Causos de Longinqual de Preta Terra

Os Sonhos de Evaldo e de Laura

Evaldo é outra das figuras mais divertidas naquela modesta, porém cultural, comunidade do distrito residencial dos Aguaguapes, ao norte da cidade. Sempre fiel à sua Larissa, jovem cantora da orquestra vocal longinquense e cintiniana, vê-se por meio da ocasião do destino, imerso num desejo do subconsciente. Laura, promissora gerente de uma loja de discos, lauriana (por quê, hein?) e de estilo extravagante, também se verá numa mesma situação.


Evaldo é um dos sujeitos mais corretos viventes na cidade. Nunca se meteu em confusões quaisquer, nem fez atos esdrúxulos pela região. Só não era beato por uma falta de compomisso real com qualquer comunidade religiosa. Namorado há dois anos de Larissa, faz da sua vida uma constante dedicação ao seu amor. Compra bombons, flores, álbuns de música romântica, essas coisas de namorados corriqueiras.

Entre a classe dos taxistas, não há namoro mais aprovado que esse. Larissa, uma jovem espirituosa em todas as suas atitudes, voz aveludada, cabelos loiros e cacheados, cantora de um dos crecentes grupos de música local, que vivia com sua família numa das casas mais bonitas da região Central, era xodó de todo o comércio local. Todos, garantidamente, torciam para que na vida dela, que sempre recusara uma abertura a um romance, houvesse alguém que pudesse quebrantar o gelo que ela se proporcionava. E o jovem Evaldo correspondia às expectativas de todos: dela e dos que costumavam xeretar a vida deles.

Laura, por sua vez, alheia a tudo isso – ou talvez nem tanto – era uma mulher de trinta anos que conduzia com a prudência de uma mulher determinada e consciente de suas decisões a sua vida e sua empresa, a loja Cassaíras de discos e estúdio musical, a mais frequentada em Longinqual. Dando termo à classificação de laurianas, que se referem a mulheres decididas e com estilo diferenciado de se vestir, ou mais clássico ou mais contemporâneo, Laura era referência de moda entre as moças mais roqueiras da cidade, com seus cabelos tingidos de azul com luzes violetas e seu vestuário chamativo pelas cores e texturas lisas. Também tem a estima dos locais, por se tratar, também, de uma mulher culta e referência de opinião, sendo clara a influência dela pela cidade na não-reeleição de Jarbas Magalhães, cujos resultados, sabemos, foi em vão. Mas, mesmo assim, Laura foi determinada em levar sua bandeira até onde foi possível, dentro da legalidade. Eis, adiante, uma representação do imaginário de um simples contador sobre tal figura, na realidade, muito mais bonita do que se possa representar.

O que essas três pessoas distintas tem a ver entre si? Calma leitores dos contos de nossa modesta cidade… Digamos que a Cassaíras constitui o elo de ligação entre os três personagens do nosso causo. Aproximava-se o costumeiro 12 de junho, e Evaldo, seguindo a cartilha dos homens, decidira adquirir uma nova coletânea de álbuns românticos para presenteá-la – afinal, Larissa ama música – e a tal loja e estúdio era seu ponto preferido para isso.

Pois bem, estava nosso estimado jovem escolhendo sua coleção de presente quando três arruaceiros que envergonhavam o grupo punk por estarem vestidos como tais, decidiram caçoar um local que entrara na loja, procurando com os vendedores álbuns de forró. Os três elementos fizeram disso motivo de chacota sobre o sujeito. Evaldo, prestativo, sai em socorro instintivamente ao agredido, no meio do burburinho no saguão da loja. A algazarra rendera, por sorte, poucos ferimentos e os arruaceiros presos, pois a força policial local estava por perto; mas alguns dos poucos ferimentos foram atordoantes para Evaldo, ao qual foi prontamente atendido por Laura. A prestatividade foi tamanha que esta havia cedido a coletânea desejada por Evaldo como cortesia em favor do ato de coragem.

Obviamente, as raposas matreiras que são as beatas do Centro incutiram boatos estúpidos especulando um relacionamento entre Evaldo e Laura. É claro que os taxistas da praça principal não assentiram em concubinar com essa opinião, visto que eles possuíam nítido senso de opinião. Mas, conforme as línguas se espalhavam entre os mais populares e menos desprovidos de senso crítico, e estas chegavam aos ouvidos da Larissa, esta ficava mais inquieta quanto ao Evaldo. As cintinianas, por definição, são mulheres extremamente românticas e idealizadoras, porém um pouco ciumentas, principalmente quando são as últimas a saber "alguma coisa referente a elas".

Até que, no dia 11 de junho pela noite, enquanto dormia com Larissa na casa dele em Aguaguapes, teve um sonho muito forte. Um sonho que Larissa, num momento ocasional de vigília, havia constatado, e que rendeu, no dia seguinte, de sua partida da cidade para uma região distante dali. Não levou a coletânea: pelo contrário, havia quebrado os álbuns.

Quando, preocupado no outro dia, Evaldo foi buscar informações com os familiares dela, a recepção foi hostil, com direito a tiros de sal de espingarda.

– Demorou para a família dela desmascarar o canalha que frequentava sua vida – disse uma beata a um taxista da praça.

– Ainda mais quando uma santa do pau oco diploma esse canalha sem o seu consentimento – ironizou o taxista em resposta.

Mas afinal, que houvera aquela noite?

Bem, sabemos que, até hoje, Evaldo continua frequentando a Cassaíras, até mais que antes após o êxodo de Larissa. Segundo fatos verídicos, dois dias depois das ocorrências decritas acima, Evaldo foi ter com Laura. Ambos começaram uma conversa, em meio a assuntos musicais.

– Sabe, meu rapaz, tive um sonho estranho há alguns dias?

– Verdade? – impressionou-se Evaldo – Eu também… Sonhei que estava no meu quarto com uma mulher estonteante, que estava deitada sobre mim, e ao levantar-se para falar comigo, disse "Positivo ou só sacanagem?", e depois fugiu da minha presença, e eu a procurava. Então acho que acordei. E você?

– Nada não – respondeu ela, confusa. – Só sonhei que conversava com uma pessoa, e esta dizia "O que você desejar", e então acordei.

E ouviu-se uma risada pela loja.

O resto, meus amigos, é só especulação, como já disse. Cada um deduza a seu próprio modo, e mantenha a discrição.


Ouvindo... The Cult: Revolution

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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