Karta Citina: Oito

Capítulo 8


Hamburgo, Norte da Alemanha, 15 de abril de 2024

Por sinal, ainda Hércules e Yüren percorreriam mais uma semana juntos no mesmo grupo maior de comitivas. Hércules fora designado a participar da comitiva constituída de quatrocentas pessoas para auxiliar as forças locais da Suíça e da Áustria, e nesta cidade, cujas edificações mais modernas foram avariadas e, ironicamente, as de arquitetura mais antiga mantiveram-se no lugar, ambos se separariam em definitivo, cada qual a cumprir sua missão.

Imagina-se que tenha sido um sinal dos tempos que recaiu sobre boa parte dos finlandeses naqueles terríveis dias: Yüren se deparara com outra comitiva, esta das Forças da Finlândia, montada de improviso num campo aberto, o qual se olhava para todas as direções, e se encontrava troncos de árvores cortados. Uma prova sucinta de que o campo também fora alvo das ventanias verticais, por serem nítidos neles galhos finos retorcidos, e em certas espécies de eucalipto, um tapete de folhas forrando o chão. No acampamento, diversos jovens e pessoas de meia-idade, cerca de duzentas pessoas, entre homens e mulheres, e até inclusive alguns colegas de universidade de Yüren de Armeggendya; estes, expressamente abalados. Não muito participativo de lamentações, Yüren dispôs-se a, no burburinho, ocultar-se dos seus conhecidos, mas sem deixar de ouvir os seus lamentos.

– Muito triste, bom Jövo… Minha família toda havia decidido permanecer na cidade para a Festa dos Sobreviventes… – dizia uma mulher a um homem, que era vizinho de quadra de Yüren, robusto, cara apinhada e trajando roupas típicas com suspensórios, o que lhe adicionava mais quinze anos aos seus pouco mais trinta. A tal mulher não conseguia conter suas lágrimas, embora soluçasse pouco de modo que em meio a todo ruído da concentração, seu lamento pudesse ser ouvido sem devaneios.

– Mas minha garota… Você tem que entender: como podemos prever ocasiões assim na nossa vida?

– Eu podia ter evitado!!! – exclamou com furor – Se eu insistisse mais fervorosamente para que eles viessem comigo às Américas nesse dia, jamais teríamos nos separado assim desse modo!

– Por favor! Por favor!!! Valha-me Deus!!! Pensa que só a distância poderia resolver o problema!? Não soube, por acaso, minha jovem, que para todo canto sob o sol, aconteceu algo de extraordinário! Vocês poderiam estar lá em Armeggendya, nos Estados Unidos, na Índia, no Japão, Argentina ou no Fim do Mundo… O resultado foi o mesmo!!! Bem meus pais diziam das profecias do fim do mundo: elas só vieram alguns anos atrasadas.

Yüren deixou-se involuntariamente possuir por um pensamento que exaltou-se a transformar-se em palavras.

– Que raios foi esse fim de mundo?

O que não percebeu foram dois colegas de universidade aproximando-se sorrateiramente por um ângulo distinto do da conversa do casal.

– Ah! Eu não acredito!!!

– Eu também não! Cara! Que mundo pequeno! – disse o segundo.

E ao mesmo tempo que absorvia essas exclamações, Yüren tinha sido surpreendido fisicamente com uma massagem de punho vigorosa sobre o cocoruto do primeiro sujeito.

A reação, como podemos imaginar, não foi das melhores, com direito a uma associação dos nomes dos elementos a palavras de baixo calão que pouco acrescentam a esse relato.

– Que é isso, Yüren? Isso são modos de receber Aaron e eu aqui? – disse Epicure, jovem finlandês de nascença, com traços de mouro. A repulsa, natural de Yüren a ambos, talvez tenha surgido de um trote semelhante sofrido quando do seu ingresso (os “amigos” haviam ingressado no ano anterior), e que, apesar da primeira impressão nada amistosa, passaram a concorrer juntos às mesmas atividades culturais da universidade, numa relação estranha de companheirismo e ódio.

