CAOS

Comportamentos Aceitacionais Obsessivos

Numa era em que construímos nossas relações à distância, afinidades, disparidades, ou uma simples questão de estatística constituem nossa rede de “amizades”.


[Fonte: Hokahey.org]Basta olharmos os twitters e orkuts de nossa nação tupiniquim, em especial os de jovens com até dezesseis ou dezessete anos, em diversas localidades do nosso país, que estudam em escolas públicas consideradas referência em sua comunidade ou em escolas particulares pertencentes a redes de ensino renomadas para notarmos um comportamento muito comum naqueles que, por invirtudes diversas, não se destacam em alguma área do conhecimento ou da existência em particular: pedidos incessantes de promover seu espaço a desconhecidos, exibição pública da própria imagem – assunto tratado com propriedade por meio deste pensador – e uma cópia pouco original do desejo do “ser popular” americano são as características mais evidentes nestes perfis.

No universo da produção intelectual, cultural, acadêmica e social, costumamos tratar com desdém tais espaços, considerados “lixo informacional”. Eles demonstram, entretanto, o que pouco podemos conceber em inclusão digital em nosso país: o ferramental não é utilizado como ferramenta, e sim como acessório.

Nós, geração pré-consolidação internética, que víamos os computadores como máquinas ferramentais, não soubemos disseminar o real potencial destas últimas à geração de jovens que, ao passo que encontram, por desventuras do sistema educacional, dificuldades em assimilar os processos de alfabetização, são induzidos, pelo utópico sonho da fixação de personalidade e individualidade perante a um mundo – o mundo dos providos de uma máquina de mesa, de colo, ou de um celular esperto do momento – a desenvolver uma linguagem própria, bem como suas próprias visões acerca do que são certos comportamentos sociais do homem contemporâneo, e entre eles inclui-se a amizade.

Se outrora nos víamos infelizes por possuirmos contáveis pessoas do nosso convívio que possamos confiar em toda a nossa vida e à qual chamamos amigos, os jovens podem deparar-se com um sonho ruir, por depararem-se com a adesão ou a deserção de seus seguidores – nota-se que, no âmbito de certas redes sociais, não se fala mais em amigos – de acordo com o que você diz (ou não), o que faz (ou não) ou o que mostra (ou deixa de mostrar). Tal comportamento natural de experimentação, não bem administrado pelos atingidos, leva a um condicionamento comportamental que os conduzem a uma situação desagrável: falar, fazer ou mostrar o que as massas queiram apreciar. Algo muito perigoso, quando se fala em aderir a comportamentos que são contrários às suas ideologias pessoais na vida real, ou que preenchem lacunas pela falta de uma opinião formada a respeito de determinado fator de nossa existência.

Pela busca – que somente certas ciências humanas são capazes de decifrar – da aceitação do “quanto mais, melhor”, pessoas deixam de buscar as afinidades, as disparidades, e numa espécie de sorteio, recrutam numa propaganda viral, assemelhada aos vendedores insistentes de traquitanas porta-a-porta, seguidores nos quais posteriormente não irão envidar esforço nenhum para constituir comunicabilidade. Assim como um artista que congrega fãs, o indivíduo tuiteiro nada mais faz que congregar no seu convívio pessoas que igualmente têm a mesma aspiração: dignas de seu próprio objetivo fútil e pessoal*.

Ser capaz de expressar sinceridade, sem condicionar agradabilidade a todos ou a construir uma identidade díspare à real é uma tarefa deveras difícil a se ensinar a esta nova geração que se constrói diante de uma máquina de mesa, de colo ou um celular esperto do momento, e que faz de tudo para se impor, por meio de escores numéricos cada vez mais altos. Mas tal virose social pode ser consertada no convívio de um meio profissional – real – ou no ingresso num recinto universitário – ou, pior, tal virose pode consolidar-se, dependendo do grau de exposição do indivíduo a convívios populistas e da seriedade acadêmica do ambiente em questão. – E, principalmente, perceber que a transformação pela internet deve ser ferramental, e não acessória, como os jovens de até dezessete anos de escolas públicas reconhecidas ou de instituições particulares ”fazem”.


* Terra Preta Piemontense é bixo de Letras pela USP e conhece a internet desde seu advento comercial no Brasil. Relutou possuir orkut, blógue e tuíter, mas no final acabou por aderir a tudo isso. Possui mais de 4000 seguidores no tuíter, contradizendo todo o seu argumento moralmente a princípio; mas diferentemente das Tessálias da vida, não fica de cada dez pitacos do tuíter, onze clamando por seguidores. Utilizou, sim, algumas vezes, scripts de seguidores, e se arrependeu de todos, por trazerem seguidores amplamente indesejáveis e apelões, como os que tratam de Big Brothers e da Globo Indústria do Mal Organizações.

O referido autor deste blog tem um discreto desejo de conhecer pessoalmente todos os seus mais de 4000 seguidores que valem a pena, nem que leve a vida inteira ou duas encarnações…



Ouvindo... Mudhoney: Mudride

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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