Karta Citina: Um


Nova Helsinque, quinta-feira, 4 de abril de 2024

Juno procurava incessantemente as botas de seu hóspede no Figurattiva, uma espécie de hotel-fazenda das montanhas. Frio incomensurável, embora a primavera estivesse à porta: cinco negativos Celsius. Houveram tempos piores… Ali eram encontradas uma das diárias mais caras de toda a Finlândia, só superadas pelas diárias de tempos de Natal na Lapônia (sim, o mito do Papai Noel seria uma das minúsculas coisas que ainda seriam valorizadas da época). Quartos pressurizados, sistema de aquecimento moderno, tudo muito dispendioso.

Yüren, acho que elas ficaram estocadas na recepção. Vou verificar para você – voltou-se para o jovem, que também as procurava nos armários do alto dos quartos.

– Fique à vontade, Juno. E aqui vai a gorjeta pelo café da manhã – fornecendo-lhe generosos setenta Euros, os quais justamente já lhe ajudariam para comprar um par de meias grossas e um cachecol para aproveitar o festival da cidade de Armeggendya, cerca de sessenta quilômetros ao norte do país.

Nova Helsinque foi uma cidade planejada há dez anos com o intuito de substituir a antiga capital, que ano após ano, construía diques e mais diques para impedir o avanço da águas marítimas. Houve um planejamento maciço na construção de casas ao estilo dos igarapés amazônicos, obviamente com uma tecnologia inovadora de utilização de novos materiais leves mas resistentes. Não deu outra: dois anos depois da fixação do poder político na nova cidade, águas invadiram a região mais costeira da cidade. As residências ao formato de igarapé foram as construções que submergiram na cidade. Outras construções, quando não demolidas, tornaram-se parques subaquáticos para estudo da vida marinha nórdica.

Armeggendya era, até cinco anos atrás, uma cidade desconhecida nos mapas finlândeses, até a tempestade que a acometeu. Na verdade, ela se chamava Hedenburgen até àquele momento, mas com o ocorrido, quiseram muitos fanáticos nomeá-la assim em referência ao Armaggedon. E incrivelmente conseguiram! Até hoje tentam reverter essa situação, mas isso só causa mais escândalo a respeito do local, que pela curiosidade geral, tornou-se um ponto turístico. Os locais, oportunamente, promovem desde 2019, um festival chamado de "Festa dos Sobreviventes", regado a muito bacalhau escandinavo e petiscos da culinária regional. Coincidentemente, Yüren era cidadão desta localidade.

Com vinte e dois anos, o jovem não se diferenciava dos outros finlandeses, fechados e reclusos. Mas a personalidade de Yüren era tão intensificada que nem mesmo um dos personagens mais conhecidos da Finlândia, Haikonnen, era tão frio e indiferente aos outros quanto ele. Mesmo os intercâmbios a nações latinas, dos últimos três anos, não quebraram as amarras emocionais deste garoto. A preocupação era imensa de tal forma que, na infância, os pais o acompanharam para diagnosticar possíveis sinais de autismo. Mas nada foi comprovado.

Muito provavelmente, o que ocorreu com Yüren é o que socialmente chamam de Síndrome de Ausência Parental. A perda do avô materno, mais dedicado com a família, e vindo de regiões mais sulistas da Europa Oriental, onde as relações interpessoais eram mais acaloradas, isso aos seus tenros cinco anos de idade, ocasionou um sentimento de profunda tristeza que, quando foi atenuado, não o permitiu tornar-se um menino alegre novamente. Estava sempre neutro, não pedia reciprocidade de atenção aos pais, e usava notavelmente da razão para conduzir sua vida. Coisa que, sem pestanejar ao comentário de qualquer bom entendedor, atrasou sua vida sentimental em anos.

Yüren havia conhecido Bárbara Svenska, filha de húngaro e russa no Brasil, neta de suecos. Apesar de nenhuma compatibilidade sangüínea com aquele povo, amplamente trabalhador – mais que o comum nos últimos tempos -, a Bábi, como preferia ser chamada por seus amigos no Brasil, tinha todo um jeito brasileiro de se exibir, e embora possuísse atributos próprios da brasileira, a pele inegavelmente era alva, que, por mais que tomasse Sol, nunca ficava vermelha, mas tampouco morenava. Sempre permanecia a mesma. Os cabelos, louros de origem, tornaram-se, à sua propria escolha, tingidos de vermelho bem vivo. Cabelos esses que foram os responsáveis por iniciar uma – diga-se, de passagem, destemperada – relação entre ambos. Isso foi no Brasil, em um dos já citados intercâmbios. A beleza de Bábi chamou fisicamente a atenção de Yüren – ele poderia não demonstrar emoções, mas sentia desejo, como todo homem em sua idade.

