Cardápio

“Democracia é comida na barriga”

Com estas palavras, o Senado Nacional mostra uma tática grosseira de admitir certas atitudes em seu âmbito e desconsiderar o mínimo que prestígio que deveria procurar se preservar.

Nos últimos anos, presenciamos situações no poder público, notadamente o cenário nacional, escândalos e dissidências que revelam uma face crua do Congresso Nacional. Será um meio de mascarar responsabilidade ao executivo, em favor de uma futura gestão de troca de favores ocultos; ou a simples revelação de um ambiente de trabalho onde motivos fúteis superam antigos ideais pouco praticados em plenitude desde a antiga Grécia e individualidades criam dissensões entre parlamentares?

Sempre existiu incongruências do poder público quanto a sua postura, mas nenhuma se apresentou tão explícita a ponto de uma criança poder entender que tal situação é no mínimo constrangedora, desde que o ex-presidente José Sarney e atual senador tornou-se a bola da vez na berlinda das acusações de gestão irregular – e logicamente, não é o único a virar caricatura à opinião pública. – Nesta nova novela parlamentar, um dos seus integrantes – sr. Wellington Salgado (PMDB/MG) – deferiu uma máxima que mostra o compromisso do Congresso com a população: “E democracia, senador Cristovam [Buarque], é comida na barriga! Eu acredito nisso”.

Com tal pérola, nossos parlamentares permitiram abrir uma brecha para um velho debate, que alimenta esperanças a setores retrógrados da sociedade: a “livre” democracia realmente funciona? Há algum desserviço neste modo de conduzir uma República? Existe um molde político mais eficiente para conduzi-la? E, existindo, na verdade já o presenciamos (opinião dos saudosistas do tempo dos governos militares que os alegraria e muito, e desagradaria expoentes da cultura por temer uma nova represália às manifestações artísticas)? Questões que são capazes de dividir sem critério pessoas pouco preparadas em discutir os rumos do país, caso de muitos dos nossos eleitores e proletários, que constituem o motor de movimentação do nosso país.

Noutras épocas, é sabido que a intervenção militar no país teve apoio popular, por uma série de questões ideológicas que pareceram convenientes a ambas as partes. Mas também é sabido que tal incursão política não foi austera, tendo inclusive interesses internacionais infundidos em sutis ações públicas. Como as manifestações artísticas e humanas representavam um risco à prosperidade desta conduta política, ela se mostrou repressiva, e daí ganhou conotação de vilã. Mas há quem exonere certas características do regime militar, e numa conjuntura como a atual no âmbito político, até a deseje novamente vigendo na cena política brasileira – mesmo sem se importar com respeito a consequências diversas quanto à liberdade de expressão e direitos inalienáveis.

No entanto, a liberdade de expressão no poder público deveria ser contida do mesmo jeito com que as manifestações humanas foram repreendidas em pleno regime. A falta de compromisso com o eleitorado, no mínimo com a recíproca à opinião midiática e popular, demonstra o comprometimento dos parlamentares com a nação, com a sua representatividade e, sobretudo, com cada um dos seus eleitores. E, principalmente, torna explícito a preocupação deles com cada parcela deste sistema chamado Nação Brasileira.

E, no final das contas, se a democracia é um artifício passivo para conduzir a satisfação geral, fica sendo de caráter obrigatório aos livre-pensadores de nossa nação fazer uma releitura de A República de Platão e desta leitura reescrevê-lo para retratar uma nova realidade, uma realidade que não satisfaza apenas as necessidades mais primordiais, mas possa enriquecer a relação cidadão-nação – que seja mais que comida no estômago.



Ouvindo... Soundgarden: Jesus Christ Pose

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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