Confissões [22]

Fonte: Freepik.com

Chegaste tão repentinamente, amiga…

Tua presença nem fora notória. Eu fiquei sobretudo em assuntos triviais contigo.

Um golpe de chuva… Um respingar em nossas faces… Oito segundos…

Passou uma vida diante de meus olhos. Permiti-me te permitir a me esquadrinhar.

E tu, à maneira de Heidegger, mostrou o Dasein que haveria em minha volta. Disse-me da minha maior fragilidade, que é justamente ser frágil. Mas será a admissão dessa fragilidade a própria fragilidade das Seine? Der Zeit contará a nós…

Me empenharei em assentir o todo de mim que te admira, amiga. Estarei muito a vivenciar o momento presente, pois do futuro, ninguém saberá. De futuro não exigirei nada, pois sei que tu, amiga, também tem seus questionamentos, suas premissas de existir, seus anseios.

Seu Zeit, seu Seine… este Dasein é deveras assustador, confesso. Mas, fazer o quê? Num dado momento… Teria que ser assim… Alguém há-de tomar responsabilidade sobre ele. E eu tomei, e eu sofrerei, sim! Eu sofrerei em cultivar essa mais-amizade, esse talvez colorismo-amigo que empreendi, debaixo duma cortina de água, eu assumi isso. Se é fragilidade? Sim, sim, eu aqui sou o papel do frágil…

Mas, será que esse sofrimento, numa leve escala de masoquismo, não é um sofrimento deveras assentido e desejado?

E será que você é tão-só uma amiga, afinal?


Anotação Daniela Mercury: À Primeira Vista | Via YouTube (do compilado “O Rei do Gado”; ou álbum “Feijão com Arroz”)

Em homenagem a B.V. (ou sobre as Baleias Azuis)

Na baleia azul – a portentosa musculus
vigora a gigante pulsão da vida:
em teu masculino ato copulatório,
as aqua-sementes, quando não germinam
em uterino blau-grande-balinácea prosperar
de provento a outras vidas, coralíneas,
pequenos písceos e outros demais
no ecossistema a vida suportais
em comunhão com seu triste assaz soar.

Fazemos mênção a esse pequeno epitáfio ao nosso estimado e finado colega Bartholomeu Vinardi, nascido cá no nosso glorioso estado da Bahia há coisa de 30 anos, como princípio de nosso discurso de homenagem post-mortem a esse que dedicou seus estudos em biologia, sobretudo ao ecossistema onde conferiu grande relevância aos ditos grandes cetáceos.

Bartholomeu – ou, para os mais íntimos, Bart, o que imaginamos que tenha vindo daquele personagem do Simpson tanto seu batismo como a lei da economia de fala – que, outrora, era troçado por Ju-Barte, já que em nossas saídas do Ensino Básico, lá nas lindas costas da Bahia, não raro, este nosso então pequeno se debruçava, nas praias, a ouvir os longínquos cantos balináceos (Abrolhos não estava tão longe de nós). Nosso Bart, a despeito dessas troças, decidiu desde muito jovem: seria biólogo. Assim o fez. Dedicou seus últimos anos para ingressar no curso de biologia da Federal de cá. Ingressou, de fato, e sua dedicação e identificação com o curso foi intensa: atravessou a graduação com louvor, fez mestrado e doutorado em uma única tacada.´

Para as defesas, debruçou-se num tema controverso, do qual a epígrafe, de autoria dele nos seus últimos tempos redigiu: os resíduos esparmotozoidais do ato sexual entre baleias constituía uma dieta-base para organismos de micro- e pequeno porte no ecossistema local onde subsistem as baleias, sobretudo as Jubarte e as Azuis. Embora os bastidores troçavam dessa hipótese, sua mesa de arguição tratou de recebê-la com devida atenção, conferindo-lhe os títulos. Mas o ceticismo vigorante o impeliu a desenvolver suas propostas em outras bandas.

Assim, seus últimos três anos em vida foram um intercâmbio para o Extremo Oriente, em busca de respostas assemelhadas, e corroboração de sua hipótese.

Cá entre os presentes nessa cerimônia, fazemo-nos notar que esse período fora decisivo para o que temos diante de nós: nosso estimado Bart jazendo entre nós.

