Karta Citina: Cinco


Norte de Samara

O grupo ao qual Yüren estava presente havia sido imprudente, ao se dispersar floresta adentro. As recomendações dadas eram para que os grupos permanecessem unidos, para cooperação mútua. Um ou outro se arriscava a auxiliar os presentes a se dirigir aos postos de emergência, ao qual nosso amigo churrasqueiro e precavido se encontrava. Este, muito solidário, apesar da pouca experiência, desejava correr de encontro aos outros presentes para auxiliá-los, mas foi impedido pelos monitores de plantão, tamanho o perigo que sair estava se apresentando.

Os ventos eram preocupantes e estranhos, já que empurravam as coisas para o chão, algo que nunca antes fora presenciado por ninguém. Mas não havia tempo para se estudar o comportamento daquelas ventanias. Fato é que árvores mais robustas estavam sucumbindo ao chão aos poucos, o que tornou as atitudes do grupo desesperadoras.

A quem permaneceu com o detentor do mapa, mais uma desagradável surpresa: o vento remove da mão do aventureiro o mapa. E estes estavam em uma direção contrária a qualquer acampamento ou posto emergencial. Quedas eram constantes entre os membros da equipe, mas o espírito solidário em horas assim fala mais forte com a consciência, demonstrando afeição com o próximo. Após enfrentar os riscos por inesgotáveis vinte minutos, parte dessa equipe consegue alcançar outro posto subterrâneo para ali abrigar-se com segurança.

O mesmo não poderia ser dito ao outro grupo, onde Yüren se encontrava, embora um pouco à parte, no mais mesquinho estilo egoístico. Apesar de encontrar, na base da intuição de sobrevivência, daquelas que obtemos em momentos desesperados, um caminho aberto em direção a um posto, ainda que mais distante, árvores já se encontravam caídas, obstruindo as passagens e retardando a chegada dessas pessoas a algum local seguro.

Em tempo: Samara outrora enfrentou tempestades diversas, mas nunca algo de tamanha estirpe que pudesse descaracterizar o ambiente daquela forma. As árvores que não caíam, definitivamente estavam envergando de forma surpreendente, todas em direção ao chão, fazendo chover muitas de suas mais vigorosas folhas, às quais enfrentaram adversidades dos tempos frios com a maior naturalidade. Agora, elas eram protagonistas numa tenebrosa novela em que almas à procura de diversão campestre agora se viam cara a cara com um desastre pessoal.

Uma dessas almas que fora interrompido pela chuva de folhas em sua perseguição pela sobrevida era Áquil, o qual havia sido interrompido por uma pedra à qual não havia notado. Dando de joelhos direto ao chão, a colisão, certeiramente havia rompido ligamentos da sua rótula, deixando-o incapacitado para continuar sozinho. Necessitava, certamente, da ajuda de alguém.

Yüren era o último da comitiva que ali passava. Um dos poucos que ainda arriscava a carregar seu robusto equipamento, o qual ainda não havia descarregado. Atravessando o ambiente cuidadosamente, embora exasperado por sua vida, estava a um ritmo menor que os outros, tomando o devido cuidado com os tropeços diversos pelo caminho.

Deparando-se com a presença de Yüren, Áquil fez esforço para que seu clamor de ajuda fosse mais evidente que o coro do vento que ali soprava.

– Aqui, rapaz! Ajude-me!!! Quebrei o joelho, não consigo mais andar, por favor!!!

Yüren viu um corpo lançado ao chão e uma mão erguendo-se a pedir ajuda, entre a dança de folhas que permeava o local. Não imaginamos o porquê, mas Yüren percebeu que precisaria fazer algo ali, pois uma vida ficara solícita aos seus cuidados até o ponto mais seguro que pudesse achar. Mas mesmo assim, pelo fato de aliviar a carga, Yüren não desejou abrir mão do seu caro equipamento para auxiliar melhor o novato.