– Deixe estar, Epicure! Sabemos que o rabugento aqui ainda deve estar de cabelos de pé por causa do motor fundido no antepenúltimo semestre dele…

– Ah, lembro-me muito bem… Ligação estrela no lugar da de triângulo… Erro fatal num momento desses do curso.

– Sim, eu sei. Aquele famoso projeto das roldanas motorizadas do prof. Richte, mas quem não se confunde com a sincronia de dez pares de motores?

– Seu anta! Eu falo da energização… Não do comando… Ei! Espera, Dr. Sorriso milionário!

Yüren estava de saída, pois o foco da conversa estava naturalmente o excluindo.

– Vão falar comigo ou vão falar de mim? Não vim aqui perder meu tempo…

– Realmente – indagou Aaron, modificando o tom da conversa. – Ninguém aqui está.

– Que há que reúnem todo o povo aqui? Sei que a coisa é séria, e estou preocupado.

– Velho, relaxe, que se o caso for os seus pais, até onde eu saiba eles estão bem. Dia quatro eu os vi saindo da cidade em direção aos Estados Unidos. Seu pai havia fechado um primoroso negócio com um empresário californiano e aproveitou para levar a família para um passeio – disse Epicure. – Acho que sua mãe estava cansada das festividades da Festa dos que Sobreviveram.

– Sobreviveram – completou sarcasticamente Aaron – para morrer de novo.

Resultado desse comentário maldoso tinha sido uma cutucada de cotovelo no peito dele por parte de Epicure.

– Fala assim só porque quase toda a sua família estava fora também.

– Ah, cara. Metade da Finlândia estava fora. Veja só aqui.

– Mas que cargas d’água houve de tão incrível para nos reunirem aqui hoje? – reivindicou Yüren.

– Você veio de Samara. Estou certo? – disse Epicure.

– Com muita dificuldade, por sinal.

– Em algumas pausas, vocês não conseguiram contatar nenhuma emissora?

– Ninguém se ligou. O que se ouvia mais na comitiva eram rádios de comunicação. E o que se via eram estradas barradas a todo o momento. Por vezes, nós tínhamos que abri-las novamente.

– Iiih! Então veja isso! – e Epicure removeu do bolso um desses computadores portáteis, com uma reportagem de um canal de meteorologia canadense.

Os cinco minutos seguintes foram de estarrecer Yüren. Todas as expectativas acerca das coisas dos dias anteriores eram evidentes. Estragos em escala global eram mostrados sem parar. Até os jornalistas perdiam a compostura para noticiar com a famosa credibilidade jornalística de sempre. Meteorologistas – os que obviamente sobreviveram – relataram uma movimentação anormal de massas de ar seco provenientes do círculo polar ártico, cujo epicentro localizava-se a cerca de cem quilômetros ao norte de Armeggendya, a comunidade mais próxima. A massa de ar seco criara uma corrente circulatória de ar frio que subia e ar quente que descia ao solo – fenômeno por sinal muito incomum nos termos da meteorologia – e que ocorria em cadeia. Nos países mais frios, tormentas e nevascas cruéis; nos mais desérticos, tempestades de areia, algumas ainda persistindo até àqueles dias; nos mais tropicais, chuvas torrenciais que inundaram vilarejos e cidades mais baixas e fizeram deslizar encostas em áreas urbanas.

E os cinco minutos de reportagem eram apenas uma mostra de uma matéria que permanecera no ar durante muitos dias.

– A coisa foi tão complicada assim?

– Só se fala nisso em todas as rodas de conversa que ainda existem. As pessoas estão com muito medo. Aqui no sul da Alemanha, lojas foram saqueadas há alguns dias, com o temor de novas tempestades. – adicionou Aaron.

