Carta de Uma Velha Criança

Um discurso é sempre um discurso, mas nunca como esse discurso, que um certo sujeito indignado com o mundo espalhou através destas pequenas palavras.


Tenho, não sei se trinta anos ou cinco… As coisas são tão complicadas…

Meu nome? Não interessa! Que importa pra você saber quem eu sou? E eu sei de quem eu queira que me ouça?

Só sei que esse mundo é complicado.

Tudo começou, acho, na minha escola. Titia Agostina dizia que eu tinha que estudar para ser alguém importante na vida, para não ser um pó, para ser um dos que fazem o futuro da nação.

E eu, como menino educado por papai e mamãe, sempre obedecia. Fazia o alfabeto certinho, as palavras, as continhas, sabia o significado das frases… Que orgulho mamãe e papai tinham quando eu escrevia, em letras bonitas: “Um leão forte pisou numa formiga.” Falavam bem sobre minha criatividade. Horrores, como eles diziam.

Daí, eu me perguntava: “Por que, se fiz algo maravilhoso, eles falavam coisas feias?”

Mamãe – quando tirei o “ma”, perguntando algum tempo depois – explicava pra mim que eu deveria “reservar essa pergunta”. Por acaso, coisa ruim também era receita.

E tentava tirar as dúvidas com papai – tirando o “pa”, na mesma época –, e ele dizia: “Isso é força de expressão, meu pequeno”. Coisa ruim faz musculação?

Procurei o meu professor de terceiro grau (Sim! Eu tenho trinta anos naquele papel verde com minha foto e um carimbo do meu dedão) e perguntei a ele sobre a mesma questão. Ele, em vez de dar um resposta, fez outra pergunta, e ela não era legal.

“Com tanta idade assim, porventura você jamais imaginou sobre os usos semânticos e lógico-criativos das figuras de linguagem?”

Bom…

É claro que sei, em parte.

O que acontece, é que hoje decidi voltar a ter cinco anos de idade, no modo de ver o mundo. E isso aconteceu por uma decisão própria. Nada de frases muito complicadas; nada de “forças de expressão”; nada de “reservar comentários”. Apenas expresso o mundo tal como acredito que todos deveriam se expressar.

Querem saber o porquê?

Por que acredito que, quando dizem que depositam confiança, tempo e dinheiro – chamam isso de investimento – nada mais fazem que nos enganar.

Falam para nós que não podemos atacar, e sempre devemos nos defender; mas quando o fazemos, dizem que estamos atacando. Mais adiante, falam que não devemos nos defender, pois que a lei estará do nosso lado. Alguns dizem que devemos atacar, e depois dizer que nos defendemos…

Quer mais? Falam para nós que mentir é muito feio, mas os médicos escondem, de vez em quando, coisas horríveis sobre nossa saúde, para o nosso próprio bem, e ninguém os condena por isso. E, aproveitando a “força de expressão”, “reservo o comentário” acerca da mentira.

Mais? Falam que a polícia está nas ruas para nos proteger, e que nela podemos confiar; mas em alguns lugares, se você for um pouquinho diferente dos outros – ou igual a muitos, o que é muito mais confuso – seria melhor que você contasse com a proteção dos ladrões, porque ali, eles são os heróis.

Ladrão ser herói? Polícia ser vilã? Isso está de desacordo com o que aprendi na escola…

Aliás, dependendo do que eu desejar na minha vida – hoje – posso precisar de pouco estudo, de muito do meu estudo de escola; mas em alguns casos, posso nem precisar do meu estudo. Posso ser uma negação total e ganhar minha vida. Por sorte, eu não fui assim. Mas há quem seja.

E os professores sempre diziam que estas pessoas jamais teriam espaço na sociedade… E elas tem! Absurdo. E o pior: elas têm mais dinheiro em um dia, do que eu possa ter a vida inteira. Isso dá uma raiva…

Mas isso nem é a pior coisa da história.

