Radar Musical: Sete

Soundgarden - A-SidesSoundgarden

A-Sides

[A&M Records, coletânea]


Já percebeu que quando você sente seu dinheiro sobrando, você começa a gastar demais o seu precioso? Pois é, a esta altura, começava a ter intervalos maiores entre as aquisições. Mas praticamente todas foram valiosas.

E essa do Soundgarden então. Não esqueço a ocasião das férias invernais em que fui adquirir algumas roupas, itens e, por que não, este álbum do Soundgarden, o qual só conhecia até então a famigerada.

E lembro-me e muito bem dos calçados que havia adquirido em ocasião. Como eram bonitos. Camurça de primeira, cor de barro… Que isso tem a ver com o Soundgarden? Nada, foi só por lembrar da ocasião mesmo, assim como da copa sul-americana das nações, em que o Brasil decepou a Argentina. Isso ainda naqueles tempos cuprum-estânicos de Campesina…

Setlist

  1. Nothing to Say: quer conhecer os primórdios do grunge? Aqui é um bom começo.
  2. Flower: apoteótica à moda punk.
  3. Loud Love: o amor é gritante. E a música também em sua essência.
  4. Hands All Over: o início dá uma impressão de grande música. O resto mostra a aflição personificada.
  5. Get On The Snake: uma alegria massificante torna esta uma obra que faz a média no conjunto, mas sem perder a essência da qualidade do todo.
  6. Jesus Christ Pose: todo o guincho das guitarras tornam a música tão áspera quanto o seu conteúdo.
  7. Outshined: agora o peso é bem rifado. E a canção, um ode a um sentimento inexplicável de êxtase.
  8. Rusty Cage: e o peso se torna denso…
  9. Spoonman: maturidade vindo à tona na lição de fazer a combinação do pesado, mais o alternativo.
  10. Faixa de destaque The Day I Tried to Live: aqui começa um sentimento misto e estranho de alegria e tristeza aflitosa que vão perdurando nos abraços da canção…
  11. Black Hole Sun: que continuam nesta cártase que se auto-explica.
  12. Fell On Black Days: depois de tanta expurgação de males, nada como um quebra-gelo…
  13. Pretty Noose: e um esquenta-nervos para repesar tudo de novo.
  14. Burden In My Hand: não é uma candidata a um acústico?
  15. Blow Up the Outside World: bonita pelo seu peso dramático.
  16. Ty Cobb: boa influência direta do punk.
  17. Bleed Together: enfim… Uma banda por muito animada no que faz.

Profundamente envolvente

Perfeito. Mas tem aquele velho desconto…

starstarstarstar e 1/2

 


Technorati Marcas: ,,

 


Ouvindo... Soundgarden: Hands All Over

 

 

 

 

 

Capítulo Cinquenta e Um

Eu.com

lightbulb Parte integrante do projeto 27L blog-papel


envelope Osasco, domingo, 12 de novembro de 2006

Ah… Os desvarios da Internet… conhecer pessoas animadas como a Bárbara Svenska ou insandecidas como Benny Archan-Jael ou, ainda, visualizar blógues cheios de bloguismo – a filosofia utilizada nos tais – ou coisas menos compreensivas do ponto de vista de quem tem dificuldade de relacionar-se com esse "organismo computadorizado". Essa coisa chamada Internet, enfim falando, leva-nos a outro patamar de comunicação, à outra dimensão dos relacionamentos, a um novo formato de visualizar o mundo.

Eu, como você deva saber, leitor, já tenho meu pedacinho de chão na internet, e este se chama Brejo do Sapinho. Ali, tal como aqui [no papel], ficam anotadas, expressas e declaradas todas as idéias escritas por mim, por mais bobas que pareçam [ou sejam]. Uma delas que não sei se expresso aqui ou no blógue [o meu é no português mesmo] é um sonho maluco mas bacana para se contar…

Grande Porto Alegre, cidade de Rebouças [foi assim que acho que ela se revelou]. Um terreno declinado e uma linda casa… Não! Casarão de quatro níveis, bem visível ao outro lado do vale, em Porto Alegre. O que as divide? Um rio lamacento, intrafegável via barco. A passagem entre as duas? Um bocado e longínqua ponte entre as cidades, e uma condução entre elas que demora um período longo [e isso dificultaria continuar meus estudos de Matemática no Rio Grande do Sul].