A conversa fora interrompida, bem como todo o burburinho, ao soar uma sirene e um oficial das Forças Militares e outro das Forças Civis comparecerem com megafones. Eram dadas as instruções para que as pessoas procurassem os sargentos, conforme as listas de chamada, para receberem um código; e como eles dirigir-se-iam à Finlândia, por meio de um avião da Força Aérea que os conduziria a Nova Helsinque – ou o que havia sobrado dela.


Osasco, estado de São Paulo

Henvellen estava fixada na cidade, que em sua maior parte, manteve-se intacta. Na realidade, a localidade havia sido pega por uma chuva que havia durado cerca de três horas, e abarrotado os córregos locais. Houve apenas o prejuízo de algumas casas prejudicadamente mais baixas, seja na região central, no extremo norte, em alguns bairros de várzea no sul, e nada mais. São Paulo, diziam muitos, “fora abençoada por um não-sei-quê que protegeu toda a zona urbana da região da capital”. Geologicamente, e por evidências diversas constatadas por especialistas, as serras que circundavam a região metropolitana ofereceram uma “barreira de ventos” que os elevaram conjuntamente com as nuvens de chuva, esparsando-as. Do contrário, o fluxo de água que ocorreria na região ocasionaria cheias em pontos estratégicos a ponto de conceber inundações históricas, tais como nunca antes foram noticiadas ali.

As emissoras de televisão que ali encontravam-se instaladas nos subterrâneos – herança de anos anteriores, quando os medos de uma ascensão de guerras intercontinentais eram inimentes propiciaram a grandes centros de comunicação a fazerem suas instalações jornalísticas por ali – foram algumas das primeiras em solo brasileiro a retomar suas operações. As antenas de transmissão, concentradas no pico do Jaraguá foram a única instrumentação prejudicada severamente pelos fenômenos, mas consertadas com uma relativa rapidez. Todos, inclusive Henvellen, quando em seus lares, buscavam incessantemente notícias através dos noticiários extraordinários acerca de vítimas, os quais se desenrolavam tarde da noite.

Assistir televisão – ainda mais nos tempos atuais onde havia a internet consolidada entre os jovens paulistanos e paulistas – era uma tarefa estressante. O assunto tornara-se pauta unânime dos noticiários, e desconhecia-se, por televisão, outros fatos isolados derivados, como a formação de gangues de saque de grandes centros que agiam esporadicamente em grandes centros comerciais, inclusive os de Osasco. Como medida cautelar, o prefeito local solicitou auxílio governamental urgente para disponibilizar as forças armadas a serviço do comércio municipal. Por pouco, não era decretado o estado de sítio na região.

Nesse ambiente pouco convidativo na cidade, onde as pessoas, sobretudo jovens de moda descolada tinham que constantemente estar munidos de documentação para trafegar entre as várias barreiras do exército para freqüentar as lojas, surgiam grupos de protesto silencioso, meio hippies, meio headbangers, que desenvolviam rodas cancioneiras, revivendo grandes clássicos dos anos noventa e dois mil, os quais os seus pais, osasquenses natos, curtiam em sua época, quando jovens. Havia até um certo patrono para esses grupos: um sujeito que se autodenominava Simpatia – uma alusão ao profeta Gentileza do Rio de Janeiro – e que carregava envolto em uma coberta branca e retalhada com bandanas das bandas dessa ilustre época, inclusive – e principalmente – as de Laíte. Dizem os boatos que Simpatia era um influente empresário de uma das empresas instaladas na cidade no princípio dos anos dez que largou a carreira profissional e caiu na graça dos jovens após testemunhar a chocante chacina que havia executado sua esposa grávida e todos os seus quatro filhos, e quase surtou por causa disso. Encontrando auxílio com alguns conhecidos, que eram envolvidos com as artes na cidade, converteu-se ao budismo e passou a dedicar-se a uma vida de semi-abstinência ao que ele chamava de “corporalidades”. Incentivador do teatro desde que se conheceu como cidadão, fora acolhido como zelador do Centro Teatral de Santo Antônio pelos incentivadores da arte, e assim tornou-se, por convenção, patrimônio imaterial de Osasco.

