Visionaridade (ou Manifesto Visionarista)

Douglas Potingatu

Alea jacta est.


Eis-me, de alegoria fantasiosa
simples Lilith Gott, simulacro da beleza feminina:
pus-te em pedestal ultraportentoso
num lugar sagrado uma profana fescenina
de poeta pretensão quase a vida tangenciou
e de sublime enredo quase me olvidou

É que, no tocar do masculino e feminino
coisa vária revelação onanista me ocorreu:
o alucinado transcendente conluio do mundo moderno
pedindo respostas me desafiou e, pasmem
por um instante me obedeceu

Respondo-te, ó mundo aflito
à altura do desafio proposto:
quer uma resposta rápida e pronta
vos digo, achando minhas referências
com parcimônia e deveras paciência,
que o tempo não urge, e digo fato…
Leia São Mateus, Dante, Petrarca, o Puro Sagrado
o escatológico inefável e indizível
as grandes obras que não escandalizam
porque o instante-já do desperdício
o mau uso hipertextual
fenece, oblitera e aterra nosso presente
Verdadeiramente Presente
porque
queremos tocar o Supremo Deus
o Deus transcendental de Kant
o Ding-an-sich, o Zeitgeist hegeliano
e não podemos!

Profetizam os Cristos de hoje:
os radicalismos idiotas já não prestam
porque eles matam, em ênfase
como mataram a Grécia Antiga
pela híbris excessiva e perva
sim! Perva!
Sócrates, onde tu fostes parar!!!

Não é o imediato, o irrefletido
o artificialmente modificado…
a Sabedoria proclama:
o homem não é Deus!!!
O homem não sabe disso
mas eu
pessoa
sei disto!
Não sou eu, aedo
– hoje gosto de assim dizer –
que somente testemunha todos os tempos em um
loucos, esquizofrênicos, deprimentes
os corpos cyborguizados de modo errôneo
os superficiais que acham o trino sexto
que fora outrora revelado a João
e apedrejam
matam
destituem a pessoa de si
mas sim
todos nós!

Divina Providência,
portentosa potestade dantesca que me grita com serenidade:
dá-nos as Pazes!
dá-nos nossos descansos de cada dia
dá-nos os nossos humoristas do Nordeste
olhemos a África e o Oriente Médio
assolados pelo Supremo Ódio
o Mal Absoluto
que Hannah Arendt tanto insistiu conosco
e faça, Javé, Shekinah
ou o que tu queiras chamar…
isso é o de menos,
meu caro sujeito pós-moderno
que não sabe dizer algo do seu tempo
parai e pensai
no bom senso e na semiótica:
se é uma palavra que tu precisas,
meu filho,
(porque sei que precisas de palavras)
pense um pouco, questione e enfim
me responda:
ela pode ser “visionaridade”?


(Nota de cocheira: Papa Francisco logo lançará sua encíclica. Que Deus o abençoe.)

Ouça: Anotação The Byrds: Turn! Turn! Turn!

Radar Musical: Sessenta e Oito

Coldplay - A Rush of Blood to the HeadColdplay

A Rush of Blood to the Head

[Parlophone/Estúdio]

Por Douglas L. Melo


As últimas aquisições que pretendi tinham algum foco. Já percebia, então há tempo, que minha assiduidade musical seria insuficiente para adquirir todos os álbuns que me fossem desejados. Resolvi, diante dos fatos financeiros que me acometeriam, fazer foco em algumas aquisições específicas.

Anteriormente sabem vocês que completei, até então, a discografia de estúdio do Oasis, e decidi fazer o mesmo em razão de mais duas outras bandas de gosto: Coldplay e Pearl Jam. Destas que, possivelmente, se depararão as últimas resenhas.

Este, do Coldplay, mostra-se mais significativo da época que foi lançado do que da que foi adquirido, dez anos depois. À época do lançamento, ainda sonhava em ter meu primeiro álbum de rock, e me valia de alguns apetrechos caseiros para ter música à gosto – internet ainda era então um artigo de luxo – . Era uma época em que abria os portões para meu pai em retorno ao lar. Uma época em que talvez a maior preocupação fosse cumprir com as mínimas preocupações do ensino básico – uma época que já chamei de áurea, mas na qual acho, hoje, que superestimo demais, mas didaticamente teve lá sua importância. A hoje renascida 89 FM surgiu para mim, evidentemente, com algumas das faixas que aqui se apresentam.

Os dez anos depois do álbum físico? Nada além de uma pretensão de obter diplomas. Algumas coisas já não pareciam tão novas sob o sol. A cidade dos dez anos anteriores já não parecia a mesma e tinha se descaracterizado culturalmente para mim, se tornando apenas um entreposto de compras. Os livros de Stephanie Meyer eram a leitura curiosa dos tempos posteriores, e algumas concepções de autoestima, tão postergadas, seriam resolvidas em épocas próximas.

O descritivo afetivo já fora feito, falta apenas se concentrar no álbum…


Setlist

  1. Politik: grandiosidade e potência instrumental contrastando com o aspecto intimista dos vocais de Martin. Destaque para o piano. A falta aqui é a densidade de extensão da faixa que aparenta não terminar rápido.
  2. In My Place: a tétrade radiofônica começa aqui; em seu estágio um, algo nos conformes da maioria das rádios comuns. Começo bom para se esperar coisas melhores deixadas para o fim.
  3. God Put a Smile upon Your Face: estágio dois; menos conhecida e, por razão pessoal, mais preferida, pelo aspecto trovador e acústico, entremeado de riffs.
  4. The Scientist: estágio três; para os entendidos, algo entre a balada e o comercialmente conhecido pelo Radiohead.
  5. Clocks: estágio último da tétrade radiofônica; algo aqui pode ser lido na linha do álbum posterior, o tão-meu aclamado X&Y. Deve ser a atmosfera do eco contínuo. Ou o sempre-presente piano de melodia.
  6. Daylight: agora é onde um verdadeiro amante de música explora, e a surpresa aparenta boa ainda, com uma cadência interessante. Mais pela regularidade instrumental que propriamente pelos vocais do Chris, que não alcançam as oitavas da tétrade.
  7. Green Eye: ah… outra dessas excepcionalidades acústicas… e que experiência vocal! Um bom acerto.
  8. Warning Sign: aos que conhecem, começa com um bom dedo de Suede, vocaliza ao jeito da banda mesmo, e após uma longuidão encerra sem grandes surpresas.
  9. A Whisper: certamente o Radiohead inspira muito a banda, pelo contínuo clamejar do início. Mas ainda é o Coldplay, de todo jeito; d’outrora, ainda é muito regular – será que se espera o futuro imediato do Coldplay no que foi seu passado?
  10. A Rush of Blood to the Head: a música título conduz-se na balada, instrumentada à clássica no início. Espera-se um explodir musical que custa a chegar. Vale a pena ser auscultada.
  11. Faixa de destaque Amsterdan: chegamos à última faixa com uma expectativa de Grand finale, que se apresenta num solo de piano e vocal e um feeling particular. Com atenção se percebe uma discretíssima segunda voz… Lá pelos quatro minutos, quando esperamos pelo fim do álbum, temos uma magnífica surpresa digna daqueles grandes álbuns, somando estrelinhas lá adiante!

Sentimento vintage

A impressão que temos na organização do álbum é de se tratar de uma preparação digna de Long Play, com lado A e lado B, este último pouco digestivo para os menos preparados, por muitas das canções serem densas em extensão. Mas o Grand finale é justíssimo na cotação.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Não fui eu que escolhi, soltei um livre shuffle e ele me deu este presente para finalizar a edição…

 Rindo

Ouvindo... Coldplay: Amsterdam

Entremeado nesta temporada, a próxima resenha vai ser do álbum do Pearl Jam.

Radar Musical: Sessenta e Sete

POD - Payable on DeathP.O.D.


Payable on Death


[Atlantic, estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo


A lembrança das condições de aquisição deste álbum não foram muito precisas, embora tenha a certeza de que este foi um dos últimos álbuns até então adquiridos em território osasquense. Evoca a curiosidade de época que tive por ler a saga Crepúsculo, outros livros de literatura comercial como a ainda não dita saga Fallen, paralelamente ao início de um interesse maior pela literatura consagrada como leitura livre, e talvez o início dos tempos em que meu deslocamento universidade-lar passou a ser, predominantemente, responsabilidade minha. Este é o cenário mais geral do que a rotina diária prescrevia: nada muito fenomenal evoca a lembrança dessa aquisição.

O que tenho de parâmetro aqui é a vivência da banda que tive em tempos áureos do primeiro ano de intensa audição de rock, e o fato dessa banda me despertar o interesse por uma música que cria, aqui, encontrar – motivação para, não por muito tempo depois, ter adquirido o outro álbum, lembrança clara dos tempos em que, nós, enqunto jovens estudantes do Ensino Básico, namorávamos os CDs nas lojas – um passado muito nublado em tempos de torrents ou musicas sob demanda…

Uma informação que se deve ter em mente é que a banda tem uma vertente muito cristã, o que parece destoar de nosso imaginário quando vemos o grande guarda-chuva de bandas de metal, onde imaginamos o ocultismo como traço inerente. Veremos o que a audição tem a nos oferecer aqui.

Setlist

  1. Mildfire: um prenúncio bom do que será todo o álbum: uma convergência de metal, rap e um identificável atmosfera cristianizada até para quem não compreende muito bem inglês.
  2. Mill You: para metal, está padrão e pouco inovador; vale pela mensagem, contudo.
  3. Change the World: consolida-se a impressão que se tinha desde o princípio de um álbum cristão… Ainda a tímida musicalidade buscando ousar… Ainda a mensagem upbeat fazendo modesta diferença.
  4. Execute the Sounds: certas musicalidades evocando o Oriente são a única distinção desta música para a média até aqui.
  5. Find my Way: a tensão de musicalidade do metal contemporâneo entre o suavizado e o refrão pesado soa padrão. A mensagem ainda é um peso importante.
  6. Revolution: ah… o típico engajamento pessoal e cristão… modesto demais para a musicalidade que uma música exige com esse título.
  7. The Reasons: aqui o limite do que se conhece por metal é superado pelo seu contraste musical alegre. Soa balada, mas soa algo muito ímpar para ser classificado como qualquer coisa muito inovadora… Talvez haja um estado de afetação do resenhista impedindo que se encontre um ponto distintivo para o álbum? Certo é o fim da faixa mostra uma sustentação até desnecessária.
  8. Freedom Fighters: um novo investimento no tratamento vocal. Torna-se uma interessante leitura para a narrativa evocada. Agrada bem para a média do que encontramos aqui, sobretudo os intervalos instrumentais e algo de ska se anuncia.
  9. Waiting on Today: a musicalidade discretamente evoluiu para a disposição do álbum, embora ortodoxa ainda… E, de repente, o timbre vocal passou a se tornar enfadonho por não se desafiar há muito…
  10. I and Identify: muito mais próximo do que imaginamos do universo metal, mas agora o vocal está parecendo destoar da temática instrumental. Muito pausada e reflexiva no corpo da música, e talvez nem nos sintamos preocupados em compreender os líricos mais…
  11. Asthma: a musicalidade melhorou consideravelmente, lembrando muito do System of a Down, com exceção da potência vocal, que não se supera como a musicalide exige. Talvez percebamos, neste momento, que ou seja a limitação tonal do sujeito ou é, por fim, a identidade musical proposta… A ideia de desconforto fica mesmo pela mensagem. É ela que, no fim das contas, dá bastante sustentação ao álbum.
  12. Faixa de destaque Eternal: minha eterna prerrogativa de que acabo comprando um álbum com faixa acústica – a expectativa por algo dito fica sempre em suspensão, mas o exercício estritamente instrumental nos faz perguntar se o investimento de banda deveria voltar-se para a experimentação sem voz. Uma densidade de extensão que não se prejudica e nos permite curtir as ondulações do que já não soa como metal, mas se aproxima do hard rock.
  13. Sleeping Awake: a tentativa frustrada brasileira de hit de rádio – condensa todo o esforço do álbum, muito dentro de uma zona de conforto, agradando com algumas atmosferas musicais, com uma mensagem poderosa, mas realizada de um modo pouco sedutor, em termos do que todo o universo do rock fornece. Ficaria de bom tom se a faixa anterior encerasse o conjunto do álbum…

Um conglomerado de intersecções de tons, mensagens e cores musicais

Pesa-se com muito cuidado cada conjunto de linguagens evocados aqui. O contexto de produção – uma banda cristã – e o que se pretendeu dizer estão dentro das expectativas, mas a ousadia vocal (ou a sua ausência) não nos permite destacar o álbum nos nossos catálogos…

EstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... P.O.D.: I and Identify

Há um outro álbum da mesma banda a ser analisado. Mas creio que o contexto de aquisição trouxe outra banda da qual tenho muito gosto e que tenho em vista resenhar mais um álbum na próxima publicação da seção.

Carta Post-Mortem

Valparaíso, 03 de maio de 2033

Aos meus queridos colegas de pena,

A vida é absurda. Não mais me cabe. Quando lerem esta carta, provavelmente estarei vendo um futuro melhor, distante deste Universo fugaz e horrendo.

A existência é absurda. Nascemos, vivemos e morremos, conforme as leis da Natureza. Alguns mais afortunados casam e deixam seus filhos e suas heranças… Bastam se dizerem advogados, deputados ou empresários. Eu escolhi ser escritor e professor de Filosofia, daqueles que defendem uma nova economia de mercado mais humana e solidária. Assinei meu atestado de pobreza. Vivi nos subúrbios de Valparaíso, uma cidade que vi, menino, ser ambiente das festas típicas. Hoje, é local dos condomínios, das festas eletrônicas regadas a orgias (as orgias que tanto li dos antigos prosadores internacionais do início do milênio) e sinestesias geradas por aparelhos de realidades aumentadas, hiperaumentadas, que não só modificam as percepções dessas crianças com cordão umbilical de banda larga e fibra óptica biotécnica, que nascem com uma conta de e-mail vinculada e tantos outros apetrechos a mais que nos falam, Vocês, do fim do século passado, estão por fora das novas tendências, não estão sabendo se adaptar aos novos tempos, tempos de integração, do compartilhamento de pensamento, da unificação de ideias em torno de um bem comum… Eu conheci isso por Marx, fizeram tudo errado, agora os Jovens Ons estão submissos a um Grande Servidor, não sabem o que é sofrer, não sabem o que é sentir-se sozinho pelo sentir-se sozinho, não sabem o que é a falta, não sabem o que é ter necessidade, bastou o paizinho assinar um Termo de Pacto no nascimento e implantar o chip de integração, ainda na barriga, Veem o mundo com o sentimento de útero, São felizes pobres, felizes por não necessitarem de mais o que tem, Não quero ver meu filho sofrer por falta de dinheiro, Vou submetê-lo a essa coisa do demônio, não há jeito, Melhor que ele não se sinta triste por esse mundo. Vão lá eles, assinam, os meninos não choram, as meninas não choram, mamam mecanicamente, não pedem carinho do pai da mãe, não precisam, aos cinco anos, Quero ir ao Magnânimo, centros de máximo prazer, se copulam como gentes grandes não fariam, Os pais, coitados, antes já se mataram por Amor a Deus, imersos na gloriosa vergonha que se declamam. Não há quase mais pessoas acima dos trinta anos desde 2024, quando o Magnânimo foi introduzido nas sociedades. Os poucos que estão aí, são daqueles que não assinaram o Termo de Pacto para os filhos, ouviram xingos e xingos deles aos sete, oito, nove, quando perceberam que acessar a internet, como eu acessava nos meus anos de infância, já era coisa off, Eu quero uma vida totalmente On, diziam pra vocês, meus pares de pena, e quando assinam a Prospecção de Adesão, outro termo, morriam por não estarem acostumados…

A felicidade é absurda. Vocês se arrependeram de eleger o governo que até hoje está, travestido de social, dando tudo o que estas novas gerações pedem, aos oito anos Papai, vou ajudar o Governo a crescer, entram na Criogenia aos vinte e saem de lá aos vinte e dois, diferentes, com uma pele elástica, não sentem nada, Nunca sentiram, Agora moram nos condomínios. Lá não entram minhas, nem suas obras, Livros são desinteressantes, nos fazem entristecer, dizem, Gostamos dos discursos orquestrados, gostamos de ouvir, gostamos de sentir que o que se sentia há bons anos, Eles amam é sentir o discurso… Passam horas baixando os arquivos de discurso, as velhas literaturas não são lidas nem escutadas, e sim assimiladas com gostos e cheiros e visões que certas vezes os atores da finada Globo se submeteram a fazer a mando do Governo. Mas isso… ah, isso meus caros, não demanda mais as vinte e quatro horas do dia, Eles sentem O Capital reverberando em hormônios do sangue deles, enquanto produzem para a sociedade contente deles os utensílios necessários para a vida funcional que vão desempenhar, em favor do Governo, sem queixas, sem revoltas, tudo perfeito, tudo uma felicidade absurda, que me faz ódio pensar como funciona.

A pena é absurda. Depois da morte de Rubem Fonseca, não houve mais contista capaz de dizer o que esse mundo precisa. Todo mundo se tascou a fazer romance técnico, literatura de autoajuda desprezível, os caras da tecnologia trataram de suprir a depressão coletiva que assolava o mundo por volta de vinte. Foi preciso o assassinato de duas lideranças do mundo para que eclodisse a mais eficaz ditadura. Zola, Dostoiévski, Assis, Lispector e muitos outros foram sinestesiados para logo em seguida serem queimados. Bibliotecas? Só as clandestinas. Cartas a papel, preservação tola de costumes dos tradicionalistas. Falam que isso é o futuro inevitável do comunismo. Não não é! Isso é o futuro inevitável da sociedade, o futuro de formigas, o futuro de quem não quis se aplacar das coisas que nos tornam humanos.

As oportunidades são abusrdas. Foi há vinte anos, eu era um tecnólogo, disse Não sei se deveria investir nisso, é perigoso Por que, me disseram, As pessoas sentirão falta disso, em caso de pane elétrica. Fingiram que ouviram, foram consultar outro, um amigo meu, Empreendedor ao máximo, Vendeu pai mãe e o caralho-a-quatro pra fazer sucesso. Hoje o que se pode chamar Brasil está nas mãos dele, Ele é o cara! Ele e os filhos dele e os poucos amigos que ali cultivam, lá em São Paulo, numa área isolada de tudo. E o que é melhor – ou pior? – sem essa vida On, esse puto da vida lhes ensinou o quanto isso é pernicioso… Pra eles. Era pra ser comigo, ter a loira que ele tem, a grande fração de terra que ele tem, os amigos que ele tem, a vida que ele tem… Eu? Eu fiquei no meu idealismo, paguei o preço pela minha lealdade à vida, não quis ser o Co-dono do país, em conjunto com o governo. Minha paga? Não foi a deportação nem a tortura nem qualquer outra privação dos anos anteriores, minha privação foi dada por mim… O homem quer ser dominado por algo irresistivelmente maior que ele, ele quer se entregar ao escatológico e inevitável fim, Ele, por mais autônomo que seja, não consegue se desprender das suas humanas convicções e contradições.. O tempo de homens plenos se foi junto com os Anos de Ouro da Grécia…

O futuro é absurdo. Espero, de imensa ingratidão, que essa sociedade seja submetida às larvas interplanetárias e explodam com esse mundo de fingimentos cada vez mais verdadeiros. O futuro livre do homem era ser capitalista, acumulador e individualista. Compartilhar tudo com todos, na realidade é uma bobagem sem tamanho, porque algum sortudo verá nisso uma oportunidade para se promover, e olhar para baixo com orgulho e dizer – enganadoramente? – que é a pessoa mais plena do Universo, que Deus é uma grande bobagem.

