Momento Poesia

AUTO-

Colossal combustão,
inimaginável
a matéria em ínfima posição
sobrepujou a anti-matéria.

Inflação,
imensurável
corpos ardentes
e as várias máscaras se formando.

Solidificação,
inefável,
há muito chão pra se pisar,
mas quase nenhum agradável.

Eis, ali, um ponto!
coisa estranha: um não-ácido, não-base
e ali surge uma anomalia mutante
matéria que tem ânimo inconstante.

Cresceu! Venceu!
Até assustou,
mas com o tempo, o sangue e o fogo
quase sumiu, mas recomeçou.

Tudo de novo! agora com mais calma,
mais cores, mais maciez,
mais instrumental e mais inteligente…
Inteligente?

A matéria viu a si própria,
e não sabe o que há na sua frente…

Mas ainda alguma matéria, enfim
seguirá em frente, até o fim.


Dedicado a um colega leitor do qual tomei informações recentes através de uma amiga especial. Espero que goste da temática. Alegre

Ouvindo... Aerosmith: Mama Kin

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Momento Poesia

Divisões

Não me enxergo mais:
Sim! Estou me vendo
cindido em dois materiais
oscilando ao som do vento.

Tormento? Qual? Imagina,
sou forte…
Ai de minha sorte,
a morte que se aproxima!

Em cima? Sempre no topo,
meu escopo?
Subterrâneo no mundo,
Estou por baixo, o fundo do fundo.

Amor?
Não há mais,
espero que encontre neste momento
outros melhores jograis.

Ais… Ais…
Doem para sempre,
nunca! Jamais!


Ouvindo... Cranberries: What’s On My Mind

Curiosamente, não lembrava que “Break up” significava isso. Prova de que meu inglês não está tão ruim assim.

Voltando à USPianeia…

Caros colegas, leitores da epopeia,

Obrigado pelas já 100 leituras dos trechos do primeiro ano, através do Scribd!

Mais uma vez, venho fazer presença diante de vocês para contar as últimas da minha epopeia.

E também tirar um pouco da poeira daqui. Smiley confuso

No momento, estou pausado, é verdade: faz semana que não manuseio a composição. Isso se deve ao fato de que as pessoas mais próximas do meu convívio estão, gradualmente, ganhando novos epítetos, conforme a habilitação que integraram. E para evitar qualquer fórmula repetitiva, estou buscando meios para tornar enriquecida a composição.

Como, no entanto, são muitas pessoas a se propor um conjunto de versinhos bacanas, estou optando por registrar para a posteridade aqueles com quem mais convivo – jamais faço isso em detrimento dos menos citados, mas, simplesmente, pelo fato de que sou uma cabeça presa à lembrança registrada, e isso é uma atitude que engana a simples memória.

Mas conforme for trabalhando durante o período, vou resolvendo a situação, evitando cometer injustiça diante dos velhos – e novos! – colegas que aqui surgirão.


Não sei se já compartilhei com vocês, mas, em breve, pretendo começar uma nova Elegia, em homenagem a uma outra amiga em especial… Aguardem por novidades! Gargalhando


Ouvindo... Oasis: Rockin’ Chair

Radar Musical: Cinquenta e Quatro

Wilco

(The Album)

(Nonesuch, estúdio)


A aquisição deste álbum reflete um evento em minha vida que sequer imaginaria há poucos anos: idas constantes à Paulista.

Um pouco após meu retorno do litoral, eu me deparei passando em lojas de livraria e CDs e este álbum me chamou a atenção. Não sei se foi amor à primeira olhadela na capa – o camelo da cantina desperta curiosidade – garantiu sua rápida aquisição (isso já faz algum tempo) ou se balanceei por algum tempo adquiri-lo (essa não foi uma das minhas costumeiras pechinchas). Já conhecia, não raro, algumas poucas canções da banda, mas sempre fui afim de conhecer o conceito de um álbum inteiro. De tanto pesar, acabei cedendo: e segui a este meu endereço rotineiro para apreciar o material.

Sei que as primeiras audições do álbum não se deram em estado de vigília. Mas, ao que parece, o inconsciente andou conversando com o consciente e ambos chagaram ao consenso de que o investimento valeu a pena.