A sorte de Yüren nessa investida foi que Bárbara havia saído de dois relacionamentos muito imprevisíveis. O primeiro, com um cigano ianque, o Omar: rude, machista e perverso. Sofrendo muito, sendo subjugada por ele e tratada a esmo, decidiu impor-se com firmeza, dando um ultimato ao sujeito. O segundo foi o hispânico Benny Archan-Jael, o oposto: delicado, democrático, carinhoso. Mas Bárbara se sentia sufocada ante a atenção excessiva demonstrada por ele, que aparecia nos momentos mais inoportunos da vida dela, causando constrangimento social… Desse Bábi procurou fugir, aproveitando em resgatar sua cidadania russa pela qual tinha direito, pois sua mãe havia falecido no parto e o pai batizou-a em cartório apenas com seu sobrenome. O sobrenome em questão da mãe, Kastorsky, deveria ser reivindicado na Rússia, na região de Samara. Bárbara passaria por lá para permanecer por uns tempos, adequar-se a um emprego estável e, dependendo das condições, estabelecer-se. Quis o destino que Yüren e Bábi se deparassem, há um ano novamente em Samara, onde ele sempre entra em contato com a natureza – pela qual demonstra mais atenção do que com pessoas – acampando nas florestas da cidade, próximo a um suntuoso rio. A partir daí, suas idas foram mais freqüentes, mas mesmo com o contato com sua querida, nunca foram a algo mais sério. Nem um beijo havia rolado ainda. Mas Bárbara fazia questão de ter Yüren nomeado como seu par. Ele fazia inveja às amigas dela, que não se preocupava com a neutralidade dele. Não queria mais relacionamentos melosos, nem desgastantes. Simplesmente, uma convenção social de auto-afirmação.

A pressa de Yüren neste dia no hotel era arrumar tudo com ampla antecedência para mais uma destas temporadas em Samara. A temperatura ficava mais agradável, e as chances de sofrer com casuais tempestades de neve eram mínimas. O aeroporto de Nova Helsinque possuía um dos vôos com destino a Samara mais eficazes de toda a rota aérea regional. A passagem no Figurattiva era para ter alguns dias a mais para renovar parte do estoque de acampamento: o anterior havia sido danificado por uma ventania forte na última temporada. Foram três dias de preparação para a viagem, e o que faltava verificar era a presença de Bábi em Samara, para hospedar-se em seu humilde apartamento, a partir da noite daquele mesmo dia. Seu vôo estaria marcado para às dezoito horas locais.


Bárbara Svenska não estaria lá. Uma viagem mal programada com algumas amigas de confiança em Porto Seguro acabou resultando em desencontro dos horários da programação dos pacotes turísticos, causando sempre muito embaraço. O vôo que partiria de Salvador para o Rio já ocorrera de manhã, e o ônibus que ela necessitava pegar para a capital baiana chegaria muito depois disso.

Porto Seguro, como toda outra cidade litorânea, era um submundo aquático. As altas regiões tornaram-se bancos de areia e constituíram novas praias. Em Salvador, o Elevador Lacerda já era considerado o medidor do nível do mar oficial, bem como das marés. Bendito aquecimento global que só pôde ser efetivamente combatido há menos de cinco anos, e já tarde demais: nações da Oceania deixaram de existir absolutamente…

– Acho incrível que, desde a época de meus pais e até avós, os pacotes turísticos continuam sendo mal programados. Uma salma de vaias a esses patetas – comenta, lisonjeada, Bárbara para uma de suas amigas mais antigas, Janeny.

– Não poupe tais "elogios" querida… Eu já participei de programas mais mal resolvidos que esse. Veja só! Fui visitar minha querida amiga Denisia Karniak em Franklin… O pacote foi programado, acredite, para uma data antes da própria viagem! Diga-me, como isso pode acontecer?