O absurdo é Absurdo. Queria que este indivíduo fosse eu, mas, por Fortuna, verei o fim das minhas queixas com minha morte depressiva e libertadora.

Com carinho desprezível,

Aliguiero Danteschi


A lida desta carta, por meio da tecnologia da Sinestesia, em agosto de 2036, comemorou, publicamente, os vinte anos de inserção do Novo Regime, ensinando à Comunidade os malefícios que se têm ao não introduzir seus rebentos no Sistema Sinestésico de Vivência Coletiva Governamental. O sentimento de pena foi devidamente explorado numa experiência emocionante, promovido pela Sociedade de Escritores de Valparaíso.

Em tempo: Aliguiero Danteschi era o último dos sobreviventes dos tempos de transição no país. Sua presença era considerada incômoda pelo governo, pela razão de incentivar a não-adesão dos nascituros a um futuro de serenidade e gloriosa paz que a tecnologia podia lhe oferecer.


Ouvindo... Slayer: Piece by Piece

Babilônica no. 1

Lilith Gott [produção por FreshPaint em Nokia Lumia 520] [#35F / DLM (c)2015]

Canto-te, oh, nova deusa, se prolifera
impera um novo mundo rematriarcal
impõe-se ante os amaldiçoados cananeus
faz dos novos filhos filhos teus

Performatiza, oh divina quintessente
presente na realidade funesta que agoniza
peço em teus intentos que considere
nos nossos vícios prenúncios de benesse

Superar-me, cosmopolita, faz-se
em teus fortes tons pespegam
a aura indulgente que me ordena

Cantar-te, desumanista, exige
que abandone as minhas ilusões
e patrocine o que se renega

Desdigo-se em furor tempestuoso  
cantante allegro con brio fremoso
insania lucidum hominus est

e assim decreto a morte em fé


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Cry To The Beat Of The Band

Confissões [20]

Amiga minha… Que saudades de você…

Me vejo tão comum, tão sem tempero da vida… Não me sinto tão especial, como há muito me sentia. Soube ser amado por um bom tempo, o tempo que dura até um indefinido “talvez”, o talvez que eu já previra há muito, quando fui destituído de toda novidade… O mundo, tão perto, me chega tão tardio e agora por meio dum esforço de me deslocar longínquo… Foi o clamejar de perdição que, em sonhos, solicitou uma célere presença de volta à minha vida… Eis a babilônica veleidade, de volta à minha rotina, da qual por um intervalo me esqueci, e me retorna para contundir-me. Talvez ela ganhe, esse mês invernal, a nova roupagem Nheengatu que se reveste, me aturdir e me recompor, como sempre me busca…

Amiga minha… Que vontade de te ver…

Parece que fui fugido de mim mesmo… Sonhei com uma limpeza, uma nova vigência de mim. Parece não haver aceitação mais em vista do manjado discurso jovino… Parece que o bucolismo e sua associação com a desaceleração tem feito de mim alguém mais aclimatado com a calmaria… os sentimentos de Caeiro, as pausas quintaneiras, as expensas de pensar o momento, sempre presente… Quem sabe, o aclimatar-se não será um núncio de uma nova reconexão com a Grandiosa Engrenagem do Mundo, recondicionar-se, realimentar-me do fármaco da inteligência coletiva… Ah, essa criatura disforme… Que saudades dos tempos de imediatismo nas informações, quanto cuidado…

Amiga minha… Que vontade te entreter…

Cogito, ergo sum, dizia noutros tempos ao teu terreno avatar, Babilônica… Agora não tenho latim capaz de expressar que se penso, penso e pronto. Não tanto mais sou um excêntrico pensador, ando mais simples, ando respirando o verde, respirando na ânsia de imaginar – essa é uma ilusão, dum sono profundo que insiste em não se despertar.