Representando um estilo pouco difundido do Country Alternativo – ao menos, como tradicionalmente fazem os críticos – o Wilco foi por muito tempo uma curiosidade indicada por Pedro Só numa reportagem da Superinteressante. E a experiência indescritível – mesmo que ausente de consciência – será transcrita aqui.

Setlist

  1. Wilco (the song): um começo neutro, que a princípio não aparenta muito do estilo. Talvez se ouvirmos com os ouvidos do Rock genérico, encontremos graça.
  2. Deeper Down: agora sim, vemos o que é o macro-gênero Folk, com toda a sua complexidade lírica. Mas os instrumentais diferenciados não ficam atrás.
  3. One Wing: essa me lembra outra que já ouvi deles, apesar da óbvia distinção musical, crescente, e o apelo Country alternativo já está mais evidente.
  4. Bull Black Nova: sinto algum Blues comedido aqui, algo bem experimental – e denso, em se tratando de extensão…
  5. You And I: ah… Sempre os acústicos na minha vida… Note a atmosfera orgânica musical de fundo – vá preparado para aproveitar o lirismo com fones de ouvido estéreos.
  6. You Never Know: no começo, alguém lembrou de T-Rex? Eu lembrei, só no começo…
  7. Country Disappeared: e agora a gente lembra – noiado e de longe – de Robbie Williams… Não à toa, de um lirismo inexplicável, com cordas fenomenais.
  8. Solitaire: suavidade simples, mas sem destoar do restante do conjunto.
  9. Faixa de destaque I’ll Fight: o acústico que mais me impressionou, com o lírico de maior entrega que se apresentou durante todo o álbum  Os órgãos, aquele feelin’ Country permeando os quase quatro minutos e meio provando que o álbum vale a pena.
  10. Sonny Feeling: uma ciranda adulta, musicalmente falando à primeira impressão… Mas se percebe o potencial mesmo é no refrão – algo muito animado. 
  11. Everlasting Everything: os quatro minutos do movimento final refletem exatamente o que são… A despedida de um bom trabalho, em ritmo de balada.

Surpreendente

Um trabalho maravilhoso. Mas raro emplaca alguma música de sucesso.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2



Ouvindo... Wilco: Sonny Feeling

Aproveitando o ensejo, posto aqui o link para meu Fiasco. Este é o episódio 11!

Película http://static.livestream.com/grid/LSPlayer.swf?hash=47sh3

No Videocast da temporada, um reflexo da controversa opinião sobre como foi a FestECA, bem como foram outros assuntos afins. Vejo vocês em breve!

Algo Pessoal

Uma simples digressão sobre os últimos tempos

Uma análise pessoal sobre a ótica de uma realidade com gosto e odor peculiares.


“Depois da tempestade, vem a bonança”, diz o velho jargão popular. E sem pieguices. Isso realmente funciona.

Estive em presença duma pessoa muito especial para mim ontem, no caminho à Paulista. Ônibus é sempre um local bem peculiar para eu desenvolver uma conversa com alguém. Compartilhei com essa pessoa algo que anda acontecendo nos últimos tempos comigo.

Esse fato tem um pouco de coisas tensas e outras prazerosas. Abstenho-me nas tensas… Mas foi por meio delas que num determinado momento um único conjunto de atitudes positivas, num dado domingo, não muito remoto, me permitiu olhar a realidade que me cerca com outros olhos.

… e a acreditar que houve uma resposta igualmente positiva daqueles que comigo mais convivem.

Decerto, houve épocas em minha vida que, quando experimentava um momento de frenesi social e comportamental, vinha algo aterrador e minava tamanha felicidade – uma espécie de episódio bipolar, provocado exteriormente – em tese, a bonança que se seguia à tempestade, novamente se tornava uma tormenta.

Houveram certos episódios isolados que determinaram um estado de atenção, quase que paranoico, após uma grande benesse.

Não está sendo assim nos últimos dias. Nunca experimentei antes uma sensação tão boa e ao mesmo tempo tão pé no chão de olhar o mundo munido de algum tempero indescritível… Não falo de magia – isso seria justamente construir um simulacro irreal, coisa que pretendo evitar, dadas experiências anteriores – ou coisa do tipo: é algo que se pode experimentar muito bem, sem sair da rotina padrão sem enfado; algo que não interfere no ordinário de todo dia.