– Não é que eu esteja irada com o atraso em si, mas com o que ele está proporcionando. Sabe meu querido Yüren?

– Qual? Aquele gatíssimo de olhos azuis cristal? – intromete-se Ângela Gysph, tirando fones do ouvido. Uma das primeiras filhas nascidas no Brasil de imigrantes da Haamuskhalia, nação africana das sete que compunham o antigo Sudão. Meio negra, meio árabe, olhos verdes – algo que não é incomum nos dias atuais -, ouvia algumas das mais belas canções de Ana Carolina de 2015, como Lavanderia da Lapa, Flertar Era Coisa De Ontem e Humilde Honestidade, além de internacionais como os portugueses do Maré Às Altas, como Comboio Elétrico e Quem Fritou Meu Gatinho Foi O Papagaio Do Vizinho. Tudo isso e muitas outras mais antigas, de Rock, Pop e Láite, um estilo surgido na região paulistana em meados de 2006. Ângela encontrava-se a dois passos atrás de Bárbara e Janeny, junto com Sioue e Henvellen, ambas naturais de Osasco, cidade divisa com a capital paulista, que hoje é o coração de muitos centros de compras. Não resistiu ouvir falar no nome do frio sujeito, o qual, não soubesse que era "propriedade da Srta. Svenska", faria muito para ter alguma coisa com ele.

– Sim, mas devagar com o andor! Ele é propriedade minha! Provavelmente ele já esteja a aproveitar a primavera lá onde vivo. Eu sempre me comprometo a abrigá-lo no meu "bangalô". Fico preocupado em saber como ele fica se eu não chegar a tempo de recebê-lo.

– Ah, se liga, Bábi! – considera Sioue, com seus gestos grandiosos – Com certeza, de frio ele não morre… Tenho certeza de que ele é ainda uma geladeira, seja lá na Finlândia, Rússia ou onde o cão perdeu os chinelos.

Henvellen deixa escapar uma cuspida da sua risada. Bárbara nota e rebate a alfinetada da osasquense.

– Quero ver você fazendo um aquecimento global nos países nórdicos, já que você é tão descabida assim de quente.

Sioue se conteve, sem responder à altura pois sabia que esse era o humor corriqueiro da fortíssima personalidade de Bárbara. Toda a conversa fora interrompida pelo tilintar suave do celular de Bárbara. Uma voz computadorizada recitava:

– Telefonema de áudio internacional proveniente de…

E a seguir, uma parca voz recita pausadamente o nome de Nova Helsinque, e continua recitando a identificação do discador:

– Permaneça na linha para conversar com… "Iã-ren Chus-quen-nó-te" – mais uma vez uma voz tentava recitar o nome de Yüren Schuzkennott, que na verdade se pronunciava Iôre Sansquenô.

Um sinal sonoro padrão se sucedeu e ambos dialogavam em inglês, a língua-comum que sabiam falar.

– Bárbara, estou indo hoje para Samara. Mas vejo que ainda está em temporada, estou certo?

– Querido Yüren, desculpe não me encontrar em casa. Os planos de viagem por aqui entraram pelo cano…

– Certas coisas nunca mudam, mesmo após décadas…

– Garanto que pegarei os primeiros vôos para chegar em Samara o quanto antes. Peço paciência, por mim.

– Tudo bem, mas venha logo. Espero ter a sorte de encontrar outra pessoa que saiba falar inglês na sua cidade. Não entendo russo, sabe disso muito bem.

– Estou para resolver tudo isso agora. Te amo!

Amar era um verbo que Yüren não sabia conjugar.

– Cuide-se. Chegue inteira em casa… Irei desligar, ligações internacionais, mesmo de áudio, ainda são caras.

Após uma recíproca contundente, Bárbara se despede das amigas. Todas, na verdade, compartilhariam o mesmo vôo para o Rio, e Sioue, Henvellen e Ângela iriam para São Paulo via expresso-bala. Primeiro, Bárbara passaria na representante da agência turística para reclamar dos direitos de readequação dos horários para retorno e, pelas próprias contas, estaria pegando o vôo que, no horário da Finlândia, seriam quartorze horas.


Ouvindo... Jethro Tull: Said She Was a Dancer

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

%d blogueiros gostam disto: