Trigésimo Quinto Fonema

Oráculo

smile_nerdlightbulb Oportunamente, nosso personagem deparar-se-á com uma grande ajuda.


O Autoc segue adiante, sempre sob a suspeita do pensamento, não mais questionando de forma desconstrutuvista, mas sim de maneira reformista. A um novo exemplo Descartesiano, procurava conciliar tudo o que via e racionalizar uma linha de pensamento.

Era o momento decisivo de se organizar para obter resultados concretos para viver acostumado com uma nova realidade.

Quando, na Terra dos Sem-Razão, encontra a fonte-maior de todos os questionamentos, a reserva de todas as conseqüentes respostas.

Emudecido por uma causa desconhecida, não tarda para que o Bigaiye reconheça a sua avidez por algo que lhe oriente definitamente.

Mas a resposta é complexa demais para aquele que tudo sob o céu têm as respostas físicas. Era algo que estaria ainda além de seu alcance…

Não vejo por qual intento,
Sopras seus gestos ao vento,
Enquanto sempre tinha ela consigo,
E não a havia percebido.

Por uma resposta posso auxiliar:
No território do desencanto,
Onde as cores tornar-se-ão a escapar,
Acharás seus porquês, contudos, portanto.

Mais uma vez, a interrogação adentra o imaginário do Autoc, mas agora não era mais o momento de resistir às novidades. E sim de correr os riscos!


Ouvindo... Guns ‘N Roses: Used To Love Her

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Karta Citina: Um


Nova Helsinque, quinta-feira, 4 de abril de 2024

Juno procurava incessantemente as botas de seu hóspede no Figurattiva, uma espécie de hotel-fazenda das montanhas. Frio incomensurável, embora a primavera estivesse à porta: cinco negativos Celsius. Houveram tempos piores… Ali eram encontradas uma das diárias mais caras de toda a Finlândia, só superadas pelas diárias de tempos de Natal na Lapônia (sim, o mito do Papai Noel seria uma das minúsculas coisas que ainda seriam valorizadas da época). Quartos pressurizados, sistema de aquecimento moderno, tudo muito dispendioso.

Yüren, acho que elas ficaram estocadas na recepção. Vou verificar para você – voltou-se para o jovem, que também as procurava nos armários do alto dos quartos.

– Fique à vontade, Juno. E aqui vai a gorjeta pelo café da manhã – fornecendo-lhe generosos setenta Euros, os quais justamente já lhe ajudariam para comprar um par de meias grossas e um cachecol para aproveitar o festival da cidade de Armeggendya, cerca de sessenta quilômetros ao norte do país.

Nova Helsinque foi uma cidade planejada há dez anos com o intuito de substituir a antiga capital, que ano após ano, construía diques e mais diques para impedir o avanço da águas marítimas. Houve um planejamento maciço na construção de casas ao estilo dos igarapés amazônicos, obviamente com uma tecnologia inovadora de utilização de novos materiais leves mas resistentes. Não deu outra: dois anos depois da fixação do poder político na nova cidade, águas invadiram a região mais costeira da cidade. As residências ao formato de igarapé foram as construções que submergiram na cidade. Outras construções, quando não demolidas, tornaram-se parques subaquáticos para estudo da vida marinha nórdica.

Armeggendya era, até cinco anos atrás, uma cidade desconhecida nos mapas finlândeses, até a tempestade que a acometeu. Na verdade, ela se chamava Hedenburgen até àquele momento, mas com o ocorrido, quiseram muitos fanáticos nomeá-la assim em referência ao Armaggedon. E incrivelmente conseguiram! Até hoje tentam reverter essa situação, mas isso só causa mais escândalo a respeito do local, que pela curiosidade geral, tornou-se um ponto turístico. Os locais, oportunamente, promovem desde 2019, um festival chamado de "Festa dos Sobreviventes", regado a muito bacalhau escandinavo e petiscos da culinária regional. Coincidentemente, Yüren era cidadão desta localidade.

Com vinte e dois anos, o jovem não se diferenciava dos outros finlandeses, fechados e reclusos. Mas a personalidade de Yüren era tão intensificada que nem mesmo um dos personagens mais conhecidos da Finlândia, Haikonnen, era tão frio e indiferente aos outros quanto ele. Mesmo os intercâmbios a nações latinas, dos últimos três anos, não quebraram as amarras emocionais deste garoto. A preocupação era imensa de tal forma que, na infância, os pais o acompanharam para diagnosticar possíveis sinais de autismo. Mas nada foi comprovado.

Muito provavelmente, o que ocorreu com Yüren é o que socialmente chamam de Síndrome de Ausência Parental. A perda do avô materno, mais dedicado com a família, e vindo de regiões mais sulistas da Europa Oriental, onde as relações interpessoais eram mais acaloradas, isso aos seus tenros cinco anos de idade, ocasionou um sentimento de profunda tristeza que, quando foi atenuado, não o permitiu tornar-se um menino alegre novamente. Estava sempre neutro, não pedia reciprocidade de atenção aos pais, e usava notavelmente da razão para conduzir sua vida. Coisa que, sem pestanejar ao comentário de qualquer bom entendedor, atrasou sua vida sentimental em anos.

Yüren havia conhecido Bárbara Svenska, filha de húngaro e russa no Brasil, neta de suecos. Apesar de nenhuma compatibilidade sangüínea com aquele povo, amplamente trabalhador – mais que o comum nos últimos tempos -, a Bábi, como preferia ser chamada por seus amigos no Brasil, tinha todo um jeito brasileiro de se exibir, e embora possuísse atributos próprios da brasileira, a pele inegavelmente era alva, que, por mais que tomasse Sol, nunca ficava vermelha, mas tampouco morenava. Sempre permanecia a mesma. Os cabelos, louros de origem, tornaram-se, à sua propria escolha, tingidos de vermelho bem vivo. Cabelos esses que foram os responsáveis por iniciar uma – diga-se, de passagem, destemperada – relação entre ambos. Isso foi no Brasil, em um dos já citados intercâmbios. A beleza de Bábi chamou fisicamente a atenção de Yüren – ele poderia não demonstrar emoções, mas sentia desejo, como todo homem em sua idade.