Pois bem, o casarão, bem generoso em alojamentos e cômodos, e em dependências externas, foi palco de uma produção televisiva de um grande canal, que ali gravou seus capítulos e que, copiando o lugar em seus estúdios, valoriou o original, que por sorte meu pai comprou. Pode?


Ouvindo... Franz Ferdinand: Bang Bang

Momento Poesia

Languidez

smile_omg [Inspirado em um poema divulgado por Nina]


Doce mel que adentra a casa da colméia
Abelhas à espreita, do açúcar são Divinéias

Conceitos sociais, venenos desiguais
Redarguindo costumes venais
Obsoleto o sentir, excuso sincero
Reprimindo o instinto, momento esmero

Vigas belas de calor humano
Afago intenso, cruel e insano
Ao que se dizia: nobre contento,
Lânguido, lascivo sentimento

Do açúcar, Divinéias; à casa da colméia
Abelhas à espreita, do doce mel que adentra

Conduz, inertes, os olhos fixos
Induz, ardentes, palpitações
Fazem, consoantes os seus riscos
Em instantes condizem duas emoções

À bela imagem de seus braços,
Permeando seu busto, em meu embaraço
Contente, faço deste artístico manifesto
Rumo de vida, implicante, contesto.


Ouvindo... Yes: And You And I

Desabafo

Percepção Entalada Na Garganta


Não dá mais! Chega!!

Pensava por muito tempo que esta minha idéia estava errada, que era cruel, mas o tempo mostra – e localidades diferentes – que isso foi um grande engano que quis imputar em minha cabeça.

Antes de resumir essa idéia que, ao ritmo do absurdo, chega a ser um preconceito, mas na verdade não o seria, em três ou quatro termos, quero apresentar uma exposição do que é este meu manifesto antes que qualquer leitor julgue-se aturdido por tais comentários.

O que me faz indignado não são as pessoas que o fazem, mas o comportamento em si. As pessoas mudam. Os comportamentos perduram ao passo do "vi, então farei igual".

São atitudes de descaso com o público espaço alheio, com o desrespeito à vida, o ato de ferir o bom senso. E isso, temporariamente, impregna em certos momentos na vida das pessoas, quaisquer sejam suas origens e suas casualidades.

[Posso inclusive incluir-me a mim mesmo como um destes corrompidos.] Mas, o que enfim, caracteriza um demérito entre as pessoas?

Há muito venho eu, seja em pessoa física ou artística, falando de política. Perjuramos o cenário político nacional, denigrimos nossa confiança no poder público, mas na época de eleição, ficamos babando nas carreatas, esmolando cargos públicos através de brechas inconsistentes, querendo um quinhão de facilidades para ingressar na vida pública, somente para coçar as partes baixas numa assessoria de gabinete.

É muito triste algo assim…

E consideremos que a juventude se corrompe através do contato a cada dia mais acruado com a realidade do mundo adulto. É admissível ver uma criança de pouco mais de cinco anos destratando alguém de respeitabilidade em seu convívio, e este não pode sequer conferir uma boa réplica de cunho educativo pois isso pode caracterizar destrato ao menor, se este sentir-se ofendido por ter sido chamado à atenção daquilo que faz simplesmente? E o pior: os pais destes sequer sentirem peso na consciência por verem que os seus rebentos não possuem bom senso de dirigir conceitos de moral cívica ao coletivo, para os filhos do Brasil?

