És luz de Eterno Fulgor…

Porque a chama nunca se apagará


A chama não se apagou,
Nem se apagará,
És luz de eterno fulgor,
Candeia

O tempo que o samba viver
O sonho não vai acabar
E ninguém irá esquecer
Candeia

O Sonho Não Acabou
(Luis Carlos da Vila)

O sábado à noite… Quão bom foram aqueles tempos na Lapa…

Me reunia com os amigos, e relembrava dos tempos de Donga, Noel Rosa e do mestre Pixinguinha. Época de Ouro. Havia meu amigo candeeiro, que sempre às seis da tarde – nunca antes, nem depois – vinha com o fogo e o azeite, e iluminava os postes daquele nosso boteco. Tinha sempre um ou outro poste que teimava em acender, mas meu amigo candeeiro, que mestre da iluminação… Sempre resolvia o problema na hora.

Meus colegas viam naquela vida de operário daquela indústria do barão um prato cheio pras nossas rodas de samba. O atraso do Firmino devido à sua mulata-cabocla – e que mulata! – que não o deixava dormir de tanta preocupação com seu suposto envolvimento com Teresa; o pão-com-ovo-e-queijo-provolone de Salazar, que deu pano pra manga com o José-Juvenal, figura temível nos quadros de funcionários; Teodoro e sua relação bígama com Sofia e Beatriz, que rendeu uma briga sem par na porta da empresa, e impediu a entrega dos produtos ao porto. Quão graça achamos as duas, se rolando na estrada de terra em frente à indústria, e o Manoel Germino, o tal barão, quase fazendo o mesmo com nosso bígamo, coitado…

Assim foi até o ano dos meninos londrinos brincarem de consultar o guru indiano. Vossa Excelência deu a botar aos montes os folhagens-musgas, e muitos dos meus colegas partiram em debandada. Uns sumiram, outros se recolheram mais pro interior, alguns até foram pra fora da terra e voltaram quase caducos.

E eu fiquei sozinho… Eu e o candeeiro… O candeeiro que vi, cada dia mais, infeliz por ter menos luzes na região da Lapa para serem ligadas: a Light estava tomando conta do pedaço. As máquinas desgastadas do barão a vapor davam lugar a monstros elétricos modernos, e muitos dos nossos colegas operários passaram à margem social…

E quantas vezes ele teve, mal ficando uma hora junto comigo, a mando dos folhagens-musgas e dos ratos cinzentos a ir para casa? Dez da noite, também eu tinha que silenciar o meu cavaco. Um cavaco que já chorava sozinho para o nada, ecoando fúnebre pelos arcos da Lapa.

Vi os jovens se aglomerando para acabar com essa idade das trevas. Vi mortos e feridos pelo caminho. Vi uma luz no fim do túnel. Vi alguns dos meus velhos colegas da roda de samba voltarem, mas aquele nosso traquejo do cavaco nunca mais foi o mesmo.

Como meus colegas mudaram! Estão tão ou mais lúgubres quanto os outros muitos barões que surgiram naquele período cinzento e pálido.

Meu amigo candeeiro, desgostoso da vida, faleceu há poucos dias. Os colegas de roda de choro são outros, mas eles não possuem mais aquele frescor dos causos da vida.

Impera agora a cultura do medo. Medo da força que se aloja nos morros. Medo da volta dos tempos de outrora. Medo das reviravoltas da vida. Medo da própria barriga vazia…

E a luz do candeeiro, este me pediu que eu sempre a alimentasse, em favor dos boêmios e áureos tempos em que a vida tinha cor e fulgor, melodia e boas histórias para contar.

Eu só tenho um único medo: não conseguir achar mais ninguém que perpetue a luz de meu amigo candeeiro…



Ouvindo... Ana Carolina: Ela É Bamba

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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