Retificar

Tenho que me retificar:
quero plantar a zueira
e ver este, penta, canarinho

Cantando, chiando pelos cantos
o mal preparamento de seu ninho

A canção, lisonjeira e fugaz
da sexta hora que nos sovietes
melhor fora por dezesseis minutos chegar

Que desgosto, plantado, efrente
a coisa daqui em diante o Dante
Inferno tomar premente?

Canarinho, penoso por não ser solidário
não merece o devido hinário
que a posteridade te cede

E, me desculpe, mas rouxinois de outrora
pedem para si a Aurora:
casas rosadas, savanas longínquas, praias bergazes
merecem em si as vestes gonquazes

E pras nossas terras, o castigo premente
na quinta hora, ao menos quatro sóis
a todo canarinho ser pungente.


Ouvindo...Elvis Costello: Miss Macbeth

A Caneta Magnum

A Caneta Magnum

Suicídio
ao positivismo
produtivo
e otimista

Cada palavra
funciona
como veneno
antípoda

Déspota
assassina
a pena
que digita

Persuade
ao mal
que duvida
e incita

Maldade
ao córdio intento
de amar
e dar contentamento

Pensa e pensa
impinge
a dúvida
e o deslize

Rubro e preta
a sobriedade
poética
da cinzenta urbe

Da desordem
proclamada
regressa ao infindo
vontade humana

Niilista enfim
concede voz ao macabro
e ao inóspito
desejo pessoal

A pena, quando escreve
na ânsia de fazer um bem
expõe de melindrosa maneira
um indizível mal


Ouvindo... Uriah Heep: Midnight

Confissões [19]

Amiga! Sabes que não sinto mais saudades de ti… Você mudou, eu também. Tudo bem que um fator essencial está em mim: a recíproca afetiva, mesmo que distante, supriu a falta da tua resposta. Resposta que desde há muito esperava de ti. Mas mudamos, esse é o fato. Hoje ainda escrevo, mas não mais para o muro jerusalense de lamuriações afetivos do recôndito da alma. Perdi fervor romântico pelo suprimento do carinho. Agora há uma melhor concretude de sentimentos…

Cansei de ficar te louvando nos recônditos faz eras. Pensava que teus escritos encontrassem sintonias nos meus. Eu não quis acreditar que escrever seria antídoto para dor de cotovelo e inveja alheia. Você traiu sua escrita! Traiu por um intuito muito material do suprimento afetivo… Mas pode ser que eu esteja falando exatamente o que estou fazendo.

Mas não traio minhas palavras: amar uma e apenas uma pessoa não te dá o direito de abdicar da anterior sinceridade. Não queimemos nossos escritos do passado por caprichos a dois. Não fui nem serei sugestionado pela minha contraparte afetiva em razão disso… E você, amiga? Que você fez? Guardou seu intento-escritor na criogenia, para viver a materialidade do teu amor – assim, minúsculo, sensível, peremptório e fugaz.

Espero, estimada, que sua traição com o inalienável sentido da palavra não te venha, com uma Providência custosa, a remover de sua vida seu amor-matéria. Não quero, jamais, vê-la escrever por causa de um vazio amoroso. O escrever não é o amor-compensatório que se recorre quando não tem mais jeito. Quiser escrever, escreva sempre, seja solitária, casada com um economista, um ator, um operário, um magnata…

Mas que eu esteja enganado e seja punido pelo saber de que escondes, no recôndito das suas gavetas, algumas das mais sinceras considerações da sua imaginação literária.


Ouvindo... The Doobie Brothers: One by One

Remake-ing

Vórtice:
doxoduto
ad infinitum

Triunvirato cosmicum
babilônico desvario

Se manifesta védico
compêndio upanishad ulterior

Deslocamento espaço-temporal
conceito profuso, fato inerte

Esvoaça! Esvoaça!!!
apocalíptico
o desvelo terrível
e a redenção no ajoelhar
diante da imagem curvilínea
áurea virtude nevisse presente

Qual diva circuncisa
qual musa conspurcada
qual vate incrédulo
qual desafio prospecto
qual uno proveito
qual Máquina em orbe perfeita
circunspecto hermetismo
qual economia forte
qual caseira forje
qual indústria portento
qual força reativa
qual cirurgia desfigurativa
qual figura prerrogativa
do status quo realinhado?