Outro mais experiente da equipe vinha de encontro aos dois. Este havia percebido que uma cadeia de árvores grandes estava em queda, como um dominó, em direção a eles.

Yüren fazia esforço em demasia para arrastar pelos braços o jovem rapaz até dar de encontro com uma pedra, que o faz tropeçar de costas, com equipamento e tudo. O terceiro campista não hesitou em auxiliá-lo a sair dali.

Uma árvore estava com iminente risco de queda exatamente ali.

Yüren, já sendo arrastado pelo campista experiente, reclamou efusivamente pelo companheiro.

– Eu não preciso de ajuda! Posso me erguer!!! Aquele sujeito caído ali é quem precisa.

– Não vai ser possível ajudá-lo! Preciso arrancar você daqui ou senão seremos três amassados por um tronco!

E Áquil, lançado ao chão, implorava com uma voz fraca e trêmula, ouvida apenas por Yüren em meio à ventania:

– Por favor! Eu te perdôo das críticas minhas, mas preciso de ajuda.

E, antes que qualquer um dos presentes ali pudesse tomar uma iniciativa em favor de Áquil, o tronco sujeito a cair despenca sobre o jovem. Uma terrível cena que apenas Yüren pôde assistir. O grito pavoroso que se sucedeu depois, das duas ocasiões, uma: ou causara uma lesão maior no jovem ou definitivamente o mataria.

Nenhum dos dois procurou saber do ocorrido. Poucos minutos depois, estariam em segurança no posto subterrâneo mais próximo, a esperar o dia amanhecer e o tempo acalmar-se.

Mas, aquela noite, a imagem da queda da árvore sobre o jovem ficaria tão latente na cabeça de Yüren, que o sono tardaria e muito para chegar aos seus olhos.


Caverna do Diabo, estado de São Paulo, algumas horas depois

Ângela, Sioue e Henvellen, já após uma balanceada refeição nos restaurantes locais, mantenedores das tradições do século anterior, encontravam-se em seu destino-alvo. As grutas que compunham o enigmático complexo de cavernas, que em questão de anos, tornaram-se atrações turísticas badaladas da região, por mais que nunca se modificassem – em termos, já que, por certas vezes, algum desavisado e ecologicamente inconsciente busca guardar para si um “pingente” de lembrança do local – sempre deixavam o trio maravilhado. Bárbara seria uma quarta que tiraria proveito daquela vista, mas não o faria por motivos de viagem, dos quais nós já estamos muito bem informados.

A badalação pelo local era tamanha que, por pouco, o trio não conseguiria participar da expedição por causa da capacidade máxima de visita por guia, que foi atingida por não muitos turistas após elas.

As águas cristalinas que escorriam pelas fendas eram constantemente iluminadas pelas luminárias utilizadas pelos guias e turistas que ali atravessavam. Os desenhos naturais pela parede enigmáticos que faziam jus ao nome do ponto turístico instigavam desde os mais religiosos aos mais pagãos. O ruído dos morcegos guinchando era a trilha sonora do ambiente, junto com o discreto bater de asas dos animais, incomodados constantemente pelas luzes andarilhas que trafegavam caverna adentro e caverna afora. Além de tudo isso, alguns aracnídeos e insetos compunham toda a fauna terrestre, entre as diversas estalactites e estalagmites milenares presentes, além de alguns peixes nos lagos de água potável.

Ali era um dos poucos, mas privilegiados lugares do mundo em que a tecnologia dos tempos pós-comtemporâneos era deixada de lado. Na melhor das hipóteses, ouviam-se ruídos dos rádios-comunicadores das equipes de expedição. Máquinas fotográficas eram proibidas nas mãos dos turistas, no entanto, os guias, esporadicamente, fotografavam os ambientes das cavernas em dias fechados ao público, e caso fosse do desejo do turista ter uma recordação do local, informava-se ao guia sua pretensão, e este lhe presenteava com um cartão postal do local mais próximo e parecido com o desejado. Nada dos novos anos vinte: somente a vida simples do século anterior.

Sioue era uma das que mais ficavam atemorizadas com tal cenário, mas esse era daqueles temores oportunos, os quais você se sujeitava plenamente a passar. O famoso não-querer querendo.

Bem vinha o grupo encerrar sua expedição pelo local, dirigindo-se às saídas, quando se depararam com outros guias, da expedição do turno anterior, retornando com quase todos os turistas. Todos tinham impressos na face o susto convicto.

Nem bem as explicações começaram a ser dadas entre os guias e turistas, perceberam-se barulhos de galhos robustos de árvores de porte grande chocar-se com a entrada das cavernas. Ao passo que as pessoas deixaram-se perceber, uma chuva deveras grosseira caía ao lado de fora do local, mas a força dessa chuva era de surpreender até mesmo os guias mais experientes que ali estavam. Ventanias urravam caverna adentro, amedrontando as pessoas que ali estavam.

Os que ali se abrigaram informavam que nuvens cinzentas e espessas vinham do nordeste, com uma rapidez incrível. Uma cortina de chuva era notável a quilômetros de distância, e junto com esses fenômenos, via-se, pouco a pouco, moradias mais rústicas e precárias sendo desfeitas pelos ventos que ali sopravam, na forma de diversos mini-furacões que descendiam das nuvens em direção à terra. Algo nunca visto antes naquela região.

E, por cerca de duas horas e meia, apreensividade e pânico generalizavam-se entre os presentes dentro das grutas e cavernas. A comunicação de rádio e outras se tornaram indisponíveis. Por diversas vezes, acreditava-se que o teto das cavernas sucumbiria ante os choques de diversos materiais que por ali voavam. Acuados no mais profundo antro das cavernas, pois as entradas entulhavam-se de galhos, troncos velhos e até algumas árvores inteiras, pedregulhos e, por vezes, granizos de tamanho considerável.

Após a decisão de esperar a passagem dos fenômenos por uma hora após a garantia de sua cessão, montou-se uma força tarefa com o intuito de desobstruir as passagens de saída, após um eficiente trabalho cooperativo, toda a equipe pôde enfim deixar o local. Era fim de tarde, o céu estava incrivelmente limpo de nuvens e o sol apontava o seu ocaso no horizonte. Nem aparentava uma tempestade ter atravessado a região.

No entanto, as surpresas foram evidentes e estarrecedoras quando as comitivas de turistas chegaram aos postos de controle e aos centros das cidades mais próximas. Alagadiços nas partes baixas e as suspeitas dos surpreendidos pelas tempestades confirmadas: árvores arrancadas dos solos, casas destruídas, debandadas dos comércios e, dos poucos que encorajaram-se a enfrentar as adversidades, soterrados. Um ou outro se salvara, e sua aparência denotava pura e simplesmente um contato com uma experiência cuja descrição com propriedade e equivalência assemelharia ao Juízo Final.

A preocupação havia tomado conta do trio de meninas, assim que os guias que as acompanhavam, bem como outros turistas da capital paulista, tentavam contato com parentes em outros lugares ou conectavam suas televisões portáteis. As poucas emissoras que ainda tinham sinais de retransmissão anunciavam tormentas parecidas em muitas outras regiões de capitais brasileiras. Janeny estaria a essas alturas no Rio de Janeiro, ou em curso à região amazônica. Independentemente da sua localização, comprovou-se, via rádio amador, a passagem de uma corrente de ar forte, por vezes seguida de granizo, de chuva ou até de grupos de ciclones de pequena proporção.

Mas as tentativas de contatar Janeny eram em vão. O alcance da telefonia móvel era horrível por todos os lados. Os turistas e guias, que somavam cerca de quatrocentas pessoas, estavam isoladas de todas as formas e assim permaneceriam por aquele dia.


Ouvindo... Prodigy: Smack My Bitch Up

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