Causos de Longinqual de Preta Terra

As Filhas do Coronel

hug_girl Em Longinqual, há três distintas moças que saem de casa e mostram seu rosto ao público uma vez no período em que a Associação de Bochas da cidade – um esporte ali muito praticado, que detem os fundos financeiros no esporte local – está a eleger seu representante. Seria isto uma jogada de seu pai, o coronel Dionísio Apolo, para obter o voto de confiança dos associados que vivem por toda a região?


Clarisse, Marilena e Samara, cada uma, aparência distinta, histórias diversas, algo em comum: todas filhas, ou afilhadas do coronel Dionísio Apolo, proprietário de umas terras lá pelos confins do Sabujeiro, ao norte da nossa tão citada localidade, e de uma fábrica de bolas de bocha. Visionário, promoveu a bocha como um esporte de status da população local. Reuniões secretas das Fraternidades locais conduziam famílias seletas, em específico os agregados dos patriarcas, para campeonatos, e estes, às vezes traziam uma segunda geração não-consangüínea como apadrinhados. Assim o esporte trouxe novas promessas a competir em campeonatos das Cidades Miúdas e tal preparação só era esporadicamente superada pelas equipes da Cidade da Catenária. Recentemente, os contáveis na mão clubes de bochas locais estavam sendo acusados pelo Ministério Público de superfaturamento junto ao Poder Citatal, e laranjas apontados delineavam acusações sobre o Coronel Dio, como era conhecido o nobre figurão.

Morando numa mansão nas regiões limítrofes locais, onde estradas de acesso a outros locais eram evidentes, fazia questão de fazer sua esbelta loura, sua instigante de cabelos lisos e a não menos considerada filha morena não-consanguínea estudarem mais próximas aos grandes centros. O que, de fato, nos leva a crer que estas nunca passariam um dia sequer na vida no centro de Longinqual. Até os dias presentes.

Sabendo da iminência de um empresário de pesqueiros locais ascender nas pesquisas para sucessão da associação – e seu possível próprio prejuízo com a venda de suplementos esportivos locais – nosso conhecido Coronel Dio promoveu uma campanha de open boccials, como foi composta pelos publicitários contratados (obviamente, jornais locais discutem a procedência dos financeiros empreendidos): reuniões esporádicas para descobrir novos talentos entre quaisquer cidadãos para agregar à seleção local. E onde entram as meninas do Coronel nessa? Oras, saibamos o porquê agora.

Quem em um país com esportes dinâmicos com bola, como basquete, vôlei e futebol, iria ser interessar num esporte quase estático que parece mais diversão de velhacos? Pois então, estavam as bonitas moças como carro-chefe das open boccials, transitando às ruas sobre um veículo terceirizado (mais uma vez, quais eram as fontes de financiamento? Ninguém sabia) mostrando seus rostos ao público.

E qual não é a surpresa da população em ver três das mais formosas moças que se podia encontrar por lá. Os taxistas somente sabiam da existência delas por boataria – informados tais quais eram – e ninguém mais. E os marmanjos, não se sabia porque, estavam abarrotando as inscrições para as open boccials. [não se sabia mesmo???]

E os campeonatos começaram, estrategicamente definidos para coincidir com os dias das audiências dos sócios da AB da campanha do Dio, clara intenção do monopólio imperialista da continuidade de sua administração.

E qual não foi a surpresa quando, após os campeonatos, descobriu-se que o competidor campeão pertencia à Cidade da Catenária, era um agente infiltrado que havia descoberto todo o esquema de dumping corporativo e ainda por cima havia fornecido brechas para outros três joviais competidores engravidarem as filhas do coronel?

Mas não houve a necessidade de impugnação da candidatura do Coronel Dio. Segundo apurações, três votos de diferença dentre os quinhentos membros originais deram vitória ao oposicionista. A saber, a única informação que se podia obter da eleição: eram três mulheres.

Correram boatos que as três filhas do coronel, depois de tamanho vexame com o pai, ajuntaram suas economias, seus diplomas de superior, e foram fazer a vida longe de Longinqual. E entre a praça dos taxistas, notava-se a falta de certos três jovens que sempre ali passavam. E que gostavam, desde criança, a jogar bolinhas de gude como se fossem bochas…


Ouvindo... Lone Justice: Sweet, Sweet Baby (I’m Falling)

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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