Causos de Longinqual de Preta Terra

A Eurasiana e o Taxista

Longinqual de Preta Terra é um distante, muito distante – far away mesmo – reduto localizado ao extremo norte de qualquer lugar que você possa imaginar, desde que não haja gelo nele. Aqui, nesta discreta e simples povoação de três bilhões de habitantes – estou contando por baixo – ocorrem histórias como a aqui abaixo descrita. Os fatos podem ser comprovados pela sabedoria popular do seu discreto povo, portador de notebooks desde a década de 1860, pelas suas fotografias artísticas que percorrem mostras pelo mundo e pelo jornal O Pasquim de Longinqual.


car Euripédio era um singelo empresário da zona industrial local. Sua proeminência no ramo da tecelaria o conduzira a salários extraordinários, de modo que toda a sua família tinha ele como principal rendatário financeiro – nada mais que doze irmãos, quinze primos e duzentos sobrinhos matriculados lá nas melhores escolas das Cidades Miúdas, como chamavam São Paulo – e, ainda assim, sobrava uma justa quantia para que a cada noite, pudesse fazer presença nas sociais do clube local de coleção de cabeças de bagre.

Mas isso não é o importante… Em um dos que seria mais um dia cotidiano, nosso personagem em questão acorda tarde [as margaritas não lhe desceram bem companheiro?] e perde sua preciosa condução para o distrito industrial. Não importava… Dinheiro lhe sobrava para um táxi.

Então, no pé da estrada principal, um singelo, bem rodado e moderníssimo fusca vermelho é abordado por nosso amigo tecelão-empresário. Nele, um parrudo, com uma expressão impenetrável de companheirismo, pele morena e cabelos alisados a gel, motorista, começa a corrida. Seriam cerca de setenta pilas, calculados pelo Euripédio, uns trinta quilômetros e cerca de uns quinze minutos de prosa [as estradas são um lamaçal, hein meu companheiro taxista…]. Sabemos como, se arrancarmos meia palavra de um deles, eles já iniciam um artigo de jornal rapidamente:

– Por favor! Leve-me ao distrito industrial do Cabaçal de Meia Lua Vermelha.

– Sim, como não? Aceita um drinque, um cigarro, jornal Pasquim?

– Não me fale de drinque… Ontem a social do clube me rendeu uma dor de cabeça com aqueles saquês amargos [Ai… Errei]. Cigarro não é comigo. Agora, o jornal, aceito sim. Quero ver essas cotações de dólar, como vão.

– Ah… Cotações de dólar… Você tem cara daqueles sujeitinhos das Cidades Miúdas, sempre olhando pra essas coisas que só existem nos livros que plugamos na tomada.

– Livros na tomada? Quais?

– Esses negócios que trouxeram das vilas da redondez, tipo isso aí atrás. Eu ligo ele num gato com o alternador, e ele está sempre disponível pro povo cliente meu ver as coisas desse mundo doido…

– Sim, sei. São notebooks. Eles entram na internet.

– Olha, nem venha falar dessas coisas para nós. Pra mim, basta usá-las. Gostei de te conhecer, qual o seu nome?

– Euripédio. Euripédio da Souza Sândalo. Mas chame-me de Euris. E você?

– Meu nome é Maurício Tenório Osbourne, mas não sei por quê os amigos me chamam de Mastodonte.

– Isso nem irei adivinhar… Mas voltando ao jornal, ficou sabendo do sumiço da observadora misteriosa do mirante da Macieira?

– Uma notícia muito manjada, já. Esses jornalistas descobrem dessas coisas muito depois de nós, que moramos lá, deixemos de comentar. Sou quase vizinho do observatório. Diziam que a associação que prestava serviços de manutenção no local havia desaparecido na mesma época. Eram sujeitos muito estranhos a meu ver. Um deles veio com essas coisas que nem a minha aí atrás, escrevendo que desejava um copo d’água. E entre eles, não proferiam uma palavra sequer.

– Dizem que a mulher em questão se chamava Botelhos…

– Dizem. Mas acho que ela seja a mãe da Bárbara Glaucomio, a pioneira em nossa vila em postar matérias em seu "brógue", a Lerianny Glaucomio. Veja o retrato da sujeita aqui neste outro jornal… Não parece a tal?

– Sinceramente? Pouco leio as publicações locais…

– Onde você acha que se encontra? Em Nova Iorque?

E por alguns poucos minutos, um silêncio, cortado freneticamente pelo ronronar suave do fusca possante. A brincadeira de vaca amarela involuntária termina ao Euripédio deparar-se com duas pessoas na via. Um homem levando seus tapetes e uma bela mulher de cabelos louros acastanhados, que reluziam maravilhosamente sua pele alva.

– Observando nosso maior trabalhador na região central, Euris?

– Qual? Não percebi ninguém! Só vi uma mulher, aliás muito bela…

Mastodonte profere uma pequena bufada, sendo que a partir daí, pára para ouvir o que Euris tem a dizer.

– Coisa que eu não contaria para qualquer um, seu Mastodonte. Mas aquela mulher pela qual passamos, é uma das coisas que sempre sonhei em minha vida. Tenho ela em minha mente, nos meus sonhos, desde criança.

Mastodonte repete o mesmo ritual.

– Sabe, sempre fui um cara apaixonado pela vida, pelas coisas boas. Tive profissão, crescimento, dinheiro, mas sentia que faltava algo. Desde criança, tinha sonhos com uma pessoa que, além de minha mãe, amasse-me. Não sabia distinguir essa mulher nos meus pensamentos. Eram esnevoaçados. Mas recentemente, ela apareceu em meus sonhos. Sabe, não sei te explicar… Essa… Difícil de distinguir se seria alemã, francesa, polonesa, italiana, russa… Vamos chamar de Eurasiana, é mais bonito! Pois bem, essa Eurasiana esteve em meus sonhos e num deles, ela falava bem claro para mim: ‘Você é o homem com quem sempre sonhei’. Embora depois de me beijar, falava algo, e eu lhe dizia outro algo. Mas então acordei no outro dia, e isto foi tão envolvente, que até sinto que ela houvesse me beijado.

O carro já se encontrava no centro. Velocidade reduzida. Mastodonte ainda bufava, cada vez mais com o olhar compenetrado no rapaz.

– Sabe, seu Mastodonte. Acho que deveria encontrar aquela pessoa novamente e fazer para aquela beldade o mesmo pedido que fiz em meu sonho.

– Qual? – Finalmente proferiu o Maurício, secamente.

– Casar. Constituir família. Vivermos juntos.

Após uma densa pausa. Maurício toma o discurso.

– Sabe seu Euripédio. Sou um taxista bem informado das coisas, como deva imaginar… Conheço a história daquela moça. E não é nada bonita como ela não. Ela teve duas grandes decepções na vida. A primeira foi perder os pais em um acidente de carro. Tinha idade para não ser mais adotada por ninguém, mas um homem e sua esposa, de bom coração, a acolheram em seu seio, e hoje zelam muito por ela. A segunda foi ouvir grosserias de um cara bêbado numa festa. Um cara assim, tipo a sua altura, o seu porte. Alguém que ela dizia ser o homem com quem sempre sonhou e propôs um romance sério. Em vez de tentar retribuir a gentileza, convidou-a para um motel lá na região do matagal fechado, para fazê-la se esgotar de prazer. Quando ela contou para os pais adotivos, a mãe ficou estarrecida… O pai, irado, desejando descontar a impetulância do infeliz.

– Puxa, seu Mastodonte… E olha que conheço quase todo mundo aqui. Quem são os pais? E quem é o idiota?

– Ela diz que o idiota se identificava por Souza Sândalo. E o pai dela, sou eu, seu imbecil e dissimulado!

Num salto, o Euripédio saiu do fusca, que encontrava-se parado diante de um semáforo, e adentrou uma alfaiataria. Mastodonte tentou proferir algo do tipo "Você não iria descer no Meia Lua?", mas o jovem já estava escondido por entre a placa de "Fazemos Ponto Oculto".


Ouvindo... Frank Zappa: Lumpy Gravy (II)

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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