Karta Citina: Sete


Norte de Samara

Assim que Yüren e Hércules chegaram ao quartel-general da instituição, o jovem finlandês tomou imediatamente a iniciativa de informar-se sobre as pessoas que naquela região haviam sofrido com as tempestades. Descrevendo detalhadamente, e fazendo-se valer de uma foto em um de seus aparelhos de navegação global da Bárbara, obteve dos bancos de dados modernos da instituição, que agora tinha atuação global para atuar em desastres naturais com uma eficácia assaz incrível, colaborando com forças locais de resgate e auxílio, nenhuma informação.

O atendente dispôs-se a auxiliar na busca a partir de algum instrumento que ela pudesse possuir que respondesse a um sinal de satélite, como um celular pessoal, um navegador global ou outro semelhante. Repassando as informações ao atendente, verificou-se – e nós sabemos muito bem de antemão – que Bárbara Svenska se encontrava (ou pelo menos o aparelho de navegação dela) na região costeira da Bélgica.

Yüren estranhou a informação que lhe foi dada: Bárbara Svenska nunca teve necessidade de estar por lá. E lhe veio à mente a possibilidade de o vôo que a conduzia tivesse estacionado pelas ocasiões das últimas horas. E sugeriu que fosse tentado um contato com ela que – como também o sabemos – não foi possível ser executado.

Uma leve aflição havia tomado conta do pouco ortodoxo coração do jovem Schuzkennott. E, já possuído por um sentimento irracional, exigiu, de modo um pouco mais intempestivo, detalhes sobre o roteiro que ela havia percorrido nas últimas horas. O atendente, intimidado, procurou responder com a maior calma:

– Preciso então que você preencha esse formulário, com seus dados de contato. Você terá que entender que o processo pode demorar até mesmo dias, pois envolve obter permissões de operadoras, casar dados de agendas, para comprovarmos e justificarmos essa invasão de privacidade…

– Como assim, justificar? Veja as coisas lá fora! E não me engane que sei que a Europa toda estava assim! Numa hora dessas, não existe o porquê em privacidade!

– Desculpe, senhor, mas são procedimentos. A instituição preza pela sua idoneidade e não deve entender que ela é um meio de traçar o que o indivíduo fez ou deixou de fazer…

– Sinto muito digo eu! – exasperou Yüren, de forma que os presentes ouviram com claridade – Então a instituição é mais importante que as vidas que ela diz salvar? Ora!!! Faça-me o favor…

Hércules interveio a fim de evitar que uma discussão maior se aglutinasse no recinto.

– Yüren, por favor. Não é a hora nem o momento para ocasionar dissidências assim – e voltando para o atendente. – Desculpe-me o jovem. Ele passou por uma experiência desagradável na floresta.

E conduziu Yüren até a uma área externa, solicitando-o generosamente que cumprisse os procedimentos, avisando-o do almoço que a instituição estava cedendo aos presentes, e pedindo-lhe que ali comparecesse. Mesmo a contragosto, Yüren assentiu com as recomendações do companheiro, e ambos foram almoçar após o preenchimento do formulário.

E, enquanto o almoço ocorria, um coordenador da instituição dirigiu-se aos presentes, solicitando que após a refeição, fossem estes ao auditório, para uma reunião emergencial.

E, organizadamente, após o almoço, assim foi feito. E em língua local e em inglês, os coordenadores locais convocaram os membros para comporem o quadro de voluntários para a missão de auxílio em localidades remotas na Europa central, assoladas pelos temporais ocorridos.

Yüren ficou pensando sobre a possibilidade de Bárbara ainda estar em viagem, e esta ter sido interrompida da forma mais bruta imaginável pelo mesmo temporal. Mas suas suspeitas só seriam confirmadas após resposta da instituição, uma vez que Yüren se permitiu a aprender a confiar somente em fatos confirmados e evidenciados. E, imerso nesse pensamento, não percebeu que a reunião havia cessado, e Hércules o cutucava insistentemente.

– Yüren. O rapaz ali deseja falar com você.

E indicou os guichês em que os membros recebiam as atribuições e identificações, às quais designavam seus postos de trabalho. Estes se dirigiam ao pátio da entidade em grupos pré-estabelecidos, onde caminhões do exército russo se mobilizavam para recolhê-los para as regiões que necessitavam, e para as zonas de fronteira, àqueles que tinham como destino outras nações.