Não vamos defender, obviamente, uma infância regrada na alienação comportamental. Mas o que se vê hoje em dia próximo aos centros urbanos é lastimável…

E, atingindo todas as idades, origens financeiras e outras variantes sociais, quantos de nós, arduosos expectadores de um país da verdadeira produtividade humanista, não vemos pessoas que fazem de seus atos de importunação comunitária verdadeiros prejuízos ao bem-estar de famílias subjugadas. Som automotivo além dos limites, incômodos berros em portas de bar, lavação de roupa suja em espaço público, ocupação de espaço de trânsito de qualquer espécie… São alguns exemplos amargamente presenciados pelos meus insignificantes vinte e um anos decorridos, que, não muito dizer, podem também incomodar o leitor que se identifica com estes relatos.

E isso não é o maior problema. O verdadeiro problema é o indivíduo que não contribui para uma boa convivência coletiva achar nobre, bonito, charmoso prosseguir com os mesmos arcaicos atos que receberão a designação no momento oportuno. E perpetuam, desde pequenos atos como fazer de sua cidade inteira sua lixeira particular, chutar o pára-lamas do carro que arranhou a caríssima pintura de seu novo carro, a promoverem verdadeiras guerras ideológicas com pessoas que pouco se intrometem em suas vidas.

E são demeritosas atitudes, infelizmente ditas como típicas da cultura do brasileiro, que alimentam aforismos como "odeio ser brasileiro", "ser do Brasil é uma vergonha", "brasileiro é simplesmente Carnaval, cervejinha, pagodinho e futebol" e textos diversos como um, falsamente atribuído ao Arnaldo Jabor, que apesar de mais cruel que tudo o que já foi citado até aqui, faz-se valer por atos anti-comunitários de muitas pessoas que precisam receber puxões de orelha do já dito bom senso.

Bom… Se você se sentiu bombardeado por isso, espero me redimir falando que não foi sobre você, mas sobre o que você aprendeu a fazer de errado. E que, principalmente, pode ser corrigido. Afinal [segue-se uma das menos honrosas e mais toscas e horrendas máximas que eu poderia propor]:

Antes de se fazer uma guerra, declare-a. Do contrário, é um ato covarde.

Enfim, posso dizer que tudo o que acabei de citar não tem a ver com classe social – tem muito grã-fininho que não se faz um militante do bom senso – nem com crença ou qualquer outra coisa que possa caracterizar preconceito. Não existe fórmula pronta, ou regra teórica a definir quem conturba a ordem social, seja criança, adolescente, adulto, mulher ou idoso. E que deva ser corrigido, não por base da ignorância, mas pela base da admoestação realista e dura, firme como exige ser.

Depois desse longo manifesto, tenho a consciência que irei comprar muitos desgostosos por mim. Paciência… Mas não posso mais esconder.

Detesto pessoas com pobreza de espírito!



Ouvindo... Nirvana: Lithium

Karta Citina: Quatro


Norte de Samara, início da noite

Já instalado na concentração, junto com outros doze turistas, Schuzkennott recebe as instruções, nas línguas inglesa e russa, sobre procedimentos de resgate e proteção pessoal contra intempéries, já que os monitores saberiam de uma tempestade fora de época se aproximando. Procedimentos de melhor fixação das barracas, de cuidados com manuseio de ferramentas perigosas à saúde humana, do uso de filtros de carvão ativado para fazer uso dos recursos hídricos locais, os locais bom para se permanecer no caso de fortes ventos, os abrigos subterrâneos para casos de maior incidência de granizo, entre outros detalhes imprescindíveis em um local como aquele. Yüren ouvia atentamente as informações, com um pouco mais de atenção que seus companheiros, os quais acreditavam aquilo serem instruções de praxe.

Não obstante, Yüren pré-julgou os outros onze companheiros como intransigentes, pois sempre considerou que instruções desse tipo eram vitais para a manutenção da própria vida. É, não por demais falar, que muitos desses outros aventureiros não eram simples campistas. E, sim, pessoas que enfrentaram destinos mais tortuosos, como as cadeias de montanhas do Himalaia. Talvez estes imaginassem que as instruções eram muito exageradas para a situação.