Óbvio… Não achei a cura para meus tormentos particulares dessa forma, e talvez até persistam. Podem até permanecer inerentes a mim indefinidamente. Mas de uma coisa me garanto: algo como o que fiz, no citado domingo, foi de uma satisfação pessoal tão grande – mesmo que tenha me desviado do intento original que fazia para aquele dia – que acredito ter dado um passo a mais para meu amadurecimento, não mais como pessoa, mas sim como cidadão.

O fato em razão, prefiro manter particular. Seria muita presunção fazer uso dele como promoção pessoal… Só diria que é algo que muita gente não teria o costume de se dispor em fazer da maneira que eu fiz. Uma maneira que demonstrasse uma real preocupação com aquele problema diante de você.

O que me deixa intrigado após tal dia, foi que muitos dos meus colegas – ao menos no meu ponto de vista – alguns dos quais possuía um contato muito pontuado, aproximaram-se mais de minha vida, como se fôssemos colegas de infância. Não falo aqui que eram pessoas ausentes. Nunca diria isso! Simplesmente, acho que emanei uma nova postura, mais tolerável com certas coisas, e o feedback daqueles que comigo tem contato simplesmente correspondeu positivamente a isso.

Não só isso, mas há outros detalhes que estão me proporcionando alguma experiência de vivência. Embora, a muito custo, esteja resistindo a fazer adesão a moda das chamadas “literaturas vampirescas”, ando lendo com certa permissão crítica ao livro Crepúsculo. Tudo bem: não seria o tipo de leitura que eu costumaria fazer (vide Resenhas e Livros), mas há algo cientificamente proveitoso nele: frases feitas, o conceito mítico social responsável pelo seu sucesso e, principalmente, o autoconhecimento positivo diante de uma imagem dissonante – a de uma jovem introspectiva e reclusa em sua própria realidade.

Fato é que tudo isso que vivo atualmente está se refletindo de uma maneira terrenamente positiva no meu convívio diário: não canso de me repetir. E o fato de compartilhar desses anseios e impressões, já citados aqui e não tão bem esclarecidos, com alguém mostra que não é algo que foi desígnio individual, mas que qualquer um pode obter em sua vida.

Portanto, diante de qualquer dificuldade – a despeito de minha literária crônica do artigo anterior que aparenta mais ser uma descarga emocional instantânea e um ato purificador de consciência – mais do que se apoiar em resmas de páginas de auto-ajuda e soluções paulatinas, observe tudo o que há em tua volta: certeza de encontrar alguém que vislumbre um horizonte mais nebuloso que o seu. E então, tome uma atitude ativa (sem alimentar um pleonasmo) e volte-se para outrem, nem que seja necessário ausentar-se trinta ou quarenta minutos de sua rotina pessoal em favor desta pessoa. Perceberá a diferença dessa ação em sua vida.

E que venham muitas bonanças para você após suas tempestades pessoais.


Ouvindo... Live: Pain Lies on the Riverside

Adendo: não deixe de conferir meus últimos videocasts:

Película http://static.livestream.com/grid/LSPlayer.swf?hash=41h9a

Fiasco 9: com cabelo novo.e todo “pimpão”

Película http://static.livestream.com/grid/LSPlayer.swf?hash=45g22

Fiasco 10: uma introdução ao assunto apresentado hoje acima.

Cartas Osasquenses

Confessionário

Os fatos e pessoas aqui descritos são ficcionais, e os endereços escolhidos ao acaso.

Email Osasco, 26 de junho de 2002

Remetente: Av. Marechal João Batista Mascarenhas de Moraes, xx
São Pedro, Osasco – SP

Destinatário: Rua dos Maracolis, xxx
Colinas de Ibiúna
Ibiúna – SP

Caro colega Marcelino Giovanni,

Como tem passado?

Espero que esteja bem em seu novo endereço. Ouvi falar que é um dos mais chiques da cidade… É, você merece. E muito.

Conseguiu tudo o que queria em sua vida: um carro importado, esta casa – que você nunca me mandou fotos – , montar seu próprio negócio aí na sua cidade, após um relativo duro esforço aqui em Osasco.