Amiga minha… Que vontade…


Ouvindo... The Strokes: Heart In A Cage

Radar Musical: Sessenta e Seis

Marisa Monte


Universo ao Meu Redor


[EMI, Phonomotor; estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo

Marisa Monte - Universo ao Meu Redor

Continuando a dobradinha conveniente de Marisa Monte, a curiosidade posterior por essa dita contraparte se fez por canções como “O bonde do Dom” e pela curiosidade que me impelia, já não tanto quanto antes, das idas a estes e aqueles lugares, em busca de novas coisas… O tempo, por mais dizer, era da pesquisa, chave-motor de meu curso… Um colorido que, na ocasião de escrever estas notas presentes, se me revelou recomeçar, dependendo do meu esforço em conduzir minhas obrigações mínimas, e uma revelação, fantasiosa, de um sonho, das melhoras sobre os empecilhos da rotina.

Num ritmo frenético da vida, parar e prestar atenção, no anterior e neste álbum, é uma dádiva que uma solene pessoa deveria se dar em algum momento da vida…


Setlist

  1. Universo ao meu redor: há um clima intimista, sim, a exemplo do anterior… Mas o retoque do samba – ah… esse – faz um início de toada bastante interessante.
  2. O bonde do Dom: a toada da Lapa, uma lembrança de Noel Rosa, e uma voz feminina… A carro-chefe é muito eficaz.
  3. Faixa de destaque Meu canário: a tristeza cantada de uma forma tão linda pelo cantar do passarinho.
  4. Três letrinhas: uma baladinha afirmativa, gostosinha de se ouvir…
  5. Quatro paredes: toda uma orquestração bem trabalhada, um gosto musical bem referendado para se compor. Tranquilo, sim; inovador, não tanto… mas que importa isso? É tão bom.
  6. Perdoa, meu amor: a gente reconhece, de cara, um bom chorinho para se ouvir – pessoais à parte, me representa nestes dias.
  7. Cantinho escondido: o apelo intimista de MM, cantado em razão do companheirismo afetivo… Soa discreto, diminuto. Vale destacar o experimentalismo musical de fundo – isto é uma garrafa batucada por uma pequena barra de metal?
  8. Statue of Liberty: um leve cantar globalizado… ligeiro como a NY.
  9. A alma e a matéria: soa cristalino, como o tema… E ainda não bastasse, me lembra os tempos de 2005 – uma profecia sinestésica?
  10. Lágrimas e tormentos: o efeito musical de caixinha de música no início mostra um ímpeto experimental procurando permear toda a musicalidade do álbum. Falar das letras já é ser crítico excessivamente inóspito: tudo conspira perfeitamente a favor de se sentimentalizar com o álbum.
  11. Satisfeito: algo aqui soa a Chico Buarque – atire a pedra pro samba quem discorde.
  12. Para mais ninguém: nada que enjoe. No entanto, pensar em algo inovador a este momento seria superestimar a simplicidade do samba, colocá-lo no patamar de outros gêneros que são pressionados a se reinventar dentro de um mesmo álbum… Vamos seguindo, então, na mesma toada com carinho.
  13. Vai saber?: o refrêgo do combalimento soa aqui tão sereno, com uma estrutura de samba de fim de noite… O barzinho do morro está fechando, já é noite, e me parece que o futuro musical aqui soará tão saudoso.
  14. Pétalas esquecidas: os tercetos tão bem dispostos nos dispõem a pensar o quão belamente regular foi todo este álbum… Lindo e inesquecível.

Sambinha bom

Fico pensando o quão reducionista é categorizar com estrelinhas…

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... Marisa Monte: Satisfeito

Por ora, os poucos que ainda hão de ser feitos serão álbuns internacionais… estamos chegando ao fim de mais uma temporada.