Pode ter sido um aluno exemplar, pode ter sido um mau aluno. Aqueles que são eleitos pelo meu papai e pela minha mamãe – e que eu, mesmo que considero a minha idade como de cinco anos, também tenho que votar também –, falam “que vão ajudar-nos a trilhar o caminho do progresso, com ética, transparência e respeito ao povo”. Deles, o costume fala que são “exemplos no qual devemos trilhar”. Deles, as chamadas “mídias”, mostram exatamente o contrário dos outros. E, no fim das contas, dizem que político é ladrão… Ladrão não é herói em alguns lugares?

Diga a alguém do Nordeste ou do Norte que o “Barbudo” ou o “Bigodudo” é um sem valor, um inescrupuloso. Para eles, os dois são heróis. Como disse meu professor, tudo é uma questão relativa.

No fim das contas, essas mentiras da sociedade são tão complicadas. E as verdades são piores nesse sentido. Há nome pra tudo o que se sente, se adoece, pra toda ação, acidente, papel, documento…

E aí, quando eu peguei aquela frase da escola “Um leão forte pisou numa formiga.” no jornal, e ela se refiria ao Imposto de Renda aumentando sua carga tributária nas massas; ou um político influente “enrolou” uma parcela prejudicada da sociedade, falei então para mim mesmo:

– Chega! Que mundo tão confuso!!! Quer saber? Vou voltar a ver o mundo como uma criança de cinco anos.

E depois os mais velhos dizem que devemos ouvir as crianças do nosso país, mas… Quem dá valor para suas sinceras opiniões? Resignemo-nos então com os nossos trinta anos de idade.


Ouvindo... Spice Girls: Stop

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Momento Poesia

À Parte, Entre Nós


Que me diga, à parte, hora ingrata…
Coração não soa, as batidas não fluem,
Que diz de mim, agora, senil condição da neutralidade.

O amor não-correspondido não traz
Mais calor sobre o ventre –
Este gelo a congelar a barriga,
E a desfazer a lógica da situação.

Ai, rimas, que desfazem-se e não se encontram,
Eis que a Mensageira não está mais ali:
– Condição temporã, ou permanente?

Reverbera muito da razão por sobre a emoção.
Abafado o sentimento por aqueles olhos de esmeralda que havia
De sentir, perceber, nutrir, conduzir…
Outras promessas imediatas de fornicação debelaram o fim desta paixão.

“Tempo, tempo, mano velho… Faz você correr macio…”
Dizia a voz suave que outrora, entre nós,
Caro abduzido à minha confissão, era premissa.

Eis que busco, nestes ais e cicatrizes curadas,
A resposta a esta hipotética condição:
Melhor os doídos suspiros dos tempos de paixão,
Ou os desvarios do vazio da neutralidade inescrupulosa?

Perguntas que insistem fazer a cabeça
Sustentar pensamentos inócuos,
Ou apenas um divertimento cômico?

Mas, sugiro, Mensageira: volte!
Diga a mim aquilo que eu queira ouvir,
E desejar aqueles olhos de esmeralda,
De mente, corpo e coração – em cumplicidade!


Ouvindo... DJ Max Graham: Owner Of A Lonely Heart [versus Yes]

Ilíada

Atribuída a Homero


Ilíada é o relato dos episódios da guerra de Tróia, travada entre gregos e troianos. A ação da Ilíada se situa no ano nono depois do começo da guerra.

A epopéia narra um drama humano, o do herói Aquiles, filho da deusa Tétis e do mortal Peleu, rei da Ftia, na Tessália.

O poema é constituído por 15.693 versos, em 24 cantos de extensão variável. A métrica empregada é o hexâmetro, verso tradicional da épica grega.

A autoria do poema é atribuída a Homero, o lendário poeta grego cego, nascido em algum lugar da Jônia em torno de 850 a.C.

Além de símbolo da unidade e do espírito helênico, a Ilíada é fonte de prazer estético e ensinamento moral.

