Karta Citina: Seis


Norte de Samara, manhã de 7 de abril de 2024

Após assegurarem sua proteção nos redutos de emergência pela noite anterior, e após um árduo trabalho por parte dos monitores em obter contato com qualquer serviço de meteorologia, seja ele pelos meios ditos corriqueiros – o que foi em vão – e por métodos mais tradicionais, como a radiodifusão analógica. Neste, perceberam uma predisposição assaz enorme doutros operadores desses equipamentos, por certo antigos, dado os fatos que ocorreriam nas últimas horas.

Primeiro, fez-se da necessidade de assegurar que outras tempestades não seriam mais evidenciadas, o que foi elucidado como fato positivo: serviços de meteorologia remanescentes comprovaram que não surgiriam mais quaisquer intempéries naquela região durante um longo período de tempo, ao alcance dos próximos quatro dias.

Em seguida, fez-se a questão de verificar o fato ocorrido. Surpreenderam-se com as informações obtidas: apesar das dissensões entre os diversos operadores, uma coisa observava-se constantemente quanto ao dia passado. Tempestades fortes assolaram toda a Europa e a Ásia Central, como que se uma bomba fosse “lançada” em um determinado lugar, e seus efeitos fossem irradiados em uma amplitude inimaginável.

Fazendo questão de saber o epicentro desse fenômeno, descobririam que ele ocorrera na região de Armeggendya na Finlândia, e dali se espalhara fortemente por toda a extensão da Escandinávia, alcançando primeiro a Europa ocidental e seguindo por toda a extensão daqueles que, sobrevivendo, colocaram seus velhos comunicadores à disposição.

E, conforme as comunicações ocorriam, percebiam-se novos contatos ingressando nas mesmas faixas de freqüência da África e do Oriente Médio. Foram observadas fortes tempestades de areia misturadas com umidade. Cidades pequenas foram quase soterradas, e em Dubai por pouco não se observou tragédias envolvendo os epopéicos edifícios quilométricos.

A reação dos monitores, entre si próprios, era de pasmo:

– Que pandemônio de fim de mundo foi este!?

– Fico pensando no Yüren. Ele era dessa localidade. Talvez não tenha sobrado nada por lá. Acho que temos que tomar cuidado ao dar essas notícias a ele – respondeu um outro.

– Principalmente porque o rapaz presenciou uma morte durante a confusão. Áquil foi encontrado pela equipe de emergência, prensado pelo tronco de um pinus sobre o pescoço. Mesmo que sobrevivesse, ficaria irreversivelmente tetraplégico – respondeu um terceiro.

– Houveram outras mortes, a saber? – indagou o segundo.

– Só mais uma, em outro grupo. O coitado foi arrastado pela forte ventania ao rio, ficou preso entre pedras no seu fundo e morreu afogado – respondeu o primeiro.

– Evitemos então de entrar em detalhes sobre o assunto. Acredito que será melhor retirarmos os campistas daqui e levá-los a uma localidade mais segura – concluiu o segundo.

Nos alojamentos de emergência dos campistas, havia a expectativa de saber qual a procedência do resto do programa que mal havia começado, embora todos tivessem a certeza que não seria mais seguro continuar a acampar naquele local.

E Yüren encontrava-se pasmo ante o acontecimento do dia anterior. Nunca, em toda a sua vida, teria presenciado um acidente tão grave quanto aquele, principalmente pela agonia manifesta do então finado rapaz. E embora nossa personagem em questão não tenha desenvolvido em seus poucos anos de vida uma moral puramente altruísta a ponto de condená-lo pelo fato, a ocasião forneceu este sentimento de impotência ao jovem, por se tratar de uma relação, mesmo que não manifesta, de civilidade ante o próximo.

Essa ocasião ainda tinha o reforço dos boatos maldosos que circulavam entre os outros campistas, cada qual, de preferência, comentando em sua língua nativa em despeito às mazelas involuntárias do jovem. Yüren pôde perceber a fervilhança das panelinhas com respeito a ele, conforme o papo discorria e o sentimento de repulsa tomava conta dos presentes.

Pelo lado daqueles que pouco presenciaram os fatos tais como ocorreram, surgiam maldosos comentários acerca da incompetência organizacional de Yüren. Segundo a opinião deles, foi uma irresponsabilidade austera o rapaz não auxiliar a condução dos acompanhantes aos abrigos, bem como não estar de prontidão para qualquer procedimento emergencial de forma a garantir, a todo custo, a sobrevivência de quem quer que fosse. Soma-se a esse fato que o terceiro ao qual estava tentando auxiliar Yüren e Áquil ter posto sua vida em risco eminente, podendo ocasionar uma tragédia maior. Para eles, “uma incompetência dita com todas as letras”.

Entretanto, Yüren procurou, na medida do possível, apesar do seu titubeio com respeito ao resgate, ser prestativo, como nunca fora em sua vida. Haviam, é claro, mais razões do que emoções que fossem capazes de justificar tal atitude, mas é inegável que o resultado negativo tenha tido caráter emocional para causar um impacto em sua vida. Mas, ao invés de resignar-se diante das ocorrências, parece que nossa personagem procurou uma justificativa racional para si de ter evitado presenciar aquela cena: melhor lhe seria, pensou consigo próprio ter dado ouvidos às orientações dos monitores minutos antes e ter tomado as providências para evitar qualquer constrangimento, e jamais permitir ter se envolvido na morte de Áquil.

No entanto, a título de defesa moral, somente o terceiro campista não se deixou envolver pelas picuinhas que sorrateiramente eram formadas, evitando-as. Buscou oferecer apoio moral ao colega, combalido racionalmente.

– Eu podia ter sido mais prestativo, mais ágil, menos desorganizado – desabafou Yüren. – Jamais irei permitir-me que algo assim aconteça de novo… Nunca pude ter cometido uma falha dessas!

Enquanto o jovem finlandês se recolhia aos seus próprios pensamentos, virando sua face longe de toda a panelinha e discursos tempestivos, daqueles que notamos somente pela entonação, o experiente campista, de nacionalidade francesa, procura acalmá-lo e confortá-lo, da melhor e mais cabida maneira.

– Tranqüilize-se. Eu sei que você teve a melhor a das intenções, mas não podemos ser super-heróis bem sucedidos, sempre…

Foi então que uma terceira pessoa, dirigindo-se a ele em alemão, comentou:

– Nós sabemos que você estava com ele. Quer se reponsabilizar também pela tragédia? Sabe que durante toda a estadia esse sujeitinho manteve-se aquém de todos, como se vivesse em outro mundo? Faça-me o favor…

– Você, vá para o inferno com suas pragas! – respondeu o campista que salvou a vida de Yüren, em um tom áspero na língua alemã.

Após o sujeito dissidente ter se afastado da presença de ambos, estes dois voltaram a se conversar em inglês:

– Ele falava de mim, eu pude perceber – disse Yüren.

– Deixe estar! Ele mal sabe o risco que passaria se estivesse em situação semelhante. Eu já verifiquei situações mais sensíveis em outros lugares. Sou um membro-auxiliar dos Médicos Sem Fronteiras.

E, no que o campista deixaria se permitir contar sua história, vieram alguns dos monitores, os quais deixaram expostos em público sua decisão sobre o que fazer dali em diante, bem como o ocorrido sobre toda a Europa.

A princípio, Yüren ficou estarrecido com o que ocorreu, por causa de sua namorada, e a ansiedade tomou conta dele, pois as informações eram dadas com muito cuidado e aos poucos, mas também teriam que ser curtas e diretas, de forma a não permitir atitudes desprevenidas entre os presentes. Estes foram poupados de detalhes sobre as mortes dos dois campistas, embora houvessem muitas especulações sólidas a respeito do paradeiro destes.

E, como decisão conjunta por parte dos monitores, decidiu-se por não continuar as atividades de acampamento na região, sendo que, de alguma forma, teriam que manter os campistas na zona urbana de Samara, visto que as rotas de saída da cidade estavam também prejudicadas pelos temporais, como também algumas edificações que não suportaram os mesmos temporais.

A preocupação de Yüren era justamente se o distrito onde morava Bárbara havia sido atingido, fato comprovado duas horas após a saída da área de acampamento, ao dirigir-se à região dos apartamentos. A área fora isolada pela Defesa Civil, pois quase todos os edifícios, que mesmo não possuindo mais que cinco andares, eram assaz antigos, haviam cedido. Contabilizou-se muitas mortes, mas nenhuma que correspondesse à Bárbara.

O jovem finlandês fez-se agradecido pelo fato de lembrar que o vôo dela poderia estar em atraso, mas será que ainda não teria partido da origem, ou pela hora, teria sido atingido já em território europeu?

O outro campista – o que salvou nosso jovem – que o acompanhara até ali, pois tinha se hospedado num hotel modesto, ali naquele mesmo distrito, observou-o preocupado. Não hesitou em questioná-lo.

– Espero que a pessoa que você procure não esteja por aí… E desculpe não me apresentar: sou Hércules, francês e engenheiro civil. De toda forma, acho inseguro tentarmos permanecer por aqui. Fiquei sabendo de outro lugar que talvez tenhamos melhor sorte em permanecer. São as instalações subterrâneas da Médicos Sem Fronteiras, logo ao sul da cidade. Quanto à confirmação da pessoa que você procura, acredito que você tenha que esperar pelas notícias da Defesa Civil.

E, no que ambos se dirigiam ao posto da entidade, outro membro, este médico, identificando Hércules pela pequena insígnia que sempre carregava na camisa, convocou-o imediatamente para uma reunião extra-oficial no local.

Respondendo oportunamente, convidou Yüren a participar dela, justificando haver possíveis informações sobre os sobreviventes do distrito de residência da Bárbara.


Iporanga, estado de São Paulo

O amanhecer da região de Registro revelou os evidentes estragos na região de Registro, onde se localizava a caverna do Diabo, e onde se encontravam as três amigas da Bárbara. O rio Ribeira havia inundado alguns bairros ribeirinhos e mais adiante, diziam os radioamadores, a região entre Sete Barras e Registro tinha rompido um dique recém construído. Muitas das saídas da região estavam prejudicadas pela água que invadiu consideravelmente as estradas.

Somente o Exército conseguiu mobilizar-se com algum prazo de urgência, pois a Defesa Civil teve dificuldades para obter contingente o suficiente para prestar assistência, uma vez que muitos dos membros do quadro não haviam dado resposta, e a entidade fora acionada para buscar a si própria.

O quadro de destruição na cidade de Iporanga, no seu ponto mais alto, era desolador. As casas de alvenaria mais antigas não haviam resistido, ou por causa da sua localização, ou por causa das tempestades propriamente ditas. Mas, ao que parece, a geografia local permitiu que os da região mediana fossem protegidos pelos vales locais, não sofrendo muitos estragos. As vilas mais baixas, como já foi dito, foram atingidos pelas águas do Ribeira.

Assim que o grupo de visitantes das cavernas alcançou as regiões menos atingidas da cidade, tentaram obter contato com familiares, amigos, ou informar-se sobre as condições do tempo com os noticiários. A surpresa de muitos foi perceber que os meios de comunicação ainda estavam inoperantes, e até as retransmissoras de televisão estavam sem cobertura local.

E Sioue, Henvellen e Ângela ficaram todo o dia tentando entrar em contato com a família e, em especial, com Bárbara, buscando, peripateticamente e em vão, sinais com seus celulares.

Uma outra pessoa, no entanto, dispunha de um telecomunicador especial via satélite, o qual estava plenamente operante. Ao constatar a busca das três moças, a pessoa prestou-se a fornecer auxílio.

– Com licença, posso ajudar?

– Sim, por favor – respondeu Gysph. – Estamos tentando entrar em contato com uma amiga nossa em viagem, mas não conseguimos.

– Ela pode ser contatada via satélite?

– Acho que ela pode, sim – interferiu Henvellen. – Mas não temos essa tecnologia.

– Eu tenho. Poderiam fornecer-me o número?

E após fornecer o número de celular da Svenska, as três esperaram apreensivamente uma resposta positiva que demorava a ser obtida.

– O sinal de GPS dela não consta aqui no Brasil. Ela porventura viajou para outra localidade?

– Sim. Ela mora na Rússia. Talvez já esteja por lá – disse Sioue.

E, ajustando o alcance do comunicador, após alguns minutos de busca, conseguiu identificar o sinal do celular da Bábi, que apontava estaticamente numa região litorânea da Bélgica – a que, como sabemos, o avião foi forçado a aterrissar.

O operador do aparelho questionou as moças:

– Por acaso ela havia feito uma parada na Bélgica? Se ela esteve em alguma viagem de avião, garanto que ela está parada.

– Estranho – comentou Sioue. – Ela nunca teria nada com a Bélgica.

– Ela não comentou nada comigo a respeito de uma passagem por lá – complementou Ângela. – Tente entrar em contato com ela.

Mas, apesar do celular estar chamando perfeitamente, ninguém atendia do outro lado da linha.


Ouvindo... Elton John: Tiny Dancer

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