Radar Musical: Sessenta e Cinco

Marisa Monte

Infinito Particular

[EMI/Phonomotor, estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo

Marisa Monte - Infinito Particular

O momento era das já minhas saudosas idas frequentes a Osasco, estando em ambiente, ainda suburbano de Ibiúna, indo e vindo em razão do meu curso. O que tenho desta época, em termos de lembranças, são as melhores possíveis… Os tempos dos colegas que, assim como eu, podiam dispor do tempo de não-aulas para passear, visitar lugares e ver eventos culturais. O carinho que tenho, refugado, por Osasco à essa época, remete aos cuidados com a música que tive pelas épocas de longa pausa entre faculdades.

Marisa Monte é uma voz terna que me embalou a finesse musical que cultivava pelo período da TV por assinatura e a ávida assistência pela MTV e VH1. Ela, futuramente, seria representativa de uma colega que tenho por muitíssima estima, quase que como por irmã. A suavidade nestes termos, que abaixo se descrevem, se tornam tão bucólicos, capazes de destrinchar o meu, hoje, tão calejado coração, pelos eventos recentes que me fizeram ser descrentes de um futuro mais colorido. Um tom, embora mais pálido, de cor nas músicas desta Musa de cuidado vocal tão esplêndido, espero que sejam o cuidado que necessito pelas ordens do meu dia, tão fatigado pelo já vivido…


Setlist

  1. Infinito particular: a estrutura ambientável da melodia e o contraste poético do lírico revelam “o melhor e o pior” de MM… O aspecto intimista da canção é, deveras, o mais casuístico do que ela se propõe a fazer.
  2. Vilarejo: uma canção para se ouvir na solidão da noite e pensar – por que o futuro não poderia voltar a ter o colorido de tempos passados?
  3. Faixa de destaque Pra ser sincero: a balada romântica… Ah… Essa necessidade tão ternamente melancólica para se falar das coisas do coração. Destaca-se a toada violeira e todo o batuque carinhoso.
  4. Levante: destaque pros metais de sopro, devidamente harmonizados com os vocais, leves e bem cristalinos…
  5. Aquela: um cadin’ cuidadosa com o arranjo… cadin’ bom… E bastante preocupada com uma ludicidade do cancioneiro, a meu ver, confessadamente nordestino.
  6. A primeira pedra: a lição bíblica colocada a foco para  as coisas do coração. Destaque para a estrutura musical, quase que com atmosfera marcial.
  7. O rio: uma música de efeito onomatopeico, um acalanto e uma lírica exemplar – nos sentidos que se possa promover. Bom pra se ler Mia Couto… Combina e muito!
  8. Gerânio: o tema floral, que exige o mais colorido dos nossos pensamentos para a vivência do mundo. O exotismo é o belo pano de fundo entregue nesse pequeno epitalâmio para o cotidiano.
  9. Quem foi: o paradoxo do cotidiano, que remete ao cancioneiro da MPB mais antigo – e estranhamente saudoso.
  10. Pernambucobucolismo: uma surpresa para a sequência do álbum… A estrutura ocultista e futurista melódica cria um ambiente ímpar, digno de se ouvir com mais cautela, antes de se nominar.
  11. Aconteceu: o princípio lembra um clássico Noel Rosa… A cadência misteriosa da música deixa um tema tão melancólico mais suportável, mais tão-comum, numa letra com ares de minimalista.
  12. Até parece: o sucesso intimista de música-dor-de-coração tem essa cara…
  13. Pelo tempo que durar: pianinho para uma música com cara de fim-de-noite… Está acabando os quase quarenta minutos de uma leitura muito pessoal do modus operandi de se fazer música… Parece ser uma profunda pena a coisa encerrar assim, humanamente sublime.

Acalanto bem terno…

Aquele momento que você exige se reestruturar para o futuro pede, dentre o universo de canções próprias para o tema, esta obra-prima.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaEstrela


Ouvindo... Marisa Monte: Aquela

Na próxima oportunidade, a dobradinha de MM com o anteparo complementar musical dela…

Retificar

Tenho que me retificar:
quero plantar a zueira
e ver este, penta, canarinho

Cantando, chiando pelos cantos
o mal preparamento de seu ninho

A canção, lisonjeira e fugaz
da sexta hora que nos sovietes
melhor fora por dezesseis minutos chegar

Que desgosto, plantado, efrente
a coisa daqui em diante o Dante
Inferno tomar premente?

Canarinho, penoso por não ser solidário
não merece o devido hinário
que a posteridade te cede

E, me desculpe, mas rouxinois de outrora
pedem para si a Aurora:
casas rosadas, savanas longínquas, praias bergazes
merecem em si as vestes gonquazes

E pras nossas terras, o castigo premente
na quinta hora, ao menos quatro sóis
a todo canarinho ser pungente.


