranha-céus do imediatismo
e projeto meu ser a si próprio,
nesta terapia do silêncio pastoril
da charrete na principal via.

Ah! A árvore de juazeiro, arbusto de madressilva,
os pés de amoras que nós e macaquinhos subimos
para catar os seus frutinhos arroxeados…
E, durante a tarde, um copo de leite saído direto do úbere de vaca.

Poesia bucólica,
que nesse mundão da Natureza,
acha seus mais expoentes figurões
nas imagens mais simples.

Na cadência da valsa,
não vejo o tempo passar…
Meio dia, um dia, dois…
E para o concreto, uma hora vamos retornar.

– Está frio. Quero ficar perto do meu fogão de lenha.


Ouvindo... Janis Joplin: Summertime

Momento Poesia

Tipicamente Paulistano

Desatino,
Destino Butantã…
As portas se abriram…
Tempo de entrar.

Soa o sinal,
e o minhocoçu subterrâneo,
trafega em vais e voltas,
até a Paulicéia desvairada.

Saída: Consolação.
A vida começa, vida cultural,
no pufe de uma grande livraria.

O sanduíche de trocentas combinações,
a loja com iPad,
a igreja para os fervorosos de fé…
Casa das Rosas! Eu nunca fui a ti.

Vão livre, rua intensa, artista de rua,
helicóptero com artista, antenas a esmo,
ônibus, carros, ônibus, carros…
o metrô da moça de voz sedutora
(sério… Eu casava com alguém de voz assim…)

Lá no fim, a Vergueiro,
Centro Cultural, Brigadeiro, Parque Trianon…

Mas tudo isso, sem alguém amigo,
é um tempo que se esvai,
e o aventureiro urbanoide,
tem de voltar à Butantã no minhocoçu…
Voltar para seu matagal.

– Quero meu assento de concreto!


Ouvindo... Alice in Chains: Angry Chair (’93 Live)

Erato

Email À Eleonora Mioto.

O sonho continua, e as matizes de cores imergem num degradê de sensações


Por vezes, faço questão de não ir à Conferência dos Sentimentos… Há coisas num mundo surreal dos sonhos que jamais superam essas sensações vivazes de conhecer os fatos do mundo, de compor nas ruas da ilogicidade… Dos arbustos florescentes na esquina, dos ipês amarelos forrando o chão dum tapete florido…

Canto, Erato, sem sofreguidão e lamento,
uma ode à beleza de um sonho em desvanecimento
que consiste num trafegar solitário e ausente,
refletindo as cores dum azul cingente.

Perpassa, dantes, teu manto escrito
polivalente, iluminado e bem sortido,
ao passo que teu clarividente espírito
se denuncie amiga da minha pena aqui curtido.

Ela. Erato. Nome austero, evidente. Acompanha-me desde idos tempos de frescor infantil. Nos poemas sobre os girassóis, nos jogos de troca-palavras sobre os blocos de arquitetura dos textos. Não foi muito manifesta sua influência, exceto por outros que com ela conviveram. Vinícius, Cecília, Quintana, Lisboa…

Borboletas, chuva, um coraçãozinho… Coisas saudosas de infância… O trem, o burrinho de andanças, o telefone de disco… Objetos e meios que não voltam mais.

O carvão, o animal e a mecânica deram lugar a outras coisas, nesta crua realidade. O tempo é implacável.

O tempo, cara Musa, poesia-inspirar
é implacável, não há do que cessar
as engrenagens dão lugar a eletroímãs
as últimas ideias serão sempre as primas.

Confesso, nesta infância sutil que eu vivia,
no concreto cinza, o que me apetece
é uma esfera de ar azul-celeste
que levitando, me consumia em alegria.

Eis os tempos que passam como um sopro em nossa vida… Nossos objetivos mudam, nossas ideias mudam… Conhecemos a dura realidade – a realidade física, sensível e dolorosa – e as magias da infância são desinventadas. Os apegos infantis cedem espaço a outros apegos.

Mais sorrateiros… Mais libidinosos…

Mas o romper está justo na flor,
que desabrocha na clareira, por entre as relvas
e subtende um convite de mistério e calor…

Manto da noite, que cobre sol e selvas,
vê o que me fez de meus olhos:
Abrolhos! Abrolhos!
E os lampejos doces e frutíferos da malícia,
convidam, indiscretamente a provar esta delícia.

A juventude é o meio mais divisível de uma psique humana. Muitas desgarram dessa magia infantil e endurecem seu coração para as realidades, tornando-as mais marmorizadas, opacas e numeráveis. Alguns raros (sem parcialidades, juro!) transformam essa magia feliz numa melancolia pungente, sempre constante e furtiva… Sempre furtiva, evoluindo num frenesi incontrolável, onde cada vez mais, os gestos, os afetos, e as pequenas letras tomam espaço para valorizar tão contundida existência.

Fenícias, falácias, funestas carícias,
como me enganaram, deixaram supressas,
as dores em alma, orifícios abertos,
que preencheu com tulipas de aromas de mar.