A sorte de Yüren nessa investida foi que Bárbara havia saído de dois relacionamentos muito imprevisíveis. O primeiro, com um cigano ianque, o Omar: rude, machista e perverso. Sofrendo muito, sendo subjugada por ele e tratada a esmo, decidiu impor-se com firmeza, dando um ultimato ao sujeito. O segundo foi o hispânico Benny Archan-Jael, o oposto: delicado, democrático, carinhoso. Mas Bárbara se sentia sufocada ante a atenção excessiva demonstrada por ele, que aparecia nos momentos mais inoportunos da vida dela, causando constrangimento social… Desse Bábi procurou fugir, aproveitando em resgatar sua cidadania russa pela qual tinha direito, pois sua mãe havia falecido no parto e o pai batizou-a em cartório apenas com seu sobrenome. O sobrenome em questão da mãe, Kastorsky, deveria ser reivindicado na Rússia, na região de Samara. Bárbara passaria por lá para permanecer por uns tempos, adequar-se a um emprego estável e, dependendo das condições, estabelecer-se. Quis o destino que Yüren e Bábi se deparassem, há um ano novamente em Samara, onde ele sempre entra em contato com a natureza – pela qual demonstra mais atenção do que com pessoas – acampando nas florestas da cidade, próximo a um suntuoso rio. A partir daí, suas idas foram mais freqüentes, mas mesmo com o contato com sua querida, nunca foram a algo mais sério. Nem um beijo havia rolado ainda. Mas Bárbara fazia questão de ter Yüren nomeado como seu par. Ele fazia inveja às amigas dela, que não se preocupava com a neutralidade dele. Não queria mais relacionamentos melosos, nem desgastantes. Simplesmente, uma convenção social de auto-afirmação.

A pressa de Yüren neste dia no hotel era arrumar tudo com ampla antecedência para mais uma destas temporadas em Samara. A temperatura ficava mais agradável, e as chances de sofrer com casuais tempestades de neve eram mínimas. O aeroporto de Nova Helsinque possuía um dos vôos com destino a Samara mais eficazes de toda a rota aérea regional. A passagem no Figurattiva era para ter alguns dias a mais para renovar parte do estoque de acampamento: o anterior havia sido danificado por uma ventania forte na última temporada. Foram três dias de preparação para a viagem, e o que faltava verificar era a presença de Bábi em Samara, para hospedar-se em seu humilde apartamento, a partir da noite daquele mesmo dia. Seu vôo estaria marcado para às dezoito horas locais.


Bárbara Svenska não estaria lá. Uma viagem mal programada com algumas amigas de confiança em Porto Seguro acabou resultando em desencontro dos horários da programação dos pacotes turísticos, causando sempre muito embaraço. O vôo que partiria de Salvador para o Rio já ocorrera de manhã, e o ônibus que ela necessitava pegar para a capital baiana chegaria muito depois disso.

Porto Seguro, como toda outra cidade litorânea, era um submundo aquático. As altas regiões tornaram-se bancos de areia e constituíram novas praias. Em Salvador, o Elevador Lacerda já era considerado o medidor do nível do mar oficial, bem como das marés. Bendito aquecimento global que só pôde ser efetivamente combatido há menos de cinco anos, e já tarde demais: nações da Oceania deixaram de existir absolutamente…

– Acho incrível que, desde a época de meus pais e até avós, os pacotes turísticos continuam sendo mal programados. Uma salma de vaias a esses patetas – comenta, lisonjeada, Bárbara para uma de suas amigas mais antigas, Janeny.

– Não poupe tais "elogios" querida… Eu já participei de programas mais mal resolvidos que esse. Veja só! Fui visitar minha querida amiga Denisia Karniak em Franklin… O pacote foi programado, acredite, para uma data antes da própria viagem! Diga-me, como isso pode acontecer?

– Não é que eu esteja irada com o atraso em si, mas com o que ele está proporcionando. Sabe meu querido Yüren?

– Qual? Aquele gatíssimo de olhos azuis cristal? – intromete-se Ângela Gysph, tirando fones do ouvido. Uma das primeiras filhas nascidas no Brasil de imigrantes da Haamuskhalia, nação africana das sete que compunham o antigo Sudão. Meio negra, meio árabe, olhos verdes – algo que não é incomum nos dias atuais -, ouvia algumas das mais belas canções de Ana Carolina de 2015, como Lavanderia da Lapa, Flertar Era Coisa De Ontem e Humilde Honestidade, além de internacionais como os portugueses do Maré Às Altas, como Comboio Elétrico e Quem Fritou Meu Gatinho Foi O Papagaio Do Vizinho. Tudo isso e muitas outras mais antigas, de Rock, Pop e Láite, um estilo surgido na região paulistana em meados de 2006. Ângela encontrava-se a dois passos atrás de Bárbara e Janeny, junto com Sioue e Henvellen, ambas naturais de Osasco, cidade divisa com a capital paulista, que hoje é o coração de muitos centros de compras. Não resistiu ouvir falar no nome do frio sujeito, o qual, não soubesse que era "propriedade da Srta. Svenska", faria muito para ter alguma coisa com ele.

– Sim, mas devagar com o andor! Ele é propriedade minha! Provavelmente ele já esteja a aproveitar a primavera lá onde vivo. Eu sempre me comprometo a abrigá-lo no meu "bangalô". Fico preocupado em saber como ele fica se eu não chegar a tempo de recebê-lo.

– Ah, se liga, Bábi! – considera Sioue, com seus gestos grandiosos – Com certeza, de frio ele não morre… Tenho certeza de que ele é ainda uma geladeira, seja lá na Finlândia, Rússia ou onde o cão perdeu os chinelos.

Henvellen deixa escapar uma cuspida da sua risada. Bárbara nota e rebate a alfinetada da osasquense.

– Quero ver você fazendo um aquecimento global nos países nórdicos, já que você é tão descabida assim de quente.

Sioue se conteve, sem responder à altura pois sabia que esse era o humor corriqueiro da fortíssima personalidade de Bárbara. Toda a conversa fora interrompida pelo tilintar suave do celular de Bárbara. Uma voz computadorizada recitava:

– Telefonema de áudio internacional proveniente de…

E a seguir, uma parca voz recita pausadamente o nome de Nova Helsinque, e continua recitando a identificação do discador:

– Permaneça na linha para conversar com… "Iã-ren Chus-quen-nó-te" – mais uma vez uma voz tentava recitar o nome de Yüren Schuzkennott, que na verdade se pronunciava Iôre Sansquenô.

Um sinal sonoro padrão se sucedeu e ambos dialogavam em inglês, a língua-comum que sabiam falar.

– Bárbara, estou indo hoje para Samara. Mas vejo que ainda está em temporada, estou certo?

– Querido Yüren, desculpe não me encontrar em casa. Os planos de viagem por aqui entraram pelo cano…

– Certas coisas nunca mudam, mesmo após décadas…

– Garanto que pegarei os primeiros vôos para chegar em Samara o quanto antes. Peço paciência, por mim.

