É Latinha (II)

Smiley confusoTaça de Martini Uma echarpe manchada com Coca-Cola? Poderia ser apenas isso, mas a história se desenrolou mais além… Acompanhe a continuação.

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Três vezes durante o meu serviço, arranjei-me do que podia, a fim de resolver aquele desastre de moda. Na terceira, desisti: o molho parecia expandir mais a mancha amarelada, e eu corria o risco de endurecer o tecido… E endurecendo-o, com certeza ele rasgaria.

Por sugestão dum colega de trabalho, decidi ceder e tentar secar e devolver a echarpe como estava à loira… Talvez ela soubesse melhor que eu como resolver aquele impasse. “Aproveite e faça companhia a ela, se é que me entende” disse meu colega, com um ar malicioso.

A princípio, nunca pensaria aproveitar-me duma situação tão cabulosa para esse fim. Ainda mais com ela, que parece não se dar a brincadeiras de alguém tão comum como eu.

E, no fim do expediente, conforme o combinado, liguei para ela, para contar do insucesso. Nada que a afetasse: de modo mais simpático, até me convidou a vê-la no apartamento dela. Garantiu que sabia de um jeito de limpar sua echarpe, mas que, por minha generosidade em tentar resolver, ofereceria a mim um discreto jantar. Eu, encabulado, aceitei. E após o telefonema, quantos não demonstraram quererem estar lá no meu lugar.

Uma hora depois, estava eu no endereço combinado. A despeito do calor diurno, o início de noite mostrava-se chuvosamente terrível. Decidi ser o mais breve possível, pois reconheceria que aquele bairro costumava inundar em seus arredores com alguns bons minutos de chuva.

Ela estava mais convidativa do que naquele primeiro encontro. Roupas casuais de algodão. Preparou uma lasanha a quatro queijos, uma salada de agrião e dois copos maravilhosos com Coca-Cola dentro deles, tudo já preparado na mesa da sala de jantar, que era toda ornamentada e combinava com tudo… Com exceção do par de chicotes pendurado na parede.

– É que a família de meu pai montava em equinos. Temos vários desses, espalhados dentre todos os irmãos e irmãs da família.

Com um pouco de custo, aceitei a explicação dela.

A hora seguinte, enquanto degustávamos o farto prato de comida ali servido, ela fez-me de desabafo: contou sobre os problemas na parte da família materna, as decepções com o curso, realidades diversas que viviam dentro dela, que aquele aspecto de patricinha esnobe da classe desapareceu em meu conceito. Passamos a compartilhar duma amizade ali surgida, mas que parecia vir de bons tempos.

O mundo lá fora foi plenamente esquecido. Tanto que, minha preocupação com as ruas circundantes não fora em vão. Ligando o noticiário, notei que o bairro dela realmente inundou. A maior sugestão que ela me forneceu seria permanecer lá aquela noite.

Eu não quis aceitar tanta hospitalidade. Insisti em sair, que estaria abusando da boa vontade dela…

Mas aí aconteceu outro desastre: sem querer, nós dois esbarramos na mesa, e a garrafa de Coca meio cheia veio a espirrar nas nossas calças de algodão. E aquelas minhas eram as que iria usar no trabalho no dia seguinte. Outras estavam secando em casa. Mas fiquei consternado em saber como é que ía passar ali aquela noite, já que minhas roupas de baixo também se encharcaram.

Ela foi muito prestosa. Lembrando da echarpe – que havíamos esquecido pelo jantar – e aproveitando do incidente, tomou a iniciativa de levar tanta roupa molhada e suja de Coca para sua máquina de lavar e de secar, garantindo que tinha a receita certa para cada uma. Pediu a mim que fosse ao quarto do lado, que sempre reservava para hospedagem dos irmãos, dizia ela, e pediu que eu ficasse à vontade vestindo daquelas roupas para ficar ali.

Foi muito curioso saber que, naquele quarto, tinha uma cama de casal extremamente confortável, um intenso e constante cheiro de incenso relaxante, e no guarda-roupa, só haverem roupas de baixo e pijamas, todos novos, ainda com a etiqueta.

Como que se me adivinhasse minhas dúvidas, ela, da lavanderia, gritou:

– Pode fazer uso das roupas novas que estão aí… Se quiser, pode ficar com o que precisar; basta tirar a etiqueta e levar.

Não querendo fazer desfeita, pus-me logo a experimentar algumas, até encontrar a de tamanho certo. Nisso, já faziam dez minutos que ela estava de posse das minhas roupas de serviço e estudo.

Eu, já instalado, acostumado com o (estranho) ambiente, nem passou cinco minutos, ouvi um tranco de motor e alguns maldizeres. Meio consternado, decidi prestar auxílio a ela.

– Eu acho que não vai dar para lavar nada aqui hoje…

Fiquei meio sem jeito ao depará-la somente de peça íntima vermelha, como a lata da Coca. Ela, pelo contrário, parecia mais natural, principalmente me encarando ali, naquela roupa íntima. Ficamos bons segundos nos encarando mudos, e ela quebrou o silêncio de modo pouco ortodoxo:

– Ah… É a calcinha, né… Sabe… Eu adoro o vermelho da Coca-Cola…

Não sei um quê veio-me à cabeça, recordando a imagem do dia: ela não estava estabanada com aquela Coca. Pelo contrário… Aquilo lhe parecia um elixir de juventude, pois o banho que ela tomava dava-lhe um ar de satisfação, como se fosse a maior realização da vida dela: ser banhada pela refrescância.

Um sorriso malicioso e maquiavélico tomava posse daquela mulher. E eu percebi que nada era o que parecia…

O que se sucedeu não foi contado em questão de horas. Possuído de um sentimento animalesco, agarrei-a e a levei ao quarto, sem me importar se realmente era isso o que ela queria – e ela realmente queria! – ela ainda deu uma passada pela sala de jantar e obrear com alguns dos chicotes comigo. O pouco de roupas que tínhamos despareceu num frenesi…

E no âmago daquela noite, ela estava sobre mim, realizando voltejos, num intenso e delicioso vai-e-vem, como nunca experimentara antes. Lógico que tive relacionamentos igualmente fervilhantes em seu transcurso, mas nada que se comparasse a uma única noite calorosa como aquela.

E dormi como um bezerro desmamado, após tanta fornicação e torpor libidinoso.

A manhã seguinte não foi recheada de beijos e abraços: procurei por ela no apartamento inteiro. Só encontrei minha roupa lavada, e em nenhum lugar encontrei as coisas dela. Com certeza, ela havia seguido para a faculdade. Pus-me em ordem, e deixei sob a responsabilidade do apartamento dela a uma vizinha, que me observou:

– Ela te convidou a voltar aqui outras vezes?

– Não, senhora! – respondi.

– Então não volte, a menos que seja convidado…

E percebi que a noite fora forjada desde o primeiro momento… E seria forjada com outra pessoa, quando eu, no ônibus, a vi na calçada, acompanhada de outro rapaz, acenando para mim com uma lata de guaraná na mão, mas não com tanta intimidade como demonstramos entre nós na noite anterior.

E, enquanto o ônibus se distanciava donde ela se encontrava, eu virei para trás: ela havia molhado novamente sua echarpe, agora com o guaraná. Realmente, ela deve amar muito refrigerantes…


Ouvindo... Three Doors Down: When I’m Gone

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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