Ouvindo...Elvis Costello: Miss Macbeth

A Caneta Magnum

A Caneta Magnum

Suicídio
ao positivismo
produtivo
e otimista

Cada palavra
funciona
como veneno
antípoda

Déspota
assassina
a pena
que digita

Persuade
ao mal
que duvida
e incita

Maldade
ao córdio intento
de amar
e dar contentamento

Pensa e pensa
impinge
a dúvida
e o deslize

Rubro e preta
a sobriedade
poética
da cinzenta urbe

Da desordem
proclamada
regressa ao infindo
vontade humana

Niilista enfim
concede voz ao macabro
e ao inóspito
desejo pessoal

A pena, quando escreve
na ânsia de fazer um bem
expõe de melindrosa maneira
um indizível mal


Ouvindo... Uriah Heep: Midnight

Confissões [19]

Amiga! Sabes que não sinto mais saudades de ti… Você mudou, eu também. Tudo bem que um fator essencial está em mim: a recíproca afetiva, mesmo que distante, supriu a falta da tua resposta. Resposta que desde há muito esperava de ti. Mas mudamos, esse é o fato. Hoje ainda escrevo, mas não mais para o muro jerusalense de lamuriações afetivos do recôndito da alma. Perdi fervor romântico pelo suprimento do carinho. Agora há uma melhor concretude de sentimentos…

Cansei de ficar te louvando nos recônditos faz eras. Pensava que teus escritos encontrassem sintonias nos meus. Eu não quis acreditar que escrever seria antídoto para dor de cotovelo e inveja alheia. Você traiu sua escrita! Traiu por um intuito muito material do suprimento afetivo… Mas pode ser que eu esteja falando exatamente o que estou fazendo.

Mas não traio minhas palavras: amar uma e apenas uma pessoa não te dá o direito de abdicar da anterior sinceridade. Não queimemos nossos escritos do passado por caprichos a dois. Não fui nem serei sugestionado pela minha contraparte afetiva em razão disso… E você, amiga? Que você fez? Guardou seu intento-escritor na criogenia, para viver a materialidade do teu amor – assim, minúsculo, sensível, peremptório e fugaz.

Espero, estimada, que sua traição com o inalienável sentido da palavra não te venha, com uma Providência custosa, a remover de sua vida seu amor-matéria. Não quero, jamais, vê-la escrever por causa de um vazio amoroso. O escrever não é o amor-compensatório que se recorre quando não tem mais jeito. Quiser escrever, escreva sempre, seja solitária, casada com um economista, um ator, um operário, um magnata…

Mas que eu esteja enganado e seja punido pelo saber de que escondes, no recôndito das suas gavetas, algumas das mais sinceras considerações da sua imaginação literária.


Ouvindo... The Doobie Brothers: One by One

Remake-ing

Vórtice:
doxoduto
ad infinitum

Triunvirato cosmicum
babilônico desvario

Se manifesta védico
compêndio upanishad ulterior

Deslocamento espaço-temporal
conceito profuso, fato inerte

Esvoaça! Esvoaça!!!
apocalíptico
o desvelo terrível
e a redenção no ajoelhar
diante da imagem curvilínea
áurea virtude nevisse presente

Qual diva circuncisa
qual musa conspurcada
qual vate incrédulo
qual desafio prospecto
qual uno proveito
qual Máquina em orbe perfeita
circunspecto hermetismo
qual economia forte
qual caseira forje
qual indústria portento
qual força reativa
qual cirurgia desfigurativa
qual figura prerrogativa
do status quo realinhado?

O Processo, roda refeito
tal qual a budista circunferência vivaz
girando imersa no peito

Agora, os novos tempos vindouros
trazem em si a insanidade
em que a transparência irritante
decifra, nos códigos abertos
a clausura dos tempos de pedra:

Nada de novo se faz diante do Sol,
o catalisador da imensa Fagulha Universal.


Ouvindo... Rolling Stones: It Won’t Take Long

Hiperatividade

Tarde da noite, e eu aqui acordado,
imaginando diálogos mentais
carregados de verossimilhança.

Trazendo fantasmas pro sono
anestesiando não mais o repouso
calibrado em pílulas behavioristas.

Talvez o gengibre deu uma sacudidela
ou a canela em excesso, eu não sei,
convém, agora, pôr-me a me dissipar.

Há diferentes latências
entre mim e outros humanos
uma frequência maior, perjuro
das minhas profundas reses.

Não vejo por outras vias
o desenlace do irreparável:
o tic-tac-toc agostino, em novas
formas veio e se perdurou.

Mas calma, uma hora o sono vem
e traz consigo o prenúncio dum novo Sol.


EmailEscola Em 12 de julho de 2013

Ouvindo... Rolling Stones: Citadel