Déssemos atenção aos últimos meses e aos relatos que ele nos contava em reuniões informais, talvez o tivéssemos ainda vivo entre nós. De muitos, tentarei vos citar, mais ou menos, à memória, os seguintes:

Não foi somente a pesquisa que me impeliu a circular Tailândia, Japão, costa da China e Coréia, buscando as minhas desejadas respostas de pesquisa, mas também a militância e o ativismo ambiental, a conscientização de outros jovens biólogos nesses lugares. Foram bons tempos lecionando em cursos rápidos nesses lugares… Mas foram piores os tempos entre o fim dos trabalhos e a detenção que sofri por conta dos impropérios de ordem política que, acreditava, estar divulgando do modo certo. Falava com convicção sobre a situação que eu, supostamente, acreditava que eles sofressem – não sei se os tailandeses ou os coreanos, não sei mesmo te dizer, cara – enquanto civis, diante de seus governos. Creio que meu falso testemunho, com base do que ouvia aqui no ocidente, me levou aos serviços de detenção do Estado…

Eu costumava estar sempre acompanhado por dois sujeitos que pouco se comunicavam comigo em inglês – apenas o essencial, “quer comer?”, “quer beber?”, e assim vai – e mais na sua própria língua, tão melodiosa aos meus ouvidos. Eu até me esforçei pra compreender, afinal, o que eles falavam… Vezes ou outra, procurava imitar sua fala, com a devida atenção minha, mas eles troçavam entre si acerca de meu despreparo. Final das contas, aprendi quase nada do que eles falavam. Não me importei muito com isso.

Tinha um terceiro deles, um chefão. Muito aprumado, esse era durão. Recostava horas ao pé do ouvio, com um inglês absolutamente limpo, de dar inveja a qualquer britânico padrão… Me mostrou como somos enganados por muito que vem da Europa e sobretudo dos ianques… Como eles montam teatros de imagens a respeito de fatos históricos… Ninguém chegou a Lua, ele me mostrou provas disso!!! E os estudos de Astronomia são uma balela. O universo mais se parece com aquele esquema de Aristóleles e Santo Tomás, tem um limite, maior do que se imagina, mas nada tão imensamente grande quanto se divulga aqui. E me deu provas cabais disso: apontem uma lanterna no céu! apontem uma lanterna no céu!!!

Percebíamos, da parte do nosso colega, alguns comportamentos estranhos, como imitar baleias em ato de cortejo, logo após a sua volta. Ele falava pra gente não se fiar nisso, que eram bobagens da parte dele. A gente, entre essas e outras declarações de sua detenção pr’aqueles lados da Ásia, ao questioná-lo sobre mais detalhes, nos fiávamos nas contradições da parte dele. Ora, a detenção era por falso-testemunho, ora, por alguma despesa não ajustada. Não raro, tratava de desviar o assunto, dizia que não tínhamos que nos ver com isso.

De terceiros, soubemos que o mais coerente foi da intervenção ativista de um grupo que ele participava no mar do Japão, onde figurava uma empresa sino-tailandesa que capturava baleias para fins culinários – pra quem não sabe, ainda a baleia é considerada uma iguaria, tal como o salmão do sashimi, a despeito dos tratados internacionais de cooperação pela preservação das baleias. Temos as fotos da detenção, mas ele assegurava, em vida, que não fosse ele ali. Estava em outro evento, não sabia onde…

Seu semblante, nos pouquíssimos últimos meses de seu retorno a nós, era apático. Não podia se debruçar em ouvir intercambistas dessas regiões longínquas de nós, ficava estático – dizia que era pra aprender a língua que nunca aprendera ali – e, caso eles viessem a olhar nossa mesa, notávamos sua apreensão ao virar a face para outra direção…

Talvez se nos déssemos conta das suas conjecturas de cunho historiográfico pró-sinico e pró-sionístico (desse último, favorável à história da Tailândia, não que ele outrora fosse pró-estadunidense). Ele, considerado muito inteligente, debruçava-se no argumento que nossa história ocidental constrói uma culpabilidade existente aos estados daquela região, tão somente por conta da derrota na Guerra do Vietnã, atribuindo-se um vitimismo infantil de quem não aceitaria a derrota. Daí, justificar que a questão que ele sempre nos pedira ser inonimada da Praça da Paz fora um teatro forjado de história viva, só pra não nos determos em outros exemplos, menos conhecidos e só interessantes aos nossos colegas que realmente se debruçam na história.