Fonte: Editora Martin Claret


Sempre existem, na história da humanidade, livros-conceito. Ilíada e Odisséia de Homero são alguns deles. Embora a estrutura do livro, que consiste na Epopéia, seja conhecida em tempos anteriores na Mesopotâmia e na Índia, esta, em particular, é a base fundamentada em todo tipo de literatura épica, sobretudo obras dos últimos duzentos anos, que redescobriram nas descrições entusiásticas dos campos de batalha, dos atos dos personagens centrais – os heróis – e das descrições inimaginárias para leigos ou iniciantes da arte da escrita, um nervo central e um alicerce para embasar suas obras (Tolkien e C. S. Lewis que o digam a respeito).

Dispor-se a ler Ilíada exige de quem o aprecia muita atenção a certos detalhes no contexto: além de observar a estética – a qual só pode ser visualizada apenas por quem entende grego – e as tomadas e retomadas constantes de um estado temporal e atemporal da situação no tempo cronológico de leitura e espaço-visual da obra, em que cerca de 30 versículos podem descrever atos de poucos segundos, o léxico amplamente complexo, difícil de conceder imediata absorção do vocabulário da obra, converge o conteúdo na definição já posta nesta resenha. Um livro que sustenta um estado de obra de originalidade, mas que pode convergir em diversos aspectos literários derivados, dos quais muitos são aproveitados hoje em dia neste retorno às raízes de um dos aspectos mais animalescos do ser humano: o apreço pelos combates.

Ademais, perceber todos os perfis desta Epopéia – o parente mais rico das nossas conhecidas novelas – desde a ação e o drama de Aquiles, as volúveis decisões dos deuses, as angústias e expectativas dos postos de combate, a visão dinâmica dos campos de batalha e os discursos de impacto dos combatentes são elementos que garantem que os mais de quinze mil versos que constituem esta obra não sejam maçantes pela repetitividade – embora diversos termos e expressões tornem-se familiarizadas ao final da obra para o leitor.

Enfim, quem quiser buscar uma leitura enriquecedora dentre a literatura “mais-que-clássica”, eis apresentada a obra de ampla suficiência. E um brinde aos olímpios!

Avaliação

starstarstarstarstar



Ouvindo... Electric Light Orchestra: Confusion

Em breve, resenha de Tristão e Isolda.

Corujão, 15 de Agosto de 2009

A Odisséia de Manter-se Acordado


clock 22:47

Início do burburinho. A movimentação aqui está constante. E o escritor aqui vai achar alguma maneira de se entreter plenamente.

Detalhe: tá difícil achar uma imagem que expresse o estado de espírito do ambiente. Na falta de uma melhor…

Bem... Aqui não temos um DJ, mas t´[a valendo pela Jáqs (Fonte: DJ Felipe Lira/Blogspot)Bem, DJ assim não temos aqui, mas tem a Jáqs (Fonte: DJ Felipe Lira/Blogspot)


clock 23:15

Tá gelando uma pro povo… Eu tô fora. Entro na cota dos não-alcoolicos com orgulho.

Vide twitter: http://twitter.com/dubghlasosask/status/3198579343


clock 00:04

Não! Chaves agora nãooooooo! Aquela pancadinha no bujão…

Fonte: Portal 108/Wordpress


clock 01:25

Nada muito a declarar. Vou encerrar este pôste, mas continuar a matutina…

Perfil de Uma Terrinha

Ou Balanço de Terra Preta


Em diversas ocasiões, citei meu inveterado amor pela Cidade da Catenária.

Em todas elas, sempre fui fiel aos meus comentários. Osasco proporciona uma auto-suficiência sem igual.

Mas este cantinho de chão também ganhou o seu espaço neste coração, nascido paulistano.

Não sei se foi o convívio do teatro daqui, ou a oportunidade de servir ao bem público como funcionário de base, mas essa Terra Preta da língua Tupi – o significar de Ibiúna – , distando seus sessenta ou setenta quilômetros daquela “bagunça” urbanóide, tem seus encantos naquilo que há de mais valor numa cidade: seus cidadãos.

  • O time de teatro dos idos de dois mil e oito;
  • O gentil povo do comércio ibiunense;
  • As sempre prestativas pessoas do setor municipal da educação.

Basicamente, estes três elementos são indispensáveis para dizer que eu sou um paulistano de nascença e um ibino-osasquense de coração.

Então, cuidado com o que dizem, que:

Uma vez em Ibiúna, a paixão é irreversível.

Fonte: Sideways - Sorocaba (Blogspot)

E uma irreversibilidade dessas é difícil obter novamente em outro lugar.

Eixo Osasco-Ibiúna: daqui não quero sair mais!


Ouvindo... Pee Wee: Cumbaya (BuenaMusica.com Radio

Depois de uma declaração de amor dessas, quem se segura?

Karta Citina: Oito

Capítulo 8


Hamburgo, Norte da Alemanha, 15 de abril de 2024

Por sinal, ainda Hércules e Yüren percorreriam mais uma semana juntos no mesmo grupo maior de comitivas. Hércules fora designado a participar da comitiva constituída de quatrocentas pessoas para auxiliar as forças locais da Suíça e da Áustria, e nesta cidade, cujas edificações mais modernas foram avariadas e, ironicamente, as de arquitetura mais antiga mantiveram-se no lugar, ambos se separariam em definitivo, cada qual a cumprir sua missão.

Imagina-se que tenha sido um sinal dos tempos que recaiu sobre boa parte dos finlandeses naqueles terríveis dias: Yüren se deparara com outra comitiva, esta das Forças da Finlândia, montada de improviso num campo aberto, o qual se olhava para todas as direções, e se encontrava troncos de árvores cortados. Uma prova sucinta de que o campo também fora alvo das ventanias verticais, por serem nítidos neles galhos finos retorcidos, e em certas espécies de eucalipto, um tapete de folhas forrando o chão. No acampamento, diversos jovens e pessoas de meia-idade, cerca de duzentas pessoas, entre homens e mulheres, e até inclusive alguns colegas de universidade de Yüren de Armeggendya; estes, expressamente abalados. Não muito participativo de lamentações, Yüren dispôs-se a, no burburinho, ocultar-se dos seus conhecidos, mas sem deixar de ouvir os seus lamentos.

– Muito triste, bom Jövo… Minha família toda havia decidido permanecer na cidade para a Festa dos Sobreviventes… – dizia uma mulher a um homem, que era vizinho de quadra de Yüren, robusto, cara apinhada e trajando roupas típicas com suspensórios, o que lhe adicionava mais quinze anos aos seus pouco mais trinta. A tal mulher não conseguia conter suas lágrimas, embora soluçasse pouco de modo que em meio a todo ruído da concentração, seu lamento pudesse ser ouvido sem devaneios.

– Mas minha garota… Você tem que entender: como podemos prever ocasiões assim na nossa vida?

– Eu podia ter evitado!!! – exclamou com furor – Se eu insistisse mais fervorosamente para que eles viessem comigo às Américas nesse dia, jamais teríamos nos separado assim desse modo!

– Por favor! Por favor!!! Valha-me Deus!!! Pensa que só a distância poderia resolver o problema!? Não soube, por acaso, minha jovem, que para todo canto sob o sol, aconteceu algo de extraordinário! Vocês poderiam estar lá em Armeggendya, nos Estados Unidos, na Índia, no Japão, Argentina ou no Fim do Mundo… O resultado foi o mesmo!!! Bem meus pais diziam das profecias do fim do mundo: elas só vieram alguns anos atrasadas.

Yüren deixou-se involuntariamente possuir por um pensamento que exaltou-se a transformar-se em palavras.

– Que raios foi esse fim de mundo?

O que não percebeu foram dois colegas de universidade aproximando-se sorrateiramente por um ângulo distinto do da conversa do casal.

– Ah! Eu não acredito!!!

– Eu também não! Cara! Que mundo pequeno! – disse o segundo.

E ao mesmo tempo que absorvia essas exclamações, Yüren tinha sido surpreendido fisicamente com uma massagem de punho vigorosa sobre o cocoruto do primeiro sujeito.

A reação, como podemos imaginar, não foi das melhores, com direito a uma associação dos nomes dos elementos a palavras de baixo calão que pouco acrescentam a esse relato.

– Que é isso, Yüren? Isso são modos de receber Aaron e eu aqui? – disse Epicure, jovem finlandês de nascença, com traços de mouro. A repulsa, natural de Yüren a ambos, talvez tenha surgido de um trote semelhante sofrido quando do seu ingresso (os “amigos” haviam ingressado no ano anterior), e que, apesar da primeira impressão nada amistosa, passaram a concorrer juntos às mesmas atividades culturais da universidade, numa relação estranha de companheirismo e ódio.

– Deixe estar, Epicure! Sabemos que o rabugento aqui ainda deve estar de cabelos de pé por causa do motor fundido no antepenúltimo semestre dele…

– Ah, lembro-me muito bem… Ligação estrela no lugar da de triângulo… Erro fatal num momento desses do curso.

– Sim, eu sei. Aquele famoso projeto das roldanas motorizadas do prof. Richte, mas quem não se confunde com a sincronia de dez pares de motores?

– Seu anta! Eu falo da energização… Não do comando… Ei! Espera, Dr. Sorriso milionário!

Yüren estava de saída, pois o foco da conversa estava naturalmente o excluindo.

– Vão falar comigo ou vão falar de mim? Não vim aqui perder meu tempo…

– Realmente – indagou Aaron, modificando o tom da conversa. – Ninguém aqui está.

– Que há que reúnem todo o povo aqui? Sei que a coisa é séria, e estou preocupado.

– Velho, relaxe, que se o caso for os seus pais, até onde eu saiba eles estão bem. Dia quatro eu os vi saindo da cidade em direção aos Estados Unidos. Seu pai havia fechado um primoroso negócio com um empresário californiano e aproveitou para levar a família para um passeio – disse Epicure. – Acho que sua mãe estava cansada das festividades da Festa dos que Sobreviveram.

– Sobreviveram – completou sarcasticamente Aaron – para morrer de novo.

Resultado desse comentário maldoso tinha sido uma cutucada de cotovelo no peito dele por parte de Epicure.

– Fala assim só porque quase toda a sua família estava fora também.

– Ah, cara. Metade da Finlândia estava fora. Veja só aqui.

– Mas que cargas d’água houve de tão incrível para nos reunirem aqui hoje? – reivindicou Yüren.

– Você veio de Samara. Estou certo? – disse Epicure.

– Com muita dificuldade, por sinal.

– Em algumas pausas, vocês não conseguiram contatar nenhuma emissora?

– Ninguém se ligou. O que se ouvia mais na comitiva eram rádios de comunicação. E o que se via eram estradas barradas a todo o momento. Por vezes, nós tínhamos que abri-las novamente.

– Iiih! Então veja isso! – e Epicure removeu do bolso um desses computadores portáteis, com uma reportagem de um canal de meteorologia canadense.

Os cinco minutos seguintes foram de estarrecer Yüren. Todas as expectativas acerca das coisas dos dias anteriores eram evidentes. Estragos em escala global eram mostrados sem parar. Até os jornalistas perdiam a compostura para noticiar com a famosa credibilidade jornalística de sempre. Meteorologistas – os que obviamente sobreviveram – relataram uma movimentação anormal de massas de ar seco provenientes do círculo polar ártico, cujo epicentro localizava-se a cerca de cem quilômetros ao norte de Armeggendya, a comunidade mais próxima. A massa de ar seco criara uma corrente circulatória de ar frio que subia e ar quente que descia ao solo – fenômeno por sinal muito incomum nos termos da meteorologia – e que ocorria em cadeia. Nos países mais frios, tormentas e nevascas cruéis; nos mais desérticos, tempestades de areia, algumas ainda persistindo até àqueles dias; nos mais tropicais, chuvas torrenciais que inundaram vilarejos e cidades mais baixas e fizeram deslizar encostas em áreas urbanas.

E os cinco minutos de reportagem eram apenas uma mostra de uma matéria que permanecera no ar durante muitos dias.