E então, os grupos seguiram caminho floresta adentro com os monitores. Eram oito grupos, distribuídos inicialmente nos sete postos de concentração na entrada da floresta, cujo nome na língua local significava “o local onde se revelam surpresas”.

Já alumiados por suas lanternas, os campistas ergueram rapidamente suas barracas. Um ou outro teve dificuldades em montar seus apetrechos. Certeiramente iniciantes. Um destes, de nome Áquil, solicitou um mão por parte de Yüren. Mas este, observando o relógio e verificando que se aproximava o horário estimado da cortina de luz, negou auxílio.

O jovem respondeu duramente sua decisão:

– Bem estar assim. Espero que Deus te pague o quanto você deve… Nunca ouviu falar de solidarismo entre campistas? Ei! Volte aqui!

Yüren nunca se importaria com solidarismo, quando qualquer assunto que não envolvesse pessoas estivesse à mesa. Ele, simplesmente, ignorou parte da resposta e, já no final desta, encontrava-se procurando o melhor local no topo da floresta, onde se transfigurava um vale à direção norte da Rússia. Havia uma visão de alcance extremamente grande no horizonte, seja para o céu que se estrelava, seja para os médios e pequenos centros que se estendiam naquela direção.

No ponto de vista de Yüren, foi melhor negócio deixar de ser cooperativo com um colega de acampamento em favor do fenômeno natural. No céu estrelado, porém nitidamente nublado no horizonte, viam-se faixas multicoloridas de feixes de luz começando a dançar, partindo do horizonte.

O relógio local marcava próximo das oito da noite.

A cortina de luz se apresentava lentamente, dançando conforme uma música que o vento parecia sussurrar. Nos momentos em que os ventos que ali refrescavam o rosto da nossa personagem pareciam menos fortes, a cortina intimidava-se a retrair de volta ao norte. Quando os mesmos ganhavam novo fôlego, a luminosidade parecia os acompanhar, como pequenos animais da terra que se retorcem como minhocas quando arrancados abruptamente dos seus dutos subterrâneos. E a cadência dos ventos e da dança das luzes era que, conforme o vento chegava, as luzes avançavam, num ritmo quase que constante.

Os outros campistas, que faziam suas rodas de música, fizeram-se lembrar do fenômeno que ali estava por ocorrer. A música, que na maioria do seu tempo, era pouco ritmada e digna de amador ou até mesmo principiante, dava lugar a sussurros nas proximidades do local onde Yüren se encontrava. Não foi demorar muito, os doze estavam apreciando a cortina de luz, que se mostrava latente.

Os relógios, ajustados, denotavam oito e meia da noite.

Foi quando se ouviu um chamado de apito e voz de megafone vindo da região das barracas. Eram os monitores, confirmando as notícias que receberam via rádio e foram anunciadas no noticiário, durante à tarde.

– Atenção campistas! Dentro de duas horas, será previsto uma tempestade de gelo média e inesperada. Granizos do tamanho de bolas de pingue-pongue. Recomendamos que tomem as providências de segurança nos próximos minutos.

Os alertas foram ouvidos ecoando-se em outras vozes, ao decorrer da faixa de floresta às margens do rio. Eram outros monitores alertando outros grupos a realizarem os mesmos procedimentos.

Um dos ali presentes, notadamente um dos iniciantes – não o Áquil – respondeu de prontidão o chamado. Havia deixado um conjunto de preparo de carnes ao relento. Sacrificou a vista daquele maravilhoso evento em favor da segurança da turma.

Os outros, no entanto, permitiram-se ver mais um pouco daquele espetáculo. Acreditariam que não faria mal eles alargarem um pouco em favor da cortina de luz os procedimentos de segurança. Outra voz foi ouvida no interior da floresta:

– Em caso de tempestade forte, pedimos aos presentes que se alojem no subterrâneo ao leste do nosso acampamento, conforme os mapas. Estaremos lá para oferecer o apoio necessário!

Nem mesmo Yüren estava atento, naquele momento, às recomendações.

O espetáculo seguiu harmonioso durante os próximos quinze minutos, quando as cortinas de luz de tornaram retas. O entusiasmo dos dez campistas foi espantosa. Yüren se regozijava diante de uma coreografia tão perfeita.

Mas as luzes permaneciam imóveis à uma direção, tornando-se focadas na direção do acampamento. Num momento, os ventos cessaram abruptamente e se ouviu um silêncio por alguns pouquíssimos minutos.

Os presentes ali se perguntavam se seria o fim do evento. Nosso jovem finlandês simplesmente olhava o fenômeno. E, repousando seus olhos no horizonte, percebe um movimento de nuvens bastante densas, aproximando-se com uma velocidade absurda do local onde eles se encontravam. Os povoados aos poucos deixavam de se iluminar. Os ventos começavam leves, mas iam gradualmente tornando-se mais potentes. Yüren havia notado a gravidade da situação, mas quando se ergueu do local para comunicar aos companheiros sua opinião que estavam a uma senhora distância deles, percebeu que a tempestade aproximava-se assustadoramente. Foi então que, correndo e com uma voz fora de seu tom normal, anunciou em desespero:

– Vamos nos deslocar para os abrigos! A tempestade vem ao nosso encontro mais cedo e mais forte!!!

E, quando se deram conta do assunto, assustaram-se com algumas nuvens deslocando-se direto ao chão a alguns quilômetros dali. Os ventos começaram a ficar fortes demais e a soprar em direção ao chão. A dificuldade de se erguer para correr ao abrigo era latente, e as tempestades se aproximavam cada vez mais fortes.


Norte da França, no mesmo momento

Após uma exaustiva transferência de vôo a partir de Portugal, Bárbara encontra-se a caminho, finalmente, do aconchego do seu lar. Portando uma discreta bagagem de mão num compartimento abaixo do seu banco, com itens essenciais para uma mulher, e um aparato tocador de músicas digital dos antigos. Bárbara se entretinha em canções celtas e vanguardistas dos fins dos anos dois mil, européias, brasileiras, americanas… Enfim, tudo aquilo que fosse de bom gosto naquela época, embora a maioria dessas canções seguiam na contramão dos modismos da época. Eram músicas de conteúdo, que tinham influência significativa na vida de Svenska. E ela não era a única a possuir tais bugigangas em mãos. Grotesca maioria dos passageiros que seguiam para a capital russa portavam também outros aparelhos, mas, seguindo a tendência mais moderna que havia em aparelhos tocadores: não era necessário acumular pilhas e pilhas de arquivos sonoros. Podia-se fazer isso alocando suas pérolas nos computadores caseiros, que bastava uma parruda conexão sem fio para fazer dos aparelhos verdadeiros periféricos remotos do que possuíam em mãos. E não eram simples áudios: videoclipes de alta definição, com dois, três, até algumas vezes contando com quatro ângulos diferentes de captação…

Nos dias atuais, a maioria dos grandes artistas que se prezem, fazem seus videoclipes imediatamente após produzirem suas canções. E trabalham demais: nos últimos anos, notou-se a tendência de se produzir um material anual contendo cerca de quarenta a cinqüenta canções – os mais influentes e competentes arriscavam sessenta -, quase todas possuindo seus videoclipes. Não se soube quem fez esta iniciativa, mas para emplacar uma música de sucesso seja lá qual fosse, era via sacra de regra produzir material visual, não por dizer menos, uma superprodução. Há anos, a juventude não se contenta mais em “apenas” ouvir. Quer “ver” aquilo que ouve. Fazer música e viver disso implicava no artista querer aprender noções de filmagem. E os ritmos variavam: tinha o Soup Jungle, o Glingbeat, o Stomp’a’Desks, a nova escola do Reggaeton e variantes como o Rockaeton e o Capoerreo, além do grande gênero Láite na América; o Freeairhall, o Verdismaracha e o Controlspace Electronic na Europa; o Tamaleruo, Flautirium e Almusika na África e Ásia; e o Reover Rock vindo dos povos desterrados das ilhas submersas da Oceania, presentes hoje nos territórios da Austrália e Nova Zelândia.