Julgamos – os seus próximos e a família – que ele viesse a ter sofrido com traumas diversos nesse meio tempo, então recorremos à Psiquiatria. Ele, já prescrito a ansiolíticos e calmantes, contudo, não fora o suficiente. Se isolava socialmente, debruçava-se mais em redes virtuais, a coisa ficava séria. Mesmo cá nós, morando num estado quente, ele fazia muita questão de roupas longas, para dias de frio…

Se nos acalentássemos em ajuizar com mais carinho a respeito dele, talvez não o encontrássemos sob condição de overdose, o que o levou a este óbito repentino. Talvez não estaríamos aqui, recitando essa homenagem. Talvez não estaríamos testemunhando a hipótese criminológica da única Baleia Azul que deveria, sim, ser exterminada, não só por conta desta vida que nos foi tragada, no barco da existência, como de muitas outras, fragilizadas por motivos, que muitas vezes consideramos picuinhas, embora menores que as testemunhadas pelo nosso querido Bart, Ju-Barte, malgrado esse pequeno bullying que, desejamos, não tenha sido um dos estopins nesse decurso…

Cá encerramos, predispostos a levar em nossos corações, com esta perda, uma lição: se não estiver afim de acreditar em testemunhos – mesmo de teor paranoico – ao menos, não desacredite. Isso pode fazer uma enorme diferença na vida de alguém…

E, ao soar das trombetas, que imaginemos do nosso Bart, para quem em Deus creia, um lugar no Paraíso… Para quem em crenças de reencarnação, que ele tenha um karma menos pesado em vida vindoura. Se, do desejo ulterior dele, ouçamos as baleias… Quem sabe ele virá a ser uma, em breve? Como finda o epitáfio do Bart, e aqui findo minha homenagem:

Sejamos felizes, amigos,
saibamos que, um dia, experimentaremos
ou experimentamos
ser baleias azuis
e comungaremos
nas águas da nossa existência,
senão o privilégio de recitar
a linda-triste canção de amor,
a tão simples existência
de haver um germe de baleia
dentro de cada um de nós
a cada dádiva que mãe-d’água
nos entregar em nossas
redes ribeirinhas…


Essa história tem teor estritamente litarário. Bem como propósitos de alerta a adesão a práticas que envolvam automutilação ou cessação da própria vida; e o devido acolhimento a pessoas que, por seus testemunhos pessoais, denotam comportamentos de ideação suicida. Acolhamo-as, pois não sabemos o universo de experiências que elas vivenciaram e vivenciam. Qualquer semelhança com fatos reais, trata-se de uma casual coincidência.

Ouvindo... Mr. Mister: Broken Wings (from the album “Welcome to the Real World”)

O pseudoepitáfio poético

[dos sobrevividos arquivos de fevereiro de 2015; não ler se sensível ao poético]


Meu caro diletante
apreciador de poesia,
ouça o que vou lhe contar:
nesses tempos de apatia
em que tudo é tecnológico
cinematográfico e interativo
trazer às penas as minhas penas
é mera idiotaria

Não compensa, de todo modo
cantar os louvores da adolescência
ou fazer didatismos gramáticos
afetados de atrasada emoção
os tempos são outros, são perturbados
a água escasseia e as baterias no fim
e qualquer ato de poesia
não mereceria mais que O Pasquim

Bestificante é o intuito
pré-adolescente de cantar hinos à amada
tão lisonjeira e fútil como quem escreve
Romeus e Julietas afetados por selfies
duckfaces e likes de Facebook
vivendo uma esquizofrenia social
de inventariar uma epopeia estúpida
de pessoas-esterco, que Hesíodo
por respeito n’Os Trabalhos e Dias
talvez preferiu não comentar
e talvez mais bestificante
é que nessa profusão
deveras coelhonesca de infinitivos
escolher qualquer um ao acaso
sem sequer corrigir
e, para o efeito poético arcaico não perder
escolho o mais autoexplicativo: rimar

Parei de cantar as languidezas
e os ensejos psicanaliticamente reprimidos
de mal comido jovem dos seus trinta –
parei de orgulhar-me de exibir
a todos que não querem saber de poesia
os meus acreditados exercícios de composição –
parei de me imaginar comentado
por uma crítica de Candido ou Bosi ou Carpeaux,
algum destes já se foi, o outro, em vias de ir
e o terceiro, onde parou na nossa brasilidade
literatura eu não sei. Certo é que
patético seja o indivíduo que assim
agir, sua megalomania de trans-
cender seus versos em disposições visuais várias
serão bestiais, nada há que tenha sido feito antes
funciona do jeito desejável como surpresa num
mundo em que as redondilhas maiores estão
a serviço de evocar a

Pooo-pozuda
pooo-pozuda
você é feia de cara
mas é gostosa de bunda

entre outros indizíveis ensejos tão mal-arrumados
que aqui sequer ouso pernosticar…

Depois de Auschwitz
não há mais poesia

Com razão dizia o sociológico, porém talvez errou a data
que devia ser “depois do neobrasileirismo
e sorte dele não ver a vida aos olhos que vaticino
em dispersos pensamentos pouco elaborados
faltosos à caneta do “instante-já do desperdício”

Então, meu caro diletante apreciador de poesia
te revelo o segredo do fazer poético
a ti pode correr o ensejo de jogar estes escritos fora
tamanho o choque que venha a lhe correr…
O poeta, homem, talvez virgem
ou não transcendido da relação-a-dois
canta e imortaliza em versos uma mulher
no seu limitado ensejo de ser com ela
que talvez uma mulher ou até mesmo
um homoafetivo sabe, em experiências mais terrenas
conseguir melhor expor pelo afeto
que esse infeliz coitado-
sem-coito-aprumado que, antes na imensidão
primitiva dos seus pensamentos
preferiria uma jornada regada a Viagra
e a um bom Cabernet-Sauvignon
rega-bofe para transitar num prostíbulo
e orgiasticar sem dó nem piedade
um catálogo de concumbinas, putas e outros
nomes tabuísticos numa suruba
e fodas várias, reinterpretando
os diversos movimentos de Kama Sutra
na vazia busca do ter, que
salvo seja o alfabeto, o ésse
venha antes do tê
o que faz com seja primordial
antes ser que ter,
coisa que um dito homem
na poesia costuma
ser incapaz de fazer

Em resumo, meu caro leitor de poesia
o homem poetiza porque muito punhetiza
e como o Tom outrora dizia

Cada canção que escrevi
é uma mulher que não comi

e resta, nesta não-tão-inédita descoberta
encontrar na poesia universal
o lugar do homem:
Tratado da Punheta?
Catálogo das minhas fodas?
Ser o Marylin Manson dos versos no papel
e atrocizar a ponto da poesia ser um espaço de censura
e ensinar aos nossos filhos
(se o poeta vier a ter alguns)
que melhor mesmo é ser um empreendedor
vender um produto, ganhar dinheiro, gerar capital?

Poesia, meus caros, virou negócio de criança
ou de nerds querendo ser descolados
ou de empresários cansados da vida executiva da Paulista?

Poesia, meus caros, é apenas
uma disposição neurológica espacial
de se apresentar uma tese
sobre a carência mal resolvida do poeta?

Poesia, multidão, é massagear o ego
num mundo onde o indivíduo é APENAS MAIS UM
a serviço das corporações, que catalisam
tal intento para comercializar seus produtos?

Poesia, minhas amigas e meus amigos,
é o manifesto mais criativo de se combater
as misérias que assolaram secularmente
a nossa sociedade
e cantar os nossos feitos
de povo valente e batalhador
que “não foge à luta”?

Poesia, brasileiros e brasileiras,
é um instrumento de transformação social?


Poesia,
minha cara pessoa,
meu sincero e paciente amigo,
minha apaixonada e amável amiga,
é o exercício criativo
apenas-criativo
nada-mais-que-criativo
de pessoas que muito querem dizer
muito querem fazer
muito querem transformar
mas que nada conseguem
porque, gente
Homeros não são mais necessários
nem Hesíodos, nem Agostinhos, nem Shakespeares,
nem Maupassant, Keats, Gonçalves Dias, Baudelaires,
Apollinaires, Drummonds, Chacais, ou quaisquer outros
citáveis

São necessárias as Coca-Colas
as Nissins, as Chevrolets, as Pepsicos,
a Time-Warner-Company,
a Glaxo-Klein-Smite,
The Microsoft Network,
Mercedes-Benz, AT&Ts,
The Rockfeller Foundation,
Fundação Neymar,
ABNTs e ISOs,
KlingKlang Musik,
os remixes das pistas,
a necessidade de equanimizar gastos com procrastinação
pensar o problema da superpopulação
evitar nas mulheres a concepção
e outros -ões que vierem a ser necessários;
é necessário acabar com o fascismo
é necessário evitar o nazismo
é necessário exterminar o comunismo
é necessário aprimorar o capitalismo
é necessário ensinar o evolucionismo
é necessário repensar o catolicismo
e outros –ismos devem ser reimaginados

