Momento Poesia

Intenção Mascarada


Fonte: Palavras ao Vento / Blogspot Qu’é isso, coração enfurecido,
Seu carinho despercebido,
A ocasião feita pela falta,
Voz de fúria contralta?

Perdida a confiança
Por um ato impensado,
Fiz de ti minha cofessa Bragança,
A decepção como modo consumado.

Quero saber de ti, safira compulsiva,
Diga o que você quer de mim:
Roubar minhas alegrias,
Meu campo de Jasmim?

Diga, menina madura, vívida,
O  que planejas a meu conceito:
Fazer de mim seu amigo,
Ou um servo a seu contento?


Ouvindo... Sentimiento: Vico C ft Arcangel (RadioActitud.com

Iracema / Cinco Minutos

Por José de Alencar


Machado de Assis referindo-se à Iracema, de José de Alencar, disse: “… espera-se dele outros poemas em prosa. Poema lhe chamamos a este, sem curar de saber se é antes uma lenda, se um romance: o futuro chamar-lhe-á obra-prima.”

Iracema é a expressão máxima do nosso nativismo romântico. Tendo como pano de fundo histórico a fundação do Ceará, o romance conta a história entre o português Martin e a índia Iracema, a “virgem dos lábios de mel”.

José de Alencar é um dos grancdes patriarcas da literatura brasileira, pelo volume e mensagem de sua obra.

Fonte: Divulgação / Ed. Martin Claret


Apesar do período romântico prover material abundante acerca do sentimento mais sublime e mais sensível em nossas vidas, há determinadas obras que se destacam dentre as demais. Sejam elas atemporais ou não, estas obras-primas, além de infundir o amor, o respeito e a paixão pela alma gêmea, expressam facetas incríveis da realidade de seus escritores.

Iracema, em especial nessa dobradinha do escritor na obra, expressa muito bem como um conto descritivo em terceira pessoa pode gerir uma obra fascinante, que recai em algo além da paixão inalcançada / avassaladora, não deixando o foco principal da obra – a paixão propriamente dita – de lado, nem enfatizando-o, fazendo-o tornar uma obra de lugar-comum.

Embora Cinco Minutos possa não aparentar a mesma repercussão que Iracema, condensa um aspecto peculiar: o romance lido numa carta, visto pelo lado masculino e num ambiente aparentemente anti-romântico concebe uma obra que, ao menos não sendo fenomenal, ainda vale ser lida.

Qual o diferencial?

O diferencial de Iracema – nosso foco principal – reside exatamente nesse aspecto naturalista, exaltador da beleza pátria, ao justificar o batismo dos diversos lugares do Ceará, e da característica folclórica que faz dum fato histórico quase emancipar-se como legendário. A mística indígena, o sentimento unificador de pátrias e comunidades diferentes, as minúcias naturais, todos os elementos que permeiam a vida a dois de Martim e Iracema, a sabedoria anciã e o cúmplice companheirismo preenchem todas as lacunas que muitos romances dos tempos modernos deixam abertos nos tempos recentes.

Gostou? Recomendo a leitura. Apesar da riqueza, a presente edição conta com notas do próprio autor, justificando os termos de origem tupi, facilitando a leitura, além da divisão estrutural não permitir que os meandros da história se percam.

Avaliação

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Ouvindo... Nadie Te Amara Como Yo: Dyland & Lenny (RadioActitud.com

Boas festividades a todos. E que venha a segunda fase do FUVEST pra mim…

Por que Nietzsche?

Grosseria Paranóica ou Realidade Concisa?


Toda vez que nos deparamos com a filosofia romântica de Nietzsche, nos perguntamos: que há nela de tão sedutora, apesar de aparentar tanto repúdio, em nós, pessoas sofríveis com aspectos diversos da vida? Será o filósofo alemão uma espécie de confessionário de nossas expectativas humanísticas?

Por que será que, quanto menos ortodoxos somos como pessoas comuns, mais nos identificamos com este pobre sujeito?

Será a misogínia um aspecto pertencente a homens frustrados com o seu relacionamento com o outro sexo?

Porventura a juventude vê a religião como um estrangulamento à livre decisão de conduzir sua vida ordinária conforme o que aprouver em sua consciência?

São tantas perguntas que Nietzsche, estando vivo nos nossos dias, saberia impingir respostas deveras diretas, e até a princípio estúpidas…

A Filosofia, dizem, quase morreu quando Nietzsche pôs-se a pensar sobre ela. Mas, graças a ele, sabemos o quanto maravilhosamente traiçoeiros somos em nossas condutas menos nobres.

Que há de dizer contra esse homem que, no amargar da vida, fez da sua a verdadeira contradição, fragmentada, dissidente, mas sobretudo sincera, no espírito neutro da palavra?

O coração amargurado identifica-se com o pessimismo anticristão deste filósofo, sempre inconformável das expectativas que se gera??

 Fonte: Slow Muse / WordPress

Nota-se que Nietzsche é um filósofo para se perguntar. Nunca para se responder…


Vendo... Futebol Solidário de Mogi-Mirim. [Abraços às organizadoras]

Apesar do teor sinistro deste artigo, desejo boas festividades a todos, mas ainda nos veremos este ano por aqui, quem sabe… smile_teeth

Momento Poesia

Fogo Fátuo


Ardência:Fonte: O Reino Inimaginável do Mr. Jones / Blogspot
Clemente quanto à sua condição,
Presença intensa do seu conflito,
Atenta tanto ao seu desejar.

Que fogo ardente, invisível,
Que em seu vizualizar inócuo, passível,
Não é fato do que eu indico?

Revolve, às sendas,
Condiz com o entrave em lendas,
O que o passo diz em descaso,
Fogo do expirar, ocasião do ocaso?

Aos lábios da jaspe perdida,
Indico uma pista, sujeita a ser seguida:
É este o fogo fátuo que culmina em paixão?


Ouvindo... Beatles: With a Little Help from My Friends

Farsa de Inês Pereira / Auto da Barca do Inferno / Auto da Alma

Por Gil Vicente


Representante maior da literatura renascentista de Portugal antes de Camões, Gil Vicente realizou uma síntese original das tradições medievais do teatro.

Retomou os milagres e mistérios com consciência moral renovadora própria do Renascimento, que em suas comédias revela-se na expressão satírica, de humor saboroso e popular.

Sua irreverência mordaz tem por objeto sobretudo restabelecer a religião e o cumprimento mais restrito de suas normas.

Neste volume apresentamos três trabalhos do autor: Farsa de Inês Pereira (1523), Auto da Barca do Inferno (1517) e Auto da Alma (1508). Obras obrigatórias nos principais vestibulares do país.

Fonte: Divulgação / Ed. Martin Claret


Apesar do Renascimento representar um ensaio da sociedade em obter o livre-arbítrio da pesquisa científica e humanística, descentralizando o papel da Igreja Católica como fonte de dados absoluta de todo o conhecimento, Gil Vicente demonstra um aspecto de retomada da moral cristã, sobretudo nos Autos apresentados acima. No entanto, fica evidente a retomada de valores, pregados em tempos anteriores, como a austeridade da Igreja nos seus atos, onde a defesa incondicional da evangelização pelo mundo e pela fidelidade pessoal aos dogmas eclesiásticos tornam-se mais importantes e compensam qualquer fator alheio ao universo cristão que é pré-julgado e concebido como errante. Devemos, historicamente, lembrar que o período das Cruzadas justificaram a contenção do avanço dos mouros através da expansão da cristandade e do derramamento de sangue, coisa que fere os princípios das religiões abraânicas, detalhe qual foi esquecido naquele período. Auto da Barca do Inferno oferece, num determinado momento de sua evolução cênica, o direito ao Paraíso aos bobos e aos cruzados, reforçando noutros caracteres sociais mais humanísticos a falta de fidelidade à institucionalização eclesiástica e o valor do pecado superando o da virtude – apesar das personagens destinadas ao fogo eterno portarem “podres” sociais e psicológicos predominantes.