Também não é pra menos: você, meu colega de Fundação, lá do Vila Yara do médio. Teu pai é um competente gerente lá do banco. Sabemos muito bem. Meu pai sempre contou com a ajuda dele na questão das finanças pessoais. Você estava lá na Fundação por direito. Eu estava por um relativo mérito: me destaquei um pouco mais na minha escola do fundamental… Coitada da escola… Eu não era dos alunos que fosse chamado de orgulho escolar, mensura de avaliações estaduais. Tive a sorte de assistir a algumas poucas aulas de Matemática, que me garantiram a passagem à prova na Fundação….

Bom… Passei porque outro sujeito havia desistido da vaga. Eu fui o primeiro dos últimos, daqueles que não sequer imaginariam estar lá. Antes de mim, foi outro, que já tinha uma mãe funcionária, um segundo que apenas fazia pose de entendido, mas levava uma colinha na mão, e uma moça; essa sim, a que poderia ser considerada o melhor produto originado daquela escola. Marilena Hernandes era o nome dela. Uma estranha no ninho: morava num bairro mediano, aqui próximo de mim. Por uma questão de consciência social, os pais dela decidiram matriculá-la aqui na minha escola, mas tinham amplo direito de, desde cedo, fazê-la estudar numa melhor instituição.

Fomos colegas desde os primeiros anos, você sabe… Ela me deu a maior força para entrarmos juntos na Fundação. Ela possui um espírito incentivador como nenhuma outra moça ali naquela escola tinha. Sem falar no quanto era bonita… E você sabe muito bem disso. Sabe pois éramos o trio parada-dura da nossa época. Você nos acolheu muito bem a esse universo distinto. Ajudou – e muito – nossa caminhada por lá. Esforçou-se por nos colocar nos círculos sociais tão fechados que ali estavam.

Sei que não foi um êxito de esforço… Nunca fui pra essas conversas de gente da classe média: séries de tevê paga, filmes blockbuster, Anália Franco, idas aos bailes dos veteranos… Um mundo tão confuso pra mim, que em casa tínhamos daquela de tubo na antena de vareta, os filmes de dez anos da Sessão da Tarde, o shopping Galeria, onde eu podia comprar alguma coisa com uma rara mesada dos meus pais, isso sem falar na formatura nossa, que não participei.

Não sei se você sentiu minha falta nela, colega. Nunca recebi qualquer carta sua a respeito. Eu fiquei triste com certos assuntos, bobos até demais…

Queria poder compartilhar com você um pouco da minha amargura.

Como você deva saber, não levava muito jeito para qualquer coisa: nem pro esporte – o professor de Educação Física sempre teve que improvisar algum esporte-terapia que pudesse praticar – nem pra redação – como aquela Angela reclamava dos meus garranchos sem sentido – nem pras artes – minhas casinhas de desenho eram quadradas, e as pessoas bonequinhos de palito. Nunca entendi computação – por isso te envio essa carta, e não um e-mail – nem qualquer outra coisa. A muito custo, recentemente, consegui um bico de pedreiro numa obra, a exemplo de meu pai. Mas meu patrão é severo comigo, e diz sempre que eu levo jeito pra peso de papel.

Achava que a única capacidade que tinha neste mundo era de compreender as pessoas. Mas nem isso achei ter também…

Como sabe, havia uma pessoa muito especial na Fundação que chamava a atenção como ninguém. Eu fiquei gradativamente deslumbrado com ela – e quem não fica? – e ela era uma das poucas pessoas com quem me dava bem ali. Bem até demais, como se fôssemos velhos amigos, desde o jardim de infância.

Mas então chegou um sujeito, que pagava de bom moço, de família de prestígio, com tudo o que há de bom e melhor nesse mundo. Tudo o que não era bom, ele era. Tudo o que não conseguia ser ali, ele conseguia. Em todo evento, lá estava ele, fazendo presença. Nos que eu conseguia participar, com muita economia, tentava aproximar-me dele, para poder compartilhar um pouco desse prestígio, mas eu sempre fazia o papel de sombra, quando não o da poeira varrida do acontecimento.

