Karta Citina

Prólogo


Berna, Suíça, 27 de outubro de 2024

Saudações aos viventes;

Esta é uma versão complementar de uma das correspondências que circularam no mundo nos últimos dias, via e-mail (os únicos que sobraram, pois muitos servidores médios e pequenos foram derrubados; só os gigantes conseguiram se manter, obviamente, por terem vários backbones espalhados pelo mundo). Ela agora está sendo escrita à carta para muitas das nações européias e norte-africanas, que ficaram absolutamente sem comunicação e a maioria das estradas encontram-se destruídas.

Digamos, de certa forma, que a tradição milenar da carta de papel voltou com força nos últimos meses.

Pombos-correio de médio porte, batizados de Citanenses constituem a frota de correio expedicionária para conduzir todas as correspondências, a começar por esta, em todas as partes que forem necessárias, e até às que não forem também, pelo simples desejo de acalentar o coração das pessoas com um manuscrito fiel à mão.

Grupos aqui da Suíça, dos Bálcãs e do Mediterrâneo estão transcrevendo milhares destas cartas, e cada uma das transcrições defininos que serão copiadas à máquina, no máximo, em até mil cópias, para agilizar o serviço.

Feito assim, iremos transcrever a íntegra de uma carta que expressa bem o sentido dos últimos acontecimentos que envolveram todo o planeta.

"Gëssard, Província de Tirbkur, República Tcheca

Aos 29 de julho de 2024

Aos amigos de Tisha Cartaggena em todo o globo…

É difícil viver nestes períodos em que, quando em certas partes do mundo os conflitos haviam se resolvido, outros surgem. E parece que os céus reservam uma lição de moral que, quando vem com força, mostram ao ser humano o quanto ele é minúsculo frente ao mundo.

Haverá uma posteridade que irá ler essas cartas… Não sou escritora, tampouco desejo ganhar algum lucro sobre isso ou vantagem, vangloriando-me por ter isto publicado algum dia em algum lugar. Meu nome, para começar, não é este. Quero preservá-lo. Só o fato de ver esta mensagem desencadear um sentimento de cooperação, compreensão e cumplicidade com o próximo, seja ele de boa vontade ou não, para que de boa vontade se torne ainda mais.

Para mim, se pelo menos três pessoas lerem esta carta e repassarem adiante, ou escrever uma com seus próprios sentimentos. Então posso dizer com absoluta emoção que minha missão foi cumprida… Que possa vir outra dessas megatormentas levar-me e minha família mais próxima – que, não mais graças, mas sim, de acordo com a Vontade de Deus, agora podem ainda contar estas histórias, como as que estou digitando para vocês, queridos amigos.

Eu sei que o título desta carta – porque não considero isto mais uma mensagem – assusta a todos, mas quero começar com uma saudação aos viventes. Quem pode ler isto agora já não é mais um sobrevivente, e sim um vitorioso vivente, por completo. Sabemos de toda a história antiga de antemão graças a uma instituição da Internet que, por profunda sorte, foi preservada de todos os infortúnios, ao contrário das milhares de bibliotecas do mundo que foram destruídas por diversos fenômenos climáticos nunca vistos antes!

É difícil definir um ponto para iniciar, mas eu escolhi o onze de setembro de 2001, que foi a colheita americana de todas as suas aracubacas desde a Guerra Fria… Foram doze anos sofrendo "ameaças" constantes de diversos grupos do mundo. Quando as eleições no fim dos anos 2000 deram vitória aos democratas, achava-se que, somadas as quedas econômicas, os Estados Unidos tornariam-se uma nação de paz. Puro engano… O senado amricano tomou a dianteira e expôs a verdadeira face que dirige aquela nação. Por um engenhoso esquema, eles suplantavam decisões do executivo pelas suas. Quase um parlamentarismo… E ainda faziam os méritos tornarem-se do próprio presidente. Em 2013, ocorreu um desmoronamento na cúpula da Casa Branca, e forjaram uma tentativa de atentado por ordem da Venezuela de Vinicius Chavez, um sobrinho do ex-governante cult Hugo. Quase que isso desencadeou a chamada Guerra Vespúcia. O fato era que a Venezuela era um dos pouquíssimos países fornecedores de petróleo, o mundo já andava a hidrogênio, mas alguns cabeçudos estadunidense alimentavam o ouro preto. Deu no que deu… Não fosse as "cessões diplomáticas" do Peru, Brasil e Argentina, seria o princípio da Terceira Guerra…

