O Fardo do Escolado e do Jogador

Em Ibiúna, a aprovação de um projeto de lei que regulamenta a doação de uniformes escolares a crianças de baixa renda cria polêmica e permite-nos repensar qual é o papel do ser humano em nossa sociedade.


Sabemos que o homo sapiens distingue-se dos demais animais por ser um ser social, e sabemos que esse ser social, psicologicamente, para identificar-se com um grupo, abre concessões para munir-se de ideologias e, nos tempos atuais, de marcas – ou para diferenciar-se do tendencioso.

Nesse contexto, basta ao ser humano criar um valor para ser capaz de distinguir todas as implicações que tais adoções ocasionam. Do contrário, o ser não adota a marca: é possuído por ela; passa a ser sua propriedade. Criar um valor exige treino e discernimento, algo que varia muito de pessoa para pessoa, e ocorre normalmente na idade adulta.

A Cultura da Marca cria uma identidade que deve ser observada com extrema cautela. Falamos com Fulano ou Cicrano ou falamos com um Garoto Propaganda de um posto de combustível, empresa de software, fábrica alimentícia ou de uma padaria da esquina? Acredito que os vereadores de Ibiúna não pensaram nisso ao permitir que os estudantes do Fundamental I, de baixa renda, possam ter um uniforme escolar doado, contanto que concedam ser um estandarte propagandístico, mesmo que disfarçados sob o nome de “responsabilidade social”. Crianças estas que, já não basta estarem em contato com um mundo onde impera a política econômica de mercado aberto e o consumismo começa a moldar irrestritamente seus desejos.

A Escola, cujo papel social é desenvolver – não necessariamente de uma maneira aprofundada nas séries iniciais – o senso crítico sobre toda informação que se recebe, percebe e assimila, acaba por ser introduzida nesse mundo cujo valor tem por finalidade discutir: devemos conceder nosso corpo físico como um outdoor ambulante? Nossos uniformes escolares devem assemelhar-se a camisas de time de futebol? As famílias dessas crianças serão pagas para ostentarem uma logomarca, uma vez que acabam por fazer propaganda gratuita?

Crianças ibiunenses: alunos ou propagandeiros?

Tal projeto aprovado [e, infelizmente, não pude reivindicar minha opinião acerca dele em tempo hábil], apesar de restringir que empresas relacionadas à produção de bebidas alcóolicas, cigarros, e partidos políticos apropriem-se de um espaço que está nas costas dos alunos, ainda assim vislumbramos que a Educação em nosso país está cada dia mais subserviente a interesses institucionais e corporativos, e que tal imposição está sendo aceita resignativamente num ambiente onde a consciência cidadã deveria ser prezada.

Em contrapartida, tal projeto se justifica pela impossibilidade socioeconômica de considerável parcela da população – sobretudo a rural – para a aquisição de tais uniformes. Tal fato não descaracteriza a sugestão da iniciativa privada realizar doações, como também torna-se de direito recompensar tal subsídio. No entanto, ao invés de ser sugerido o abatimento tributário, precisava sugerir algo tão gritante? Certamente, acima da “responsabilidade social”, há um conluio implícito de estampar, ideologicamente, através de uma marca, no aluno, nos seus colegas, na família e em todos em seu convívio, toda uma filosofia mercadológica implícita no consumir bens.

Há ainda um agravante: famílias que podem comprar os uniformes de seus filhos achariam desagradável levar de brinde um estandarte propagandístico, e certamente, desejarão levar uma camisa limpa. E, ao ibiunense esclarecido, será fácil perceber, ao olhar para cada aluno das séries iniciais, quem foi o que teve o uniforme comprado ou doado. Implicitamente, uma segregação social surge em foco.

A quem se deparar com esse extenso artigo, um pedido essencial: repasse-o. Tal idéia, propagando-se em outros municípios e estados, irá descaracterizar o já descaracterizado Ensino Público, que, sob o nome de “responsabilidade social”, será minada do objetivo reducionista no qual vemos nossos alunos serem infundidos: treinados para servir ao corporativismo. E, à população de Ibiúna, resta-me desejar boa sorte para que tais estampinhas nesses uniformes-camisas de time não passem de estampinhas.


Terra Preta Piemontense é aluno de Letras da FFLCH da USP e acredita que deve-se agregar ao mundo consumível valores mais humanistas.