Reflexões do Nosso Cotidiano

Amizade: um artigo de nobre luxo?

Ou um pobre pretexto para barganhas?


Viver de acordo com as diretrizes da sociedade exige que você disponha de certas concessões em sua vida para obter algumas regalias. Diga-se disso nossos jovens que deixam os visuais pouco ortodoxos de liberdade que calças rasgadas e cabelos ouriçados ou tingidos, camisas ditas subversivas, piercings e tatuagens feitas em momentos de fúria comportamental – ou de passionalidade embrionária – para ingressar no mercado de trabalho, em funções deveras burocráticas, que solicitam discrição e uma postura menos chamativa para conduzir sua vida em acordo com os provimentos necessários para suprir as necessidades básicas da vida: comer, vestir-se, possuir moradia e repassar parte dos provimentos próprios ao governo. Com raras exceções de alguns privilegiados, os quais dispõem de reservas capazes de suster algum ferramental de curso para conduzir a vida de forma distinta das pessoas ditas “normais”, todos tem por sina seguir o caminho da padronização. É o chamado amadurecimento social.

Nessa etapa decisiva da vida, na qual o jovem procura, em seu espírito de busca idealista, amadurecer uma opinião complexa; ou conformar-se e resignar-se ante sua impotência individualitária na capacidade de transformar o meio onde vive, um fator determinante em sua vida torna-se crucial para que o então outro dia jovem sonhador torne-se um adulto realizado – ou não – e este atende pelo nome de Amizade. Constitui amizade qualquer relacionamento interpessoal que proporcione cumplicidade, bem-estar, ou apoio moral, de forma unilateral ou bilateral, conforme o comprometimento de ambos com o dito relacionamento. Há, obviamente, níveis de amizade que a torne mais ou menos autêntica ante a descrição aqui apresentada: vão desde as amizades que proporcionam bem-estar num único sentido (cultivar amigos apenas para obter influência, para frequentar eventos de alta estima social, ou um desconhecido desejo de submeter os votos de confiança sem proporcionar resposta à altura) a aquelas dignas de se tornarem romances (um amigo conceder a outro uma oportunidade que, mesmo sendo-lhe digna, satisfaça um sentimento altruísta seu, como abdicar de uma pretendente em favor deste seu amigo, ou indicar o amigo a uma promoção que ele mereça em seu ambiente de trabalho). Saber mensurar cada uma delas demanda esforço e uma análise de diversos fatores, como histórico de vida dos envolvidos, realizações anteriores, expectativas futuras e necessidades do momento. Mas isso, em regra social, é um empreendimento que cabe somente às pessoas diretamente envolvidas com a situação, e a outras autorizadas a tal investigação, quando se fizer necessário.

Uma coisa é certa: ninguém mata pela amizade, nem hoje, nem ontem, nunca amanhã. Do contrário, não expressa amizade. E sim um contrato social. Uma pouco nobre troca de favores. Outra coisa também pode ser observada em amizades que são sinceras: conceder certas ações implica em determinado amadurecimento de vida, obtido naquele momento, ou n’outra etapa anterior da vida. Coisa que pode ser obtida naquela fase dita desregrada, quando o indivíduo, disposto a diferenciar sua atitude dos demais – obviamente, sem ferir as regras do bom senso – verifica nelas uma satisfação pessoal. Assim dito, um rapaz que experimentou as mais diversas estripulias sexuais na mocidade, terá mais facilidade em desprender-se de parceiras (os) em virtude de outras pessoas que visam a mesma “pessoa-alvo”, ao passo que aquele que não se permitiu – ou não quis – realizar-se sexualmente sentir-se-á mais inseguro em desvencilhar-se de pretensões sentimentais, aparentando um egoísmo que possa permitir dizerem a seu respeito: “Ele não permite que nenhuma outra pessoa, senão a ele próprio, possa cobiçar as pessoas que ele deseja.” A amizade sincera é, portanto, fruto de bem-sucedidas realizações que o indivíduo acumula no decorrer da vida.

Tal fato pode ser comprovado em sociedades onde a imagem do eu são demasiado valorizadas, como os Estados Unidos. Pessoas resolvidas com seus monstros de infância, mesmo aparentando ser hostis, são circundadas de pessoas ao seu redor, são requisitadas, inspiram confiança e conseguem cultivar, se não todas, algumas amizades que superem os círculos de determinado ambiente ou distância. Com mais ou menos intensidade, todos no mundo possuem essa característica. Mas isso, contudo, não deve significar jamais que as pessoas atormentadas por qualquer espécie de intempérie social deva ser privado de tão nobre direito. É preciso, acima de tudo, ser amigo – e não cúmplice, como certos costumam acreditar que amizade é acobertamento – na hora em que, aquele que não o merece, possa fortalecer-se para buscar soluções aos seus monstros da maneira menos prejudicial possível a si e a outrem. Como diz o célebre jornalista brasileiro Tuta em sua obra literária, “ninguém faz sucesso sozinho”. Privar-se da amizade é, acima de tudo, proporcionar um meio a menos de visualizar problemas por uma ótica distinta daquela a qual você está acostumado.

Toda amizade implica, logicamente, numa troca. Igual ou desigual, nobre ou falsa: seja uma promessa por uma confissão, uma decisão por uma atitude… Não há calculadora de amizades. Amizade duradoura que se preze não se compra, nem se vende. Do contrário, desfalece conforme o valor é quitado, ou quando não o é. Embora a situação financeira denote uma etapa bem-sucedida na vida da pessoa – seu aspecto financeiro – as máscaras da amizade conveniente caem com o tempo, se a pessoa não sabe, além de expressar sua fortuna, outras características de benvolência e generosidade para com o mundo que lhe proveu tamanho benefício. Gratidão e generosidade tornam-se suportes indispensáveis de uma amizade duradoura.

E, por fim, cabe dizer que amizade não se restringe ao seu semelhante: ela pode ser estendida a qualquer coisa de valor imaterial que há em nossa existência física. O mundo animal e vegetal que nos cerca, os ideais que nos cercam… Há diversos meios de expressar a amizade, e um dos mais importantes é aquele no qual você possa expressar a si mesmo. Embora seja impossível alguém não possuir absolutamente qualquer amizade, se houver, ela pode mudar esta situação passando a ser amiga de si própria. E evitará os maiores problemas da vida com bom senso.


Ouvindo... Oasis: Lyla

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