Fatos da Realidade

Uma Cidade no Descaso da Política Magnata

Nota de cocheira: este artigo não tem, necessariamente, valor jornalístico. Mas nem por isso deve ser desconsiderado por ausência de tal valor.


Dizem certas Filosofias de Vida que um Princípio Maior designa missões a nós, em forma de desafios, como uma maneira de percebermos nossa utilidade nesta nossa passagem terrena.

Quando adentrei este chão mágico, a famosa terra de Una, assumidamente um forasteiro, perguntava-me: “por que pombas vim parar numa localidade dessas?”, visto que na terra de Agú, do cartão-postal da ponte catenarista, possuiria maior e melhor infra-estrutura para o meu desenvolvimento profissional e acadêmico. Mas o convívio diário com as dificuldades estruturais deste local mostrou-me que a necessidade faz a evolução.

Antes, vivia num ambiente onde tudo era bem encaminhado. E num ambiente assim, acomodamo-nos a ter tudo em nossas mãos e a não nos sentirmos obrigados a buscar coisa alguma em benefício da sociedade, por duas razões bem distintas:

  1. Pelo costume brasileiro de não envolver-se com política após eleições; e
  2. Por todo o básico estar aparentemente bem provido na localidade onde moramos.

Quando há falta de uma destas razões listadas, certos setores da sociedade mobilizam-se frente aos poderes em busca das condições mais favoráveis nas quais o município faz jus. Aqui, neste cantinho de chão, claramente se vê a necessidade disto.

Acompanhando de perto

Recentemente, estive presente na Câmara Municipal de Ibiúna, acompanhando, como entusiasta dos profissionais da Educação, certas necessidades organizacionais das quais o setor reivindica, e que necessitam do aval da maioria – creio eu, absoluta – dos vereadores.

Mas, se a Câmara é um representativo da vontade popular, muito bem colocada seria um momento em que um cidadão ou o representante de uma classe possuísse, aqui, um momento, dentro da sessão, para manifestar uma posição, frente às decisões do legislativo, acerca dos atos destes. No entanto, a possibilidade de uma tribuna popular em horário de sessão não existe. E, segundo o regimento – ou o que costumamos lembrar dele:

  • A assistência deve estar trajada decentemente – bem, é de costume, ou então seria a casa da mãe Joana;
  • A assistência não deve se manifestar, contrária ou favoravelmente, às decisões da bancada, ou a discursos dos vereadores – até que interrupções são chatas, mas os vereadores aqui utilizam-se desta “cortina de ferro” para evitar constrangimentos sobre eles próprios. Decerto, é a mesma coisa que não haver assistência nas sessões…
  • Não se pode interpelar os vereadores – e podem eles interpelar a assistência?
  • Exaltações e incongruências são passíveis de processo criminal – um amparo a já dita “cortina de ferro”…

Pois bem, e mesmo providos destas informações, em decurso das sessões, os vereadores aqui amam deixar a assistência em descrédito, baseando-se no regimento e nestas premissas dantes apresentadas. Pois bem, e como fica a resposta popular, então? Afanada por regimentos? E o direito de resposta e contestação, digno daquilo que chamamos de democracia?

Deixando de lado as questões estruturais da câmara, vamos aos atos do dia (quarta-feira, após o feriado municipal).

Protocolo de praxe

Aqui, percebe-se uma necessidade de se fazer ganhar tempo, perdendo-o. A leitura da ata de sessão anterior se dá muito rapidamente, e pouco clara, para que a assistência mal acompanhe-a. Normalmente, percebemos nas sessões as seguintes sequências: finanças, homenagens, moções e atos de benfeitorias ao município – as necessidades urgentes são estrategicamente decididas no final da sessão, justamente para serem adiadas, ou seja, o prazo máximo à caducagem de votações é cumprido em período máximo mesmo

Em seguida, é lida a pauta da semana, sendo recitadas todas as formalidades ali transcritas – e percebe-se que, dentre os vereadores ali presentes, os mais novatos desenvolvem os talentos menos ativos à causa social: ler atas e pautas. E isso é decidido ao início de todo ano, na escolha do presidente de mesa e dos secretários…

Os atos propriamente ditos

Dentre os mais destacáveis, dos outros dias, percebe-se:

  • Implantação da TV Câmara de Ibiúna via streaming de internet – e se é só ao vivo, como faremos para acessar sessões anteriores, manifestar opinião e comunicarmo-nos com os parlamentares? (a materialização da “cortina de ferro”, por acaso?)
  • Ações de satisfação frente à companhia de água e esgoto para certas localidades isoladas – utilizar-se de tempo e ato legal para cada localidade isolada é perda. Deve-se fazer um conjunto de localidades a serem atendidas, uma única vez, perdendo menos tempo das escassas sessões;
  • Denominação de escolas e logradouros – gasto em publicidade, em emplacamento/tinta, pouco efeito prático em cidades do interior, e um subterfúgio para “imprimir” na cidade as marcas de antepassados da classe política;
  • Moção de apelo, contrária à instalação de usinas hidrelétricas em bacias hidrográficas distantes da cidade – coisa assim deveria ser tratada na assembleia estadual, não acham?
  • Intervenções infraestruturais em terrenos particulares e em locais públicos – trabalho de Secretaria de Obras sendo feito pela câmara. Um meio de dizer que eles fazem o que outros “não fazem”;

No dia presente, fez-se:

  • Prestação de contas do último período: déficit de R$ 6 milhões [Palavras de Jair M.: “Então… Tá difícil.”];
  • Provimento de finanças à ACE Ibiúna de R$ 100 mil, para iluminação natalina – pois bem, os próprios comerciantes não podem desembolsar do próprio para isso. Então, para quê existe associação?

Na tribuna:

  • Discurso “apaziguado” e bajulador de Jamil M., em favor da classe profissional da Educação, solicitando posição da bancada pela aprovação dos projetos envolvendo a pasta de Educação – o do qual “valeu” mais uma leitura do regimento e o descrédito da assistência no dia;
  • Discurso evasivo de Paulo S., que começa tratando de Educação e educador e termina em outras pastas – uma clara falta de foco;
  • Discurso agressivo de Ismael P. [palavras do próprio: “A Saúde anda de mal a pior.”], contra o executivo, e procurando mobilizar os profissionais da Educação para “cobrar” satisfações da saúde – ou seja, designar os outros para fazer o próprio trabalho sujo, e no fim das contas, eximir-se da própria responsabilidade posteriormente;

(…) Mas como a sessão vara até boas horas da noite, o aqui presente não pôde acompanhá-la plenamente. Segundo presentes, o assunto em foco ficou para outra sessão – eles [os vereadores] não sabem que o prazo é máximo, e não mínimo, ou seja, pode ser resolvido no dia até aquela data estipulada.

Modesta opinião

Uma vez que numa sessão pública – veja bem o endosso: pública – há o pleno direito do cidadão – basta ser cidadão envolvido com o município – fazer a opinião pública ser percebida, há o dever dos poderes atribuírem vox populi a aquele que, por buscar se adequar aos horários de uma Câmara – e não o contrário, uma vez que esta só se prontifica a colocar-se em atividade apenas uma vez por semana!? –, às vezes não consegue fazer valer sua opinião por prevalecer a voz do parlamentar?

Então, que dizer das classes sociais públicas, como Educação, Saúde e Cultura, às quais provém resultados mais imediatos à população, possuem opinião mais formada e desenvolvem melhores soluções por conviver com o procedimento final em cada pasta – as classes de aula, as necessidades medicamentosas e terapêuticas e a promoção de uma identidade local, respectivamente – e nos quais, portanto, deveriam receber atenção maior e melhor direcionada do Legislativo, faceta do poderio mais prejudicada no momento nesta gestão?

Mais um motivo para não deixarmos nossos jovens ibiunenses serem cultivados unicamente por idas a baladas e bares e eventos de pouca valia cultural…



Ouvindo... Hoodoo Gurus: Thousand Miles Away

E numa hora dessas, o clube dos Dez está fazendo seu show de peripécias legislativas… Boas ou ruins? Pena não poder acompanhar hoje…

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

%d blogueiros gostam disto: