Causos de Longinqual de Preta Terra

A Flautista Céltica

Longinqual também é um celeiro renomado de novos talentos. Um deles, certamente, é uma simpática moça que, na plenitude dos seus vinte anos, faz valer internacionalmente o nome da localidade. Informações sobre esta pérola longinquense será descrita a seguir.


Antes da Era Jarbas Magalhães – que, sabidamente, reelegeu-se aproveitando oportunidades obscuras – , o modesto município de Longinqual fazia pesados investimentos em eventos culturais. Estes eventos não sucumbiram ao público abandono pela iniciativa de ordem privada. Mas os ingressos custariam algo em torno de cinquenta por cento mais caros. Mas a qualidade dos eventos também aumentaria.

Um destes notáveis sempre foi o Festival de Música Ao Ar Livre, este ano em sua 15ª edição. Nele, destaca-se uma pequena notável flautista céltica há mais de três anos, consagrada fora dos limites desse tão estimado povoado do qual vos falamos.

Reconhecida internacionalmente, Ariana Drica Farnesi, moradora do distrito de Juncal dos Paraopebas, extremo sul, bairro residencial modesto e tecnológico, que possui a maior comunidade céltica fora dos domínios europeus [êpa… Os celtas ainda existem?]. Ariana mantém as tradições da música folclórica de sua comunidade, sempre com apresentações com a banda Fulschoffen Blakground, composta de amigos que ela incorporou da região central, com seus estilos musicais mais lugares-comuns, como blues e rock.

O Pasquim Local é um dos maiores incentivadores do FBg, junto com a Associação de Bochas, que tomou cabo do FeMusAL há dois anos, em verdade, para trazer como carro-chefe a instrumentalidade céltico-ocidental do grupo.

Drica, como prefere ser chamada, é uma dessas personalidades mais estimadas, ao contrário de Shayna. Todo mundo procura sempre ter a oportunidade de estar perto dela. Ela é conhecida por ser uma das cabeças-de-chave do grupo das laurianas, um daqueles quinze grupos de mulheres nas quais as podemos classificar por ali.

Se existe alguém que causa um positivo alvoroço na cidade, este alguém é Drica. Quando ela precisa se deslocar do centro, onde realiza estudos independentes de música, às noites de sexta-feira, já em horário em que os ônibus para o Juncal não passam mais, os taxistas fazem questão de oferecer a ela um preço diferenciado. Como o longo caminho de três horas nas sinuosas pistas recém-pavimentadas [coisas de propagandagem política do Jarbas para com os célticos] e parcamente iluminados oferecem nada mais que longos minutos de tédio, nada melhor que conversar sobre os rumos da cultura com a pequena e lauriana notável. Abaixo transcrito um trecho final duma dessas longas conversas.

– Sabe Drica? Fico feliz em saber o quanto vosso grupo faz pela nossa cidade…

– Ah, por quê? É só um patrocínio de peso, seu Plínio…

– Não! Mais que isso… Há até blogueiros falando de nossos feitos para o mundo [ah, seu Plínio, sabia das coisas…]. É o Generais da Interpretação fazendo história pelo teatro, o Itaperoaba pela cultura africana, vocês e mais alguns pela música, o grafismo ideológico das escolas de artes do distrito de Gálio Magalhães – que precisa de melhores estradas, confesso eu – e o pós-fenomenolismo da Faculdade de Filosofia Longinquense… E eu fico pensando, como, com tanto incentivo e manifesto cultural, um conformista ainda conseguiu se reeleger.

– São bilhões, Plínio… Precisamos de estrutura demasiada o suficiente pra atingir toda a população. Se o Blakground fosse passar uma mensagem de conscientização a todos os cidadãos, não teríamos mais vida pessoal. O distrito industrial, como você bem sabe, está tão atrelado com o Jarbas quanto um lobo é culpado por sumiço de galinhas. Palavra de uma lauriana – tal como vocês me consideram – e confirmadas por andressinas como a Shayna…

– Êpa, paremos com assuntos nesse quesito! Sabe que, quanto menos citemo-la, melhor pra gente.

– Deixa disso, Plínião [risos]! São papos de jovens imaturos, que não sabem respeitar mulheres de caráter forte que nem ela.

– Mudemos de assunto, porque prefiro as cintinianas como minha esposa. Como foi o FeMusAL desse ano?

– Ah, uma maravilha! Doze bandas locais, algo bem cabalístico. Ao fim da temporada, as doze se reuniram para duas suítes. A Passion Play dos britânicos do Jethro Tull, e o Opus Poi Müzik do Comboio Elétrico Longinquense. Uma orquestra que foi ovacionada pelo público…

– Fala sério, Drica: você se alimenta de pão, leite e ovações anuais?

– De pão, leite, panquecas, acqua vitae, o almoço de todo bom brazuca e um petisquinho… A ovação eu ofereço pra cidade. Olha lá, vê aquela tenda? Já chegamos!

– Foi boa a conversa. O pagamento pode ser feito na segunda.

– Faço questão de pagar agora. Seu expediente termina quando?

– Pra falar a verdade, só ficam os "meninos" do Bandeira Dois.

– Pois bem. Fique! Tem uma festa folclórica ali na tenda, você é meu convidado!!!

– Puxa… Fico agradecido. Só espero que a patroa não pense coisas.

– Relaxa! Eu a convidei também… Ela já está lá. De qualquer jeito você também viria aqui.

– Ah, essas laurianas e cintinianas, como se entendem…

É por essas que os taxistas ofereceram-se para conduzí-la por preço diferenciado. Toda sexta há uma festa folclórica celta nos Juncal do Paraopebas, irrecusável. E, aos taxistas solteiros, sempre havia alguma céltica que correspondesse às suas expectativas.

Mas nenhuma dessas era a nossa matriz lauriana, já comprometida consigo mesma e com o mundo da música.

E por que pensar nela, quando haviam cerca de três mil com o mesmo perfil de idade, somente por ali?


Ouvindo... Wisin Y Yandel: Síguelo

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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