Capítulo Trinta e Quatro

Desajustado Com o Próprio Relógio


"Eram cinco da manhã. Celular programado para retirar-me do sono dogmático da inconsciência.

Tocou! Começa mais uma realidade… ‘sai da cama, rapaz! Carpe diem do ar livre, das plantas que balançam ao vento, do sol que desponta ao horizonte e calmamente desenha seu calor ponta-a-ponta do céu’. Mas nenhuma reação minha.

Lembrava-me que tinha uma consulta marcada comigo mesmo. Uma auto-análise periódica de alguém que existe comigo, junto de mim, que possivelmente poderia ser eu, ou talvez não poderia. E aí me lembrava daquele fonema impronunciável, indizível, totenizado e cravado por sua circularidade e via tudo aquilo que parecia não ter junção significativa numa certa época.

Ah… era uma época misteriosa! Mas parecia que tudo funcionava corretamente, numa incontestável ordem… Lembrava-me das conclusões sem fundamento acerca de coisas tão óbvias, e de outras fantasiosas e absurdistas que beiravam os limites da sanidade. Não eram bem loucuras, mas sim uma espécie de ‘reza-lendas’ que não é assimilado pela massa em geral, de tão sem características que se apresenta. As palavras e expressões ideomáticas perdiam totalmente o seu sentido figurativo e passavam a conotar a sua própria literalidade. E reconhecer o que era discernível ou não nesses aspectos era empresa confusa.

Mas voltemos ao raciocínio principal: por alguns segundos, intervalados ou não, me lembrava de certa época. As conclusões que me tiraram duma rotina que a longo prazo geraria meu futuro, através da Matemática, numa forma que eu gostava, que era apresentando-a a quem desejaria assimilá-la, fazdo um papel maior que um mero professor. Precisava de elementos adicionais para criar esse interesse, e sempre achei teatro um bom complemento para isso. E a auto-análise dos possíveis ‘eus’ era um elemento de acompanhamento para não deixar as conclusões mirabolantes acerca de tudo aquilo que me rodeia tomar conta de minha vida e não fazer de meu Chuqueberrismo uma verdadeira patologia.

Mas o sono dogmático da inconsciência era mais aprazível. Ele transcendia o tempo e podia trazer doces lembranças e extasiantes experiências para minha apreciação. Pena que ela durava menos do que poderia supô-la, e sempre não se justificava por completo. Ficava aquelas reticências para serem preenchidas, e o pensamento real não dava a liberdade de deixá-las fiéis ao seu conteúdo.

E, pela segunda vez, a mando pessoal, o celular me interrompia o meu sono dogmático magnífico para me trazer à realidade do compromisso. E poderia fazer da própria experiência do sono uma ferramenta de auto-análise, embora a fizesse apenas no meu íntimo.

Mas, no fim das contas, desisti da auto-análise e esperei por um outro chamado involuntário: o nascer de um novo dia."


 The Jam: That’s Entertainment

E, por favor, alguém poderia me recomendar um bom despertador-dinamite para nunca mais perder essas sessões de auto-análise?

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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