Carta de Uma Velha Criança

Um discurso é sempre um discurso, mas nunca como esse discurso, que um certo sujeito indignado com o mundo espalhou através destas pequenas palavras.


Tenho, não sei se trinta anos ou cinco… As coisas são tão complicadas…

Meu nome? Não interessa! Que importa pra você saber quem eu sou? E eu sei de quem eu queira que me ouça?

Só sei que esse mundo é complicado.

Tudo começou, acho, na minha escola. Titia Agostina dizia que eu tinha que estudar para ser alguém importante na vida, para não ser um pó, para ser um dos que fazem o futuro da nação.

E eu, como menino educado por papai e mamãe, sempre obedecia. Fazia o alfabeto certinho, as palavras, as continhas, sabia o significado das frases… Que orgulho mamãe e papai tinham quando eu escrevia, em letras bonitas: “Um leão forte pisou numa formiga.” Falavam bem sobre minha criatividade. Horrores, como eles diziam.

Daí, eu me perguntava: “Por que, se fiz algo maravilhoso, eles falavam coisas feias?”

Mamãe – quando tirei o “ma”, perguntando algum tempo depois – explicava pra mim que eu deveria “reservar essa pergunta”. Por acaso, coisa ruim também era receita.

E tentava tirar as dúvidas com papai – tirando o “pa”, na mesma época –, e ele dizia: “Isso é força de expressão, meu pequeno”. Coisa ruim faz musculação?

Procurei o meu professor de terceiro grau (Sim! Eu tenho trinta anos naquele papel verde com minha foto e um carimbo do meu dedão) e perguntei a ele sobre a mesma questão. Ele, em vez de dar um resposta, fez outra pergunta, e ela não era legal.

“Com tanta idade assim, porventura você jamais imaginou sobre os usos semânticos e lógico-criativos das figuras de linguagem?”

Bom…

É claro que sei, em parte.

O que acontece, é que hoje decidi voltar a ter cinco anos de idade, no modo de ver o mundo. E isso aconteceu por uma decisão própria. Nada de frases muito complicadas; nada de “forças de expressão”; nada de “reservar comentários”. Apenas expresso o mundo tal como acredito que todos deveriam se expressar.

Querem saber o porquê?

Por que acredito que, quando dizem que depositam confiança, tempo e dinheiro – chamam isso de investimento – nada mais fazem que nos enganar.

Falam para nós que não podemos atacar, e sempre devemos nos defender; mas quando o fazemos, dizem que estamos atacando. Mais adiante, falam que não devemos nos defender, pois que a lei estará do nosso lado. Alguns dizem que devemos atacar, e depois dizer que nos defendemos…

Quer mais? Falam para nós que mentir é muito feio, mas os médicos escondem, de vez em quando, coisas horríveis sobre nossa saúde, para o nosso próprio bem, e ninguém os condena por isso. E, aproveitando a “força de expressão”, “reservo o comentário” acerca da mentira.

Mais? Falam que a polícia está nas ruas para nos proteger, e que nela podemos confiar; mas em alguns lugares, se você for um pouquinho diferente dos outros – ou igual a muitos, o que é muito mais confuso – seria melhor que você contasse com a proteção dos ladrões, porque ali, eles são os heróis.

Ladrão ser herói? Polícia ser vilã? Isso está de desacordo com o que aprendi na escola…

Aliás, dependendo do que eu desejar na minha vida – hoje – posso precisar de pouco estudo, de muito do meu estudo de escola; mas em alguns casos, posso nem precisar do meu estudo. Posso ser uma negação total e ganhar minha vida. Por sorte, eu não fui assim. Mas há quem seja.

E os professores sempre diziam que estas pessoas jamais teriam espaço na sociedade… E elas tem! Absurdo. E o pior: elas têm mais dinheiro em um dia, do que eu possa ter a vida inteira. Isso dá uma raiva…

Mas isso nem é a pior coisa da história.

Pode ter sido um aluno exemplar, pode ter sido um mau aluno. Aqueles que são eleitos pelo meu papai e pela minha mamãe – e que eu, mesmo que considero a minha idade como de cinco anos, também tenho que votar também –, falam “que vão ajudar-nos a trilhar o caminho do progresso, com ética, transparência e respeito ao povo”. Deles, o costume fala que são “exemplos no qual devemos trilhar”. Deles, as chamadas “mídias”, mostram exatamente o contrário dos outros. E, no fim das contas, dizem que político é ladrão… Ladrão não é herói em alguns lugares?

Diga a alguém do Nordeste ou do Norte que o “Barbudo” ou o “Bigodudo” é um sem valor, um inescrupuloso. Para eles, os dois são heróis. Como disse meu professor, tudo é uma questão relativa.

No fim das contas, essas mentiras da sociedade são tão complicadas. E as verdades são piores nesse sentido. Há nome pra tudo o que se sente, se adoece, pra toda ação, acidente, papel, documento…

E aí, quando eu peguei aquela frase da escola “Um leão forte pisou numa formiga.” no jornal, e ela se refiria ao Imposto de Renda aumentando sua carga tributária nas massas; ou um político influente “enrolou” uma parcela prejudicada da sociedade, falei então para mim mesmo:

– Chega! Que mundo tão confuso!!! Quer saber? Vou voltar a ver o mundo como uma criança de cinco anos.

E depois os mais velhos dizem que devemos ouvir as crianças do nosso país, mas… Quem dá valor para suas sinceras opiniões? Resignemo-nos então com os nossos trinta anos de idade.


Ouvindo... Spice Girls: Stop

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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