Meses antes da nossa formatura, estava eu diante da deslumbrante colega, num evento na Fundação festivo. Ela estava bela, como nunca! Percebi-me com suadouro, tremendo: não era outra. Aquela pessoa tocava fundo em mim…

Mas eu, apesar de achar que entendia as pessoas, nunca tive coragem de dizer, com meu pequeno arsenal de palavras, o quanto gostava dela. Acho que tive medo de ser material de uso descartável, por não oferecer assunto para mais de cinco minutos, exceto se for para Assistente Social.

O indivíduo chegou, deu um sorriso para ela e, pela primeira vez, demonstrou sua real face para mim. Pediu-me para procurar pela festa outro colega nosso, que eu sabia, não com muita certeza, que não estava lá…. Poderia ter me enganado? Ele estava? Fui conferir. E como o evento era muito grande, passei aquela noite toda, sem aproveitar com meus poucos colegas o calor da alegria.

Percebi que ele não queria minha presença ali… Pois quando voltei, ele soltou um olhar gélido para mim, e a beldade estava toda no encantamento dele. Não sei que argumento – de palavra ou material – ele usou, mas uma coisa foi certa: foi eficaz.

E ela nunca mais sequer quis saber da minha presença… Fiquei muito puto com isso! E estou até hoje! Soube que ambos casaram e mudaram-se para outra cidade alguns anos depois, após terminarem a faculdade: ela, de Direito; ele, de Engenharia Petrolífera. Tudo na USP.

Eu tive que me contentar com um semestre mal-sucedido na faculdade de Pedagogia da cidade de Carapicuíba, aqui do lado. Mesmo contando com o apoio do governo federal, não pude obter o conceito mínimo para manter minha bolsa. Sem dinheiro, com minha mãe já falecida e meu pai com uma aposentadoria esdrúxula, tive que começar a trabalhar, fazendo alguns bicos, sempre remunerados abaixo do valor que costumavam ser cobrados. Mal aprendi a dirigir a velha Kombi de meu pai, arranjei multas pelas rodovias, sempre descompensando ainda mais meus ganhos.

Remoí por anos a fio aquele episódio da Fundação. Eu podia, muito bem ter dado uma sova na cara daquele sujeito idiota, ao menos! Mas era óbvio que eu saía perdendo também. Aquela moça bonita podia me achar um grosso, um brutamontes… E eu achava que ela merecia coisa melhor que eu.

Tolerei outros padrões de beleza menos favorecidos, na minha rua, na comunidade religiosa daqui perto, de todo e qualquer lugar que ia. Olhei-me pro espelho um dia, e convenci-me de que não tinha atributo suficiente para ser atrativo para mulher bonita nenhuma. Mas mesmo tentando com as feias, nem isso conseguia… Faltava charme, faltava beleza, assunto…

E o mais fundamental: faltava dinheiro. Tudo aquilo que aquele sujeito e você tinham de sobra, vindo da família, e depois, obtido do próprio.

Cara!…

Como me sinto um idiota e um inútil! Já quis algum dia integrar o submundo da criminalidade, ou assaltar uma arma daquelas bem pesadas, só para atirar naquele mesquinho, ou ainda para acabar com minha agonia!!! Mas sabia que meu pai precisava de apoio: portanto, não seria agradável para ele enterrar o próprio filho, ou vê-lo ser marginalizado e preso.

Desisti desse objetivo. E assumi que não tenho chance nenhuma de viver nesse mundo cão acompanhado por uma – uma única – mulher… Que bastava a mim, sobreviver o suficiente para ajudar meu pai a pagar as últimas dívidas dele antes do fim da vida, evitar que ele caia no alcoolismo, e a manter comida na casa, para ele e para mim.

Meu pai é a única pessoa nesse mundo que genuinamente deseja tudo de bom para mim. Talvez meu último incentivo de dar razão à minha vida. Mas jamais quis revelar a ele esta angústia, que guardo comigo há doze anos.

Revelo a ti porque, não sei, você pode dar uma razão especial de me ouvir. Afinal, fomos colegas na Fundação. Você evitou que eu estivesse mais deslocado naquele ambiente estrangeiro do que realmente estava. Devo muito a você… Reformo sua casa e, se quiser, ainda pago.

É o mínimo que devo oferecer a ti, já que foi você aquele sujeito que quis ter coragem de dar a sova… Desculpe-me revelar… Eis aí o motivo da minha ausência na formatura.

Sucesso na sua vida… Acho que essas coisas são dadas de berço e hereditárias. Você tem mais é que brilhar… Eu tenho mais é que me contentar em ser a poeira da sombra.

E mande abraços à sua esposa e minha amiga, Marilena Hernandes Giovanni. Desculpe-me confundir o espírito dela de caridade com amizade e com amor.

Espero ansiosamente sua resposta,

Respeitosamente,

Moacir da Silva

* soube-se desta carta pelo fato do destinatário ter recusado-na. Sendo inservível, o entregador se compadeceu da letra tosca escrita nela, bem como da ortografia terrivelmente mal-elaborada. Reescreveu a carta para expressar a angústia de alguém que sequer teve a coragem de arriscar um momento de sua vida, para obter alguma auto-estima para seu futuro.


Ouvindo... Alice in Chains: Queen of the Rodeo

Perfeito, Apesar dos Outros

Você acha sua vida complicada? Pois saiba que há vivências mais complexas que a sua (ou não; os fatos relatados aqui não possuem vínculo algum com pessoas reais. Caso haja, trata-se de mera coincidência).


Margareth morava num bairro mediano de Nova Amplitude. Necessitando auxiliar seus pais que contraíram, um deles um tumor no intestino e o outro uma crise profunda de depressão resultando em coma, a então jovem de dezessete anos, que nunca havia encarado o mercado de trabalho, procurou desesperadamente emprego na cidade, sem sucesso. Exigiam experiência – e muita. Com os pais aposentados por invalidez e a renda bruta da casa despencando vertiginosamente, Margareth viu-se num beco sem saída.

Num dia de afogar as mágoas, deparou-se com um sujeito bem apessoado, que garantiria resolver o seu problema. Pobre da moça, que caiu na lábia do sujeito. Alta da bebida, topou um serviço de “faxina” na casa de um cliente da alta sociedade da cidade. E acabou por levar um coito.

Percebeu isso por deparar-se no outro dia, esparramada na cama do sujeito, com um lençol amarrotado e ligeiramente ensanguentado, próximo de si.

Não deu por outra: pegou suas coisas, e seguiu caminho para casa. Um tio da cidade vizinha foi convocado para prestar assistência aos seus pais no hospital: precisava colocar as ideias em ordem. Não era para menos: Margareth nunca experimentara uma relação sexual antes, e somente o “patrão” poderia comprovar para ela o quanto esta tinha talento pra coisa.

Pior ainda foi saber que ao retornar para casa, lá estava o cafetão que indicou seus préstimos. Como ele chegou até ali? Simplesmente, a audácia de vasculhar os documentos pessoais de Margareth enquanto estava de porre. Daí em diante, foram dois anos cobrando comissões absurdas, com a ameaça de revelar aos pais dela e a toda a cidade o que ela tinha feito naquela noite. Mesmo assim, Margareth consentiu: o que lhe sobrava dava pra pagar as contas triviais da casa e o tratamento dos pais. Mudou de vestuário muito rápido, tingiu os cabelos, vendeu sua casa em Nova Amplitude e foi morar numa cidade maior próxima, onde nenhuma pessoa conhecida pudesse encontrá-la.

Ao cabo de dois anos nesta ocupação, um peso na consciência havia desvanecido com o falecimento dos pais. Desenganados, Margareth preparou cautelosamente o discurso que revelaria os fundos que cuidavam de seus pais. Obteve o perdão deles, pois compreenderam que não tinha sido culpa dela cair naquela vida, e foi encorajada a tomar uma atitude frente ao cafetão que tinha, bem como buscar sair daquela vida de alguma forma.

A resposta veio durante justo o dia do enterro de seus pais – ambos faleceram no mesmo dia – em que, acompanhada do cliente da noite seguinte, que se compadeceu de seu lamento, decidiu agir por ela. Descobriu os podres do seu aliciante e conseguiu encaminhá-lo às autoridades.

Na verdade, o indivíduo tinha sido deportado, pois pertencia a um grupo internacional de tráfico sexual, e era o último elemento resistente ainda na região.