– A coisa foi tão complicada assim?

– Só se fala nisso em todas as rodas de conversa que ainda existem. As pessoas estão com muito medo. Aqui no sul da Alemanha, lojas foram saqueadas há alguns dias, com o temor de novas tempestades. – adicionou Aaron.

A conversa fora interrompida, bem como todo o burburinho, ao soar uma sirene e um oficial das Forças Militares e outro das Forças Civis comparecerem com megafones. Eram dadas as instruções para que as pessoas procurassem os sargentos, conforme as listas de chamada, para receberem um código; e como eles dirigir-se-iam à Finlândia, por meio de um avião da Força Aérea que os conduziria a Nova Helsinque – ou o que havia sobrado dela.


Osasco, estado de São Paulo

Henvellen estava fixada na cidade, que em sua maior parte, manteve-se intacta. Na realidade, a localidade havia sido pega por uma chuva que havia durado cerca de três horas, e abarrotado os córregos locais. Houve apenas o prejuízo de algumas casas prejudicadamente mais baixas, seja na região central, no extremo norte, em alguns bairros de várzea no sul, e nada mais. São Paulo, diziam muitos, “fora abençoada por um não-sei-quê que protegeu toda a zona urbana da região da capital”. Geologicamente, e por evidências diversas constatadas por especialistas, as serras que circundavam a região metropolitana ofereceram uma “barreira de ventos” que os elevaram conjuntamente com as nuvens de chuva, esparsando-as. Do contrário, o fluxo de água que ocorreria na região ocasionaria cheias em pontos estratégicos a ponto de conceber inundações históricas, tais como nunca antes foram noticiadas ali.

As emissoras de televisão que ali encontravam-se instaladas nos subterrâneos – herança de anos anteriores, quando os medos de uma ascensão de guerras intercontinentais eram inimentes propiciaram a grandes centros de comunicação a fazerem suas instalações jornalísticas por ali – foram algumas das primeiras em solo brasileiro a retomar suas operações. As antenas de transmissão, concentradas no pico do Jaraguá foram a única instrumentação prejudicada severamente pelos fenômenos, mas consertadas com uma relativa rapidez. Todos, inclusive Henvellen, quando em seus lares, buscavam incessantemente notícias através dos noticiários extraordinários acerca de vítimas, os quais se desenrolavam tarde da noite.

Assistir televisão – ainda mais nos tempos atuais onde havia a internet consolidada entre os jovens paulistanos e paulistas – era uma tarefa estressante. O assunto tornara-se pauta unânime dos noticiários, e desconhecia-se, por televisão, outros fatos isolados derivados, como a formação de gangues de saque de grandes centros que agiam esporadicamente em grandes centros comerciais, inclusive os de Osasco. Como medida cautelar, o prefeito local solicitou auxílio governamental urgente para disponibilizar as forças armadas a serviço do comércio municipal. Por pouco, não era decretado o estado de sítio na região.

Nesse ambiente pouco convidativo na cidade, onde as pessoas, sobretudo jovens de moda descolada tinham que constantemente estar munidos de documentação para trafegar entre as várias barreiras do exército para freqüentar as lojas, surgiam grupos de protesto silencioso, meio hippies, meio headbangers, que desenvolviam rodas cancioneiras, revivendo grandes clássicos dos anos noventa e dois mil, os quais os seus pais, osasquenses natos, curtiam em sua época, quando jovens. Havia até um certo patrono para esses grupos: um sujeito que se autodenominava Simpatia – uma alusão ao profeta Gentileza do Rio de Janeiro – e que carregava envolto em uma coberta branca e retalhada com bandanas das bandas dessa ilustre época, inclusive – e principalmente – as de Laíte. Dizem os boatos que Simpatia era um influente empresário de uma das empresas instaladas na cidade no princípio dos anos dez que largou a carreira profissional e caiu na graça dos jovens após testemunhar a chocante chacina que havia executado sua esposa grávida e todos os seus quatro filhos, e quase surtou por causa disso. Encontrando auxílio com alguns conhecidos, que eram envolvidos com as artes na cidade, converteu-se ao budismo e passou a dedicar-se a uma vida de semi-abstinência ao que ele chamava de “corporalidades”. Incentivador do teatro desde que se conheceu como cidadão, fora acolhido como zelador do Centro Teatral de Santo Antônio pelos incentivadores da arte, e assim tornou-se, por convenção, patrimônio imaterial de Osasco.

Henvellen era deste bairro em Osasco, e sempre que as facilidades tecnológicas e de entretenimento a saturavam, buscava no Centro Teatral uma fuga dessa vida de pós-modernidade, através do contato físico com o ser humano pela arte. Como os meios de comunicação estavam pouco atraentes por se tratar exclusivamente do mesmo assunto – “a hecatombe climática” – a freqüência de Henvellen ao Centro era maior. Ali, encontrava todos os seus amigos, também todos os dias. Não era para menos: o estado de urgência decretado na cidade paralisou muitas atividades não-essenciais no município, e outras estavam operando normalmente com pessoal reduzido.

Num desses diversos encontros propostos entre os freqüentadores, o desse dia em específico gerou uma reflexão grande com respeito ao ocorrido.

– Sabe, Hen… Meu pai dizia das profecias do Simpatia, e hoje vejo que ele não deve ser um simples sujeito excêntrico – afirmou um dos colegas.

– É? O que comprova essa sua tese (para você, pois que para mim, Simpatia sempre teve razão)? – replicou.

– De tudo o que Simpatia dizia pelas ruas do centro da cidade, a única coisa com negatividade era a seguinte: “Queridos amigos jovens! Aproveitem a vida em todos os seus prazeres, sejam hedonistas! Não ouçam o papa, pois que ele, que pregou a si o voto da clausura e descontente com isso, quer levar à finitude com ele todos os seus rebanhados! Eis que o congresso da santidade muito bem o sabe, mas não o deseja revelar ao mundo, com medo de que o mundo deixe de obedece-lo… Dois mil e doze passou, mas o colapso ainda está por vir. Das terras longínquas, os deuses vikings armarão as guerras finais e trarão com ela uma torrente que varrerá pela água e pelo vento todos os mirantes e suntuosidades humanas construídas sob o Sol. Escutem, meus pequenos, os avisos de um amigo que outrora confiava no poder do dinheiro e das formalidades, e se querem ser realmente felizes, vão ser! Pois que o dia chegará, poucos serão avisados, e desses, os poucos que sobreviverem serão pessoas puras de alma, que saberão replantar as árvores da sabedoria e cultivar as flores da simpatia. Da simpatia que vos fala.” Entrei em contato com meus pais em Americana ontem, e eles estão estarrecidos com a onda de mortes que presenciam na cidade. Não há outra: eles estarão vindo para Osasco, já que não há muito o que fazer em um lugar de risco.

– Com certeza, acho que eles deram-se conta do simbólico valor dessa mensagem, não é?

– Acertou em cheio, Hen. E outro dia, conversei com um amigo de meu pai que também fez teatro, o Sr. Lucas. Ele enviou a mim e a meu pai um e-mail contendo uma mensagem da Sociedade Européia de Valorização dos Sentimentos.

– O que é isso?

– Uma espécie de rede social de valorização do elemento humano fundado por um húngaro em 2017. Você escreve uma carta motivacional para um grupo de até mil pessoas, de preferência manuscrita, e quem as recebe (espera-se) responde da mesma forma. O Sr. Lucas, filósofo conceituado de nossa cidade, recebeu uma de Portugal tratando-se justamente da hecatombe, e manifestou seu desejo em incluir a comunidade artística osasquense nesse movimento.

– Nossa! Acho incrível. Você manda para mim.

– Eu já até repassei para ti hoje. Não viu seu e-mail?

– Nem tenho coragem de ligar mais aparelhos eletrônicos em casa. A hecatombe climática virou até contato de mensagens instantâneas: está sempre de olho no ato em que você entra para ali se apresentar.