Fenícias! Citereias! Cianos olhares que fazem
nada mais que seu justo papel,
arrebataram esta feliz criança, agora é tarde,
deixem-na provar um pouco deste mel.

Erato se mostra uma Musa que está sempre presente, com seu papiro e sua pena, prontas a ceder a aqueles que ainda querem ver um colorido do minúsculo espectro do arco-íris de outrora, daquele tempo que, em algum momento da vida, desejou-se autopreservar do caótico funcionamento da maturidade. A maturidade, em tons cinzentos… Cada dia mais cinzentos, mais opacos, mais insossos e insalubres…

Sinto que meu passado me chama:
as luzes de pirilampos e as romãs do fundo do quintal,
os aros de aço-carbono-enferrujado e as bolinhas de gude
saindo do baú das minhas lembranças.

Ficando velho, volto a ser criança…
os humores deixo desvanecer na bonança,
e as memórias, vagas se avivam,
avivam como neste belo sonho.

Todo mundo tem a oportunidade de encontrar Erato em suas vidas. Basta lembrar das cores, sabores, sons e aromas da infância. As sensações e seduções dos tempos da pós-juventude são apenas simulacros de necessidades uterinas, e eis a razão: todo mundo algum dia se deparou em sonho com Erato. Amorfa, assumindo a beleza mais conveniente que agrade ao marinheiro de primeira viagem, ditando as sentenças-chave que apenas os poucos e raros se lembrarão ao acordarem, buscando nos mais diversos seres e profundos sentimentos onde encontrar seus correspondentes reais.

E eis que surgem as paixões, que nos poetas, além de serem movidas por Eros, são expressas em palavras pelo sopro de Erato.

Venha… Jamais me deixe nesta empreitada,
Erato das formas amorfas, que assume erudito encanto,
amaina esse juvenil-adulto-senil canto,
e me faça ver a tulipa azul da infância encantada.


Ouvindo... Puddle Of Mudd: Blurry

Mnemosine

Smiley com sono Outro dia, eu, imerso num sonho


Estavam concentrados todos os poetas e aedos de todas as épocas.

Estavam reunidos para a conferência dos sentimentos, uma conferência que ocorre ininterruptamente, em anacronia; bastava que alguma noite algum destes dormia e então o ingresso estava garantido.

O Breu do Esquecimento da Lucidez, no Mundo Físico, vez ou outra, atrasava o início desta conferência. Regado a rum, a café ou a ecstasy, os encontros casuais desse pérfido inimigo sempre encurralavam os convidados à portaria da conferência. E sempre os tiravam, sem muito sucesso, de um ou dois encontros.

Mesmo assim, a ausência de um destes era fundamental para o fracasso do todo.

Eu fui introduzido, não sei bem como, por uma das entidades curadoras desta conferência, em algum dia de minha existência… Se elas – as Musas – se encarnam em mil faces em diversos momentos de nossas vidas, quem saberá?

Desconfio que haja representantes diretas delas nesse mundo terreno, dando pistas de como elas se caracterizam lá, naquela conferência surreal. Muitas de suas características também aqui são refletidas.

Não muito raro, me deparei com Eratos, Calíopes, Terpsícores, Uranias… E até mesmo sua progenitora.

Mnemosine.

As pistas são tão evidentes que até mesmo um mais entendido é capaz de ser confundido. Pode estudar as Musas e sua Magna Mãe a esmo.

Mas as Musas não são estudáveis. São apreciáveis. E isso aprendi da pior (melhor) maneira possível.

No sonho, nesta conferência.

Raros podem encostar nela. Decerto, aqueles que já, em nosso tempo cronológico não mais perduram, não possuem mais amarras físicas que são capazes de conduzir a sensação de choque de alta-voltagem, magnético porém repulsivo, que qualquer desavisado e sem autorização atreve-se a encostar em Mnemosine ou em qualquer uma das suas nove filhas com Zeus Ajunta-Nuvens.

O castigo? Nenhum, exceto ficar com aquela imagem perseguindo sua reminiscente memória física – isso é castigo? – das vestes carmim, seus cabelos esvoaçantes e seus rostos tão lívidos e perfeitos, que quase nenhum simples rosto na face desse mundão insosso da realidade consegue corresponder a essa impávida face esbelta que se presenciou no sonho.

O que ocorre? Até que essa existência se desvaneça, nenhum poeta iniciado vislumbrará mais do que dez rostos na face da Terra. Dez rostos familiares, envolvidos num mistério etéreo, que enlaçam impetuosamente o pobre coitado a seu automutilamento literário – ou pictográfico, ou musical, ou qualquer outra, aquela que o desavisado ousou tocar.

E que diga de um que quis tocar, ao mesmo tempo, uma das filhas e a mãe?

Eu fui este louco… E acredite, nunca me esqueci desse sonho (real).