O emprego, gente, produz dinheiro,
a vergonha alheia, gente, produz dinheiro,
uma ideia repaginada, gente, produz dinheiro,
uma história de vida pela superação, gente, produz dinheiro,
mas a poesia,
salvo casos descomunais
não produz dinheiro

Infelizmente é assim:
pessoas (maioria homens) escrevem poesia
(ou parecem que escrevem)
para pessoas lerem
(ou fingirem que leram)
por mera apreciação estética
(ou simplesmente para aparecer bem fotografado na próxima Piauí)…
Certamente uma mulher, pessoa homoafetiva, transgêneros,
programadores em C++, Pascal, Analistas de TI,
autistas, surdo-mudos, Downsindrômicos,
sejam melhores capazes
de injetar ânimo na Poesia

Eu, no meu ínfimo lugar de um qualquer
decreto, após a próxima estrofe
o (pretenso) fim da minha genuína Artepoética
que comecei a cantar pelos frutos do carvalhal
em espaços mais cor-de-rosa
e juventude descompromissada mais ingênua
pensando que, pela Lírica,
seria mais que qualquer um

Poesia minha,
mermão,
findou.

Morte da Poesia ;D


Ouvindo... New Order: Elegia [Full Version]

Confissões [21]

Amiga, que sempre comigo esteve, não sou mais o mesmo.

O poeta que te cantava com fervor foi aposentado. Dele surge a poesia tão-apenas como negócio, um exercício de erudição, uma tentativa de não se sentir tão qualquer-um.

A reticência também aos poucos será aposentada, sendo a ela delegada apenas o interlúdio do não-dizível, das coisas que todo mundo sabe mas nega saber. Bem digo de você, amiga, que o errado fui eu, exigir-te fidelidade à poesia: você tomou o caminho correto, o da consciência de nossa pequenez como apontadores-de-dedo insatisfeitos com nossos antigos desejos não-realizados. Você fez, amiga, a digna saída, em detrimento à insanidade que perseguiu as penas de cem anos passados.

É doloroso querer ser Dostoievski ou Oblomov em tempos de James, Meyer ou Tate. É muita metafísica para simplórios ouvintes que se desejam iludir em fantasias desvairadas. Fantasias que eu alimentava nos coloridos de um outro ambiente.

Ser privado das benesses da civilização tem suas vantagens. Permite que me veja como irritante para a tola média das gentes que, na nossa infantil vontade de ajudar, queremos que “veja a luz”. Disse, em outras palavras, um filósofo que na nossa ânsia de mostrar a iluminação ao mundo, acabamos nos recobrindo em um véu de ignorância pertinaz. Sonhei, como você sabe, em ser protagonista, ter holofotes apontando para mim a todo instante, mas tal luz me cegaria de imediato – minha queda seria tão instantânea quanto minha ascensão. Hoje, amiga, o backstage é meu amado lar; operar nas surdinas dos acontecimentos, no pano de fundo dos grandes acontecimentos, granjear confiança para ser fiel braço-direito de alguém que realmente brilhe, para que possa sustentá-la em sua queda previsível. Talvez a responsabilidade da frontline não seja pra mim, que sequer fui instigado, por um senso inútil alheio de superproteção, para ser menos ingênuo nos tempos necessários.

Para a posteridade, não espere, amiga minha, palavras de conforto ou de intensa motivação otimista: há quem faça esse papel com tanta propriedade nas igrejas. O mundo, amiga, verdade seja dita, precisa de pessoas lúgubres, funestas, que racionalizem suas frustrações e apontem seus dedos para os nossos engodos de todo dia. A literatura mais prosaica e não-comercial faz isso; a poesia de festivais é uma admiração excusa, digna das reticências… A poesia não se faz mais nos tons harmoniosos de Haydn e Carvaggio, mas sim no cosmopolitismo prático de Warhol e nas tonalidades de Boulez.

Rimas, minha tão ensejada e desejada amiga, são enfeites desnecessários para se cantar o amor pela gramática. Fortes eram, como uma estimada quasi-irmã sempre sustentou com notável convicção, os gregos, que da Retórica faziam a vida cosmopolita.

Voltemos, minha amiga, aos desvelos de Atenas, à remistificação dos costumes e a nossa sujeição aos fatalismos do panteão grego. Pois apesar de decretarmos que nunca fomos gregos, jamais saímos da famigerada Caverna que Platão disse. Prova disso é esse discurso descabido, afetado e tão contraditório, uma prova de que, nesta busca de um novo confissor de mim mesmo, ainda estou infante na minha arte do backstage.

E cantar os amores, minha amiga, outra afetação da qual tu foste vítima, nada mais foi do que uma tentativa de crescer desta virginal infância que, por outros caminhos, se descobre nos tempos recentes. Verdade seja dita, minha amiga, mas enquanto um homem traçar confissões, nada mais elas estarão circunscritas a uma onça de testosterona e de um destino de perpetuação da espécie. Uma ode à Schopenhauer!

O resto é só rima.


Ouvindo... New Order: Blue Monday ’88 Dub [originalmente no tempo de composição]

Em releitura do texto, e como divisor de águas… Ouvindo... Muse: Dead Inside [muuuuuito divisor de águas, nem vos conto…]

Sobre o grande Hiato das publicações

Hi.a.to (do lat. hiatu) s.m. […] 4. (fig.) Lacuna, falha.

(do dicionário escolar de língua portuguesa Michaelis)


Enfim, me vejo diante destas linhas de edição, após um hiato de pouco muito mais que de quatorze meses. Para quem tinha o costume de acompanhar o que eu tinha a dizer, acho válido ceder algumas explicações a respeito do sumiço autoral.

Quando empreendi os projetos literários Humanidade 11.9 Richter e A Caneta Magnum, encontrava-me num estado de espírito um tanto quanto depreciado. Decerto, muito da atmosfera do ambiente fora a responsável por tal empreitada. Soma-se a isso o som e a fúria que o mundo passou nos idos dos últimos anos, a exemplo de um cataclismo que, de fato, ainda não ocorreu. Incertezas políticas, econômicas, além de algumas frustrações pessoais tomaram-me de assalto a épocas próximas daquela publicação Visionaridade (ou Manifesto Visionarista), que me levaram, ao revés, das mesmas motivações que me colocaram a escrever há onze anos, a não escrever neste mencionado período.

Falta de inspiração não foi o motivo, até porque uma pequena publicação manuscrita fora realizada então. Decerto, ela levou a iniciar novos projetos, os quais vou levar a cabo aqui. Dos citados anteriormente, vou buscar dar uma abreviada. Sim, meus caros! Eles pedem um pouquinho de volume escrito, e ainda me vejo decidido a continuá-los, como há de parecer necessário. Decerto, o sentimento impresso neles não será o mesmo; é necessário um afastamento pessoal de um ódio que, preclarado, não me pertencia desde então e nem agora me venha a pertencer.

Julgo mais por conta de percalços técnicos a não-continuidade dos projetos. Desprovido de certos equipamentos um pouco antes, acredito que as artes, que tanto ajuizava inserir como um plus a mais, não vão estar disponíveis por um curto espaço de tempo… Demos jeito em casa de estragar a multifuncional que ajudava tanto no processo (!), mas no final tudo se resolve. Outro dos percalços, para quem mais me conhece, a ausência da internet em domicílio, tenho melhores previsões de que, após mais de três anos na contenda, venha a se resolver logo.

Em outros pontos a se assuntar, vejo conveniente reler o modo de conduzir este meu projeto outrora batizado 35º Fonema. Nada de reinícios, apenas releituras de como reamarrá-lo. Contando os mais de quinze anos em intimidade com a informática, é fato que, a esta altura, deveria promover um meio mais hipertextual de experienciar o que já fiz nestes, corridos (nossa! Agora que venho a notar!!) dez anos que pitacos vem e vão adentrar a internet, até assumir a série de projetos literários (muitos, confesso, inacabados) que empreendi aqui. Tal modo de pensar vem do fato de algumas matérias que fui fazer na ECA e deram alguns parâmetros do que se pode esperar da internet, num provável futuro, para costumeiros usuários finais.

