Interludio

Não importa se o mundo, lá fora, caia

cai e se ergue, não adianta se esquivar de tal alvissareira,

Os melhores permanecerão,

E os piores fenecerão,

Simples assim… Terrível mas.

Eis que diante da grandilescência, retrato e confesso:

Sumo e sigo fora

Me enterre ó breve omniscencia.

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A Flor da Rama de Jessé

AFRJ

Se se fias que no derradeiro lúnio
um botão combalido despertasse no flúvio dum leito,
lançasse a um sensível fortúnio
de que outrora vingasse e andasse teu feito.

E se por dores lhe conduziram
rama do pomar de Jessé, feminina te imputaram
outrossim, derivada no resvalo imbuíram
e por vitrinas te adornaram e apresentaram.

Fora lançada, pelo clarão, a terras estrangeiras
destituída de teus mimos deu-se em rescisão
outrora lançada como escudo mariano das bandeiras
prognosticou em exílio e contenção.

Brotaste em teu florir um ponto-nó,
sensível dele, preservou-o com calor igual,
pois o ensejo de que o vento árido fizesse pó
e fosse minimamente distinto, assim não seria tal.

Doessem outrora teu desvanecer, florir encanto,
durezas de tempo iguais de qualidades distintas,
provassem pelo teu elegiar de sereno canto,
não julgassem tua coragem e fulgor divinas.

Despetala-se, és verdade, a Natureza vos chama
breve te proclama para que te unas a ela?
Fosse atrasar ou adiantar, em que se conclama
tivesse os felizes monturos de boa procela?

Se esta flor da rama de Jessé foi vista?
O futuro diz, pois discretamente foi bem quista.


Em memória a M. C. L. M. (1959-2020)

Para ler ao som de Milton Nascimento: Cálix Bento

Pena Ulterior

Laça-te às demandas, arboráceas da Terra,
consumam de teus flancos os pungentes dolores da Vida macabra,
àquela que lança em teus antros, ó Gaia adoentada,
o bizarro autoexperimento humanoide.

Revigora-te dos estrames inquisitórios,
rosáceas espinhas de dissabores, ácidas e beladonas
despenha-te ao humano que te cortou
te remodelou e tuas vestes despiu.

Uterina planta, não perdõe o jardineiro,
que lhe remalhetou e te cantou
te fez peça de vaso e te decompôs
numa música e depois lançou-a num outeiro.

Demanda-te a sugar o descalabro sempiterno
àquele que te desfrutifica e te desfigura
o mesmo Inonimado que com teu fluido sacrossanto
assina as penas de morte de teus congêneres.

Esparsa-te nos flancos do Universo,
traze à combalida Terra os seres d’outro mundo
pra desterrar deste chiqueiro imundo
aqueles que ousaram desfiar de tua beleza.

E aos que desafiam opor-se a tua beleza,
lança tuas ramagens sobre eles, sem dó,
desfigura sua face de soberba e vazia ira,
avarenta e lasciva, sem lhes dar chance de quiproquó.

E se preciso for,
lance-vos o átrio emudecedor
à pena ulterior que vos convocou
pois dela emana o estupor
de saber do Sacrossanto Segredo
que tu rosácea Entidade me confiou.

Lúgubre

Em memória das pessoas finadas,
todas elas…
Sobretudo, e não menos, Marielle Franco


Veja, que são enterres
as cruzes assim feitas
pespontando que são não
assunções do Deus cristão

Veja, que impunidade
apontar o declarado lúmen
como inocente do mundo
e o lúgubre à margem de vilão

Olhe, audácia infausta
tanger o argumento nefasto
o fastio de proclamar-se
mensageiro do sangrento derribar

Olhe, plangente fala
cala a todos os contrários
evocando fracos corolários
duma iluminez que já findou

Limpa, tua menção fugaz
que só desgraça traz
ao plano de fundo da pintura
que intenta grande finura

Limpa, deste teu corpo espúrio
o cal que teu coração endurece
pois mancha a terra que teu alvo pretume
outrora mil plantas floresce

Pensa, o quanto concertado
teu concreto fez da Natureza
quanto teu lúmen vagado
minguado foi vilaneza

Pensa, o quanto teu espelho,
reflete o intangente visionário
enquanto tu, lúmen cegado pelo teu orvalho
mais lúgubre és que suposto adversário

E sua alvura dita inocente, ah! Cantador contumaz
é aquela que mais mata, mais extirpa e mais desfaz!!!