Ouvindo... Asia: Heat Of The Moment

Radar Musical: Cinquenta e Cinco

Tim Maia

Tim Maia (1973)

[Polydor, estúdio; republicado pela Abril Coleções]


Nas minhas incursões pela música nacional, este do Tim (segundo do intérprete e quarto entre os brasileiros) tem um swing todo especial. A princípio, era para seguir rigorosamente a cronologia do cantor, mas havia perdido a semana do segundo álbum. Tive que me contentar em quebrar a sequência.

Decerto, há um quê de especial nesses álbuns, apesar de não existir uma profundidade semântica tão evidente – culpa da famigerada ditadura, onde os que preferiram firmar terreno no Brasil deviam contentar-se em fazer canções irrealmente positivas – tem todo um molejo, um desbunde e todo um arcabouço de lifestyle que as raízes do soul americano conduziram, em particular no nosso amigo Tim, o eterno síndico. Embora, na realidade, como vocês vão conferir, este álbum tem todo um saudosismo afetivo intrinsecamente utilizado. Vale ouvir…

Esse precede um período um tanto quanto esotérico na vida do Tim: a época da Cultura Racional. Composições sinceras / desvairadas que absurdamente beiram uma razão psicodélica lúcida e estranha. E que nada mais fez com que nosso eterno síndico atravessar um período de moda de adesão da qual se arrependeria depois…

Setlist

  1. Réu Confesso: uma levada swing romântica? Eis aí um exemplo.
  2. Compadre: a boa vizinhança musicada… Para momentos de espairecimento.
  3. Over Again: esperançar-se em inglês pelo inevitável… A melancolia a serviço de um pseudo-upbeat.
  4. Até que Enfim Encontrei Você: um tema pouco recorrente – para os mais sentimentais – que é o amor em realização, processo em decurso.
  5. Faixa de destaque Balanço: um swingjazz-bossa nova sutilmente politizável pelo íntimo particular do interlocutor… “Todo mundo que eu conheço / Chora”
  6. New Love: cantar a tristeza de um amor não realizado, que se realiza no fim de tudo. Na melhor levada R&B que se possa imaginar.
  7. Do Your Thing, Behave Yourself: um notável upbeat… Grandioso, ostensivo… “A solidão está por ir, a felicidade está por ficar: faça suas coisas e contenha-se.”
  8. Gostava Tanto de Você: junte uma serenata com um toque soul. Eis o que acontece: um notável e indescritível sucesso.
  9. Música no Ar: tanto infinitivo distinguindo incompletudes…
  10. A Paz do Meu Mundo é Você: o confessionário amoroso… A guerra eterna de dentro de si é gerada pela incompletude já dita pela antiguidade, afetiva, pela existência de outro que está longe de ti.
  11. Preciso Ser Amado: a ênfase no gogó. Só aqui notamos a capacidade natural no interpréte… Que graves!
  12. Amores: apesar do nome sugerir um tema recorrente, a jam final confere um discreta saída de valência fenomenal. E fim de papo.

Na Alma

Tem altos e baixos evidentes… Normalmente o tema afetivo é explorado às expensas, mas o tempo total impede que nos enfademos do conjunto. Boa dosagem.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela



Ouvindo... Tim Maia: Compadre

No próximo radar: Tim Maia, de 1971 (também conhecido como Tim Maia 2)

Momento Poesia

Over-loading ou Poesia de Pseudo-descompromisso implícito

Começa…

Meu desabafo tremendo é sobre um momento escuso,
difuso ao tempo espaço obtuso e recluso no recôndito,
o peito amaina mas o cérebro não deixa confuso,
e desvanece numa canção ausente de temperamento.

Tudo em descarga emocional, frenética, convergente,
provocando uma melancolia displicente,
nessa sobrecarga de sentimentos que se detém afora, mundo abaixo, sem imagens e éteres disfuncionais que implicam nesta razão diversa.

O overloading overloaded!

Nem todo processador do mundo,
é capaz
de conhecer esta disfunção social.

Descalculada,
os arreios já se perderam:
não há mais formas prendendo este gás do riso,
que desvanece no ar.

Poesia a se descompassar, extinguir,
comprimir na sua finitude sua veracidade absoluta… Fajuta!
Fui o Homero de meus tempos,
menosprezado pelo imediatismo permanente, animal, difuso.

Confuso? Confusa? (Sim, você que encontraria belas palavras, minha cara amiga)
É difícil conhecer o que há nesse baú de carga,
em sobrecarga-sobrecarga.

É o overloading, to over-load.
Mal sabe no que isto resulta:
peças soltas dos últimos tempos, desvendando
na função primordial absurda
que se espera da existência.

There are many overloads fill up the free space. Please take care and reboot your system!

É fácil falar,
quero ver se fazer.
não há como desaparecer
com isso debaixo dos panos.

Critical memory! Close all opened applications!

Quem me reprime,
diga, vamos!!!

We report a bug! We’ll be trying to fix it in a few minutes…

Tente… Pode tentar,
pois esse over-loading
nunca irá acabar…


Ouvindo... Candlebox: Far Behind