Descoberta a farsa, pelo vazamento das informações por um agente da CIA descontente com a situação e que abriu o jogo ao mundo numa viagem à China, depois condenado à morte injustamente, mesmo contra à vontade presidencial expressa, o mundo nunca mais foi o mesmo… Os Estados Unidos caíram numa desaceleração total da economia, inclusive a bélica, que o sustentava. Tornou-se "A Grande Nação Vazia". Conservadores procuraram instalar-se no Canadá, tentando montar um novo país, sem sucesso. A nação norte-americana virou uma terra de quase ninguém, as portas da imigração quase que se encancarariam por completo. O país passaria a ter, então, uma diversidade étnica tão grande quanto o Brasil. O "Full Down Day", ninguém esqueceria, foi em 20 de dezembro de 2014. O G8 consolidou a presença do Brasil e da Índia, junto com a China, Japão, Canadá, Alemanha, França e Rússia. Eram os novos manda-chuvas na economia.

O investimento industrial mais maciço neste intervalo de tempo foi o brasileiro: a força de trabalho de quase todos os estados, menos São Paulo, Distrito Federal e Rio de Janeiro, estava na indústria. Pipocaram empresas com infra-estrutura revolucionária, respeitando o meio-ambiente como nunca antes se viu – a Amazônia já contava com apenas a metade de seu território original – de todos os tamanhos possíveis. "Quer aprender a montar uma indústria em qualquer parte do mundo?", dizia o slogan, "Vá para o Brasil". O SENAI teve que criar o SIAI, requisitando os melhores industriais para se tornarem os instrutores dos estrangeiros. Nos outros estados, o trabalho era administrativo. São Paulo se tornou o estado dos escritórios, junto com o Rio, e Brasília também gerava os políticos da nação… Mas muitas desigualdades ali permaneceram iguais a de muitos anos anteriores, mesmo a esquerda se consolidando no poder, como que se acomodasse.

A Índia importou toda a Hollywood depois do "Full Down Day", entrou em acordo com o Paquistão e repartiu a Caxemira, mesmo ficando com a menor parte, e a menos valiosa. Tornou-se o celeiro das produções artísticas, revitalizando o sonho psicodélico de anos anteriores.

China e Japão cresceram vertiginosamente e fatorialmente – falando em matemática – a ponto de comprar noventa pro cento das patentes americanas e européias, principalmente as de tecnologia. Agora, todo produto produzido no mundo tinha tecnologia Made in China (mais parca e acessível) ou Made in Japan (mais cara, porém absolutamente infalível).

Canadá concentrou, além do empecilho dos estadunidenses descontentes, filiais e matrizes das melhores universidades do mundo, além de se tornar referência em engenharia civil.

Alemanha e França tiveram seus investimentos deslocados para o desnvolvimento de tecnologias de logística e transporte.

A Rússia, que por muitos anos aparecia como empecilho ao grupo econômico, começava a galgar seus passos grandiosos com instituições de saúde no mundo inteiro, desenvolvendo pesquisas revolucionárias com a biomedicina mecânica.

Outros países, principalmente na América Latina e no Oriente Médio, acharam soluções para metade de seus problemas e encontraram seu lugar no mundo.