– Tudo bem, mas venha logo. Espero ter a sorte de encontrar outra pessoa que saiba falar inglês na sua cidade. Não entendo russo, sabe disso muito bem.

– Estou para resolver tudo isso agora. Te amo!

Amar era um verbo que Yüren não sabia conjugar.

– Cuide-se. Chegue inteira em casa… Irei desligar, ligações internacionais, mesmo de áudio, ainda são caras.

Após uma recíproca contundente, Bárbara se despede das amigas. Todas, na verdade, compartilhariam o mesmo vôo para o Rio, e Sioue, Henvellen e Ângela iriam para São Paulo via expresso-bala. Primeiro, Bárbara passaria na representante da agência turística para reclamar dos direitos de readequação dos horários para retorno e, pelas próprias contas, estaria pegando o vôo que, no horário da Finlândia, seriam quartorze horas.


Ouvindo... Jethro Tull: Said She Was a Dancer

Karta Citina: Prólogo

Prólogo


Berna, Suíça, 27 de outubro de 2024

Saudações aos viventes;

Esta é uma versão complementar de uma das correspondências que circularam no mundo nos últimos dias, via e-mail (os únicos que sobraram, pois muitos servidores médios e pequenos foram derrubados; só os gigantes conseguiram se manter, obviamente, por terem vários backbones espalhados pelo mundo). Ela agora está sendo escrita à carta para muitas das nações européias e norte-africanas, que ficaram absolutamente sem comunicação e a maioria das estradas encontram-se destruídas.

Digamos, de certa forma, que a tradição milenar da carta de papel voltou com força nos últimos meses.

Pombos-correio de médio porte, batizados de Citanenses constituem a frota de correio expedicionária para conduzir todas as correspondências, a começar por esta, em todas as partes que forem necessárias, e até às que não forem também, pelo simples desejo de acalentar o coração das pessoas com um manuscrito fiel à mão.

Grupos aqui da Suíça, dos Bálcãs e do Mediterrâneo estão transcrevendo milhares destas cartas, e cada uma das transcrições defininos que serão copiadas à máquina, no máximo, em até mil cópias, para agilizar o serviço.

Feito assim, iremos transcrever a íntegra de uma carta que expressa bem o sentido dos últimos acontecimentos que envolveram todo o planeta.

"Gëssard, Província de Tirbkur, República Tcheca

Aos 29 de julho de 2024

Aos amigos de Tisha Cartaggena em todo o globo…

É difícil viver nestes períodos em que, quando em certas partes do mundo os conflitos haviam se resolvido, outros surgem. E parece que os céus reservam uma lição de moral que, quando vem com força, mostram ao ser humano o quanto ele é minúsculo frente ao mundo.

Haverá uma posteridade que irá ler essas cartas… Não sou escritora, tampouco desejo ganhar algum lucro sobre isso ou vantagem, vangloriando-me por ter isto publicado algum dia em algum lugar. Meu nome, para começar, não é este. Quero preservá-lo. Só o fato de ver esta mensagem desencadear um sentimento de cooperação, compreensão e cumplicidade com o próximo, seja ele de boa vontade ou não, para que de boa vontade se torne ainda mais.

Para mim, se pelo menos três pessoas lerem esta carta e repassarem adiante, ou escrever uma com seus próprios sentimentos. Então posso dizer com absoluta emoção que minha missão foi cumprida… Que possa vir outra dessas megatormentas levar-me e minha família mais próxima – que, não mais graças, mas sim, de acordo com a Vontade de Deus, agora podem ainda contar estas histórias, como as que estou digitando para vocês, queridos amigos.

Eu sei que o título desta carta – porque não considero isto mais uma mensagem – assusta a todos, mas quero começar com uma saudação aos viventes. Quem pode ler isto agora já não é mais um sobrevivente, e sim um vitorioso vivente, por completo. Sabemos de toda a história antiga de antemão graças a uma instituição da Internet que, por profunda sorte, foi preservada de todos os infortúnios, ao contrário das milhares de bibliotecas do mundo que foram destruídas por diversos fenômenos climáticos nunca vistos antes!

É difícil definir um ponto para iniciar, mas eu escolhi o onze de setembro de 2001, que foi a colheita americana de todas as suas aracubacas desde a Guerra Fria… Foram doze anos sofrendo "ameaças" constantes de diversos grupos do mundo. Quando as eleições no fim dos anos 2000 deram vitória aos democratas, achava-se que, somadas as quedas econômicas, os Estados Unidos tornariam-se uma nação de paz. Puro engano… O senado amricano tomou a dianteira e expôs a verdadeira face que dirige aquela nação. Por um engenhoso esquema, eles suplantavam decisões do executivo pelas suas. Quase um parlamentarismo… E ainda faziam os méritos tornarem-se do próprio presidente. Em 2013, ocorreu um desmoronamento na cúpula da Casa Branca, e forjaram uma tentativa de atentado por ordem da Venezuela de Vinicius Chavez, um sobrinho do ex-governante cult Hugo. Quase que isso desencadeou a chamada Guerra Vespúcia. O fato era que a Venezuela era um dos pouquíssimos países fornecedores de petróleo, o mundo já andava a hidrogênio, mas alguns cabeçudos estadunidense alimentavam o ouro preto. Deu no que deu… Não fosse as "cessões diplomáticas" do Peru, Brasil e Argentina, seria o princípio da Terceira Guerra…

Descoberta a farsa, pelo vazamento das informações por um agente da CIA descontente com a situação e que abriu o jogo ao mundo numa viagem à China, depois condenado à morte injustamente, mesmo contra à vontade presidencial expressa, o mundo nunca mais foi o mesmo… Os Estados Unidos caíram numa desaceleração total da economia, inclusive a bélica, que o sustentava. Tornou-se "A Grande Nação Vazia". Conservadores procuraram instalar-se no Canadá, tentando montar um novo país, sem sucesso. A nação norte-americana virou uma terra de quase ninguém, as portas da imigração quase que se encancarariam por completo. O país passaria a ter, então, uma diversidade étnica tão grande quanto o Brasil. O "Full Down Day", ninguém esqueceria, foi em 20 de dezembro de 2014. O G8 consolidou a presença do Brasil e da Índia, junto com a China, Japão, Canadá, Alemanha, França e Rússia. Eram os novos manda-chuvas na economia.

O investimento industrial mais maciço neste intervalo de tempo foi o brasileiro: a força de trabalho de quase todos os estados, menos São Paulo, Distrito Federal e Rio de Janeiro, estava na indústria. Pipocaram empresas com infra-estrutura revolucionária, respeitando o meio-ambiente como nunca antes se viu – a Amazônia já contava com apenas a metade de seu território original – de todos os tamanhos possíveis. "Quer aprender a montar uma indústria em qualquer parte do mundo?", dizia o slogan, "Vá para o Brasil". O SENAI teve que criar o SIAI, requisitando os melhores industriais para se tornarem os instrutores dos estrangeiros. Nos outros estados, o trabalho era administrativo. São Paulo se tornou o estado dos escritórios, junto com o Rio, e Brasília também gerava os políticos da nação… Mas muitas desigualdades ali permaneceram iguais a de muitos anos anteriores, mesmo a esquerda se consolidando no poder, como que se acomodasse.

A Índia importou toda a Hollywood depois do "Full Down Day", entrou em acordo com o Paquistão e repartiu a Caxemira, mesmo ficando com a menor parte, e a menos valiosa. Tornou-se o celeiro das produções artísticas, revitalizando o sonho psicodélico de anos anteriores.

China e Japão cresceram vertiginosamente e fatorialmente – falando em matemática – a ponto de comprar noventa pro cento das patentes americanas e européias, principalmente as de tecnologia. Agora, todo produto produzido no mundo tinha tecnologia Made in China (mais parca e acessível) ou Made in Japan (mais cara, porém absolutamente infalível).

Canadá concentrou, além do empecilho dos estadunidenses descontentes, filiais e matrizes das melhores universidades do mundo, além de se tornar referência em engenharia civil.

Alemanha e França tiveram seus investimentos deslocados para o desnvolvimento de tecnologias de logística e transporte.

A Rússia, que por muitos anos aparecia como empecilho ao grupo econômico, começava a galgar seus passos grandiosos com instituições de saúde no mundo inteiro, desenvolvendo pesquisas revolucionárias com a biomedicina mecânica.

Outros países, principalmente na América Latina e no Oriente Médio, acharam soluções para metade de seus problemas e encontraram seu lugar no mundo.

Mas o mundo não evoluiu em sua totalidade…

Em grande parte da África Árabe e na África Média, conflitos étnicos cresceram assutadoramente que forças-tarefa de paz do mundo inteiro foram acionadas. Em dez anos, viu-se surgir cerca de 70 países novos, sobre apenas quinze! Alguns outros extinguiram-se e se tornaram feudos autônomos gerenciados pelas tribos. Foi a melhor solução achada para quase todos eles, mas o desgaste econômico foi intenso para a população em geral que viu as milícias minoritárias tomarem as decisões por conta própria. Ainda hoje, pequenos grupos rebeldes discutem fronteiras e mantém as massas atemorizadas…

Jerusalém foi alvo de tantos ataques até os tempos presentes, mesmo com a decisão da ONU de tornar-se uma pequena "nação-aduaneira", com um governo rotatório entre israelenses e palestinos. Exigiu-se que ambas as nações construíssem suas Novas Jerusalém em outros locais, mas ambas negaram tais ordens. Micropotências regionais supriram necessidades bélicas na região,pois ninguém mais via proveito naquela região. Jerusalém se constituiu da cidade em si, mais onze cidades em seu entorno. Tornou-se ponto exclusivamente turístico – o coordenador-geral da ONU, ateu, determinou que o novo país não possuísse religião oficial. Cada um ali cultivava sua crença individualmente.

Por falar em crenças, depois que houve uma troca de sete papas em três anos, a igreja católica desabou. Na Europa, a existência de denúncias incontáveis sobre os novos sacerdotes, mas poucas evidenciais, sobre atos contrários à moral, mancharam a imagem dos sacerdotes mais experientes e da religião. O número de fiéis cristãos reduziu-se aos não-católicos. Surgiram então novas correntes religiosas como o budismo ocidental, o islamismo ocidental e o hinduísmo ocidental, sendo que muitos dos antigos fiéis cristãos aderiram a esses sincretismos. Sobraram uma quantidade irrisória de católicos originais no Brasil. A figura do papa já não tinha mais relevância com as questões mundiais, devido à sua postura regressista e fechada. Críticas se sucediam aos antigos fiéis, e estes cada vez mais desgostavam de ouvir suas palavras. As religiões orientais originais também cresceram muito no mundo…

A violência se globalizou assombrosamente… Uma das práticas que se tornaram mais comuns é o seqüestro de crianças. Grandes organizações criminosas armaram-se de tecnologia para tornar as investidas policiais mais difíceis. Ano a ano, conferências e mais conferências, sugeriam soluções que coibiam estas ações por algum tempo…

Em fins de 2019, duas grandes descobertas foram cruciais para que não eclodisse a Terceira Guerra, sempre eminente: a dessalinização de água do mar com íons de bismuto e a despoluição dos rios, com métodos menos dispendiosos. Por exigência da ONU, assinou-se entre todas as maiores nações do produto a Isenção de Patente dos métodos, como sendo patrimônio global.

Agora a briga era para diminuir o efeito estufa, que levantou o mar em sete metros e submergiu 24% das terras globais – os países baixos se tornaram a Nova Atlântida – e contra a insuficiência de oxigênio no ar: somos hoje 9 bilhões no mundo, e quase todos os países constituíram controle de natalidade econômico rígido.

Estudos incansáveis estavam sendo feitos para enxertar espécies de florestas tropicais em outras zonas do globo para compensar as perdas, além de adequar a fauna nativa desses lugares. Para pô-los em prática, porém, esbarra-se em questões políticas seríssimas entre países.

Assim era o retrato do mundo no início de 2024, quando, no sábado de 6 de abril do ano vigente… Toda a população mundial foi surpreendida pelo que vocês já presenciaram (acredito).

Não era um cometa…

Não era poeira espacial…

O céu, verdadeiramente, caía sobre nossas cabeças!

Eu estava em Milan, na Itália, por volta das oito da noite, comendo chocolate numa loja subterrânea dos becos mais charmosos. Sairia mais cedo, mas tive – acreditem – uma singela dor de barriga. No banheiro, comecei a ouvir assobios de vento forte e muitos ruídos e gritos das pessoas dentro da loja. Quando saí, vi que ficaria presa por não sei quanto tempo. Comecei a entrar em desespero… Mas uma hora depois, quando as coisas acalmaram, vimos, nós ali da loja, que estava tudo seguro. A ladeira era na parte alta da cidade, mas descendo cerca de duzentos metros, havia ondas de água de mar se espalhando… As casas, muitas delas, estavam ao chão, mas de uma maneira muito estranha… Era como se grandes mãos estivessem fazendo pressão sobre as casas e estas fossem de papelão… Ninguém atendia nada! Ligávamos a televisão e não tínhamos sinal de nada. "Pegamos emprestado" antenas de maior alcance, e nada! Até conseguirmos usar um satélite improvisado com uma panela de cobre e um receptor caseiro de uma eletrônica que incrivelmente permaneceu em pé, sem nenhuma rachadura. Conseguíamos sintonizar apenas os canais da América e da Ásia, por cerca de cinco horas, quando presenciamos um furo de reportagem assustador… Não!!! Assutador é dizer pouco ainda… Não há como explicar o que presenciamos. Vimos imagens de uma tempestade anormal se espalhando circularmente sobre o globo. Primeiro as imagens da América sumiram, muito depois as da Ásia. Apenas quinze dias depois a comunicação voltou.

Quando isto aconteceu, em todos os canais – ressalto, grifo: todos! – um comunicado legendado próprio para cada língua do mundo – não há mais do que quarenta em todo o mundo – do Instituto de Meteorologia Canadense procurando explicar o que fora aquilo. Foram dias de cobertura sobre os prejuízos e saldo de feridos e mortos, o maior já registrado em toda a história da humanidade!

Deseperada, procurei voltar o mais depressa possível para casa na minha querida República Tcheca, via estrada… Levei cerca de oito vezes mais tempo que uma viagem normal, com forças do exército fazendo o auxílio para transpor obstáculos para os civis.

Fiquei feliz em saber que Gëssard estava intacta, mas o vale que a "abraçava", do outro lado, encontrava-se com suas árvores despedaçadas. Os amigos, a família, todos passavam bem.

Fui surpreendida mais uma vez com o que ouvi da parte deles…

Os nossos ancestrais, uma tribo nômade existente na região, falava da profecia do dia em que o céu encontraria o chão, e que o chapéu que protege os homens iria determinar a sua continuidade da vida. Eles chamavam isso de Kaata Qtna. Havia uma canção folclórica deles que hoje é a música alicerce de nossa sociedade, pois outros descendentes dessa tribo, na Finlândia, que estavam em contato com a então maior banda dos últimos dez anos, System of a Down, que a transformou num metal progressivo muito bonita e triste ao mesmo tempo. Eles também sobreviveram à hecatombe climática, em Helsinque, e adaptaram a canção:

"Sei que não posso escapar
Porque posso encontrar 
O sentido de minha vida:
Karta Citina!

O tempo tão derradeiro…
Quem chegará primeiro?
A maldita ou a bendita:
Karta Citina!

Errantes, constantes,
Intransigentes, intolerantes,
Quem leva o chapéu que o cobria:
Karta Citina!

Ele sempre nos avisou,
Que alguns levaria,
Os maus ou os bons, quem diria?
Karta Citina!"

Espero ter tocado a todos os viventes com toda a minha sinceridade.

O carinho das pessoas e a admoestação de Deus para todos."

E ela tocou a nossa associação com este radar de apelo que batizou o fenômeno. Muitos disseram ser o apocalipse… Estariam certos? Não sei! Só sei que a mensagem que queremos entregar é que precisamos, mais do que nunca, nos amarmos, pois podemos nos arrepender amargamente amanhã, quando for tarde demais.

Este e-mail atingiu a incrível marca de encaminhamentos nunca antes feita. Todos os e-mails pessoais do mundo ativos – dos viventes – possuem, no mínimo, duas cópias deste, em menos de três semanas. Isso desencadeou o maior sentimento de "coleguismo" como nunca se viu no mundo. Todos cantam The Sad Desire of Karta Citina, do System, para lembrarem-se do sentimento que Serj Tankian impregnou e manterem vivos que todos os seres humanos são um só…

Faço minhas as palavras de Tisha: o carinho das pessoas e a admoestação de Deus para todos.

Um Amigo,
da Sociedade Européia de Valorização dos Sentimentos."


Ouvindo... Radiohead: Myxomatosis. (Judge, Jury & Executioner.)

Karta Citina

Prólogo


Berna, Suíça, 27 de outubro de 2024

Saudações aos viventes;

Esta é uma versão complementar de uma das correspondências que circularam no mundo nos últimos dias, via e-mail (os únicos que sobraram, pois muitos servidores médios e pequenos foram derrubados; só os gigantes conseguiram se manter, obviamente, por terem vários backbones espalhados pelo mundo). Ela agora está sendo escrita à carta para muitas das nações européias e norte-africanas, que ficaram absolutamente sem comunicação e a maioria das estradas encontram-se destruídas.

Digamos, de certa forma, que a tradição milenar da carta de papel voltou com força nos últimos meses.

Pombos-correio de médio porte, batizados de Citanenses constituem a frota de correio expedicionária para conduzir todas as correspondências, a começar por esta, em todas as partes que forem necessárias, e até às que não forem também, pelo simples desejo de acalentar o coração das pessoas com um manuscrito fiel à mão.

Grupos aqui da Suíça, dos Bálcãs e do Mediterrâneo estão transcrevendo milhares destas cartas, e cada uma das transcrições defininos que serão copiadas à máquina, no máximo, em até mil cópias, para agilizar o serviço.

Feito assim, iremos transcrever a íntegra de uma carta que expressa bem o sentido dos últimos acontecimentos que envolveram todo o planeta.

"Gëssard, Província de Tirbkur, República Tcheca

Aos 29 de julho de 2024

Aos amigos de Tisha Cartaggena em todo o globo…

É difícil viver nestes períodos em que, quando em certas partes do mundo os conflitos haviam se resolvido, outros surgem. E parece que os céus reservam uma lição de moral que, quando vem com força, mostram ao ser humano o quanto ele é minúsculo frente ao mundo.

Haverá uma posteridade que irá ler essas cartas… Não sou escritora, tampouco desejo ganhar algum lucro sobre isso ou vantagem, vangloriando-me por ter isto publicado algum dia em algum lugar. Meu nome, para começar, não é este. Quero preservá-lo. Só o fato de ver esta mensagem desencadear um sentimento de cooperação, compreensão e cumplicidade com o próximo, seja ele de boa vontade ou não, para que de boa vontade se torne ainda mais.

Para mim, se pelo menos três pessoas lerem esta carta e repassarem adiante, ou escrever uma com seus próprios sentimentos. Então posso dizer com absoluta emoção que minha missão foi cumprida… Que possa vir outra dessas megatormentas levar-me e minha família mais próxima – que, não mais graças, mas sim, de acordo com a Vontade de Deus, agora podem ainda contar estas histórias, como as que estou digitando para vocês, queridos amigos.

Eu sei que o título desta carta – porque não considero isto mais uma mensagem – assusta a todos, mas quero começar com uma saudação aos viventes. Quem pode ler isto agora já não é mais um sobrevivente, e sim um vitorioso vivente, por completo. Sabemos de toda a história antiga de antemão graças a uma instituição da Internet que, por profunda sorte, foi preservada de todos os infortúnios, ao contrário das milhares de bibliotecas do mundo que foram destruídas por diversos fenômenos climáticos nunca vistos antes!

É difícil definir um ponto para iniciar, mas eu escolhi o onze de setembro de 2001, que foi a colheita americana de todas as suas aracubacas desde a Guerra Fria… Foram doze anos sofrendo "ameaças" constantes de diversos grupos do mundo. Quando as eleições no fim dos anos 2000 deram vitória aos democratas, achava-se que, somadas as quedas econômicas, os Estados Unidos tornariam-se uma nação de paz. Puro engano… O senado amricano tomou a dianteira e expôs a verdadeira face que dirige aquela nação. Por um engenhoso esquema, eles suplantavam decisões do executivo pelas suas. Quase um parlamentarismo… E ainda faziam os méritos tornarem-se do próprio presidente. Em 2013, ocorreu um desmoronamento na cúpula da Casa Branca, e forjaram uma tentativa de atentado por ordem da Venezuela de Vinicius Chavez, um sobrinho do ex-governante cult Hugo. Quase que isso desencadeou a chamada Guerra Vespúcia. O fato era que a Venezuela era um dos pouquíssimos países fornecedores de petróleo, o mundo já andava a hidrogênio, mas alguns cabeçudos estadunidense alimentavam o ouro preto. Deu no que deu… Não fosse as "cessões diplomáticas" do Peru, Brasil e Argentina, seria o princípio da Terceira Guerra…

Descoberta a farsa, pelo vazamento das informações por um agente da CIA descontente com a situação e que abriu o jogo ao mundo numa viagem à China, depois condenado à morte injustamente, mesmo contra à vontade presidencial expressa, o mundo nunca mais foi o mesmo… Os Estados Unidos caíram numa desaceleração total da economia, inclusive a bélica, que o sustentava. Tornou-se "A Grande Nação Vazia". Conservadores procuraram instalar-se no Canadá, tentando montar um novo país, sem sucesso. A nação norte-americana virou uma terra de quase ninguém, as portas da imigração quase que se encancarariam por completo. O país passaria a ter, então, uma diversidade étnica tão grande quanto o Brasil. O "Full Down Day", ninguém esqueceria, foi em 20 de dezembro de 2014. O G8 consolidou a presença do Brasil e da Índia, junto com a China, Japão, Canadá, Alemanha, França e Rússia. Eram os novos manda-chuvas na economia.

O investimento industrial mais maciço neste intervalo de tempo foi o brasileiro: a força de trabalho de quase todos os estados, menos São Paulo, Distrito Federal e Rio de Janeiro, estava na indústria. Pipocaram empresas com infra-estrutura revolucionária, respeitando o meio-ambiente como nunca antes se viu – a Amazônia já contava com apenas a metade de seu território original – de todos os tamanhos possíveis. "Quer aprender a montar uma indústria em qualquer parte do mundo?", dizia o slogan, "Vá para o Brasil". O SENAI teve que criar o SIAI, requisitando os melhores industriais para se tornarem os instrutores dos estrangeiros. Nos outros estados, o trabalho era administrativo. São Paulo se tornou o estado dos escritórios, junto com o Rio, e Brasília também gerava os políticos da nação… Mas muitas desigualdades ali permaneceram iguais a de muitos anos anteriores, mesmo a esquerda se consolidando no poder, como que se acomodasse.

A Índia importou toda a Hollywood depois do "Full Down Day", entrou em acordo com o Paquistão e repartiu a Caxemira, mesmo ficando com a menor parte, e a menos valiosa. Tornou-se o celeiro das produções artísticas, revitalizando o sonho psicodélico de anos anteriores.

China e Japão cresceram vertiginosamente e fatorialmente – falando em matemática – a ponto de comprar noventa pro cento das patentes americanas e européias, principalmente as de tecnologia. Agora, todo produto produzido no mundo tinha tecnologia Made in China (mais parca e acessível) ou Made in Japan (mais cara, porém absolutamente infalível).

Canadá concentrou, além do empecilho dos estadunidenses descontentes, filiais e matrizes das melhores universidades do mundo, além de se tornar referência em engenharia civil.

Alemanha e França tiveram seus investimentos deslocados para o desnvolvimento de tecnologias de logística e transporte.

A Rússia, que por muitos anos aparecia como empecilho ao grupo econômico, começava a galgar seus passos grandiosos com instituições de saúde no mundo inteiro, desenvolvendo pesquisas revolucionárias com a biomedicina mecânica.

Outros países, principalmente na América Latina e no Oriente Médio, acharam soluções para metade de seus problemas e encontraram seu lugar no mundo.

Mas o mundo não evoluiu em sua totalidade…

Em grande parte da África Árabe e na África Média, conflitos étnicos cresceram assutadoramente que forças-tarefa de paz do mundo inteiro foram acionadas. Em dez anos, viu-se surgir cerca de 70 países novos, sobre apenas quinze! Alguns outros extinguiram-se e se tornaram feudos autônomos gerenciados pelas tribos. Foi a melhor solução achada para quase todos eles, mas o desgaste econômico foi intenso para a população em geral que viu as milícias minoritárias tomarem as decisões por conta própria. Ainda hoje, pequenos grupos rebeldes discutem fronteiras e mantém as massas atemorizadas…

Jerusalém foi alvo de tantos ataques até os tempos presentes, mesmo com a decisão da ONU de tornar-se uma pequena "nação-aduaneira", com um governo rotatório entre israelenses e palestinos. Exigiu-se que ambas as nações construíssem suas Novas Jerusalém em outros locais, mas ambas negaram tais ordens. Micropotências regionais supriram necessidades bélicas na região,pois ninguém mais via proveito naquela região. Jerusalém se constituiu da cidade em si, mais onze cidades em seu entorno. Tornou-se ponto exclusivamente turístico – o coordenador-geral da ONU, ateu, determinou que o novo país não possuísse religião oficial. Cada um ali cultivava sua crença individualmente.

Por falar em crenças, depois que houve uma troca de sete papas em três anos, a igreja católica desabou. Na Europa, a existência de denúncias incontáveis sobre os novos sacerdotes, mas poucas evidenciais, sobre atos contrários à moral, mancharam a imagem dos sacerdotes mais experientes e da religião. O número de fiéis cristãos reduziu-se aos não-católicos. Surgiram então novas correntes religiosas como o budismo ocidental, o islamismo ocidental e o hinduísmo ocidental, sendo que muitos dos antigos fiéis cristãos aderiram a esses sincretismos. Sobraram uma quantidade irrisória de católicos originais no Brasil. A figura do papa já não tinha mais relevância com as questões mundiais, devido à sua postura regressista e fechada. Críticas se sucediam aos antigos fiéis, e estes cada vez mais desgostavam de ouvir suas palavras. As religiões orientais originais também cresceram muito no mundo…

A violência se globalizou assombrosamente… Uma das práticas que se tornaram mais comuns é o seqüestro de crianças. Grandes organizações criminosas armaram-se de tecnologia para tornar as investidas policiais mais difíceis. Ano a ano, conferências e mais conferências, sugeriam soluções que coibiam estas ações por algum tempo…

Em fins de 2019, duas grandes descobertas foram cruciais para que não eclodisse a Terceira Guerra, sempre eminente: a dessalinização de água do mar com íons de bismuto e a despoluição dos rios, com métodos menos dispendiosos. Por exigência da ONU, assinou-se entre todas as maiores nações do produto a Isenção de Patente dos métodos, como sendo patrimônio global.

Agora a briga era para diminuir o efeito estufa, que levantou o mar em sete metros e submergiu 24% das terras globais – os países baixos se tornaram a Nova Atlântida – e contra a insuficiência de oxigênio no ar: somos hoje 9 bilhões no mundo, e quase todos os países constituíram controle de natalidade econômico rígido.

Estudos incansáveis estavam sendo feitos para enxertar espécies de florestas tropicais em outras zonas do globo para compensar as perdas, além de adequar a fauna nativa desses lugares. Para pô-los em prática, porém, esbarra-se em questões políticas seríssimas entre países.

Assim era o retrato do mundo no início de 2024, quando, no sábado de 6 de abril do ano vigente… Toda a população mundial foi surpreendida pelo que vocês já presenciaram (acredito).

Não era um cometa…

Não era poeira espacial…

O céu, verdadeiramente, caía sobre nossas cabeças!

Eu estava em Milan, na Itália, por volta das oito da noite, comendo chocolate numa loja subterrânea dos becos mais charmosos. Sairia mais cedo, mas tive – acreditem – uma singela dor de barriga. No banheiro, comecei a ouvir assobios de vento forte e muitos ruídos e gritos das pessoas dentro da loja. Quando saí, vi que ficaria presa por não sei quanto tempo. Comecei a entrar em desespero… Mas uma hora depois, quando as coisas acalmaram, vimos, nós ali da loja, que estava tudo seguro. A ladeira era na parte alta da cidade, mas descendo cerca de duzentos metros, havia ondas de água de mar se espalhando… As casas, muitas delas, estavam ao chão, mas de uma maneira muito estranha… Era como se grandes mãos estivessem fazendo pressão sobre as casas e estas fossem de papelão… Ninguém atendia nada! Ligávamos a televisão e não tínhamos sinal de nada. "Pegamos emprestado" antenas de maior alcance, e nada! Até conseguirmos usar um satélite improvisado com uma panela de cobre e um receptor caseiro de uma eletrônica que incrivelmente permaneceu em pé, sem nenhuma rachadura. Conseguíamos sintonizar apenas os canais da América e da Ásia, por cerca de cinco horas, quando presenciamos um furo de reportagem assustador… Não!!! Assutador é dizer pouco ainda… Não há como explicar o que presenciamos. Vimos imagens de uma tempestade anormal se espalhando circularmente sobre o globo. Primeiro as imagens da América sumiram, muito depois as da Ásia. Apenas quinze dias depois a comunicação voltou.

Quando isto aconteceu, em todos os canais – ressalto, grifo: todos! – um comunicado legendado próprio para cada língua do mundo – não há mais do que quarenta em todo o mundo – do Instituto de Meteorologia Canadense procurando explicar o que fora aquilo. Foram dias de cobertura sobre os prejuízos e saldo de feridos e mortos, o maior já registrado em toda a história da humanidade!

Deseperada, procurei voltar o mais depressa possível para casa na minha querida República Tcheca, via estrada… Levei cerca de oito vezes mais tempo que uma viagem normal, com forças do exército fazendo o auxílio para transpor obstáculos para os civis.

Fiquei feliz em saber que Gëssard estava intacta, mas o vale que a "abraçava", do outro lado, encontrava-se com suas árvores despedaçadas. Os amigos, a família, todos passavam bem.

Fui surpreendida mais uma vez com o que ouvi da parte deles…

Os nossos ancestrais, uma tribo nômade existente na região, falava da profecia do dia em que o céu encontraria o chão, e que o chapéu que protege os homens iria determinar a sua continuidade da vida. Eles chamavam isso de Kaata Qtna. Havia uma canção folclórica deles que hoje é a música alicerce de nossa sociedade, pois outros descendentes dessa tribo, na Finlândia, que estavam em contato com a então maior banda dos últimos dez anos, System of a Down, que a transformou num metal progressivo muito bonita e triste ao mesmo tempo. Eles também sobreviveram à hecatombe climática, em Helsinque, e adaptaram a canção:

"Sei que não posso escapar
Porque posso encontrar
O sentido de minha vida:
Karta Citina!

O tempo tão derradeiro…
Quem chegará primeiro?
A maldita ou a bendita:
Karta Citina!

Errantes, constantes,
Intransigentes, intolerantes,
Quem leva o chapéu que o cobria:
Karta Citina!

Ele sempre nos avisou,
Que alguns levaria,
Os maus ou os bons, quem diria?
Karta Citina!"

Espero ter tocado a todos os viventes com toda a minha sinceridade.

O carinho das pessoas e a admoestação de Deus para todos."

E ela tocou a nossa associação com este radar de apelo que batizou o fenômeno. Muitos disseram ser o apocalipse… Estariam certos? Não sei! Só sei que a mensagem que queremos entregar é que precisamos, mais do que nunca, nos amarmos, pois podemos nos arrepender amargamente amanhã, quando for tarde demais.

Este e-mail atingiu a incrível marca de encaminhamentos nunca antes feita. Todos os e-mails pessoais do mundo ativos – dos viventes – possuem, no mínimo, duas cópias deste, em menos de três semanas. Isso desencadeou o maior sentimento de "coleguismo" como nunca se viu no mundo. Todos cantam The Sad Desire of Karta Citina, do System, para lembrarem-se do sentimento que Serj Tankian impregnou e manterem vivos que todos os seres humanos são um só…

Faço minhas as palavras de Tisha: o carinho das pessoas e a admoestação de Deus para todos.

Um Amigo,
da Sociedade Européia de Valorização dos Sentimentos."


Ouvindo... Radiohead: Myxomatosis. (Judge, Jury & Executioner.)

A continuação, somente em livro ou no Brejo do Sapinho… Aguardem!

O Estranho Caso do Cachorro Morto

Escrito por Mark Haddon


Christopher John Francis Boone, 15, é aficcionado pelas coisas que tenham um senso de ordem e um método regularmente lógico, sabe trabalhar muito bem com a matemática e tem o desejo de ingressar no campo científico. Ao deparar-se com o quintal de sua vizinha, a Sra. Shears, vê seu poodle estirado e morto no chão. O fato deixa-o intrigado e lhe propicia a oportunidade de investigar a morte do animal, e também de poder escrever um livro.

Toda essa curiosidade e vontade de conhecer, no entanto, esconde um lado adverso: Christopher é carente de malícia para entender relações interpessoais intuitivamente, além de seu modo de vida soar um tanto quanto diferente das outras pessoas, de nenhum detalhe de coisas novas lhe passarem despercebidas, entre as quais outras pequenas manias (algumas afetando o convívio social) que exigem de Christopher atenção social especial em sua escola.

Conforme prosseguia sua investigação, e deparava-se com adversidades, como seu próprio pai, Christopher chegou a uma conclusão inesperada e totalmente fora de lógica que ele poderia entender. Um mistério havia transformado em dois, e o segundo o conduziria de sua pequena cidade a Londres…

Qual era o segundo mistério? O que havia de tão importante nele para fazê-lo viajar até uma grande cidade, onde toda a movimentação e o dinamismo poderiam deixá-lo totalmente confuso?

O resto, como sempre, recomendo a leitura.


Qual o diferencial?

O Estranho Caso… é um dos livros mais relevantes de cunho literário (neste sentido pode-se dizer não-científico) que trata sobre a Síndrome de Asperger, um quadro de autismo de alta funcionabilidade bastante incomum e reconhecido pela comunidade médica só muito recentemente. Ela agrega diversas características que não a constituem como uma doença, mas sim como uma "disfunção" [verdadeiramente falando, a meu ver, é laborioso saber um quadro geral a respeito da SA, como é carinhosamente chamada e, assim, classificá-la medicinalmente] que possa encontrar a pessoa portadora como participante de dois quadros sociais: o da regularidade e das excentricidades.

O que é correto afirmar é que o portador é dotado em informações de interesse específicos, principalmente em áreas de exatas e tecnologias. Alguns, enquanto possuem pouca habilidade em expressar-se verbalmente, desenvolvem mais as expressões artísticas. Melhores conclusões podem ser obtidas pesquisando sobre a Síndrome.

Mas, voltando ao livro, o que talvez possa torná-lo interessante (e o tornou, pois a amplitude deste foi internacional, com direito a uma produção de filme) é que o livro, estruturalmente em primeira pessoa, justifica as razões de ser dos Aspergers que acreditamos não ter sentido, dando "a visão de alguém em cuja mente você nunca entraria" (palavras do autor, que inusitadamente, até onde saibamos, não é portador).

Enfim, um pouco de um dos incontáveis possíveis mundos dos Aspergers pode ser decifrado neste livro.


Avaliação

Leitura recomendada.

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Ouvindo... Kraftwerk: Autobahn

Falando Matematicamente

Sobre as Diversas Faces do Infinito


Infinito, adj. Que não é finito; sem fim; ilimitado; inumerável; s. m. O tempo e o espaço, considerados absolutamente.


Maçã VerdeApós a leitura (diga-se, de passagem, longa) de uma revista chamada Scientific American, falando sobre o assunto, posso fazer minhas considerações poéticas e literárias, ao contrário de outras épocas, que seriam científicas e geométricas.

Mas façamos um meio-termo entre muitas coisas… Sobretudo sobre os conceitos básicos para um leigo:

  1. Uma idéia de infinito pode ser considerada assim: dada uma distância qualquer não-nula (ou seja, sem estarem encostadas) entre duas esferas, reduza-a, por vez, cinqüenta por cento da distância anterior a que se encontrava. Pergunto: quando elas encostarão? Visualmente (e dependendo da distância que você fez no primeiro momento) elas chegarão a parecer encostadas, mas, ora! Não é a metade da distância da anterior? Suponhamos que a primeira distância seja um metro. A segunda será uma metade do metro… Depois um quarto, um oitavo, um dezesseis avos… Chegará num dado momento em que você terá uma distância menor que um milímetro (1/1024), mas mesmo assim, o milímetro pode ser divisível – é só pensar microscopicamente.
  2. Ainda trabalhando quanto à idéia anterior, sabe-se que virtualmente elas irão se tocar em um dado momento futuro, conforme as distâncias vão diminuindo. Outro exemplo clássico é conhecido: um corredor num ponto A e um animal mais adiante, num ponto B, de igual distância ao corredor e a um ponto C (ou seja, no meio do percurso). O corredor tem o dobro da capacidade da velocidade do animal, de forma que quando o corredor alcança o ponto B, o animal está em um ponto entre B e C (digamos D), quando o corredor atinge D, o animal está entre D e C, e assim vai… Como então, o corredor ultrapassa o ponto seguinte do animal, sendo que o animal dista sempre mais um pouco e o corredor está no anterior? Paradoxos que somente podem ser explicados pelo cálculo e incrementação…
  3. Depois dos inteiros, temos o conjunto dos racionais… Dados dois números quaisquer entre esses pertencentes ao grupo, quantos números há? Infinitos, pois você pode sempre pensar em um número entre quaisquer dos imaginados, e assim sucessivamente. Há n casas decimais a serem considerdas, mas soluções finitas a serem consideradas para cada casa decimal. E só falamos dos racionais…
  4. Seria possível visualizar uma reta (que, por definição, é infinita) na sua plenitude? Por mais fina que a traçamos, microscopicamente ela não será fina, de largura desprezível…
  5. Podemos pensar em números que sejam infinitos linearmente. Por que não em um plano? E em um espaço???

Ja fomos longe demais… Recomendo a leitura!


Ouvindo... Deep Purple: Ted the Mechanic