Confissões [21]

Amiga, que sempre comigo esteve, não sou mais o mesmo.

O poeta que te cantava com fervor foi aposentado. Dele surge a poesia tão-apenas como negócio, um exercício de erudição, uma tentativa de não se sentir tão qualquer-um.

A reticência também aos poucos será aposentada, sendo a ela delegada apenas o interlúdio do não-dizível, das coisas que todo mundo sabe mas nega saber. Bem digo de você, amiga, que o errado fui eu, exigir-te fidelidade à poesia: você tomou o caminho correto, o da consciência de nossa pequenez como apontadores-de-dedo insatisfeitos com nossos antigos desejos não-realizados. Você fez, amiga, a digna saída, em detrimento à insanidade que perseguiu as penas de cem anos passados.

É doloroso querer ser Dostoievski ou Oblomov em tempos de James, Meyer ou Tate. É muita metafísica para simplórios ouvintes que se desejam iludir em fantasias desvairadas. Fantasias que eu alimentava nos coloridos de um outro ambiente.

Ser privado das benesses da civilização tem suas vantagens. Permite que me veja como irritante para a tola média das gentes que, na nossa infantil vontade de ajudar, queremos que “veja a luz”. Disse, em outras palavras, um filósofo que na nossa ânsia de mostrar a iluminação ao mundo, acabamos nos recobrindo em um véu de ignorância pertinaz. Sonhei, como você sabe, em ser protagonista, ter holofotes apontando para mim a todo instante, mas tal luz me cegaria de imediato – minha queda seria tão instantânea quanto minha ascensão. Hoje, amiga, o backstage é meu amado lar; operar nas surdinas dos acontecimentos, no pano de fundo dos grandes acontecimentos, granjear confiança para ser fiel braço-direito de alguém que realmente brilhe, para que possa sustentá-la em sua queda previsível. Talvez a responsabilidade da frontline não seja pra mim, que sequer fui instigado, por um senso inútil alheio de superproteção, para ser menos ingênuo nos tempos necessários.

Para a posteridade, não espere, amiga minha, palavras de conforto ou de intensa motivação otimista: há quem faça esse papel com tanta propriedade nas igrejas. O mundo, amiga, verdade seja dita, precisa de pessoas lúgubres, funestas, que racionalizem suas frustrações e apontem seus dedos para os nossos engodos de todo dia. A literatura mais prosaica e não-comercial faz isso; a poesia de festivais é uma admiração excusa, digna das reticências… A poesia não se faz mais nos tons harmoniosos de Haydn e Carvaggio, mas sim no cosmopolitismo prático de Warhol e nas tonalidades de Boulez.

Rimas, minha tão ensejada e desejada amiga, são enfeites desnecessários para se cantar o amor pela gramática. Fortes eram, como uma estimada quasi-irmã sempre sustentou com notável convicção, os gregos, que da Retórica faziam a vida cosmopolita.

Voltemos, minha amiga, aos desvelos de Atenas, à remistificação dos costumes e a nossa sujeição aos fatalismos do panteão grego. Pois apesar de decretarmos que nunca fomos gregos, jamais saímos da famigerada Caverna que Platão disse. Prova disso é esse discurso descabido, afetado e tão contraditório, uma prova de que, nesta busca de um novo confissor de mim mesmo, ainda estou infante na minha arte do backstage.

E cantar os amores, minha amiga, outra afetação da qual tu foste vítima, nada mais foi do que uma tentativa de crescer desta virginal infância que, por outros caminhos, se descobre nos tempos recentes. Verdade seja dita, minha amiga, mas enquanto um homem traçar confissões, nada mais elas estarão circunscritas a uma onça de testosterona e de um destino de perpetuação da espécie. Uma ode à Schopenhauer!

O resto é só rima.


Ouvindo... New Order: Blue Monday ’88 Dub [originalmente no tempo de composição]

Em releitura do texto, e como divisor de águas… Ouvindo... Muse: Dead Inside [muuuuuito divisor de águas, nem vos conto…]

Sobre o grande Hiato das publicações

Hi.a.to (do lat. hiatu) s.m. […] 4. (fig.) Lacuna, falha.

(do dicionário escolar de língua portuguesa Michaelis)


Enfim, me vejo diante destas linhas de edição, após um hiato de pouco muito mais que de quatorze meses. Para quem tinha o costume de acompanhar o que eu tinha a dizer, acho válido ceder algumas explicações a respeito do sumiço autoral.

Quando empreendi os projetos literários Humanidade 11.9 Richter e A Caneta Magnum, encontrava-me num estado de espírito um tanto quanto depreciado. Decerto, muito da atmosfera do ambiente fora a responsável por tal empreitada. Soma-se a isso o som e a fúria que o mundo passou nos idos dos últimos anos, a exemplo de um cataclismo que, de fato, ainda não ocorreu. Incertezas políticas, econômicas, além de algumas frustrações pessoais tomaram-me de assalto a épocas próximas daquela publicação Visionaridade (ou Manifesto Visionarista), que me levaram, ao revés, das mesmas motivações que me colocaram a escrever há onze anos, a não escrever neste mencionado período.

Falta de inspiração não foi o motivo, até porque uma pequena publicação manuscrita fora realizada então. Decerto, ela levou a iniciar novos projetos, os quais vou levar a cabo aqui. Dos citados anteriormente, vou buscar dar uma abreviada. Sim, meus caros! Eles pedem um pouquinho de volume escrito, e ainda me vejo decidido a continuá-los, como há de parecer necessário. Decerto, o sentimento impresso neles não será o mesmo; é necessário um afastamento pessoal de um ódio que, preclarado, não me pertencia desde então e nem agora me venha a pertencer.

Julgo mais por conta de percalços técnicos a não-continuidade dos projetos. Desprovido de certos equipamentos um pouco antes, acredito que as artes, que tanto ajuizava inserir como um plus a mais, não vão estar disponíveis por um curto espaço de tempo… Demos jeito em casa de estragar a multifuncional que ajudava tanto no processo (!), mas no final tudo se resolve. Outro dos percalços, para quem mais me conhece, a ausência da internet em domicílio, tenho melhores previsões de que, após mais de três anos na contenda, venha a se resolver logo.

Em outros pontos a se assuntar, vejo conveniente reler o modo de conduzir este meu projeto outrora batizado 35º Fonema. Nada de reinícios, apenas releituras de como reamarrá-lo. Contando os mais de quinze anos em intimidade com a informática, é fato que, a esta altura, deveria promover um meio mais hipertextual de experienciar o que já fiz nestes, corridos (nossa! Agora que venho a notar!!) dez anos que pitacos vem e vão adentrar a internet, até assumir a série de projetos literários (muitos, confesso, inacabados) que empreendi aqui. Tal modo de pensar vem do fato de algumas matérias que fui fazer na ECA e deram alguns parâmetros do que se pode esperar da internet, num provável futuro, para costumeiros usuários finais.

Enfim, nessa retomada, quero poder cumprir com uma expectativa pessoal de retomar a frequência de publicação, considerar a maturidade psíquica que me fiz valer através de algumas gerências de saúde pessoal nesse tempo de hiato, e adicionar nestas páginas virtuais os merecidos escritos poéticos que esse período me proporcionou. Adiantá-los aqui sem eles estarem concretamente é chover especulações a quem ainda faz fé me ler, depois de tanto tempo sem publicar nada. Vai aqui o pedido para ficarem atentos às novidades.

E, como não poderia deixar de ser, cada uma destas notas vem findadas com uma sugestão musical, um pouco mais ímpar do que vocês estão acostumados…


Ouvindo... Justin Timberlake: Mirrors [Kizomba Remix]

Nota adicional: minha sorte foi esta nota, escrita em setembro último [de 2016], ter permanecido após eu quase dispensar meu preferido editor WYSIWYG de vez. Em caixa, creio ter ainda cerca de umas duas ou três publicações desse meio tempo a trazê-las ainda a vocês. Smiley piscando

Visionaridade (ou Manifesto Visionarista)

Douglas Potingatu

Alea jacta est.


Eis-me, de alegoria fantasiosa
simples Lilith Gott, simulacro da beleza feminina:
pus-te em pedestal ultraportentoso
num lugar sagrado uma profana fescenina
de poeta pretensão quase a vida tangenciou
e de sublime enredo quase me olvidou

É que, no tocar do masculino e feminino
coisa vária revelação onanista me ocorreu:
o alucinado transcendente conluio do mundo moderno
pedindo respostas me desafiou e, pasmem
por um instante me obedeceu

Respondo-te, ó mundo aflito
à altura do desafio proposto:
quer uma resposta rápida e pronta
vos digo, achando minhas referências
com parcimônia e deveras paciência,
que o tempo não urge, e digo fato…
Leia São Mateus, Dante, Petrarca, o Puro Sagrado
o escatológico inefável e indizível
as grandes obras que não escandalizam
porque o instante-já do desperdício
o mau uso hipertextual
fenece, oblitera e aterra nosso presente
Verdadeiramente Presente
porque
queremos tocar o Supremo Deus
o Deus transcendental de Kant
o Ding-an-sich, o Zeitgeist hegeliano
e não podemos!

Profetizam os Cristos de hoje:
os radicalismos idiotas já não prestam
porque eles matam, em ênfase
como mataram a Grécia Antiga
pela híbris excessiva e perva
sim! Perva!
Sócrates, onde tu fostes parar!!!

Não é o imediato, o irrefletido
o artificialmente modificado…
a Sabedoria proclama:
o homem não é Deus!!!
O homem não sabe disso
mas eu
pessoa
sei disto!
Não sou eu, aedo
– hoje gosto de assim dizer –
que somente testemunha todos os tempos em um
loucos, esquizofrênicos, deprimentes
os corpos cyborguizados de modo errôneo
os superficiais que acham o trino sexto
que fora outrora revelado a João
e apedrejam
matam
destituem a pessoa de si
mas sim
todos nós!

Divina Providência,
portentosa potestade dantesca que me grita com serenidade:
dá-nos as Pazes!
dá-nos nossos descansos de cada dia
dá-nos os nossos humoristas do Nordeste
olhemos a África e o Oriente Médio
assolados pelo Supremo Ódio
o Mal Absoluto
que Hannah Arendt tanto insistiu conosco
e faça, Javé, Shekinah
ou o que tu queiras chamar…
isso é o de menos,
meu caro sujeito pós-moderno
que não sabe dizer algo do seu tempo
parai e pensai
no bom senso e na semiótica:
se é uma palavra que tu precisas,
meu filho,
(porque sei que precisas de palavras)
pense um pouco, questione e enfim
me responda:
ela pode ser “visionaridade”?


(Nota de cocheira: Papa Francisco logo lançará sua encíclica. Que Deus o abençoe.)

Ouça: Anotação The Byrds: Turn! Turn! Turn!

Radar Musical: Sessenta e Oito

Coldplay - A Rush of Blood to the HeadColdplay

A Rush of Blood to the Head

[Parlophone/Estúdio]

Por Douglas L. Melo


As últimas aquisições que pretendi tinham algum foco. Já percebia, então há tempo, que minha assiduidade musical seria insuficiente para adquirir todos os álbuns que me fossem desejados. Resolvi, diante dos fatos financeiros que me acometeriam, fazer foco em algumas aquisições específicas.

Anteriormente sabem vocês que completei, até então, a discografia de estúdio do Oasis, e decidi fazer o mesmo em razão de mais duas outras bandas de gosto: Coldplay e Pearl Jam. Destas que, possivelmente, se depararão as últimas resenhas.

Este, do Coldplay, mostra-se mais significativo da época que foi lançado do que da que foi adquirido, dez anos depois. À época do lançamento, ainda sonhava em ter meu primeiro álbum de rock, e me valia de alguns apetrechos caseiros para ter música à gosto – internet ainda era então um artigo de luxo – . Era uma época em que abria os portões para meu pai em retorno ao lar. Uma época em que talvez a maior preocupação fosse cumprir com as mínimas preocupações do ensino básico – uma época que já chamei de áurea, mas na qual acho, hoje, que superestimo demais, mas didaticamente teve lá sua importância. A hoje renascida 89 FM surgiu para mim, evidentemente, com algumas das faixas que aqui se apresentam.

Os dez anos depois do álbum físico? Nada além de uma pretensão de obter diplomas. Algumas coisas já não pareciam tão novas sob o sol. A cidade dos dez anos anteriores já não parecia a mesma e tinha se descaracterizado culturalmente para mim, se tornando apenas um entreposto de compras. Os livros de Stephanie Meyer eram a leitura curiosa dos tempos posteriores, e algumas concepções de autoestima, tão postergadas, seriam resolvidas em épocas próximas.

O descritivo afetivo já fora feito, falta apenas se concentrar no álbum…


Setlist

  1. Politik: grandiosidade e potência instrumental contrastando com o aspecto intimista dos vocais de Martin. Destaque para o piano. A falta aqui é a densidade de extensão da faixa que aparenta não terminar rápido.
  2. In My Place: a tétrade radiofônica começa aqui; em seu estágio um, algo nos conformes da maioria das rádios comuns. Começo bom para se esperar coisas melhores deixadas para o fim.
  3. God Put a Smile upon Your Face: estágio dois; menos conhecida e, por razão pessoal, mais preferida, pelo aspecto trovador e acústico, entremeado de riffs.
  4. The Scientist: estágio três; para os entendidos, algo entre a balada e o comercialmente conhecido pelo Radiohead.
  5. Clocks: estágio último da tétrade radiofônica; algo aqui pode ser lido na linha do álbum posterior, o tão-meu aclamado X&Y. Deve ser a atmosfera do eco contínuo. Ou o sempre-presente piano de melodia.
  6. Daylight: agora é onde um verdadeiro amante de música explora, e a surpresa aparenta boa ainda, com uma cadência interessante. Mais pela regularidade instrumental que propriamente pelos vocais do Chris, que não alcançam as oitavas da tétrade.
  7. Green Eye: ah… outra dessas excepcionalidades acústicas… e que experiência vocal! Um bom acerto.
  8. Warning Sign: aos que conhecem, começa com um bom dedo de Suede, vocaliza ao jeito da banda mesmo, e após uma longuidão encerra sem grandes surpresas.
  9. A Whisper: certamente o Radiohead inspira muito a banda, pelo contínuo clamejar do início. Mas ainda é o Coldplay, de todo jeito; d’outrora, ainda é muito regular – será que se espera o futuro imediato do Coldplay no que foi seu passado?
  10. A Rush of Blood to the Head: a música título conduz-se na balada, instrumentada à clássica no início. Espera-se um explodir musical que custa a chegar. Vale a pena ser auscultada.
  11. Faixa de destaque Amsterdan: chegamos à última faixa com uma expectativa de Grand finale, que se apresenta num solo de piano e vocal e um feeling particular. Com atenção se percebe uma discretíssima segunda voz… Lá pelos quatro minutos, quando esperamos pelo fim do álbum, temos uma magnífica surpresa digna daqueles grandes álbuns, somando estrelinhas lá adiante!

Sentimento vintage

A impressão que temos na organização do álbum é de se tratar de uma preparação digna de Long Play, com lado A e lado B, este último pouco digestivo para os menos preparados, por muitas das canções serem densas em extensão. Mas o Grand finale é justíssimo na cotação.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Não fui eu que escolhi, soltei um livre shuffle e ele me deu este presente para finalizar a edição…

 Rindo

Ouvindo... Coldplay: Amsterdam

Entremeado nesta temporada, a próxima resenha vai ser do álbum do Pearl Jam.

Radar Musical: Sessenta e Sete

POD - Payable on DeathP.O.D.

Payable on Death

[Atlantic, estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo


A lembrança das condições de aquisição deste álbum não foram muito precisas, embora tenha a certeza de que este foi um dos últimos álbuns até então adquiridos em território osasquense. Evoca a curiosidade de época que tive por ler a saga Crepúsculo, outros livros de literatura comercial como a ainda não dita saga Fallen, paralelamente ao início de um interesse maior pela literatura consagrada como leitura livre, e talvez o início dos tempos em que meu deslocamento universidade-lar passou a ser, predominantemente, responsabilidade minha. Este é o cenário mais geral do que a rotina diária prescrevia: nada muito fenomenal evoca a lembrança dessa aquisição.

O que tenho de parâmetro aqui é a vivência da banda que tive em tempos áureos do primeiro ano de intensa audição de rock, e o fato dessa banda me despertar o interesse por uma música que cria, aqui, encontrar – motivação para, não por muito tempo depois, ter adquirido o outro álbum, lembrança clara dos tempos em que, nós, enqunto jovens estudantes do Ensino Básico, namorávamos os CDs nas lojas – um passado muito nublado em tempos de torrents ou musicas sob demanda…

Uma informação que se deve ter em mente é que a banda tem uma vertente muito cristã, o que parece destoar de nosso imaginário quando vemos o grande guarda-chuva de bandas de metal, onde imaginamos o ocultismo como traço inerente. Veremos o que a audição tem a nos oferecer aqui.

Setlist

  1. Mildfire: um prenúncio bom do que será todo o álbum: uma convergência de metal, rap e um identificável atmosfera cristianizada até para quem não compreende muito bem inglês.
  2. Mill You: para metal, está padrão e pouco inovador; vale pela mensagem, contudo.
  3. Change the World: consolida-se a impressão que se tinha desde o princípio de um álbum cristão… Ainda a tímida musicalidade buscando ousar… Ainda a mensagem upbeat fazendo modesta diferença.
  4. Execute the Sounds: certas musicalidades evocando o Oriente são a única distinção desta música para a média até aqui.
  5. Find my Way: a tensão de musicalidade do metal contemporâneo entre o suavizado e o refrão pesado soa padrão. A mensagem ainda é um peso importante.
  6. Revolution: ah… o típico engajamento pessoal e cristão… modesto demais para a musicalidade que uma música exige com esse título.
  7. The Reasons: aqui o limite do que se conhece por metal é superado pelo seu contraste musical alegre. Soa balada, mas soa algo muito ímpar para ser classificado como qualquer coisa muito inovadora… Talvez haja um estado de afetação do resenhista impedindo que se encontre um ponto distintivo para o álbum? Certo é o fim da faixa mostra uma sustentação até desnecessária.
  8. Freedom Fighters: um novo investimento no tratamento vocal. Torna-se uma interessante leitura para a narrativa evocada. Agrada bem para a média do que encontramos aqui, sobretudo os intervalos instrumentais e algo de ska se anuncia.
  9. Waiting on Today: a musicalidade discretamente evoluiu para a disposição do álbum, embora ortodoxa ainda… E, de repente, o timbre vocal passou a se tornar enfadonho por não se desafiar há muito…
  10. I and Identify: muito mais próximo do que imaginamos do universo metal, mas agora o vocal está parecendo destoar da temática instrumental. Muito pausada e reflexiva no corpo da música, e talvez nem nos sintamos preocupados em compreender os líricos mais…
  11. Asthma: a musicalidade melhorou consideravelmente, lembrando muito do System of a Down, com exceção da potência vocal, que não se supera como a musicalide exige. Talvez percebamos, neste momento, que ou seja a limitação tonal do sujeito ou é, por fim, a identidade musical proposta… A ideia de desconforto fica mesmo pela mensagem. É ela que, no fim das contas, dá bastante sustentação ao álbum.
  12. Faixa de destaque Eternal: minha eterna prerrogativa de que acabo comprando um álbum com faixa acústica – a expectativa por algo dito fica sempre em suspensão, mas o exercício estritamente instrumental nos faz perguntar se o investimento de banda deveria voltar-se para a experimentação sem voz. Uma densidade de extensão que não se prejudica e nos permite curtir as ondulações do que já não soa como metal, mas se aproxima do hard rock.
  13. Sleeping Awake: a tentativa frustrada brasileira de hit de rádio – condensa todo o esforço do álbum, muito dentro de uma zona de conforto, agradando com algumas atmosferas musicais, com uma mensagem poderosa, mas realizada de um modo pouco sedutor, em termos do que todo o universo do rock fornece. Ficaria de bom tom se a faixa anterior encerasse o conjunto do álbum…

Um conglomerado de intersecções de tons, mensagens e cores musicais

Pesa-se com muito cuidado cada conjunto de linguagens evocados aqui. O contexto de produção – uma banda cristã – e o que se pretendeu dizer estão dentro das expectativas, mas a ousadia vocal (ou a sua ausência) não nos permite destacar o álbum nos nossos catálogos…

EstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... P.O.D.: I and Identify

Há um outro álbum da mesma banda a ser analisado. Mas creio que o contexto de aquisição trouxe outra banda da qual tenho muito gosto e que tenho em vista resenhar mais um álbum na próxima publicação da seção.

Carta Post-Mortem

Valparaíso, 03 de maio de 2033

Aos meus queridos colegas de pena,

A vida é absurda. Não mais me cabe. Quando lerem esta carta, provavelmente estarei vendo um futuro melhor, distante deste Universo fugaz e horrendo.

A existência é absurda. Nascemos, vivemos e morremos, conforme as leis da Natureza. Alguns mais afortunados casam e deixam seus filhos e suas heranças… Bastam se dizerem advogados, deputados ou empresários. Eu escolhi ser escritor e professor de Filosofia, daqueles que defendem uma nova economia de mercado mais humana e solidária. Assinei meu atestado de pobreza. Vivi nos subúrbios de Valparaíso, uma cidade que vi, menino, ser ambiente das festas típicas. Hoje, é local dos condomínios, das festas eletrônicas regadas a orgias (as orgias que tanto li dos antigos prosadores internacionais do início do milênio) e sinestesias geradas por aparelhos de realidades aumentadas, hiperaumentadas, que não só modificam as percepções dessas crianças com cordão umbilical de banda larga e fibra óptica biotécnica, que nascem com uma conta de e-mail vinculada e tantos outros apetrechos a mais que nos falam, Vocês, do fim do século passado, estão por fora das novas tendências, não estão sabendo se adaptar aos novos tempos, tempos de integração, do compartilhamento de pensamento, da unificação de ideias em torno de um bem comum… Eu conheci isso por Marx, fizeram tudo errado, agora os Jovens Ons estão submissos a um Grande Servidor, não sabem o que é sofrer, não sabem o que é sentir-se sozinho pelo sentir-se sozinho, não sabem o que é a falta, não sabem o que é ter necessidade, bastou o paizinho assinar um Termo de Pacto no nascimento e implantar o chip de integração, ainda na barriga, Veem o mundo com o sentimento de útero, São felizes pobres, felizes por não necessitarem de mais o que tem, Não quero ver meu filho sofrer por falta de dinheiro, Vou submetê-lo a essa coisa do demônio, não há jeito, Melhor que ele não se sinta triste por esse mundo. Vão lá eles, assinam, os meninos não choram, as meninas não choram, mamam mecanicamente, não pedem carinho do pai da mãe, não precisam, aos cinco anos, Quero ir ao Magnânimo, centros de máximo prazer, se copulam como gentes grandes não fariam, Os pais, coitados, antes já se mataram por Amor a Deus, imersos na gloriosa vergonha que se declamam. Não há quase mais pessoas acima dos trinta anos desde 2024, quando o Magnânimo foi introduzido nas sociedades. Os poucos que estão aí, são daqueles que não assinaram o Termo de Pacto para os filhos, ouviram xingos e xingos deles aos sete, oito, nove, quando perceberam que acessar a internet, como eu acessava nos meus anos de infância, já era coisa off, Eu quero uma vida totalmente On, diziam pra vocês, meus pares de pena, e quando assinam a Prospecção de Adesão, outro termo, morriam por não estarem acostumados…

A felicidade é absurda. Vocês se arrependeram de eleger o governo que até hoje está, travestido de social, dando tudo o que estas novas gerações pedem, aos oito anos Papai, vou ajudar o Governo a crescer, entram na Criogenia aos vinte e saem de lá aos vinte e dois, diferentes, com uma pele elástica, não sentem nada, Nunca sentiram, Agora moram nos condomínios. Lá não entram minhas, nem suas obras, Livros são desinteressantes, nos fazem entristecer, dizem, Gostamos dos discursos orquestrados, gostamos de ouvir, gostamos de sentir que o que se sentia há bons anos, Eles amam é sentir o discurso… Passam horas baixando os arquivos de discurso, as velhas literaturas não são lidas nem escutadas, e sim assimiladas com gostos e cheiros e visões que certas vezes os atores da finada Globo se submeteram a fazer a mando do Governo. Mas isso… ah, isso meus caros, não demanda mais as vinte e quatro horas do dia, Eles sentem O Capital reverberando em hormônios do sangue deles, enquanto produzem para a sociedade contente deles os utensílios necessários para a vida funcional que vão desempenhar, em favor do Governo, sem queixas, sem revoltas, tudo perfeito, tudo uma felicidade absurda, que me faz ódio pensar como funciona.