Mas o mundo não evoluiu em sua totalidade…

Em grande parte da África Árabe e na África Média, conflitos étnicos cresceram assutadoramente que forças-tarefa de paz do mundo inteiro foram acionadas. Em dez anos, viu-se surgir cerca de 70 países novos, sobre apenas quinze! Alguns outros extinguiram-se e se tornaram feudos autônomos gerenciados pelas tribos. Foi a melhor solução achada para quase todos eles, mas o desgaste econômico foi intenso para a população em geral que viu as milícias minoritárias tomarem as decisões por conta própria. Ainda hoje, pequenos grupos rebeldes discutem fronteiras e mantém as massas atemorizadas…

Jerusalém foi alvo de tantos ataques até os tempos presentes, mesmo com a decisão da ONU de tornar-se uma pequena "nação-aduaneira", com um governo rotatório entre israelenses e palestinos. Exigiu-se que ambas as nações construíssem suas Novas Jerusalém em outros locais, mas ambas negaram tais ordens. Micropotências regionais supriram necessidades bélicas na região,pois ninguém mais via proveito naquela região. Jerusalém se constituiu da cidade em si, mais onze cidades em seu entorno. Tornou-se ponto exclusivamente turístico – o coordenador-geral da ONU, ateu, determinou que o novo país não possuísse religião oficial. Cada um ali cultivava sua crença individualmente.

Por falar em crenças, depois que houve uma troca de sete papas em três anos, a igreja católica desabou. Na Europa, a existência de denúncias incontáveis sobre os novos sacerdotes, mas poucas evidenciais, sobre atos contrários à moral, mancharam a imagem dos sacerdotes mais experientes e da religião. O número de fiéis cristãos reduziu-se aos não-católicos. Surgiram então novas correntes religiosas como o budismo ocidental, o islamismo ocidental e o hinduísmo ocidental, sendo que muitos dos antigos fiéis cristãos aderiram a esses sincretismos. Sobraram uma quantidade irrisória de católicos originais no Brasil. A figura do papa já não tinha mais relevância com as questões mundiais, devido à sua postura regressista e fechada. Críticas se sucediam aos antigos fiéis, e estes cada vez mais desgostavam de ouvir suas palavras. As religiões orientais originais também cresceram muito no mundo…

A violência se globalizou assombrosamente… Uma das práticas que se tornaram mais comuns é o seqüestro de crianças. Grandes organizações criminosas armaram-se de tecnologia para tornar as investidas policiais mais difíceis. Ano a ano, conferências e mais conferências, sugeriam soluções que coibiam estas ações por algum tempo…

Em fins de 2019, duas grandes descobertas foram cruciais para que não eclodisse a Terceira Guerra, sempre eminente: a dessalinização de água do mar com íons de bismuto e a despoluição dos rios, com métodos menos dispendiosos. Por exigência da ONU, assinou-se entre todas as maiores nações do produto a Isenção de Patente dos métodos, como sendo patrimônio global.

Agora a briga era para diminuir o efeito estufa, que levantou o mar em sete metros e submergiu 24% das terras globais – os países baixos se tornaram a Nova Atlântida – e contra a insuficiência de oxigênio no ar: somos hoje 9 bilhões no mundo, e quase todos os países constituíram controle de natalidade econômico rígido.

Estudos incansáveis estavam sendo feitos para enxertar espécies de florestas tropicais em outras zonas do globo para compensar as perdas, além de adequar a fauna nativa desses lugares. Para pô-los em prática, porém, esbarra-se em questões políticas seríssimas entre países.

Assim era o retrato do mundo no início de 2024, quando, no sábado de 6 de abril do ano vigente… Toda a população mundial foi surpreendida pelo que vocês já presenciaram (acredito).

Não era um cometa…

Não era poeira espacial…

O céu, verdadeiramente, caía sobre nossas cabeças!