Bárbara, no entanto, corria na contramão de toda essa tendência juvenil de ter tudo aos olhos. Ela ainda preferia ouvir música do jeito antigo, imaginar uma imagem imaterial para a canção, algo que não representasse uma cena corriqueira, pessoas, coisas, animais ou plantas, ou qualquer coisa concreta que se possa imaginar. Canções de amor inéditas dificilmente brotavam no mundo, não por falta de vontade, mas por se esgotar a amplitude lingüística musical para se falar dele. O que se via, ou eram regravações, ou eram suítes compridas, muitas vezes maçantes, de um relato monográfico de amor. Dessas canções, Bárbara não sentia saudades, pois eram as que mais eram dedicadas a ela por Benny, seu ex-namorado meloso ao extremo.

Anunciando nos painéis que eles passavam pelo norte da França naquele momento, e que as condições climáticas pareciam favoráveis à chegada em Moscou dentro do prazo estipulado, Bábi se permitiu ligar o rádio numa estação de rádio – nos moldes tradicionais de antigamente, mas digital obviamente – da sua cidade de morada. Àquela altura, o sinal da rádio em questão estaria forte o suficiente para ser captado, e Bárbara poderia sentir-se mais próxima de casa, ouvindo músicas do cenário local, as “antiguidades” do milênio passado, gêneros históricos da música global…

Mas ao localizar a faixa de freqüência da sua rádio preferida de Samara, notou nenhum sinal. “Talvez sejam as condições climáticas”, pensou ela. E decidiu ajustar o ganho de sinal do sintonizador de FM. Grave erro! Mesmo com várias tentativas, além de não obter nenhum resultado, ainda prejudicou a instrumentação do avião. Sinais visuais atrás das poltronas dos bancos, no corredor, e sinais sonoros foram acionados. Um voz computadorizada padrão, em inglês, emite a seguinte mensagem:

– Atenção passageiros portadores de sintonizadores de rádio com ganho de sinal: desliguem a recepção de seus rádios ou desliguem o ganho de sinal. Os instrumentos de vôo estão sujeitos a interferências eletromagnéticas e a navegação pode ser prejudicada. Ressaltamos, porém, não entrarem em pânico, pois sistemas auxiliares de navegação foram acionados. O vôo prosseguirá normalmente. Repetimos:…

Antes que a repetição pudesse ser realizada, Bárbara percebeu o lapso de sua conduta, desligando seu portátil imediatamente. Muitos pelo avião sentiram preocupação por estarem usando seus aparelhos com tecnologia sem fio, achando serem os responsáveis pelo ocorrido. Bábi se exaspera consigo mesmo, sem elucidar ser ela quem ocasionou todo o prejuízo.

Alguns minutos após, a voz do comandante surge no sistema sonoro do avião:

– Senhores passageiros. Recomendamos que, numa eventual necessidade de uso de aparelhos portáteis para acesso a serviços remotos, utilizem a tecnologia sem fio oferecida pelo nosso avião. Recomendamos evitar o uso de quaisquer aparelhos de radiofreqüência de alto alcance. Celulares com tecnologias anteriores a 2015, rádios analógicos e digitais de primeira geração devem ser desligados durante o percurso da viagem. Na impossibilidade de uso destes aparelhos, favor utilizarem os serviços de internet móveis, o qual podem ser solicitados para as comissárias de bordo. Nossa viagem poderá estar sujeita a atrasos devido a necessidade de recompor os sistemas de navegação principais, no entanto, o vôo não será prejudicado. Obrigado pela atenção…

“Anos se passaram, e ainda não desenvolveram tecnologias para se ouvir um rádio sossegado dentro de um avião?”, pensou Bárbara consigo mesmo.