Enfim, nessa retomada, quero poder cumprir com uma expectativa pessoal de retomar a frequência de publicação, considerar a maturidade psíquica que me fiz valer através de algumas gerências de saúde pessoal nesse tempo de hiato, e adicionar nestas páginas virtuais os merecidos escritos poéticos que esse período me proporcionou. Adiantá-los aqui sem eles estarem concretamente é chover especulações a quem ainda faz fé me ler, depois de tanto tempo sem publicar nada. Vai aqui o pedido para ficarem atentos às novidades.

E, como não poderia deixar de ser, cada uma destas notas vem findadas com uma sugestão musical, um pouco mais ímpar do que vocês estão acostumados…


Ouvindo... Justin Timberlake: Mirrors [Kizomba Remix]

Nota adicional: minha sorte foi esta nota, escrita em setembro último [de 2016], ter permanecido após eu quase dispensar meu preferido editor WYSIWYG de vez. Em caixa, creio ter ainda cerca de umas duas ou três publicações desse meio tempo a trazê-las ainda a vocês. Smiley piscando

Visionaridade (ou Manifesto Visionarista)

Douglas Potingatu

Alea jacta est.


Eis-me, de alegoria fantasiosa
simples Lilith Gott, simulacro da beleza feminina:
pus-te em pedestal ultraportentoso
num lugar sagrado uma profana fescenina
de poeta pretensão quase a vida tangenciou
e de sublime enredo quase me olvidou

É que, no tocar do masculino e feminino
coisa vária revelação onanista me ocorreu:
o alucinado transcendente conluio do mundo moderno
pedindo respostas me desafiou e, pasmem
por um instante me obedeceu

Respondo-te, ó mundo aflito
à altura do desafio proposto:
quer uma resposta rápida e pronta
vos digo, achando minhas referências
com parcimônia e deveras paciência,
que o tempo não urge, e digo fato…
Leia São Mateus, Dante, Petrarca, o Puro Sagrado
o escatológico inefável e indizível
as grandes obras que não escandalizam
porque o instante-já do desperdício
o mau uso hipertextual
fenece, oblitera e aterra nosso presente
Verdadeiramente Presente
porque
queremos tocar o Supremo Deus
o Deus transcendental de Kant
o Ding-an-sich, o Zeitgeist hegeliano
e não podemos!

Profetizam os Cristos de hoje:
os radicalismos idiotas já não prestam
porque eles matam, em ênfase
como mataram a Grécia Antiga
pela híbris excessiva e perva
sim! Perva!
Sócrates, onde tu fostes parar!!!

Não é o imediato, o irrefletido
o artificialmente modificado…
a Sabedoria proclama:
o homem não é Deus!!!
O homem não sabe disso
mas eu
pessoa
sei disto!
Não sou eu, aedo
– hoje gosto de assim dizer –
que somente testemunha todos os tempos em um
loucos, esquizofrênicos, deprimentes
os corpos cyborguizados de modo errôneo
os superficiais que acham o trino sexto
que fora outrora revelado a João
e apedrejam
matam
destituem a pessoa de si
mas sim
todos nós!

Divina Providência,
portentosa potestade dantesca que me grita com serenidade:
dá-nos as Pazes!
dá-nos nossos descansos de cada dia
dá-nos os nossos humoristas do Nordeste
olhemos a África e o Oriente Médio
assolados pelo Supremo Ódio
o Mal Absoluto
que Hannah Arendt tanto insistiu conosco
e faça, Javé, Shekinah
ou o que tu queiras chamar…
isso é o de menos,
meu caro sujeito pós-moderno
que não sabe dizer algo do seu tempo
parai e pensai
no bom senso e na semiótica:
se é uma palavra que tu precisas,
meu filho,
(porque sei que precisas de palavras)
pense um pouco, questione e enfim
me responda:
ela pode ser “visionaridade”?


(Nota de cocheira: Papa Francisco logo lançará sua encíclica. Que Deus o abençoe.)

Ouça: Anotação The Byrds: Turn! Turn! Turn!

Radar Musical: Sessenta e Oito

Coldplay - A Rush of Blood to the HeadColdplay

A Rush of Blood to the Head

[Parlophone/Estúdio]

Por Douglas L. Melo


As últimas aquisições que pretendi tinham algum foco. Já percebia, então há tempo, que minha assiduidade musical seria insuficiente para adquirir todos os álbuns que me fossem desejados. Resolvi, diante dos fatos financeiros que me acometeriam, fazer foco em algumas aquisições específicas.

