Karta Citina: Dois


Moscou, 5 de abril de 2024

Yüren está absurdamente irritado. O vôo que seguiria para Samara fora interrompido por condições climáticas anormais que vinham da Sibéria. Algumas ondas de pressão chamadas de "Grandes Urros" que carregam eventuais geadas para o vale de florestas, a vinte quilômetros da região central. As árvores funcionam como escudos para proteger a cidade, e não estão ali por acaso natural. Anos passados, o solo tornou-se misteriosamente pobre, e quando surgiram os "Grandes Urros", as fragilizadas árvores despencaram completamente. Houve três anos em que a cidade ficava entregue a estes fenômenos climáticos, e como resultado, eram vistas muitas vidraças quebradas. Os vitrais da Igreja Ortodoxa já não são mais os originais…

Para piorar, Yüren não estava atualizado quanto às informações imprescindíveis para sua aventura: o Sindicato de Turismo dos arredores de Moscou encontrava-se em estado de greve. Portanto, guias turísticos não aceitavam trabalhar, em reivindicação por um serviço de plano de saúde mais decente – dois anos anteriores, muitos sofreram no acompanhamento dos clientes em áreas mais nórdicas, e o sistema de saúde não apartava os pacientes de hipotermia – além de outros benefícios salariais não concernentes. Sobrou que o jovem não tinha quem lhe acompanhar ao interior do país, embora soubesse que deveria pegar o Transiberiano que certamente passaria pela cidade – surgiram novas ramificações do tradicional expresso, que cobriam inclusive as áreas mais meridionais como as proximidades do Cazaquistão -, isso ele não tinha dúvida.

Para não restarem dúvidas, consultava aos locais a localização da estação central. Por sorte, após consultar em vão três russos que só falavam a língua nativa, pôde encontrar um que também tinha fluência no inglês. Oportunamente, buscou toda a informação necessária: o tempo de viagem, a distância, os inscritos que identificariam a estação – os quais Yüren guardou no bolso – e os raros locais em que encontraria loja de suprimentos cujos funcionários soubessem falar inglês e que não fossem lojas de fast food

A Transiberiana conta hoje com um trem-bala de alta tecnologia, que trafega toda a extensão da Rússia até Vladivostok em quatro dias. E pelos cálculos que lhe foram apresentados, Yüren estaria em Samara próximo das nove da manhã do dia seguinte.

Tudo seria mais fácil se Bárbara estivesse o acompanhando. A Rússia havia tido reações tensas com a União Européia pela desvalorização do Euro frente ao Iene e ao Real. Havia recuperado o antigo Rubro, embora ainda aceitasse o Euro para algumas operações. Não era o caso das operações turísticas. Implicava que o jovem teria que procurar uma casa de câmbio para converter algumas de suas notas.

Após momentos tensos de profunda implicância por parte dos cambistas por rejeitarem notas graúdas de Euros – Yüren sempre dispunha, além de seu emprego de supervisor eletrotécnico na Companhia Finlandesa de Semicondutores, uma gratificação expressiva por parte de seus pais -, o jovem conseguiu, após uma densa reclamação com a Ouvidoria, obter a aceitação dos Euros pelos Rubros. Mas foram dispostas notas de Rubros de valores medianos, o que obrigou ainda ao jovem a adquirir uma carteira mais gorda no centro da cidade, a um preço fora dos padrões segundo a agência européia reguladora dos preços de mercado. A inflação dos últimos meses havia feito uma drástica alteração nos preços. Soma-se a isso o fato de que a carteira em couro bovino legítimo – coisa que só era produzida por poucas nações, pois a extração de couro silvestre fora terminantemente proibida mundialmente – importada do Brasil custava o olho da cara.

Mesmo com todas as coisas imprevistas acontecendo ao mesmo tempo, Yüren procurou manter a calma. Sabia que aquilo era uma má fase da Rússia. Algo passageiro. Esperava ter a sorte de encontrar sua querida – por não dizer amada – para ter um consolo. Iria curtir, sim, alguns momentos com ela. Mas tinha um prazo a cumprir: queria aproveitar os quinze dias de licença, o máximo possível, na região de florestas de Samara. O contato com a natureza lhe proporcionava uma paz maior do que o contato com outras pessoas.

Seguiu até a Central de Moscou. Lá, quase que perde o último dos Trnasiberianos da semana. A concessionária reduz o tráfego de trens para realizar manutenção na via férrea aos fins de semana. O seguinte atravessaria a área somente no domingo.

Um dos passatempos preferidos do jovem era jogar xadrez consigo mesmo. Algumas vezes já foi incitado a competir com outras pessoas, mas nunca havia ganho. Preferiu tornar-se recluso, somente pela inútil preocupação em procurar vencer seu oponente. Havia algumas outras pessoas na proximidade da composição, competindo entre si em partidas de xadrez. Uma ou outra observava, mas tinha a aparência de quem também saberia jogar.

Yüren havia percebido-os, mas não teve a mínima intenção em convidar alguém para uma partida. A recíproca também era mesma: nenhum dos outros supostos ávidos por xadrez tinha intenções de convidar Yüren. Tudo porque não o conheciam também. Eram jovens de Moscou que, como muitos outros, restringiam seus relacionamentos a pessoas amplamente conhecidas.

Yüren não se sentiria o único a ser introspectivo com outros durante a viagem, mas, diferentemente do grupo do xadrez, não teria companhia por toda a viagem.