A princípio, Yüren estranhou a convocação:

– Hércules. Não sou associado a Médicos, e você sabe disso.

– Sim, mas tomei a liberdade de comentar sobre você para eles, pois aqui entre nós você é um estranho, e eles estão te chamando para uma conversa – respondeu Hércules.

E, buscando um dos coordenadores ali presentes, apresentou-se.

– Sr. Yüren Schuzkennott. Você é finlandês, ao que me consta nas informações do seu amigo? – indagou este ao nosso jovem.

– Sim. Mas o que tenho a ver com a entidade? Não sou membro.

– Sim, sabemos. Mas você terá que vir conosco na delegação que se dirige à Escandinávia. As forças armadas finlandesas estão convocando todos os cidadãos para uma força-tarefa, pela ONU, em caráter emergencial, e você está nesse perfil de admissão.


No Brasil, o trio de amigas, conduzido por um veículo pesado do exército, estava indo em direção a São Paulo. Mas apesar da prestatividade do exército em levar os moradores de outras localidades o mais depressa possível, diversos empecilhos ao longo das diversas estradas que estes ingressavam, como barrancos desmoronando, troncos de árvores lançados sobre as vias, poças de água intransitáveis…

A movimentação frenética de veículos diversos, nas duas direções de muitas vias rodoviárias denotava que havia tanto preocupações com parentes quanto pessoas com medo de permanecer nos locais de origem, refugiando-se em outras localidades.

Muito preocupadas com as situações enfrentadas, consultaram um dos cabos as condições de São Paulo. Este, para alívio do trio, lhes respondeu:

– São Paulo, incrivelmente, só sofreu com as chuvas um pouco fortes, mas as ventanias que atingiram o país forram barradas por uma cortina natural chamada serra da Cantareira.

– Um segundo, senhor: você disse… O país? – questionou Henvellen.

– É… Algo incrível e ao mesmo tempo terrível. Já ouvi falar de desastres assim em minha infância, quando morava no sul do Brasil, provenientes de massas de ar frio. Mas o serviço meteorológico brasileiro constatou um fenômeno estranho, proveniente do norte.

– Como assim, do norte?

– Eu não tenho melhores informações, mas ao que me consta, uma cortina de temporais veio do Atlântico Norte e varreu as Américas como se fosse uma bomba nuclear de grandes proporções. Tempestades de areia, granizo, chuva forte e ventanias, como já foi dito, foram eventos observados só aqui no Brasil, conforme o que podemos constatar via rádio com as forças armadas diversas.

As preocupações se multiplicaram. Além de Janeny na Amazônia, havia familiares que não moravam na região de São Paulo. Alguns dos tios e primos de Henvellen viviam no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Muitos dos parentes de Sioue viviam no interior do estado paulista. Somente Ângela pôde assegurar que não só os seus pais e parentes próximos, mas toda a sua comunidade de imigrantes da Haamuskhalia vivia na região da capital, e, provavelmente, a sorte da natureza parecia ter sorrido para a megalópole mais dinâmica da América do Sul.

E, vencendo os obstáculos, um por um, com auxílio de diversas máquinas veiculares, e um pouco de espírito aventureiro, os moradores paulistanos, embrenhando-se pelo principal tronco viário que liga São Paulo a Paraná, levaram cerca de dois dias a atravessar todo o caminho até a região metropolitana, onde cada um pôde assumir sua própria vida.

Mas, condolizados pelos fatos ocorridos, muitos dos paulistas daquela região e paulistanos empenharam-se em serem voluntários de instituições diversas e da força civil especial, sempre acionada em casos de gravidade alta. No entanto, mesmo a alta disponibilidade de voluntários, o número era insuficiente para formar equipes de apoio que pudessem complementar forças locais de resgate e apoio nos incontáveis locais onde os prejuízos foram evidentes. O quadro era sério: a situação enfrentada pelas forças de apoio tinha gravidade altíssima. Na verdade, estava num nível nunca antes imaginado.

Henvellen, das três, foi a única que não se encorajou a tornar-se voluntária nas forças-tarefa Brasil afora, preferindo permanecer em Osasco, a esperar notícias dos seus familiares. Sioue e Ângela não hesitaram em se voluntariar para os trabalhos, e em três dias após a chegada em São Paulo, estavam partindo para as missões na região do Vale do Parnaíba, junto com o exército.


Ouvindo... Judas Priest: Hell Patrol

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