Anteriormente sabem vocês que completei, até então, a discografia de estúdio do Oasis, e decidi fazer o mesmo em razão de mais duas outras bandas de gosto: Coldplay e Pearl Jam. Destas que, possivelmente, se depararão as últimas resenhas.

Este, do Coldplay, mostra-se mais significativo da época que foi lançado do que da que foi adquirido, dez anos depois. À época do lançamento, ainda sonhava em ter meu primeiro álbum de rock, e me valia de alguns apetrechos caseiros para ter música à gosto – internet ainda era então um artigo de luxo – . Era uma época em que abria os portões para meu pai em retorno ao lar. Uma época em que talvez a maior preocupação fosse cumprir com as mínimas preocupações do ensino básico – uma época que já chamei de áurea, mas na qual acho, hoje, que superestimo demais, mas didaticamente teve lá sua importância. A hoje renascida 89 FM surgiu para mim, evidentemente, com algumas das faixas que aqui se apresentam.

Os dez anos depois do álbum físico? Nada além de uma pretensão de obter diplomas. Algumas coisas já não pareciam tão novas sob o sol. A cidade dos dez anos anteriores já não parecia a mesma e tinha se descaracterizado culturalmente para mim, se tornando apenas um entreposto de compras. Os livros de Stephanie Meyer eram a leitura curiosa dos tempos posteriores, e algumas concepções de autoestima, tão postergadas, seriam resolvidas em épocas próximas.

O descritivo afetivo já fora feito, falta apenas se concentrar no álbum…


Setlist

  1. Politik: grandiosidade e potência instrumental contrastando com o aspecto intimista dos vocais de Martin. Destaque para o piano. A falta aqui é a densidade de extensão da faixa que aparenta não terminar rápido.
  2. In My Place: a tétrade radiofônica começa aqui; em seu estágio um, algo nos conformes da maioria das rádios comuns. Começo bom para se esperar coisas melhores deixadas para o fim.
  3. God Put a Smile upon Your Face: estágio dois; menos conhecida e, por razão pessoal, mais preferida, pelo aspecto trovador e acústico, entremeado de riffs.
  4. The Scientist: estágio três; para os entendidos, algo entre a balada e o comercialmente conhecido pelo Radiohead.
  5. Clocks: estágio último da tétrade radiofônica; algo aqui pode ser lido na linha do álbum posterior, o tão-meu aclamado X&Y. Deve ser a atmosfera do eco contínuo. Ou o sempre-presente piano de melodia.
  6. Daylight: agora é onde um verdadeiro amante de música explora, e a surpresa aparenta boa ainda, com uma cadência interessante. Mais pela regularidade instrumental que propriamente pelos vocais do Chris, que não alcançam as oitavas da tétrade.
  7. Green Eye: ah… outra dessas excepcionalidades acústicas… e que experiência vocal! Um bom acerto.
  8. Warning Sign: aos que conhecem, começa com um bom dedo de Suede, vocaliza ao jeito da banda mesmo, e após uma longuidão encerra sem grandes surpresas.
  9. A Whisper: certamente o Radiohead inspira muito a banda, pelo contínuo clamejar do início. Mas ainda é o Coldplay, de todo jeito; d’outrora, ainda é muito regular – será que se espera o futuro imediato do Coldplay no que foi seu passado?
  10. A Rush of Blood to the Head: a música título conduz-se na balada, instrumentada à clássica no início. Espera-se um explodir musical que custa a chegar. Vale a pena ser auscultada.
  11. Faixa de destaque Amsterdan: chegamos à última faixa com uma expectativa de Grand finale, que se apresenta num solo de piano e vocal e um feeling particular. Com atenção se percebe uma discretíssima segunda voz… Lá pelos quatro minutos, quando esperamos pelo fim do álbum, temos uma magnífica surpresa digna daqueles grandes álbuns, somando estrelinhas lá adiante!

Sentimento vintage

A impressão que temos na organização do álbum é de se tratar de uma preparação digna de Long Play, com lado A e lado B, este último pouco digestivo para os menos preparados, por muitas das canções serem densas em extensão. Mas o Grand finale é justíssimo na cotação.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Não fui eu que escolhi, soltei um livre shuffle e ele me deu este presente para finalizar a edição…

 Rindo

Ouvindo... Coldplay: Amsterdam

Entremeado nesta temporada, a próxima resenha vai ser do álbum do Pearl Jam.