Após um dia de transtornos na representante da agência de pacotes turísticos em Salvador, Bárbara finalmente consegue um vôo que a levaria de volta para casa na Rússia. O vôo faria o seguinte roteiro: Salvador – Fortaleza – Alta Lisboa – Moscou. Seriam, obviamente, horas cruéis trocando de, pelo menos, duas aeronaves. Conte também que ainda pegaria mais um transporte para Samara, e esperava não precisar do Transiberiano, pois sabia melhor que ninguém que os fins de semana eram reservados para as já ditas manutenções de via.

Bárbara é precavida e, antecipando o inevitável desconforto de viagem, porta uma bagagem com o estritamente necessário. Mesmo assim, teve pequenos conflitos com bagagem excedente: a aeronave era de porte menor.

Após alguns minutos de desentendimento e negociação bem-sucedida, Bárbara desabafa diante de tanto contratempo:

– Espero não voltar a essa nação turisticamente atrasada por um bom tempo!

O atendente, não sabemos se ironicamente ou não, respondeu inocentemente.

– Obrigado. Volte sempre à Bahia. E tenha uma boa escala.

Passando pelos portais de embarque, ficou aliviada por pensar que, fora suas amigas e pessoas próximas, não teria que ouvir ou ver novamente o português. Ela sempre achou extraordinário o alfabeto cirílico, com seus caracteres particularmente distintos.

Uma vez que conheceu a Rússia, apesar da saudade que tinha no Brasil, suas festividades, os companheiros, acostumou-se com a reclusão social que é viver em um país europeu. Na Rússia, o código do consumidor era tão rígido com as empresas que até alguns consumidores oportunos faziam a festa com seus direitos. As pessoas podiam reclamar até da cor do pão de forma! Viajar pelo país era uma operação de risco para o conglomerado que opera o setor turístico. Os envolvidos precisavam rezar para que as condições climáticas sempre fossem favoráveis nas boas temporadas. Uma chuva de granizo em um programa a céu aberto, que impedisse sua realização, implicava em ressarcimento de até cinqüenta por cento do valor da atividade. Bárbara gostava de respeito na qualidade de consumidor, mesmo que não tivesse a razão e ainda mais quando tinha consciência disso. Não que ela fosse uma pessoa mimada, nem oportunista. Simplesmente, viu seus pais, quando criança, perderem uma causa comercial e serem obrigados a ressarcir a empresa acusada em um valor que os deixaria em dívida por dez anos: no Brasil, o código de defesa do consumidor não avançou muito desde os anos dois mil. Restrito apenas a reclamações sobre alimentos e produtos de pequeno valor comercial, as empresas maiores conseguiram superar os direitos de consumidor… Os produtos para exportação eram condicionados aos códigos de consumidor do país de destino, mas a produção nacional era desprovida do mesmo compromisso. Foi exatamente por causa disso que o setor industrial tornou-se livre para crescer naquele país.

Assim Bárbara, cansada de ser mais um número em uma nação em que predominava a razão para os industriais, decidiu há quatro anos viver na Rússia. Primeiramente, fez o intercâmbio cultural em Moscou, para conhecer a língua. Seis meses de ampla atividade, vivendo financiada por uma família amiga de seus pais. Mas lá não havia outros brasileiros para acompanhá-la. Seguiu então para Samara, obtendo um emprego de lojista numa loja de discos e CDs antigos e suprimentos musicais, que carregava o nome de uma banda estadunidense que se formou na cidade, Samarasoul. Esta banda era uma resposta ao movimento Láite Rock brasileiro, com mais pitadas do clássico Hard Rock dos oitenta e menos do Blues experimental. O primeiro ano na cidade de porte médio-alto foi dedicado em pagar as despesas da fase de adaptação. Para ajudar a acelerar a quitação do financiamento, aglomerou-se em uma pensão com brasileiros e com eles viveu metade do período em que está por lá. Conheceu muitos colegas interessantes, mas normalmente eles não permaneciam por mais do que quatro meses: suavam no trabalho para conseguir adquirir um apartamento próprio, sendo que a pensão era apenas mais uma fase deles rumo à independência.

Não a muitas quadras dali, Bárbara adquiriu um singelo apartamento no terceiro andar de um rústico edifício, mas que possuía, na verdade, a mais alta tecnologia em construção, capaz de suportar ventanias colossais sem causar prejuízos aos moradores. Uma tecnologia de custo-benefício excepcional que não encarecia seu valor.

Bárbara ganhava o suficiente como gerente de vendas para poder quitar em cinco anos seu apartamento. Estava animada com uma possível promoção dentro da loja, que poderia ajudá-la a antecipar parcelas e a quitar o imóvel mais cedo e com desconto.

Não esperava a hora de encontrar o conforto do seu lar, e aproveitar a possível presença de seu querido Yüren, embora imaginasse que ele poderia nem esperar sua chegada e partir diretamente para o acampamento. Mas tinha suas táticas de persuasão: convenceria o rapaz a passar uma noite regada a um típico jantar em seu apartamento, e até mesmo uma noite mais íntima a dois, no fim da temporada, antes de seu retorno à Finlândia. Coisa que ela não pôde ter com disposição por Benny, tampouco com vontade por Omar. Bárbara ainda idealizava uma noite que não fosse melosa, nem animalesca.

Bárbara fez a transferência de vôo em Fortaleza. Agora, definitivamente, sairia do território brasileiro, para querer voltar somente daqui a, no mínimo, dois anos. E quando ela promete a si mesma, dificilmente ela corrompe sua decisão.


Ouvindo... Mudhoney: Need

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

%d blogueiros gostam disto: