Farsa de Inês Pereira / Auto da Barca do Inferno / Auto da Alma

Por Gil Vicente


Representante maior da literatura renascentista de Portugal antes de Camões, Gil Vicente realizou uma síntese original das tradições medievais do teatro.

Retomou os milagres e mistérios com consciência moral renovadora própria do Renascimento, que em suas comédias revela-se na expressão satírica, de humor saboroso e popular.

Sua irreverência mordaz tem por objeto sobretudo restabelecer a religião e o cumprimento mais restrito de suas normas.

Neste volume apresentamos três trabalhos do autor: Farsa de Inês Pereira (1523), Auto da Barca do Inferno (1517) e Auto da Alma (1508). Obras obrigatórias nos principais vestibulares do país.

Fonte: Divulgação / Ed. Martin Claret


Apesar do Renascimento representar um ensaio da sociedade em obter o livre-arbítrio da pesquisa científica e humanística, descentralizando o papel da Igreja Católica como fonte de dados absoluta de todo o conhecimento, Gil Vicente demonstra um aspecto de retomada da moral cristã, sobretudo nos Autos apresentados acima. No entanto, fica evidente a retomada de valores, pregados em tempos anteriores, como a austeridade da Igreja nos seus atos, onde a defesa incondicional da evangelização pelo mundo e pela fidelidade pessoal aos dogmas eclesiásticos tornam-se mais importantes e compensam qualquer fator alheio ao universo cristão que é pré-julgado e concebido como errante. Devemos, historicamente, lembrar que o período das Cruzadas justificaram a contenção do avanço dos mouros através da expansão da cristandade e do derramamento de sangue, coisa que fere os princípios das religiões abraânicas, detalhe qual foi esquecido naquele período. Auto da Barca do Inferno oferece, num determinado momento de sua evolução cênica, o direito ao Paraíso aos bobos e aos cruzados, reforçando noutros caracteres sociais mais humanísticos a falta de fidelidade à institucionalização eclesiástica e o valor do pecado superando o da virtude – apesar das personagens destinadas ao fogo eterno portarem “podres” sociais e psicológicos predominantes.

A Farsa de Inês Pereira é outra obra que, podemos arriscar, foi fundamental para construir num contexto cronológico e histórico o comportamento feminino ante o machismo e o sentimentalismo, em que a decepção ante homens brutos constrói mulheres que buscam em casamentos com homens parvos a auto-satisfação através da submissão conjugal (expressa devidamente na expressão “Mais vale um burro que me carregue, que um cavalo que me derrube”). Uma prova do comportamento humano da compensação de aspectos ditos inconvenientes pelo mesmo valor a caracteres mais frágeis.

Qual o diferencial?

Criticamente, todas as obras oferecem uma reflexão condizente aos costumes da época, em que os valores materiais são valorizados por uma determinada classe social sobre valores morais – eclesiásticos ou não – demonstrando sua falta de austeridade (no caso da Farsa) ou a não-fidelização aos valores eclesiásticos (nos Autos). A personificação de elementos psicológicos primitivistas em caracteres personificados e em seus humores diretos e crus oferece, historicamente, uma visão deveras incômoda aos costumes que entraram em voga desde então.

Avaliação

O conjunto ganha ponto adicional pela estética de literatura…

starstarstarstar e 1/2



Ouvindo... Ana Carolina: Pra Rua Me Levar

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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