É Latinha

Taça de Martini Histórias de universidade são sempre mistérios incógnitos. Qualquer coisa pode dar fruto a uma incrível história… Até mesmo um mero refrigerante (os fatos aqui relatados são fictícios).


Passeava pelo campus. Era um calor infernal…

Não resisti ao chamado quase pecaminoso daquela barraquinha de água de coco, que havia visto no caminho para o meu trabalho. Aquele coco verde…. Gelado… Tanto que eu estava escolhendo e levando para casa, mas o homem que ali estava me tirou do transe hipnótico, cobrando o preço daquele coco.

Que decepção… O coco, custando quatro reais, não era para o meu bolso, que só tinha três em notas vivas. Tentei negociar, mas não consegui. E a sede só fazia aumentar.

Ofereceu a mim o gentil senhor da barraquinha, como alternativa, uma daquelas latas de alumínio, contendo Coca-Cola. “Não é uma alternativa mais saudável, confesso” disse ele “mas te garanto que uma Coca-Cola sempre rende histórias interessantes”.

Custei a entender o que ele quis dizer. Segui meu caminho refletindo sobre o assunto. Até me esqueci do calor e da sede, até porque se fosse tomar aquela Coca, mal virava a esquina e ela já tinha esgotado.

Pus-me a caminhar em direção à saída mais próxima, ainda sobre a reflexão que tal vendedor me incitou. Pensei a princípio que fosse uma frase de impacto do produto que influenciou o vendedor. Mas negócio é negócio…

Fui despertado do meu filosofar quando, próximo da saída, encontro aquela moça, loira, olhos azuis, referência de beleza, trajada como uma modelo e uma notável echarpe de fino tecido branca. Que bela! Ela é de minha classe, mas não sei por qual motivo, eu dentre todos os homens da classe nos sentimos desencorajados em conversar com ela. Identificamos ela como a patricinha-mor da nossa turma, apesar dela, estranhamente, não ostentar mais do que uma superioridade em relação aos “normais” da turma, conversar com as amigas (quase) igualmente bonitas como ela, e, incrivelmente, não demonstrar afetos públicos por ninguém – nem mesmo com os maurícios das turmas mais veteranas.

Não esperava mais do que passar batido por ela. Qual foi minha surpresa quando ela me abordou – pela primeira vez! – de olho na minha Coca-Cola! Chocado por dentro por tal abordagem, não pensei duas vezes em oferecer a lata para que ela pudesse tomar.

Jurei, por um instante, ver ela olhar, ao mesmo tempo, com um olho olhar para a lata e com o outro tecer um olhar para mim. Certo é que ela afirmou, radiante:

– Ah… Eu adoro uma Coca…

Do assombro passei ao susto: quando deu dela abrir o lacre, a pressão do refrigerante era tanta que parecia um chafariz. Havia me esquecido que eu, em meu filosofar sobre o que o amigo da banca de bebidas quis dizer com aquela máxima dele, pus-me a andar como um bonachão, com os braços largados a esmo. A Coca-Cola havia viajado numa das mãos, realizando voltejos, num intenso vai-e-vem, pressurizando o líquido mais do que deveria.

Esperando que ela ficasse possuída de raiva, pus-me a tentar, desengonçadamente, limpar a echarpe dela, a peça mais afetada com o banho de refrigerante que ela tomou. Imagine: o primeiro contato que se tem com alguém, acontecer algo assim, tão terrível. Dispus-me a ajudá-la.

Como meu trabalho não era tão longe dali, e lá contava com uma lavanderia, decidi levar, às pressas, a echarpe dela para tentar socorrer aquele artefato. Mecanicamente, trocamos contatos, com o fim de, ainda àquela noite, passar na casa dela para devolver a peça, limpa, nova como era.

Feitas as trocas e a entrega da peça a mim, ela seguiu o seu caminho, usando-se dum paninho para enxugar o resto do vestuário, que era impermeável, enquanto eu, como que se carregasse uma bomba, parti às pressas para meu local de serviço.

Até me esqueci da sede e do calor que ali fazia.


Continua…

Ouvindo... Deep Purple: Anyone’s Daughter

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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