Discurso aos Desanimados

lightbulb Nota: este não é um relato pessoal. Apenas um texto simbólico elucidando vários fatores do cotidiano de muitas pessoas.


Meu dia inicia-se como todos os outros. Acordo, tomo café da manhã, limpo a casa, almoço, e faço mais algumas coisinhas.

Tenho uma vista maravilhosa da minha janela, que se dá para arvoredos distantes em um parque, nesta conturbada vida urbanóide de paulistano, carioca, belo-horizontino, brasiliense… Seja o que for!

A família está sempre do meu lado, apoiando-me em minhas condutas, participando de minhas decisões. Uns ajudam, outros tornam as coisas mais difíceis. Mas importa que nem todos são indiferentes…

Já fiquei doente, recusei participar de atos ilícitos, como beber antes da idade, fumar, usar drogas, assistir um rélite show – que devia ser ilícito também.

Minha vida escolar teve seus altos e baixos, foram provas, questionários, testes. Veio os vestibulares, foram notas crescentes até que um dia consegui minha vaga. Aquela coisa que sempre desejei desde criança ser. Cientista.

Decidi trabalhar sozinho, sempre pronto aos desafios, e um deles foi o ponto-chave para que todo o meu passado viesse à tona.

Após defender uma tese na qual acharia que tudo em minha vida iria se engrandecer, descubro o erro gravíssimo, tarde, quando outro refutou meu trabalho. Ridicularizaram-me a ponto de minha reputação no meio científico tornar-se uma caricatura de mim mesmo.

Não tive como continuar… Vi que não podia mais ser cientista. Vieram as dúvidas. E agora, o que faço? Tento exatas, humanas? E se eu errar de novo.

Que ironia… Poderia ter decaído para a marginalidade… Por sorte, minha educação bem estruturada não me permitiu. Eu tinha meu gênio definido o suficiente para evitar tão desprezível situação… Mas sentia-me como se fosse um criminoso comigo mesmo.

Tentei buscar diversas funções, sem sucesso. Tentei achar as respostas em diversos lugares para tantos fracassos seguidos, e elas não vinham. Já nem agradecia hoje em dia por poder acordar, limpar a casa, almoçar e não fazia mais minhas coisinhas.

Exatas

Inútil má consciência que me corroria por dentro, porque não sabia ser mais do que um cientista. Um cientista desconsiderado, que sempre gostou de seus desafios.

Até que um dia, decidi dispersar-me naquele parque, que a minha vista alcançava no meio daquele inferno de cidade. Foi então que eu vi um garoto em idade escolar – ah, meus tempos de escola – sendo agredido por alguns marmanjinhos. Não hesitei e corri atrás de ajuda para salvá-lo. O posto policial estava próximo e agiram em tempo. O garoto sofreu algumas poucas escoriações, segundo os exames, mas estes constataram que ele já sofria agressões há algum tempo – sei disso porque dispus-me a acompanhar todo o procedimento do exame…

Perguntaram qual era o endereço do jovem e qual não foi minha surpresa ao saber que ele morava na mesma rua que eu. Então, como bom cidadão, dispus-me a acompanhá-lo até sua casa. No ônibus, perguntei-lhe sobre o que houve. Ele disse que sempre àquele dia da semana "matava" a aula de biologia por detestar a sua professora, e a recíproca ser evidente. Disse sempre apanhar dos sujeitos do parque que ali passavam, e concordava que a experiência era horrível, mas – acreditem – não pior que encarar sua professora.

Fiquei surpreso e comentei com ele que biologia era uma matéria relativamente simples, sabendo de técnicas certas de estudo, que qualquer um poderia aprender. Fizemos uma proposta: já que eu estava vivendo financiado pelos meus irmãos, mas sem nada de útil para fazer durante o dia, decidi ser seu instrutor de reforço. E se, ele não se sentisse seguro em encarar o seu "monstro", antes de pensar em "matar" aula no parque e se sujeitar a tamanho risco, viesse à minha casa, para aprimorar o reforço. Ele relutou um pouco, mas se desafiou.

Conheci a realidade dele. A família não dava incentivo. Era mais difícil saber quem era mais monstruoso: se sua professora, ou se os tios – que possuíam a sua guarda, afinal, ficara órfão muito cedo.

Foi a maior batalha da minha vida, ensinando os macetes fundamentais da biologia, fazê-lo resistir ao desânimo e ao desincentivo familiar. Mas vi meu trabalho recompensado no final daquele ano, quando este pupilo compensou em sobra toda a sua falta até aquele período. Os desgostosos caíram de queixos ante tal desempenho. E então, ouvi uma coisa incrível por parte do discurso de formatura daquele garoto, agradecendo "ao seu amigo professor particular".

A efusividade das palmas – sim, estive presente – e daquelas palavras deram novo rumo à minha vida. Nunca pensei ser professor antes, e nunca pensei poder lidar com outras pessoas, a não ser por meio de teses, monografias, discursos…

E então percebi que o mais importante é que não adiantava tentar encontrar um desafio para superar para glória própria, mas para o bem do próximo. Ah! E a saber, hoje ele é um biólogo renomado, reconsiderando até aquela minha tese refutada, que, na verdade, o questionador é que estava incerto. Mas a essa hora ligo para isso? Nem… Hoje, só quero acordar, tomar café da manhã, limpar a casa, almoçar e fazer as minhas coisinhas, e uma em especial, que é ajudar alguém que esteja precisando.


Ouvindo... Portishead: Humming

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