Agradecida, Margareth ainda havia oferecido a oportunidade de compensar o pagamento gordo que seu cliente havia lhe feito – na semana seguinte, obviamente – mas o rapaz, advogado de família de posses de Nova Amplitude, dispensou a consumação do pagamento, e sugeriu à jovem que procurasse algum emprego, e ofereceu um estágio em seu escritório.

Ela aceitou, mas o que o jovem não soube durante os três anos em que ela trabalhava como sua secretária era que, pelo fato de ter obtido um cliente do seu velho expediente um pagamento gordo pelos seus préstimos libidinosos, Margareth ainda desempenhava, na surdina, as atividades de prostituta de luxo, selecionando apenas clientes que podiam pagar muito bem, e que não demonstrariam nenhum risco em expô-la publicamente. Além do mais, a remuneração adicional, gerenciada somente e tão-somente por ela agora, permitiu que rapidamente ela acumulasse uma pequena fortuna, podendo comprar uma boa casa na capital, um carro importado e ainda sobrar dinheiro na poupança.

Foi o que aconteceu, quando, pelo descuido, o advogado descobriu que ela ainda vivia aquela vida arriscada – embora não soubesse que a experiência que ela adquiriu não a permitiu mais ser subjugada por qualquer outro oportunista. – Mas o que afligia aquela alma caridosa era que ele demonstrava um apreço maior que amizade pela Margareth, mas nunca havia se declarado abertamente para ela.

Por impulso, acabou demitindo a moça. Não deu outra: desapareceu por completo daquela região e foi viver na capital, conforme suas contas lhe permitiam.

Continuou a desempenhar seus préstimos, selecionando seu público como sempre, mas, sempre de olho no lápis – aprendizado dos tempos de secretaria – percebia que em dois anos, teria que mudar de estratégia: suas requisições haviam diminuído.

Arriscou-se a publicar anúncios em jornais de segunda categoria: poderia estar entrando noutra fria, mas aconteceu algo incrível.

Margareth teve como seu primeiro cliente de anúncio um sujeito bem peculiar: um colega de infância. Era este um daqueles arredios alunos aplicados, subjugados pelos outros; mas ele, hoje, era um daqueles sujeitos boa-pinta, com um vocabulário bastante elaborado, e uma voz fenomenal, digna de um cantor.

Pela primeira vez, Margareth sentiu-se combalida por alguém. E intrigada: como aquele sujeito poderia ter se transformado num figurão irresistível?

Foram necessários mais de um encontro, em que o intuito do contato para sexo foi sendo gradativamente substituído por jantares finos e casuais.

Margareth sentiu-se impelida a conhecer a casa dele, mas seu colega – chamado Johnny – não dava brechas. E decidiu fazer algo que nunca faria antes: ousou persegui-lo até sua morada.

Qual não foi sua surpresa quando descobriu que Johnny era um prostituto de luxo também! Mas a descoberta deixou latente o quanto Johnny não queria isto mais para sua vida. Fazendo uso de um sistema de indicações, obtinha três ou quatro clientes com uma já consumada. Havia acumulado um montante de fortuna vinte vezes maior que o de Margareth – que também não era pouca coisa.

Mas a vida de objeto sexual para Johnny estava ficando enfadonha, desgastante e ele queria encerrá-la encontrando alguém que entendesse sua realidade e o ajudasse a modificá-la. E esse alguém escolhido, foi justamente sua colega de infância, que na realidade, caçoava miseravelmente dele.

Após uma intensa briga e alguns dias de isolamento mútuo, ambos viram que tais detalhes eram idiotas: ambos viveram realidades desconcertantes, foram injetados no submundo da prostituição por necessidade, fizeram fortuna, mas nunca se realizaram pessoalmente.

Não deu outra: feitas as pazes, trataram imediatamente de desaparecer com todos os seus contatos, vender seus imóveis no país e mudar para o exterior.

A última e mais recente pista que se pôde obter de ambos é que ele comprou um par de alianças e um buque de rosas, e ela um par de passagens para primeira classe, para o exterior…

E nunca mais se ouviu notícias de ambos.


Ouvindo... Celine Dion: Let Your Heart Decide