Mas Bárbara deveria saber que, para os novos sistemas de navegação aérea, capazes de evitar colisões entre aviões, salvo o crescimento de aviões supersônicos nos espaços aéreos, necessita-se da menor interferência possível de freqüências estranhas às utilizadas pelo avião. O vôo em questão contaria com sistemas de navegação um pouco mais arcaicos, o que seria um risco para a viagem, mas, por sorte, naquele espaço aéreo não trafegavam aviões muito velozes, o que afirmava a segurança do vôo.

Houve uma demora de cerca de trinta minutos até que os instrumentos pudessem ser resetados para operação plena novamente. A essas alturas, o vôo localizava-se nas regiões alagadiças dos países baixos, próximos à Alemanha.

Tudo parecia correr bem. Alguns passageiros encorajaram-se a utilizar seus aparelhos de música novamente dentro da maior regularidade possível. Bárbara permitiu-se ver um vídeo antigo na internet sem fio, enquanto consultava notícias do Brasil e da Europa. O vídeo em questão era uma linda canção interpretada por Marylenne Goethe Sândalo, e a música, Amargo Vento, o qual era mais ou menos assim:

Vejo nos sopros dos meus cabelos
Um amor rebelde, lobo em cordeiros
Que carrega meu amado ao penhasco
E que junto, em meu coração arrasto

Amargo vento que me fez
Ruir de uma só vez
Carregando todo meu sentimento
Riso sarcástico, mal contento

E nada mais em vida minha resta
Nem um convite faz mais boa festa
Diante de momento inesperado
Faz de mim brinquedo mal amado

Amargo vento que me fez…

Desolação, perjúrio à minha vida
Sem rumo, nem caminho, vinda e ida
Trazendo uma única solução
Minha ida à terra, dentro de um caixão

Aah… Eu não entendo!
Porque a raiva desse vento
Não jogou minha paixão ao mar,
Mas sim eu mesma, meu som, meu ar

Bastaria um só momento…
Carinho e entendimento
Para cessar a boca furiosa
Que dialoga toda ruidosa…

E, antes que o êxtase do refrão desse finitude a um clipe maravilhoso feito em locais litorâneos brasileiros, o sítio que hospedava o vídeo parou de responder. Outros conteúdos que a Bárbara também acessava deixaram de responder. Ao observar, a conexão sem fio estava péssima.

A voz do comandante faz-se presente nos sistemas sonoros do avião:

– Atenção Passageiros, acomodem-se em seus lugares. Nossos instrumentos estão detectando uma tempestade à nossa frente. Podemos estar sujeitos a algumas turbulências. Retornem aos seus assentos e coloquem seus cintos.

E os passageiros obedeceram imediatamente as ordens do piloto.

E então, sucedeu-se gradualmente uma chuva de granizo potente do lado de fora do avião, algo realmente assombroso para uma viagem aérea. Ouviam-se pedaços de granizo do tamanho de bolas de vôlei atingindo as latarias do avião. Os de mais idade voltavam-se às suas orações, zelando pelo bem do vôo. Os mais novos e, sobretudo, os que moravam na Rússia, estavam acostumados a situações até mais desfavorecidas.

Mas a preocupação tomou conta, de forma geral, quando se ouviu um estrondo na asa direita do avião, e começou a ocorrer uma turbulência atroz no avião. Iniciou-se um desconforto entre os presentes, não por psicológico somente: o avião havia despressurizado e as máscaras já estavam à disposição de todos. A turbina havia deixado de funcionar na asa direita, e era nítida a perda de altitude. O capitão retorna a contatar os passageiros do avião, procurando discursar de modo a não colocar os presentes em pânico.

– Passageiros. Procuremos manter a calma. Seremos obrigados a realizar um pouso forçado em breve.

E muitos se abaixavam, procurando ficar de cócoras no banco, ou em posição similar para proteção pessoal.

– É o fim do mundo!!! – clamejava do fundo um senhor, notadamente um ortodoxo cristão.

Bárbara sequer pôde perceber o quanto possuída pelo medo estava. Talvez ela tivesse tido uma reação ao saber, ainda com o sinal às derivas do serviço de internet, que poucos minutos antes, a região de Samara fora acometida por outro evento meteorológico cruel. Essa reação talvez seria a que ocasionara um sentimento de desespero pelo seu companheiro Yüren, que a essa altura estaria chegando na cidade, segundo o que ela supunha. Será que ele estaria a salvo num abrigo? Ou estaria à sua espera ainda, em algum lugar mais sujeito às intempéries?

Antes que Bábi pudesse esboçar qualquer reação a respeito de si, um horrendo coro de desespero toma conta do avião, que espatifa a pensa asa esquerda com violência ao chão, por alguns segundos antes de parar.

Futuramente, os relatos dariam conta da queda de um avião na região serrana, de um campo aberto na região da Bélgica, sendo que por pouco o avião não aterrissa no chamado Mar de Nova Atlântida, aquele que invadiu os Países Baixos com a elevação do nível dos oceanos.

Quem testemunhou os fatos, com certeza não viu o ocorrido: também procuravam salvar-se de um estranho fenômeno. Um feixe de ventanias e tempestade fortes, soprando as nuvens dos céus até o chão e derrubando construções antigas para todos os lados. Os sobreviventes relatam que se safaram por se abrigarem nos subsolos de suas casas.

Quanto aos passageiros do vôo de Moscou, todos ficaram desacordados.


Ouvindo... Red Hot Chili Peppers: Fortune Faded

Radar Musical: Seis

Pearl Jam - Riot ActPearl Jam

Riot Act

[Epic, estúdio]


Agora sentia-me à vontade, nessa época de férias, adquirir alguma coisa que há muito almejava: conhecer mais sobre o meu tão querido Pearl Jam.

E decidi ir na raiz do meu gosto. A música-chave para despertar tamanha curiosidade pela banda foi I Am Mine, que sabia muito bem, estava presente no álbum do qual vos falo. Bem ainda sabia, há um ano a contar antes da aquisição, de uma outra faixa à qual não emplacou e só foi tocada uma vez em duas rádios… Triste a falta de aceitação…

Legal é todo o trabalho artístico do encarte e do repositório do CD, mais expressivo que meu primeiro álbum, o qual só tinha nada mais que uma capa e verso-capa. Dizem que, em matéria de arte, o LP foi melhor trabalhado.

Setlist

  1. Can’t Keep: não podemos esperar a mesma voz de antigamente, mas ela ainda canta canções com sentimento.
  2. Save You: potente o suficiente para mostrar que ainda se faz hard rock, mas o vocal deixa a desejar por muito tempo.
  3. Faixa em destaque Love Boat Captain: o teclado ao fundo confere uma atmosfera grandiosa para uma voz que parece abafada pelo tempo.
  4. Cropduster: feliz empreitada. E a voz agora encontra-se melhor encaixada.
  5. Ghost: existe light hard rock? Se sim, talvez seja essa daqui.
  6. I Am Mine: o sucesso foi só um detalhe. Mas esse rock-padrão com traços de órgão é boa pedida.
  7. Thumbing My Way: hora de explorar o álbum! Nada melhor do que um acústico relaxante…
  8. You Are: e depois algo meio psicodélico. Mas uma pena que quando a música parece arrancar você de si, ela não o faz.
  9. Get Right: está na média. E só.
  10. Green Disease: começa bem, continua bem, e continua. Mais rock-padrão.
  11. Help Help: a melodia condiz com a mensagem? Só o fim justifica.
  12. Bushleaguer: música? Não. Protesto musicado.
  13. 1/2 Full: oh! Que saudades de um peso de guitarra, de uma poesia beat [será isso mesmo?]. Dos "rugidos" de Eddie…
  14. Arc: o Pearl Jam tem dessas coisas assombrosas sempre?
  15. All Or None: toda essa melancolia nos faz ganhar o álbum, mas… Logo no seu fim?

Repete a dose?

É injusto comparar, mas é um bom álbum, que faz melhor que a média.

starstarstar e 1/2

 


Technorati Marcas: ,

 


Ouvindo... Pearl Jam: Help Help