Storm cloudPeace Apenas um mantra e uma boa chuva são capazes de lavar as almas confrangidas do existir…

Estórias Abensonhadas, de Mia Couto

Edição em Pauta

COUTO, Mia. Estórias Abensonhadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
155 páginas. Segue notas da contra-capa:

Depois de quase trinta anos de guerra, Moçambique vive agora um longo período de paz. Nestas Estórias abensonhadas, o premiado escritor Mia Couto [Beira, 1955-] capta um país em transição. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registros que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem.
São histórias que formam um retrato afetivo e mágico da Moçambique de Mia Couto, onde o fantástico faz parte do cotidiano, e a música reside na própria fala das ruas. A partir de vidas enganosamente pequenas, revela-se um prodigioso universo literário, inovador na linguagem, mas sempre atento à força das grandes narrativas.


Especialmente dedicado à comunidade Interação (Rádio USP FM).

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Metarrealidades Aporéticas e Literásticas: A Máquina, crônica 5

Dedicado a impressões de N. Y.


Eu tenho um severo problema de saturação de informação visual desde dois mil e cinco. Acho que os dezoito anos trazem consigo, misticamente, uma desativação da capacidade cognitiva de filtrar informação visual relevante. Quase entrei num pinel por causa disso à época – por isso e por outras coisas – mas, acreditem, os tucanos da paulistoide urbe fizeram a única coisa boa, que era diminuir tal fluxo – acho que eles pensaram em mim, ou no pior dos pesares, constituem O Programa que tinha como intuito que eu não revelasse o que pretendia revelar.

Hoje, sinto saudades daqueles tempos de propagandas entoxadas na rua. (…)Continuar lendo “Metarrealidades Aporéticas e Literásticas: A Máquina, crônica 5”

Confissões [24]

fractais

Eu vi teu rosto, tão linda, em um sonho, carinho de meu coração.

Teu rosto, desperto, me causou uma sensação fascinante.

Fascinante por ser assustar deveras.

Jamais o susto do Horror, extremamente o contrário: é o susto daquele Destino, que não deixa a gente fugir.

É aquele susto que persiste, insiste e divaga, por tempos e tempos, a fio.


Tu apareceste naquela infinda pure zone, carinho… Aquele espelho reflexório da alma, que te vê em projeções, por todos os lados. Eis que te vejo em cubo. Eis que te vejo como um remoinho de imagens sucessivas, avançando em ecos imagéticos até o ponto de fuga… Penso que te projeto encapsulada em meu pensamento, mas me engano: acabo por devanear-me, minha alma atravessa o espaço físico mental. De repente, invade uma projeção de minha visão física. Quase que é uma fotografia do que penso, e uma fotografia do que vejo que estou pensando. E olho a sobreposição das duas, e reimprimo tal visão.
E a pure zone, aquele espaço antes não-tu, antes um jogo remoído de fractais espelhos levemente iluminados, ganha um cílio de cor, outro cílio, uma poeira interminável de aspectos psicodélicos. E te vi, novamente, ali, em fractais, tu compondo todo esse sem-fim de devaneios. Me perdi uma segunda vez.

E me perdi uma terceira, uma quarta, tentando achar na realidade triste do olho treinado tu… Achei algo parecido, mas não era contigo: e o que tinha de imaginação treinada, calcificou. Mas está lá o assombro em outro lugar. Te vi de novo, quando reminesço aquele pasmo, aquele pasmo…

Pasmo tão bom que quem me dera experimentar de novo… Quando te ver? Quando tu me desconstruir, esse olho que quer esquadrinhar esse pasmar de tu, meu carinho…

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