Henvellen era deste bairro em Osasco, e sempre que as facilidades tecnológicas e de entretenimento a saturavam, buscava no Centro Teatral uma fuga dessa vida de pós-modernidade, através do contato físico com o ser humano pela arte. Como os meios de comunicação estavam pouco atraentes por se tratar exclusivamente do mesmo assunto – “a hecatombe climática” – a freqüência de Henvellen ao Centro era maior. Ali, encontrava todos os seus amigos, também todos os dias. Não era para menos: o estado de urgência decretado na cidade paralisou muitas atividades não-essenciais no município, e outras estavam operando normalmente com pessoal reduzido.

Num desses diversos encontros propostos entre os freqüentadores, o desse dia em específico gerou uma reflexão grande com respeito ao ocorrido.

– Sabe, Hen… Meu pai dizia das profecias do Simpatia, e hoje vejo que ele não deve ser um simples sujeito excêntrico – afirmou um dos colegas.

– É? O que comprova essa sua tese (para você, pois que para mim, Simpatia sempre teve razão)? – replicou.

– De tudo o que Simpatia dizia pelas ruas do centro da cidade, a única coisa com negatividade era a seguinte: “Queridos amigos jovens! Aproveitem a vida em todos os seus prazeres, sejam hedonistas! Não ouçam o papa, pois que ele, que pregou a si o voto da clausura e descontente com isso, quer levar à finitude com ele todos os seus rebanhados! Eis que o congresso da santidade muito bem o sabe, mas não o deseja revelar ao mundo, com medo de que o mundo deixe de obedece-lo… Dois mil e doze passou, mas o colapso ainda está por vir. Das terras longínquas, os deuses vikings armarão as guerras finais e trarão com ela uma torrente que varrerá pela água e pelo vento todos os mirantes e suntuosidades humanas construídas sob o Sol. Escutem, meus pequenos, os avisos de um amigo que outrora confiava no poder do dinheiro e das formalidades, e se querem ser realmente felizes, vão ser! Pois que o dia chegará, poucos serão avisados, e desses, os poucos que sobreviverem serão pessoas puras de alma, que saberão replantar as árvores da sabedoria e cultivar as flores da simpatia. Da simpatia que vos fala.” Entrei em contato com meus pais em Americana ontem, e eles estão estarrecidos com a onda de mortes que presenciam na cidade. Não há outra: eles estarão vindo para Osasco, já que não há muito o que fazer em um lugar de risco.

– Com certeza, acho que eles deram-se conta do simbólico valor dessa mensagem, não é?

– Acertou em cheio, Hen. E outro dia, conversei com um amigo de meu pai que também fez teatro, o Sr. Lucas. Ele enviou a mim e a meu pai um e-mail contendo uma mensagem da Sociedade Européia de Valorização dos Sentimentos.

– O que é isso?

– Uma espécie de rede social de valorização do elemento humano fundado por um húngaro em 2017. Você escreve uma carta motivacional para um grupo de até mil pessoas, de preferência manuscrita, e quem as recebe (espera-se) responde da mesma forma. O Sr. Lucas, filósofo conceituado de nossa cidade, recebeu uma de Portugal tratando-se justamente da hecatombe, e manifestou seu desejo em incluir a comunidade artística osasquense nesse movimento.

– Nossa! Acho incrível. Você manda para mim.

– Eu já até repassei para ti hoje. Não viu seu e-mail?

– Nem tenho coragem de ligar mais aparelhos eletrônicos em casa. A hecatombe climática virou até contato de mensagens instantâneas: está sempre de olho no ato em que você entra para ali se apresentar.

– Já sei. São as newsletters que você assina. Fique fria! Depois das atividades, vou na sua casa e te ensino como filtrá-las e até cancelá-las.


Ouvindo... Calle 13: Pal Norte (Reggaeton Channel)

Capítulo 10 em construção [longa construção]: em breve, mais um de Karta Citina.

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