A Farsa de Inês Pereira é outra obra que, podemos arriscar, foi fundamental para construir num contexto cronológico e histórico o comportamento feminino ante o machismo e o sentimentalismo, em que a decepção ante homens brutos constrói mulheres que buscam em casamentos com homens parvos a auto-satisfação através da submissão conjugal (expressa devidamente na expressão “Mais vale um burro que me carregue, que um cavalo que me derrube”). Uma prova do comportamento humano da compensação de aspectos ditos inconvenientes pelo mesmo valor a caracteres mais frágeis.

Qual o diferencial?

Criticamente, todas as obras oferecem uma reflexão condizente aos costumes da época, em que os valores materiais são valorizados por uma determinada classe social sobre valores morais – eclesiásticos ou não – demonstrando sua falta de austeridade (no caso da Farsa) ou a não-fidelização aos valores eclesiásticos (nos Autos). A personificação de elementos psicológicos primitivistas em caracteres personificados e em seus humores diretos e crus oferece, historicamente, uma visão deveras incômoda aos costumes que entraram em voga desde então.

Avaliação

O conjunto ganha ponto adicional pela estética de literatura…

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Ouvindo... Ana Carolina: Pra Rua Me Levar

Reflexões do Nosso Cotidiano

Amizade: um artigo de nobre luxo?

Ou um pobre pretexto para barganhas?


Viver de acordo com as diretrizes da sociedade exige que você disponha de certas concessões em sua vida para obter algumas regalias. Diga-se disso nossos jovens que deixam os visuais pouco ortodoxos de liberdade que calças rasgadas e cabelos ouriçados ou tingidos, camisas ditas subversivas, piercings e tatuagens feitas em momentos de fúria comportamental – ou de passionalidade embrionária – para ingressar no mercado de trabalho, em funções deveras burocráticas, que solicitam discrição e uma postura menos chamativa para conduzir sua vida em acordo com os provimentos necessários para suprir as necessidades básicas da vida: comer, vestir-se, possuir moradia e repassar parte dos provimentos próprios ao governo. Com raras exceções de alguns privilegiados, os quais dispõem de reservas capazes de suster algum ferramental de curso para conduzir a vida de forma distinta das pessoas ditas “normais”, todos tem por sina seguir o caminho da padronização. É o chamado amadurecimento social.

Nessa etapa decisiva da vida, na qual o jovem procura, em seu espírito de busca idealista, amadurecer uma opinião complexa; ou conformar-se e resignar-se ante sua impotência individualitária na capacidade de transformar o meio onde vive, um fator determinante em sua vida torna-se crucial para que o então outro dia jovem sonhador torne-se um adulto realizado – ou não – e este atende pelo nome de Amizade. Constitui amizade qualquer relacionamento interpessoal que proporcione cumplicidade, bem-estar, ou apoio moral, de forma unilateral ou bilateral, conforme o comprometimento de ambos com o dito relacionamento. Há, obviamente, níveis de amizade que a torne mais ou menos autêntica ante a descrição aqui apresentada: vão desde as amizades que proporcionam bem-estar num único sentido (cultivar amigos apenas para obter influência, para frequentar eventos de alta estima social, ou um desconhecido desejo de submeter os votos de confiança sem proporcionar resposta à altura) a aquelas dignas de se tornarem romances (um amigo conceder a outro uma oportunidade que, mesmo sendo-lhe digna, satisfaça um sentimento altruísta seu, como abdicar de uma pretendente em favor deste seu amigo, ou indicar o amigo a uma promoção que ele mereça em seu ambiente de trabalho). Saber mensurar cada uma delas demanda esforço e uma análise de diversos fatores, como histórico de vida dos envolvidos, realizações anteriores, expectativas futuras e necessidades do momento. Mas isso, em regra social, é um empreendimento que cabe somente às pessoas diretamente envolvidas com a situação, e a outras autorizadas a tal investigação, quando se fizer necessário.

Uma coisa é certa: ninguém mata pela amizade, nem hoje, nem ontem, nunca amanhã. Do contrário, não expressa amizade. E sim um contrato social. Uma pouco nobre troca de favores. Outra coisa também pode ser observada em amizades que são sinceras: conceder certas ações implica em determinado amadurecimento de vida, obtido naquele momento, ou n’outra etapa anterior da vida. Coisa que pode ser obtida naquela fase dita desregrada, quando o indivíduo, disposto a diferenciar sua atitude dos demais – obviamente, sem ferir as regras do bom senso – verifica nelas uma satisfação pessoal. Assim dito, um rapaz que experimentou as mais diversas estripulias sexuais na mocidade, terá mais facilidade em desprender-se de parceiras (os) em virtude de outras pessoas que visam a mesma “pessoa-alvo”, ao passo que aquele que não se permitiu – ou não quis – realizar-se sexualmente sentir-se-á mais inseguro em desvencilhar-se de pretensões sentimentais, aparentando um egoísmo que possa permitir dizerem a seu respeito: “Ele não permite que nenhuma outra pessoa, senão a ele próprio, possa cobiçar as pessoas que ele deseja.” A amizade sincera é, portanto, fruto de bem-sucedidas realizações que o indivíduo acumula no decorrer da vida.

Tal fato pode ser comprovado em sociedades onde a imagem do eu são demasiado valorizadas, como os Estados Unidos. Pessoas resolvidas com seus monstros de infância, mesmo aparentando ser hostis, são circundadas de pessoas ao seu redor, são requisitadas, inspiram confiança e conseguem cultivar, se não todas, algumas amizades que superem os círculos de determinado ambiente ou distância. Com mais ou menos intensidade, todos no mundo possuem essa característica. Mas isso, contudo, não deve significar jamais que as pessoas atormentadas por qualquer espécie de intempérie social deva ser privado de tão nobre direito. É preciso, acima de tudo, ser amigo – e não cúmplice, como certos costumam acreditar que amizade é acobertamento – na hora em que, aquele que não o merece, possa fortalecer-se para buscar soluções aos seus monstros da maneira menos prejudicial possível a si e a outrem. Como diz o célebre jornalista brasileiro Tuta em sua obra literária, “ninguém faz sucesso sozinho”. Privar-se da amizade é, acima de tudo, proporcionar um meio a menos de visualizar problemas por uma ótica distinta daquela a qual você está acostumado.

Toda amizade implica, logicamente, numa troca. Igual ou desigual, nobre ou falsa: seja uma promessa por uma confissão, uma decisão por uma atitude… Não há calculadora de amizades. Amizade duradoura que se preze não se compra, nem se vende. Do contrário, desfalece conforme o valor é quitado, ou quando não o é. Embora a situação financeira denote uma etapa bem-sucedida na vida da pessoa – seu aspecto financeiro – as máscaras da amizade conveniente caem com o tempo, se a pessoa não sabe, além de expressar sua fortuna, outras características de benvolência e generosidade para com o mundo que lhe proveu tamanho benefício. Gratidão e generosidade tornam-se suportes indispensáveis de uma amizade duradoura.

E, por fim, cabe dizer que amizade não se restringe ao seu semelhante: ela pode ser estendida a qualquer coisa de valor imaterial que há em nossa existência física. O mundo animal e vegetal que nos cerca, os ideais que nos cercam… Há diversos meios de expressar a amizade, e um dos mais importantes é aquele no qual você possa expressar a si mesmo. Embora seja impossível alguém não possuir absolutamente qualquer amizade, se houver, ela pode mudar esta situação passando a ser amiga de si própria. E evitará os maiores problemas da vida com bom senso.


Ouvindo... Oasis: Lyla