Eu estava em Milan, na Itália, por volta das oito da noite, comendo chocolate numa loja subterrânea dos becos mais charmosos. Sairia mais cedo, mas tive – acreditem – uma singela dor de barriga. No banheiro, comecei a ouvir assobios de vento forte e muitos ruídos e gritos das pessoas dentro da loja. Quando saí, vi que ficaria presa por não sei quanto tempo. Comecei a entrar em desespero… Mas uma hora depois, quando as coisas acalmaram, vimos, nós ali da loja, que estava tudo seguro. A ladeira era na parte alta da cidade, mas descendo cerca de duzentos metros, havia ondas de água de mar se espalhando… As casas, muitas delas, estavam ao chão, mas de uma maneira muito estranha… Era como se grandes mãos estivessem fazendo pressão sobre as casas e estas fossem de papelão… Ninguém atendia nada! Ligávamos a televisão e não tínhamos sinal de nada. "Pegamos emprestado" antenas de maior alcance, e nada! Até conseguirmos usar um satélite improvisado com uma panela de cobre e um receptor caseiro de uma eletrônica que incrivelmente permaneceu em pé, sem nenhuma rachadura. Conseguíamos sintonizar apenas os canais da América e da Ásia, por cerca de cinco horas, quando presenciamos um furo de reportagem assustador… Não!!! Assutador é dizer pouco ainda… Não há como explicar o que presenciamos. Vimos imagens de uma tempestade anormal se espalhando circularmente sobre o globo. Primeiro as imagens da América sumiram, muito depois as da Ásia. Apenas quinze dias depois a comunicação voltou.

Quando isto aconteceu, em todos os canais – ressalto, grifo: todos! – um comunicado legendado próprio para cada língua do mundo – não há mais do que quarenta em todo o mundo – do Instituto de Meteorologia Canadense procurando explicar o que fora aquilo. Foram dias de cobertura sobre os prejuízos e saldo de feridos e mortos, o maior já registrado em toda a história da humanidade!

Deseperada, procurei voltar o mais depressa possível para casa na minha querida República Tcheca, via estrada… Levei cerca de oito vezes mais tempo que uma viagem normal, com forças do exército fazendo o auxílio para transpor obstáculos para os civis.

Fiquei feliz em saber que Gëssard estava intacta, mas o vale que a "abraçava", do outro lado, encontrava-se com suas árvores despedaçadas. Os amigos, a família, todos passavam bem.

Fui surpreendida mais uma vez com o que ouvi da parte deles…

Os nossos ancestrais, uma tribo nômade existente na região, falava da profecia do dia em que o céu encontraria o chão, e que o chapéu que protege os homens iria determinar a sua continuidade da vida. Eles chamavam isso de Kaata Qtna. Havia uma canção folclórica deles que hoje é a música alicerce de nossa sociedade, pois outros descendentes dessa tribo, na Finlândia, que estavam em contato com a então maior banda dos últimos dez anos, System of a Down, que a transformou num metal progressivo muito bonita e triste ao mesmo tempo. Eles também sobreviveram à hecatombe climática, em Helsinque, e adaptaram a canção:

"Sei que não posso escapar
Porque posso encontrar
O sentido de minha vida:
Karta Citina!

O tempo tão derradeiro…
Quem chegará primeiro?
A maldita ou a bendita:
Karta Citina!

Errantes, constantes,
Intransigentes, intolerantes,
Quem leva o chapéu que o cobria:
Karta Citina!

Ele sempre nos avisou,
Que alguns levaria,
Os maus ou os bons, quem diria?
Karta Citina!"

Espero ter tocado a todos os viventes com toda a minha sinceridade.

O carinho das pessoas e a admoestação de Deus para todos."

E ela tocou a nossa associação com este radar de apelo que batizou o fenômeno. Muitos disseram ser o apocalipse… Estariam certos? Não sei! Só sei que a mensagem que queremos entregar é que precisamos, mais do que nunca, nos amarmos, pois podemos nos arrepender amargamente amanhã, quando for tarde demais.

Este e-mail atingiu a incrível marca de encaminhamentos nunca antes feita. Todos os e-mails pessoais do mundo ativos – dos viventes – possuem, no mínimo, duas cópias deste, em menos de três semanas. Isso desencadeou o maior sentimento de "coleguismo" como nunca se viu no mundo. Todos cantam The Sad Desire of Karta Citina, do System, para lembrarem-se do sentimento que Serj Tankian impregnou e manterem vivos que todos os seres humanos são um só…

Faço minhas as palavras de Tisha: o carinho das pessoas e a admoestação de Deus para todos.

Um Amigo,
da Sociedade Européia de Valorização dos Sentimentos."


Ouvindo... Radiohead: Myxomatosis. (Judge, Jury & Executioner.)

A continuação, somente em livro ou no Brejo do Sapinho… Aguardem!

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