Karta Citina: Três

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Prólogo Capítulo Um Capítulo Dois

Capítulo 3


São Paulo, 6 de abril de 2024

O sol amanheceu, como diria Sioue, "anoitecido" na região da capital paulistana. Disfarçado em vermelho com um céu carregado de azul, não se sabia se pela densa cortina de poluição costumeira dos automóveis mais antigos, ou se por um fenômeno chuvoso que costumava ocorrer ali naquelas épocas. Importante é que o trio de patricinhas aventureiras ainda fariam mais uma escala antes do término de suas férias: três dias na Caverna do Diabo, mais ao sul do estado.

Ângela, como sempre, mostrava-se interessada em cada palavra trocada entre suas duas amigas. Comentavam sobre as aventuras da Janeny, que voltava ao seu trabalho de pós-graduação em campo na Área de Proteção Vigiada da Amazônia, entre Brasil e Peru; das atividades que Bárbara promovia na Samarasoul, como coordenadora de um projeto de resgate musical do folclore russo. Já citando sobre a Bábi, Ângela traz à tona todo o seu apreço por Yüren, numa postura explicitamente parcial e defensora de um caráter frio que ela nem conhecia.

Sobre isso, Henvellen foi amplamente concisa e categórica:

– Ah, Ângela, minha pequena… Perdoe-me a Bárbara, perdoe-me você… Acho que vocês vêem uma vantagem inexistente nesse sujeito nórdico. Posso estar enganada, mas isso que vocês duas praticam é um clichê bem famoso. Chama-se "amor platônico". Ambas alimentam tanto sentimento de confiança cega no tal do Yüren, que acho que uma energia invisível liga esse mérito ao rapaz. Espera! Eu disse mérito? Perdoe-me: de-mérito! Porque acho que ele percebe isso e fica alimentando seu ego de individualista. Fica se achando o tal, e que é poderoso, é incorruptível. Enfim. Fica criando muitas falsas qualidades para si e se acha perfeito, tamanho tanto mimo que se acumula. Eu conheço a Bárbara há mais tempo e melhor que você. Já vi o sujeito. Ele é um poço de amarga indiferença, mais do que qualquer europeu, e mais do que qualquer um possa suportar. Você deveria imaginar os beijos dele…

– Sim… Beijos de galã de cinema, na certa!

– Que nada! Ou talvez sim, no sentido de serem técnicos. Ele os fazia com a Bábi por compromisso, nunca por sentimento.

– Eu acredito no potencial emotivo das pessoas aflorando, nem que seja após um longo tempo.

– Olha, Gysph – interveio Sioue por Henvellen. – Minha querida morena. Aquilo, eu bem vi. Não é uma pessoa. É um robô. E um robô que mal sabe ser cortês, até mesmo com o dinheiro que ele ganha.

– Mas eu ainda acredito! – disse Ângela, trazendo as mãos ao peito – E, se a Bárbara não consegue desdobrar tal coração de pedra, desculpe-me minha falsa sinceridade: queria eu ter esta chance para fazer isso.

As outras duas amigas segredaram discretamente um sorriso. Fato que deixou Ângela muito curiosa.

– Ei! Por que esse conluio entre as duas?

Sioue tomou a iniciativa de compartilhar o momento hilário com a curiosa em questão.

– Se você conhecesse a Bábi como nós conhecemos, saberia que não se pode cobiçar nada de posse dela. Para ter o que ela tem, você teria que matá-la!

Henvellen acrescentou imediatamente:

– Não! Isso você não consegue! É mais fácil orar para que ela morra! E vamos logo… Não podemos perder esse ônibus para Curitiba, ou senão chegaremos atrasadas ao destino.


Após uma extensa viagem, e num tempo absolutamente frio, com ventanias em excesso, Yüren percebe os freios do trem-bala em funcionamento. Duas vozes, anunciando em inglês e em russo o próximo destino. No lado externo, percebe-se um grande centro urbano se aproximando. As placas não negam: as inscrições em cirílico indicam a chegada à estação central de Samara do Expresso Transiberiano.

Desembarcando com sua bagagem, uma mochila robusta e uma valise com ferramentas, nosso seco e mecanizado personagem toma as informações necessárias para chegar ao posto de acampamento. Ali, ele receberia os roteiros de aventuras que poderia fazer na floresta ao norte da cidade, bem como a programação dos fenômenos naturais que ocorreriam aquele mês. E, segundo os especialistas em fenomenologia espacial, haveria uma cortina de luz noturna cortando os céus por aquelas noites. Uma espécie de Aurora Boreal que ocorre em menor escala de tempo. Fenômeno que passara a ocorrer há cerca de dez anos e não se soube o porquê. Especialistas acreditavam na existência de um fluxo maior de ventos solares direcionados à Terra, ou de efeitos retardados do fim dos buracos da camada de ozônio. Apesar da beleza proporcionada pelo espetáculo quase que natural, este prenunciava um período de clima absolutamente instável, ora seco, ora com pancadas de granizo.

Certo era que este espetáculo de cortina de luz chamava a atenção de Yüren todo ano desde que ele começou, sendo este o motivo principal de suas idas à aquela região. E talvez em menor motivação, pela Bárbara. Muitos ficariam pasmos em saber que, mesmo diante de tão estimada pessoa, Yüren ainda prefira a solidão…

Faltava comprar os mantimentos para os dias que se seguiriam na floresta ao norte da cidade, próximo ao rio. E nosso jovem decide passar pelo Gerialska, loja de tradição. Recente, mas de tradição.

Lá, fazendo suas compras, notou o noticiário local fazendo a previsão do tempo. Nas imagens, percebia-se o surgimento de possíveis frentes frias, deslocando-se da região da Lapônia ao sul.

Dois jovens, que pelas vestes e apetrechos, poderia deduzir-se que faziam o mesmo programa, saíram correndo, abandonando as sacolas ao presenciarem o evento da meteorologia. Algumas frutas que ali estavam nas sacolas se perderam ao chão, sendo pisoteadas pelos clientes. O dono da loja esbravejou num incompreensivo russo.

Sentindo a curiosidade atravessar seu pensamento, Yüren decide consultar outro comprador, que também presenciara o noticiário. Perguntando-lhe em inglês, este fez-lhe um sinal gestual pedindo para que repetisse a questão pausadamente.

Elucidada a pergunta, o jovem custou a esperar a resposta do senhor, que procurava falar o melhor inglês possível, mas não conseguia. O homem, já idoso, deslocou-se de volta ao balcão de frutas e foi respondendo como podia:

– Previsão… Clima… Chuva de gelo… Dificuldades… Esportes ao ar livre… Sugestão… Procurar locais seguros.

Mas, quando o senhor idoso julgou ser o suficiente sua resposta, e foi expectar uma contra-resposta do jovem, percebeu que este havia já pago suas compras e seguia com uma caravana até a região de florestas.


Ouvindo... Aerosmith: Back in the Saddle

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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