A pena é absurda. Depois da morte de Rubem Fonseca, não houve mais contista capaz de dizer o que esse mundo precisa. Todo mundo se tascou a fazer romance técnico, literatura de autoajuda desprezível, os caras da tecnologia trataram de suprir a depressão coletiva que assolava o mundo por volta de vinte. Foi preciso o assassinato de duas lideranças do mundo para que eclodisse a mais eficaz ditadura. Zola, Dostoiévski, Assis, Lispector e muitos outros foram sinestesiados para logo em seguida serem queimados. Bibliotecas? Só as clandestinas. Cartas a papel, preservação tola de costumes dos tradicionalistas. Falam que isso é o futuro inevitável do comunismo. Não não é! Isso é o futuro inevitável da sociedade, o futuro de formigas, o futuro de quem não quis se aplacar das coisas que nos tornam humanos.

As oportunidades são abusrdas. Foi há vinte anos, eu era um tecnólogo, disse Não sei se deveria investir nisso, é perigoso Por que, me disseram, As pessoas sentirão falta disso, em caso de pane elétrica. Fingiram que ouviram, foram consultar outro, um amigo meu, Empreendedor ao máximo, Vendeu pai mãe e o caralho-a-quatro pra fazer sucesso. Hoje o que se pode chamar Brasil está nas mãos dele, Ele é o cara! Ele e os filhos dele e os poucos amigos que ali cultivam, lá em São Paulo, numa área isolada de tudo. E o que é melhor – ou pior? – sem essa vida On, esse puto da vida lhes ensinou o quanto isso é pernicioso… Pra eles. Era pra ser comigo, ter a loira que ele tem, a grande fração de terra que ele tem, os amigos que ele tem, a vida que ele tem… Eu? Eu fiquei no meu idealismo, paguei o preço pela minha lealdade à vida, não quis ser o Co-dono do país, em conjunto com o governo. Minha paga? Não foi a deportação nem a tortura nem qualquer outra privação dos anos anteriores, minha privação foi dada por mim… O homem quer ser dominado por algo irresistivelmente maior que ele, ele quer se entregar ao escatológico e inevitável fim, Ele, por mais autônomo que seja, não consegue se desprender das suas humanas convicções e contradições.. O tempo de homens plenos se foi junto com os Anos de Ouro da Grécia…

O futuro é absurdo. Espero, de imensa ingratidão, que essa sociedade seja submetida às larvas interplanetárias e explodam com esse mundo de fingimentos cada vez mais verdadeiros. O futuro livre do homem era ser capitalista, acumulador e individualista. Compartilhar tudo com todos, na realidade é uma bobagem sem tamanho, porque algum sortudo verá nisso uma oportunidade para se promover, e olhar para baixo com orgulho e dizer – enganadoramente? – que é a pessoa mais plena do Universo, que Deus é uma grande bobagem.

O absurdo é Absurdo. Queria que este indivíduo fosse eu, mas, por Fortuna, verei o fim das minhas queixas com minha morte depressiva e libertadora.

Com carinho desprezível,

Aliguiero Danteschi


A lida desta carta, por meio da tecnologia da Sinestesia, em agosto de 2036, comemorou, publicamente, os vinte anos de inserção do Novo Regime, ensinando à Comunidade os malefícios que se têm ao não introduzir seus rebentos no Sistema Sinestésico de Vivência Coletiva Governamental. O sentimento de pena foi devidamente explorado numa experiência emocionante, promovido pela Sociedade de Escritores de Valparaíso.

Em tempo: Aliguiero Danteschi era o último dos sobreviventes dos tempos de transição no país. Sua presença era considerada incômoda pelo governo, pela razão de incentivar a não-adesão dos nascituros a um futuro de serenidade e gloriosa paz que a tecnologia podia lhe oferecer.


Ouvindo... Slayer: Piece by Piece

Babilônica no. 1

Lilith Gott [produção por FreshPaint em Nokia Lumia 520] [#35F / DLM (c)2015]

Canto-te, oh, nova deusa, se prolifera
impera um novo mundo rematriarcal
impõe-se ante os amaldiçoados cananeus
faz dos novos filhos filhos teus

Performatiza, oh divina quintessente
presente na realidade funesta que agoniza
peço em teus intentos que considere
nos nossos vícios prenúncios de benesse

Superar-me, cosmopolita, faz-se
em teus fortes tons pespegam
a aura indulgente que me ordena

Cantar-te, desumanista, exige
que abandone as minhas ilusões
e patrocine o que se renega

Desdigo-se em furor tempestuoso  
cantante allegro con brio fremoso
insania lucidum hominus est

e assim decreto a morte em fé


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Cry To The Beat Of The Band