O Processo, roda refeito
tal qual a budista circunferência vivaz
girando imersa no peito

Agora, os novos tempos vindouros
trazem em si a insanidade
em que a transparência irritante
decifra, nos códigos abertos
a clausura dos tempos de pedra:

Nada de novo se faz diante do Sol,
o catalisador da imensa Fagulha Universal.


Ouvindo... Rolling Stones: It Won’t Take Long

Hiperatividade

Tarde da noite, e eu aqui acordado,
imaginando diálogos mentais
carregados de verossimilhança.

Trazendo fantasmas pro sono
anestesiando não mais o repouso
calibrado em pílulas behavioristas.

Talvez o gengibre deu uma sacudidela
ou a canela em excesso, eu não sei,
convém, agora, pôr-me a me dissipar.

Há diferentes latências
entre mim e outros humanos
uma frequência maior, perjuro
das minhas profundas reses.

Não vejo por outras vias
o desenlace do irreparável:
o tic-tac-toc agostino, em novas
formas veio e se perdurou.

Mas calma, uma hora o sono vem
e traz consigo o prenúncio dum novo Sol.


EmailEscola Em 12 de julho de 2013

Ouvindo... Rolling Stones: Citadel

O último porta-voz de Mnemósine

Para 
Uma civilização
(mais) inteligente (que a nossa),

Aterradoras saudações, Smiley chorando

Numa época como a atual, escritos literários – da qual este modesto manifesto faz parte – são terminantemente proibidos. Em 2 de abril de 2024, após muita pressão popular por parte da comunidade eclesiástica brasileira – a qual inonimo aqui em detalhes por motivos de propensão à processo difamatório – toda e qualquer literatura de estética artística fora suprimida dos currículos nacionais da educação, das livrarias e das bibliotecas pessoais das pessoas no país.

No começo, foi a festa da tal comunidade, que há muito decidia sobre a conduta moral do coitado do brasileiro. A um passo da apropriação cultural de sua vasta literatura, este se viu obrigado a comparecer na comunidade religiosa mais próxima para entregar seu bem mais precioso… Primeiro, os livros de Rubem Fonseca, Caio F. e Clarice Lispector; depois, de José de Alencar e Machado de Assis; depois, internacionais como os de Stephanie Meyer e as melhores traduções de Homero no mercado. Livrarias de grandes cidades tentaram subsistir aliando-se às redes profissionais de tráfico, mas sem sucesso. O projeto americano sucessor do PRISM, o HORUS, identificava, em tempo real, o que se fazia, mesmo nos edifícios mais recônditos. Por muito tempo, jovens sem religião nem causa amavam subverter seus pais convertidos para fazer uma atividade proibida: ler. A situação era de uma aporia social que, antes de serem sitiadas pela Agência de Inteligência Divina Brasileira, por estarem abrigando atividades de leitura, tráfico de drogas, grupos heterogêneos sociais rechaçados em público, e estar mascarando-se de um tempo da Igreja da Divina Mão Salvadora – a entidade responsável por tais portentos aqui citados – foram enquadradas em crime hediondo quadriplicamente qualificado, e seus donos, condenados à morte. Apesar destes estarem no exterior, a influência que enfim a Nação das Chuteiras Gloriosas e do Eterno Crescimento Industrial obteve mundialmente, conseguiu colocar, até mesmo o grande gigante americano, em seus percalços. O dia 7 de setembro, dia da Conquista (???) foi regado a música popular, e a uma execução em praça pública, sob a pena de subversão aos desígnios de Deus.


Alguns meses depois, uma ala oportunista do congresso brasiliense conseguiu fazer mais algumas inclusões ao Index e um deles causou relativa controvérsia: a Bíblia Sagrada tornou-se, também, livro proscrito. Houve muita manifestação pelo país, as comunidades eclesiásticas, agora, se tomaram como traídas, confrontos e outros atos de violência se prescreveram por vinte dias. Muitos mortos, valas públicas de enterro, nenhuma oração. O país, enfim, de um jeito estranho, se tornara laico. Um país laico, e empreendedor. E inspirando outras nações pelo mundo a fazer o mesmo.

Apenas três bastiões se insurgiam – desde o início, justiça seja feita – contra tal proscrição ulterior: o Vaticano, os países árabes e a comunidade judaica do Líbano… Talvez tenha sido uma grandiosa reparação histórica, pois foi vista ressurgir a Nova Alexandria nestes lugares, ao receberem inúmeras e inúmeras edições e volumes, off e online de colaboradores do mundo inteiro, que dedicaram suas almas a salvar o mundo da ignorância que estava se enfurnando. Almas mesmo, pois os telejornais brasileiros, por exemplo, noticiavam copistas e livreiros como se fossem homicidas ou pedófilos sodomitas de última espécie.

Contudo, esse riquíssimo acervo não estava disponível a todos, haja vista que, capitaneados pelo Brasil, as nações se insurgiam a furar os bloqueios desses países para se livrarem das obras impressas e dos seus bancos de dados.


Agora, livros, só os de auto-ajuda.

O processo de lançamento de um livro, no Brasil, era tortuoso: inúmeras análises sêmanticas, manuais e, principalmente – e assustadoramente! – por meio do LN-GAGE, O Software – batizado assim pela nova agência de inteligência brasileira – que era o único banco de dados que acumulava todos os textos – e que ninguém tinha acesso mais – e confrontava com todos os anteriores na ânsia de achar alguma “propensa mensagem subversiva”: exemplos mais crassos? “Rejeitar propina”, “Recusar ceder aos prazeres mundanos”, “Levantar palavras de desordem contra o incorruptível Estado”, “Acusar levianamente o Estado de alienador” e, o pior de todos: “Suplicar a ‘Deus’ e à ‘Gloriosa Justiça’ pelos tempos de antes”.

Posteriormente, evitou-se que escritores de qualquer tipo de coisa pudessem dar margens a tal intento. O Canal Institucional da Nação lançou o programa “A Verdade”, que fazia a sabatina psicotorturante com o candidato, pela Máquina da Verdade Infalível. Caso este demonstrasse, pela Verdade ou pela Mentira, que estava fazendo uma obra nos parâmetros acima, era executado sumariamente diante da plateia. E o programa sempre terminava com a recitação do microlivro “O Livro”, aqui transcrito:

Um garoto, Diógenes, escreveu um livro, mentindo sobre o mundo. Passou numa entrevista da Verdade mas saiu ileso. Seu livro vendeu horrores, mas ele viu que ninguém entendia o que ele queria dizer. Então ele, culpado, pegou e se matou diante de um milhar de mil carabinas. Esta é uma lição que todos devem aprender: não escrevam livros, pois vocês estarão fazendo um imenso mal para o mundo e para vocês.


No interior do estado de São Paulo, o último bastião da intensa criação literária no país que se tinha notícia fora estourado. Era uma casa de chumbo – o único objeto não-rastreável pelo HORUS – onde o dito meliante realizava suas atividades, sem se preocupar se os hosts do HORUS pudessem rastrear sua mãos, excrevendo, ou digitando. Mas o fato de traição que este fez com sua namorada, loura, incrivelmente bela, por uma morena, fez a primeira incriminá-lo. De posse do indivíduo no Centro de Execução, a imprensa questionou-o por que fazia aqueles atos tão horrendos.

Ele, muito calmamente respondeu, antes de receber o tiro de misericórdia:

- Vocês querem matar a Memória… Mal sabem que, para matar a memória, precisam antes matar a escrita, mas…

O sangue e os miolos escorrendo parede afora assombraram por semanas a comunidade mundial.


A presidenta fora categórica: todos os cidadãos deveriam passar nos hospitais para receberem a descarga intracerebral, que os fizessem esquecer a escrita e a leitura. Também a atividade escrita estava proibida no Brasil, bem como a de leitura. Nem precisamos dizer a respeito do que aconteceu com as universidades, principalmente com os cursos de humanidades…

Eu, inventor deste instrumento tão aterrador, ganhei o direito de ser o último a receber este esquecimento tão glorioso. Antes disso, fiz minha última benéfica transgressão: escrevi esse manifesto e lancei-o para o espaço, numa cápsula hermética, com todos os arquivos do LN-GAGE que pude achar, escondido de todos. Enquanto a ONU, sob influência brasileira, concede uma carta aberta contra a Nova Alexandria, inaugarando a Terminal Guerra Mundial, eu vou me esquecendo das belas tragédias da humanidade para entrar num estado de criogenia. Enquanto isso, canta, ó Musa, do peleio Aquiles…

Resignadamente,

Só-Mais-Um

Nova Babilônia

21 de dezembro de 2025


Ouvindo... Alice in Chains: Your Decision