– Já sei. São as newsletters que você assina. Fique fria! Depois das atividades, vou na sua casa e te ensino como filtrá-las e até cancelá-las.


Ouvindo... Calle 13: Pal Norte (Reggaeton Channel)

Capítulo 10 em construção [longa construção]: em breve, mais um de Karta Citina.

Cardápio

“Democracia é comida na barriga”

Com estas palavras, o Senado Nacional mostra uma tática grosseira de admitir certas atitudes em seu âmbito e desconsiderar o mínimo que prestígio que deveria procurar se preservar.

Nos últimos anos, presenciamos situações no poder público, notadamente o cenário nacional, escândalos e dissidências que revelam uma face crua do Congresso Nacional. Será um meio de mascarar responsabilidade ao executivo, em favor de uma futura gestão de troca de favores ocultos; ou a simples revelação de um ambiente de trabalho onde motivos fúteis superam antigos ideais pouco praticados em plenitude desde a antiga Grécia e individualidades criam dissensões entre parlamentares?

Sempre existiu incongruências do poder público quanto a sua postura, mas nenhuma se apresentou tão explícita a ponto de uma criança poder entender que tal situação é no mínimo constrangedora, desde que o ex-presidente José Sarney e atual senador tornou-se a bola da vez na berlinda das acusações de gestão irregular – e logicamente, não é o único a virar caricatura à opinião pública. – Nesta nova novela parlamentar, um dos seus integrantes – sr. Wellington Salgado (PMDB/MG) – deferiu uma máxima que mostra o compromisso do Congresso com a população: “E democracia, senador Cristovam [Buarque], é comida na barriga! Eu acredito nisso”.

Com tal pérola, nossos parlamentares permitiram abrir uma brecha para um velho debate, que alimenta esperanças a setores retrógrados da sociedade: a “livre” democracia realmente funciona? Há algum desserviço neste modo de conduzir uma República? Existe um molde político mais eficiente para conduzi-la? E, existindo, na verdade já o presenciamos (opinião dos saudosistas do tempo dos governos militares que os alegraria e muito, e desagradaria expoentes da cultura por temer uma nova represália às manifestações artísticas)? Questões que são capazes de dividir sem critério pessoas pouco preparadas em discutir os rumos do país, caso de muitos dos nossos eleitores e proletários, que constituem o motor de movimentação do nosso país.

Noutras épocas, é sabido que a intervenção militar no país teve apoio popular, por uma série de questões ideológicas que pareceram convenientes a ambas as partes. Mas também é sabido que tal incursão política não foi austera, tendo inclusive interesses internacionais infundidos em sutis ações públicas. Como as manifestações artísticas e humanas representavam um risco à prosperidade desta conduta política, ela se mostrou repressiva, e daí ganhou conotação de vilã. Mas há quem exonere certas características do regime militar, e numa conjuntura como a atual no âmbito político, até a deseje novamente vigendo na cena política brasileira – mesmo sem se importar com respeito a consequências diversas quanto à liberdade de expressão e direitos inalienáveis.

No entanto, a liberdade de expressão no poder público deveria ser contida do mesmo jeito com que as manifestações humanas foram repreendidas em pleno regime. A falta de compromisso com o eleitorado, no mínimo com a recíproca à opinião midiática e popular, demonstra o comprometimento dos parlamentares com a nação, com a sua representatividade e, sobretudo, com cada um dos seus eleitores. E, principalmente, torna explícito a preocupação deles com cada parcela deste sistema chamado Nação Brasileira.

E, no final das contas, se a democracia é um artifício passivo para conduzir a satisfação geral, fica sendo de caráter obrigatório aos livre-pensadores de nossa nação fazer uma releitura de A República de Platão e desta leitura reescrevê-lo para retratar uma nova realidade, uma realidade que não satisfaza apenas as necessidades mais primordiais, mas possa enriquecer a relação cidadão-nação – que seja mais que comida no estômago.



Ouvindo... Soundgarden: Jesus Christ Pose